26 de janeiro de 2017

Capítulo 12

Shukin levantou uma mão e o pequeno grupo de cavaleiros puxou as rédeas, parando no limpo espaço central entre as casas.
Os aldeões estavam precavidos, mas com o hábito de respeito longamente lembrado para a classe Senshi, eles esperaram silenciosamente os recém-chegados anunciarem o assunto. Margearam um pouco mais perto, formando um círculo frouxo em volta dos cavalos.
Alguns dos aldeões, Horace notou, estavam carregando pesados cajados de madeira negra, enquanto outros seguravam machados frouxamente. Mas nenhum das armas provisórias estava sendo brandida em gestos ameaçadores. Elas estavam ficando simplesmente fechadas na mão enquanto os aldeões esperavam para ver o que aconteceria depois.
Shukin, que estava cavalgando alguns metros na frente do grupo, virou na sela.
— Avance e junte-se a mim, por favor, primo  disse calmamente para Shigeru.
Shigeru acelerou o cavalo para frente até se juntar a Shukin, no meio do grupo de espera Kikori. Era um movimento corajoso da parte do imperador, Horace pensou. Até aquele momento, ele estivera seguramente cercado pelo seu grupo de guerreiros. Agora, se começasse algum problema, ele estava vulnerável a ataques de todos os lados e a sua escolta não seria capaz de alcançá-lo a tempo de salvá-lo.
A chuva começou novamente a formar uma neblina, tamborilando levemente nos telhados de colmo e formando auréolas nebulosas em volta das lâmpadas penduradas debaixo do beirado das varandas que defrontavam os chalés. Uma fria gota desceu correndo a parte de trás da gola de Horace e ele se mexeu desconfortavelmente em cima da sela. Fora só um pequeno movimento, mas mesmo assim, vinte e quatro pares de olhos viraram para ele instantaneamente. Ele se ajeitou novamente na sela e permaneceu quieto. Gradualmente, os olhos precavidos voltaram a Shukin e Shigeru.
— Povo Kikori  começou Shukin.
A sua voz era profunda e autoritária. Ele não falou em voz alta, mas foi o timbre da voz que as palavras foram carregadas com clareza para todos na clareira.
— Hoje, uma grande honra chegou ao seu vilarejo.
Ele fez uma pausa, seu olhar examinando os lenhadores que esperavam e suas famílias. Ele sentiu uma pontada desapontamento quando viu a incredulidade nos olhos deles.
Eram cínicos por qualquer guerreiro Senshi que lhes dizia que eles estavam prestes a receber uma grande honra. Geralmente, tais afirmações eram o prelúdio a uma série de exigências pelas suas casas, comida, seu tempo e bem-estar. “Ser honrado porque você pode nos dar o que pedirmos, afinal, planejamos pegá-lo de qualquer jeito”.
Lamentando dizer, era esse o mundo entre as duas classes.
Ele procurou pelas palavras necessárias para convencê-los de que ele e os seus homens não estavam querendo se impor no vilarejo. Estavam pedindo por hospitalidade e abrigo, sim. Mas eles pagariam. Tratariam os aldeões justamente. Qualquer tentativa de confiança cairia provavelmente em ouvidos surdos, ele sabia.
Os Kikori tinham anos de experiência com tratamento arrogante pelas mãos dos Senshi e nenhum número de palavras doces mudaria aquilo.
Enquanto hesitava, ele sentiu um toque leve no antebraço dele.
— Talvez eu devesse conversar com eles, primo  disse Shigeru.
Shukin hesitou. Mesmo em tais arredores humildes, Shigeru devia ser atendido com um certo nível de consideração. E aquilo significava que ele devia ser anunciado adequadamente, com todos os seus títulos e honras, para que as pessoas pudessem apresentar-se a ele respeitosamente.
Ele tomou fôlego para dizer alguma coisa por aquelas linhas quando percebeu que Shigeru já estava se balançando da sela. O imperador sorriu para o homem mais próximo dele, do tipo muito musculoso atarracado que obviamente gastara a vida toda agitando o sólido machado que segurava frouxamente na mão direita. O rosto do homem estava colocado numa expressão obstinada sem sorriso. Ele parecia um líder.
Tinham que conquistar a simpatia dele, Shigeru sabia.
— Aaaah!  disse o imperador, com profundo alívio enquanto esfregava as nádegas. — Isso é tão bom!
O lenhador não pôde evitar um pequeno sorriso surpreso se formando. Ele foi desarmado pela declaração inventiva de Shigeru e modos informais. Eles estavam longe da conduta altiva dos Senshi que o madeireiro encontrara no passado.
Shukin observava ansiosamente de sua sela, os olhos fixos naquele pesado machado. Ele queria desesperadamente mover a mão para mais perto do cabo da espada, mas sabia que seria um erro – provavelmente fatal. Ao mínimo sinal de ataque, aquele quadro vivo poderia explodir numa carnificina.
Contudo, Shigeru parecia não ter tais ressentimentos. Ele aproximou-se do homem, curvou-se a ele e estendeu a mão, apresentando-se.
— Qual é o seu nome?  perguntou.
O lenhador foi pego de surpresa. Aquele Senshi estava se oferecendo para apertar mãos num gesto inusitado e amigável. E ele se curvara primeiro – um sinal totalmente inesperado de cortesia. Ele começou a estender a mão para a de Shigeru, percebeu que segurava o machado na sua mão direita e trocou-o, desajeitado, para a esquerda. Depois hesitou, olhando para baixo na direção da mão cheia de calos, ainda manchada com lama e seiva de árvore do trabalho duro do dia.
Shigeru riu, um profundo som estrondoso que era genuinamente divertido.
— Não se preocupe comigo!  ele falou. — Eu mesmo não sou uma flor cheirosa!
E ele levantou sua própria palma, manchada de lama e suja com a viagem, para todos verem.
— Só não esmague os meus minúsculos dedos nesse seu pesado aperto!
Um murmúrio mudo de diversão correu pelos aldeões observadores. Horace sentiu uma pequena diminuição na tensão. O lenhador abriu um sorriso em resposta e estendeu-se para apertar a mão de Shigeru.
— Eu sou Eiko  ele disse.
Shigeru assentiu, gravando o nome na memória. Horace sabia que o imperador poderia ser apresentado a outras vinte pessoas naquela noite e ele lembraria todos os nomes deles depois de ouvi-los uma vez. Era uma habilidade que Shigeru demonstrara em mais de uma ocasião.
Eiko levantou a cabeça para um lado, esperançoso, perguntando-se se o Senshi responderia com o nome dele. Se fizesse, seria a primeira vez. Os Senshi normalmente proclamavam seus nomes em voz alta, esperando que classes menores reagissem com respeito e pavor. Na experiência de Eiko, eles não trocavam nomes em amizade com carregadores de machado Kikori.
Shigeru manteve a pausa apenas tempo suficiente para certificar-se de que todos estavam prestando atenção nele. Depois ele recuou a mão, sacudindo-a um pouco em respeito brincalhão à força do aperto de Eiko.
— Prazer em conhecê-lo, Eiko. Eu sou Shigeru Motodato.
Houve um influxo de fôlego dos aldeões agrupados. Eles conheciam o nome, naturalmente. Houvera rumores que Shigeru estava visitando o seu chalé na montanha, não muito longe. E eles ouviram outros rumores ao longo dos passados anos. Era dito que aquele imperador era um amigo das classes menores, que ele falava fácil e livremente com fazendeiros, pescadores e lenhadores quando os encontrava, recusando-se a contar com a sua dignidade e tratando eles como amigos.
— Ah  disse Shigeru, como se acrescentasse a uma reflexão posterior — às vezes o povo se refere a mim como “o Imperador.
Ele virou, sorrindo para as pessoas em torno dele, e realizou aquele movimento para fazer o seu manto exterior abrir, revelando o brasão dos Motodato na parte superior esquerda da túnica – três cerejas vermelhas bordadas. Era um brasão real, é claro, reconhecido por toda a Nihon-Ja.
Agora o influxo sussurrado de fôlego se tornou um coro geral de respeito e cada um dos aldeões curvou as cabeças e se abaixaram a um joelho em respeito ao imperador. Não sobrava mais dúvida que aquele era ele. Era uma ofensa punível de morte para qualquer outro a não ser o imperador ou sua companhia usar o símbolo real. Eles não conseguiam imaginar alguém ser tolo o suficiente para fazer aquilo.
Mas agora Shigeru avançou para o meio deles. Ele escolheu uma mulher idosa de cabelo cinza e curvada após uma vida de trabalho duro, abaixou-se e pegou a mão dela, gentilmente ajudando-a a se levantar.
— Por favor! Por favor! Não precisa dessa formalidade! Vamos, mãe! Levante-se! Não fique toda suja só por minha causa!
A mulher se levantou, mas ainda manteve a cabeça abaixada respeitosamente. Outros na multidão ainda levantavam as cabeças enquanto Shigeru estendia-se, levantando o queixo dela com a mão para que os olhos deles se encontrassem. Ele viu surpresa misturada com respeito, então um súbito brilho de afeição no rosto alinhado.
— Assim é melhor! Afinal, você trabalhou duro a sua vida inteira, não foi?
— Sim, senhor  murmurou ela.
— Mais duro que eu, aposto. Tem algum filho?
— Oito, meu senhor.
— Oito? Meu senhor!  disse Shigeru, habilmente repetindo a sua frase, mas alterando a inflexão de uma das palavras colocando um respeito aterrorizado.
Risadas correram pelos aldeões reunidos.
— Você definitivamente esteve trabalhando mais duro que eu!
— E dezessete netos, meu senhor  a mulher disse, encorajada agora pelos modos leves dele.
Shigeru assobiou em surpresa e deu um tapa na testa.
— Dezessete! Aposto que você os mima, não?
— Não mesmo, senhor Shigeru!  ela respondeu indignada. — Se eles me provocam, sentem a palma da minha mão no traseiro deles!
As mãos delas voaram à boca em terror quando percebeu que dissera “traseiro” na frente do imperador. Mas Shigeru meramente sorriu para ela.
— Nada tem para se envergonhar, mãe. Todos temos um traseiro, sabe.
A risada ficou mais alta. Shigeru virou para a multidão e fez um gesto para cima com as mãos.
— Por favor! Por favor! Não se curvem e se desvalorizem! Levantem-se, todos vocês!
E eles fizeram com uma mistura de espanto e diversão à aproximação calma e informal dele. Eles eram um grupo sagaz, difícil de enganar. E sentiam como a maioria das pessoas sentia na primeira vez que encontrava Shigeru, que ele era genuíno. Ele gostava do povo. Não havia falsidade nem vaidade nele.
Instintivamente, os aldeões se moveram para um pouco mais perto do seu imperador. Mas o movimento não era ameaçador. Eles simplesmente queriam dar uma olhada melhor naquele personagem lendário. Era estranho alguém tão glorificado visitar um pequeno vilarejo como aquele, rir e brincar com os habitantes.
— Este é um belo vilarejo  dizia Shigeru enquanto olhava em volta das filas de chalés limpos e de colmo. — Como é chamado?
Ele escolheu um jovem menino para a sua pergunta – um garoto na adolescência, supôs Horace.
O jovem ficou com a língua travada por alguns segundos. Ele fitou de olhos arregalados o seu imperador, não acreditando que tal personalidade lhe dirigira a palavra.
Uma mulher de pé ao lado dele, provavelmente a sua mãe, Horace pensou, o cutucou com o cotovelo e sibilou algo a ele. Assim encorajado, ele gaguejou uma resposta.
— Chamamos de mura, meu senhor  ele disse.
O seu tom pareceu deduzir que Shigeru deveria saber daquilo. Houve algumas risadas mudas da multidão, mas Shigeru sorriu radiante para ele.
— E esse é um nome excelente!  ele disse.
Os aldeões riram em voz alta mais uma vez.
Horace ficou confuso até um da escolta margear o cavalo para mais perto e dizer numa voz baixa:
— Mura significa “vilarejo” em nihon-jin.
— E tem, por alguma chance, uma nascente quente em algum lugar perto desse mura— perguntou Shigeru.
Correram vários murmúrios afirmativos daqueles em torno dele. Não era algo de surpreender. Havia nascentes quentes por todas aquelas montanhas e, onde possível, os Kikori situavam seus vilarejos perto delas.
Horace sentiu um braço quente de prazer fluir por ele. Nascentes quentes significavam um banho quente. O povo de Nihon-Ja amava banhos quentes e Horace começara a gostar do hábito desde que chegara ali. Depois de um dia de equitação dura e músculos doloridos, a ideia de afundar em água escaldante e acabar com as dores do dia era quase boa demais para aguentar pensar nela.
A dica gentil de Shigeru pareceu ajudar os aldeões a lembrar do seu senso de hospitalidade. Um homem mais velho, que estivera na segunda fila de pessoas em volta do imperador, agora avançou e se curvou profundamente.
— Minhas desculpas, senhor Shigeru! Na felicidade em vê-lo, esquecemos de nossas boas maneiras. Eu sou Ayagi, ancião do vilarejo. Por favor, desmonte os seus homens. O meu povo cuidará dos seus cavalos e prepararemos banhos quentes e comida para vocês e seus homens. Estaríamos honrados se vocês aceitassem qualquer tipo de hospitalidade tosca que possamos oferecer. Temo que não isso não seja digno de um imperador, mas será o melhor que possamos fazer!
Shigeru estendeu uma mão e pousou-a no ombro do ancião do vilarejo.
— Meu amigo  ele disse — você pode ficar surpreso com o que é digno de um imperador nesses tempos.
Ele virou e assinalou para os seus homens desmontarem. Alguns dos aldeões avançaram para pegar as rédeas dos cavalos e levá-los embora. Ao comando de Ayagi, outros saíram correndo para preparar comida aos visitantes inesperados.
Horace suspirou levemente quando desceu da sela.
— Me leve para aquele banho e deixe-me feliz  ele disse para ninguém em particular.

2 comentários:

  1. Rachei de rir com essa parte
    "— Não mesmo, senhor Shigeru! — ela respondeu indignada. — Se eles me provocam, sentem a palma da minha mão no traseiro deles!"

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  2. Amei muito esse Imperador. Ele é gentil e humilde.
    Ass: Lua

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Boa leitura :)