26 de janeiro de 2017

Capítulo 13

— Abaixar velas  ordenou Gundar. — Equipar remos, homens.
Enquanto os manejadores de vela traziam a longa retranca curvada e a sua vela ondulante abaixo ao convés, os remadores designados estavam desalojando os remos de madeira de carvalho branco e encaixando-os nos tolete. Na hora em que a vela foi enrolada e envolta na retranca, os remadores estavam nos seus bancos. Eles cuspiram nas mãos, giraram os ombros e esticaram os músculos, preparando-se para o duro trabalho de levar o barco à frente.
O WolfWill balançou gentilmente nas ondas, a cem metros de uma baixa costa sem traços característicos. Não havia colinas ou árvores à vista. Apenas areia castanha e rochas que se estiravam tão longe quanto os olhos podiam ver. E diretamente na frente deles, o que parecia ser a desembocadura de um pequeno rio era apenas visível.
— Pronto, capitão!  Gritou o remador líder.
Era Nils Ropehander, Will notou sem surpresa. Nils era um dos mais corpulentos e fortes na tripulação. Era uma escolha lógica para ser o remador líder e iria dar um passo rápido nos outros.
Ele também não era o mais inteligente ou curioso dos homens e Will notou ao longo dos anos que aquelas qualidades, ou falta daquilo, geralmente eram a marca de um excelente remador. Sem nada mais para distrair a sua mente, um homem assim podia se concentrar completamente na sequência e ritmo necessários da arte de remar: Para cima, giro, para frente, giro, para baixo, para trás.
— Então é isso? — disse Halt, olhando agudamente para o buraco na costa baixa. — É a desembocadura do Canal Assaranyan?
Gundar hesitou. Ele olhou para o sol e o horizonte, depois baixou o olhar para o mapa no pergaminho que ele estendia numa pequena mesa no lado estibordo.
— Segundo esse mapa genovês que comprei antes de partirmos da Toscana, é isso  ele respondeu. — Digo, assumindo que algum genovês possa desenhar um mapa certo. Ouvi que as habilidades deles são mais na área de matar pessoas do que de fazer mapas.
— É verdade  falou Halt.
Gênova tinha uma longa história no alto-mar, mas nas épocas mais recentes a cidade ficou sem honra por causa de seus assassinos altamente treinados, que trabalhavam como matadores de aluguel por todo o continente – e ocasionalmente, como Halt e Will descobriram há pouco tempo atrás, em Araluen.
— Os genoveses não são tão ruins  disse Will. — Basta você conseguir atirar neles antes deles atirarem em você.
— Vamos chegar um pouco mais perto  disse Gundar. — Baixar remos! Devagar, Nils!
— Sim, capitão!  Nils gritou de sua posição na proa do navio. — Remadores! Prontos!
Dezesseis longos remos se ergueram de uma vez só, balançando suavemente para frente enquanto os remadores se inclinavam para a popa, pressionando os pés nas travas na frente deles.
— Baixar Exclamou Nils.
Os remos mergulharam na água e os remadores se levantaram contra seus cabos, com Nils pronunciando uma relaxada cadência para as primeiras vogas a marcar o ritmo. Instantaneamente, o navio escandinavo ganhou vida novamente, cortando a água calma enquanto os remos o impulsionavam à frente, uma pequena onda curva gorgolejando debaixo do seu talhamar.
— Está planejando passar a remo?  Halt perguntou a Gundar, olhando para a tira reveladora de lã no topo do mastro.
Indicava que o vento estava levemente no lado perto da popa e eles aprenderam ao longo dos passados dias que aquele era um dos melhores e mais rápidos pontos de navegação do barco. Gundar notou o olhar e sacudiu a cabeça.
— Perderíamos muita distância a com o vento  ele disse brevemente. — Esse canal é estreito demais para isso. Avançaríamos, naturalmente, mas perderíamos distância a favor do vento. Temos que voltar de novo muito cedo. Não é um problema no mar aberto, antes temos bastante espaço, mas é inapto num espaço confinado como esse.
Ele olhou com cuidado da costa, agora muito mais perto deles.
— Nils!  o capitão chamou. — Levantar remos!
Os remos se ergueram da água pingando. Os remadores descansaram, mantendo a pá fora do mar. Acostumados a trabalho físico como eram, nenhum deles estava ao menos respirando com dificuldade. Lentamente, o navio deslizou até parar mais uma vez, balançando gentilmente nas pequenas ondas.
Gundar cobriu os olhos, olhando atentamente para a estreita abertura, mal tinha trinta metros de largura. Ele olhou para o mapa e as anotações de coordenação que vinham com ele, fungou na brisa, depois olhou de olhos cerrados para a posição do sol no céu.
Will entendeu que aquela era a parte do sistema de navegação instintiva que os escandinavos confiavam. Alguns deles, oberjarl Erak, por exemplo, eram mestres da arte. Parecia que Gundar era outro adepto.
Mas obviamente, não doía pedir uma segunda opinião. O capitão olhou em volta, procurando Selethen. De todos os outros, ele tinha mais conhecimento daquela parte do mundo.
— Já esteve aqui antes, Selethen?  Perguntou.
O wakir sacudiu a cabeça.
— Nunca estive tão longe a leste. Mas ouvir falar do Canal Assaranyan, naturalmente. Aqui é onde eu esperava que ele estivesse. Mais longe ao norte e sul, a terra fica mais montanhosa.
Todos seguiram o olhar dele pela costa. Ele tinha razão. Ali, a costa era lisa e baixa. Em cada lado, norte e sul, a terra castanha e seca crescia em pequenos morros.
— O que exatamente é esse Canal Assaranyan, afinal?  perguntou Will.
Evanlyn, que estudara a rota da viagem antes de partir de Araluen, respondeu.
— É um canal através da parte mais estreito de terra aqui. Estende-se por quarenta ou cinquenta quilômetros, depois abre em um rio natural para o Oceano do Leste.
— Um rio natural?  Perguntou Will. — Você está dizendo que essa parte não é natural?
Ele gesticulou para a desembocadura de rio nada impressionante mais adiante.
— O povo acredita que foi feito pelo homem, centenas, talvez milhares de anos atrás. Estende-se direto através dessa área baixa, é por isso que foi construída aqui.
— É claro  falou Will. — E quem construiu?
Evanlyn deu de ombros.
— Ninguém sabe ao certo. Assumimos que tenha sido os Assaranyans.
Evitando a pergunta seguinte de Will, ela continuou:
— Eles eram uma raça antiga, mas sabemos de poucas coisas precisas em relação a eles.
— Exceto que eles são excelentes escavadores  disse Alyss secamente.
Evanlyn a corrigiu, mas sem qualquer senso de superioridade.
— Ou eles tinham muito tempo e muitos escravos.
Alyss reconheceu a afirmação.
— Talvez, mais provavelmente.
Will não disse nada. Ele fitou a abertura do canal. Parecia tão insignificante, ele pensou. Depois pensou na mão-de-obra envolvida em cavar um canal de cinquenta quilômetros por aquela terra seca e áspera. A perspectiva era ofensiva.
Gundar pareceu chegar a uma decisão.
— Bem, como a minha velha mãe costumava dizer: se isso parece com um pato, faz quack como um pato e anda como pato, isso é provavelmente um pato.
— Muito sábio  respondeu Halt. — E o que exatamente as palavras de sabedoria de sua mãe tem a ver com essa situação?
Gundar deu de ombros.
— Parece um canal. Está no lugar certo para um canal. Se eu estivesse escavando um, esse é o lugar onde eu escavaria um canal. Então...
— Então isso é provavelmente um canal? — disse Selethen.
Gundar abriu um sorriso para ele.
— Ou isso, ou é um pato  ele respondeu.
Depois, unindo as mãos em forma de concha na boca, ele gritou para Nils.
— Vamos continuar nos mexendo, Nils! Diminua!
O remador líder assentiu.
— Remos! Prontos!
Novamente houve o barulho de remos nos toletes e o grunhido involuntário dos remadores enquanto eles se preparavam para a voga.
— Baixar todos!
O WolfWill foi impelido para frente outra vez, reunindo velocidade com cada voga triunfante, depois se assentando para um plano deslize pela água.
Gundar, com os olhos semicerrados em concentração se inclinou sobre a cana do leme a estibordo para alinhar a proa com o centro do canal.
Eles ficaram em silêncio. O único som era o rangido e gemido dos remo enquanto se balançavam para cima e para baixo, para trás e para frente, em uníssono, e o grunhido ocasional de esforço de um dos remadores. A imensidade íngreme do trabalho tomado por aquele povo antigo estabeleceu meio que um pavor sobre os viajantes enquanto o navio deslizava plano pelo apático canal reto abaixo.
Tinha que ser feito por homens, pensou Alyss. Nenhum rio natural era tão reto.
Conforme eles se distanciavam do oceano, o vago deserto castanho os comprimia em todos os lados e o frescor da brisa do mar, mesmo leve, se perdia deles. O canal se alargava conforme progrediam, até cada lado estar há cem metros. A erosão ao longo dos anos alargara o canal consideravelmente. Em cada declive, o chão imediato parecia macio e ilusório a outros vinte metros aproximadamente.
Selethen notou Alyss estudando o chão.
— Pise ali e você pode não sair viva  ele disse, pensativo. — Aposto que é areia movediça.
Alyss assentiu. Ela estivera pensando a mesma coisa.
O calor abateu-se sobre eles, dobrando-se em volta deles como um cobertor. O ar ficou pesado.
Gundar falou suavemente para dois tripulantes. Eles se apressaram para a popa e atiraram baldes pelos lados para puxar a água. Depois passaram pelos bancos dos remadores, jogando a água fria sobre os homens trabalhando duro. Alguns dos remadores murmuraram, agradecendo.
Os escandinavos, viajantes experientes como eram, haviam todos vestido camisas de linho com longas mangas e tinham mais do mesmo material presas em volta das cabeças, como bandanas para protegê-los do sol. Nas águas mais frias do norte, Will geralmente os via com peito nu, aparentemente impenetráveis ao frio. Eles eram uma etnia de pele clara e anos de viagens nas águas quentes do Mar Constante os ensinaram a respeitar o poder quente do sol.
A água do mar jogada neles encharcou as suas camisas, mas Will notou que eles ficariam secos dentro de poucos minutos. Ele lembrou-se de sua própria experiência com o poder do sol no deserto de Arrida alguns anos atrás, e estremeceu com a memória.
Alguns dos tripulantes se ocuparam encordoando tendas de lona para que aqueles que não estivessem engajados em remar pudessem se abrigar na sombra. Era um alívio bem-vindo sair do olhar direto do sol. Mas o ar em si ainda estava pesado e opressivo.
Will olhou rapidamente sobre a popa. Agora não havia sinal de mar azul cintilante atrás deles. Só aquele rio castanho cortando direto através da igualmente castanha areia.
— Quanto vai demorar a passagem?  perguntou a Gundar.
Por algum motivo, ele falou baixo. Parecia apropriado naquela quietude opressiva. Gundar considerou a pergunta. Quando respondeu, parecia que ele tinha a mesma aversão a fazer barulho demais.
— Cinco, talvez seis horas  disse. Depois reconsiderou. — Pode ser mais. Os homens vão cansar mais rapidamente nesse calor.
Agindo com aquele pensamento, ele deu uma ordem e a tripulação de ajuda aos remadores começou a trocar de lugar com eles. Fizeram isso gradualmente, um par de remos por vez, trabalhando na frente da popa. Daquele jeito, o navio manteve a sua velocidade pela água castanha e escura debaixo deles. Conforme cada parte de remadores abandonavam os remos para os seus substitutos, esparramavam-se instantaneamente no convés, na sombra das tendas. Eles estavam cansados, mas longe de exaustos, Will sabia. Ele tivera várias experiências com tripulantes escandinavos no passado. Possuíam uma habilidade inata de cair no sono quase que em qualquer lugar, quase imediatamente. Em uma hora aproximadamente, estariam descansados e prontos para substituir os seus companheiros nos remos novamente.
— Podemos até ancorar no canal quando escurecer  falou Gundar. — Não haverá lua até quase a metade da madrugada, e pode ser uma boa ideia descansar nas horas frias.
Will podia entender a sabedoria daquilo. O canal podia ser reto, mas sem nenhum ponto de referência para guiá-los, a água castanha iria imergir com os baixos bancos castanhos em cada lado. Eles possivelmente poderiam virar para um lado ou o outro e ir para terra firme.
— Não é uma boa ideia  disse Halt discretamente. — Temos companhia.

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