26 de janeiro de 2017

Capítulo 5

Crowley e Halt deixaram o castelo na manhã seguinte. Halt não fez nenhuma menção de seu encontro de fim de noite com Morgarath e ambos cavalgaram em silêncio por vários minutos. Por fim, inevitavelmente, foi Crowley quem falou primeiro.
— Eu me pergunto, o que ele vai fazer com eles?
Halt olhou de soslaio para ele.
— Quem vai fazer com quem? — ele perguntou, ignorando a gramática rigorosa.
Halt nunca foi um defensor de regras de qualquer tipo.
— Morgarath. Eu me pergunto como ele vai punir os três homens armados que nós trouxemos
Os lábios de Halt se enrolaram com desdém.
— Eu duvido que ele fará qualquer coisa com eles. Suspeito que eles estavam desfilando com sua plena aprovação.
Crowley franziu a testa para a declaração.
— Por que ele iria encorajá-los a fazer isso?
— Ele é um tirano. Tiranos gostam de ver seus súditos viverem com medo. Ajuda a mantê-los na linha.
Crowley assentiu com tristeza.
— Eu suponho que você está certo — ele suspirou profundamente e Halt olhou para ele novamente.
— Qual é o problema? Você é normalmente um sujeito tão alegre.
Crowley se permitiu um sorriso fraco por esta descrição, vindo a partir da figura sombria e mal-humorada montada ao lado dele.
— Eu só estava pensando em que péssimo estado o reino está. Homens como Morgarath tratando seus próprios súditos tão mal, o Conselho Real tentando de todas as formas prejudicar o Rei, e o Corpo de Arqueiros nada mais é do que um grupo de inúteis, vagabundos e preguiçosos. Gostaria de saber onde tudo vai parar.
— Você é um arqueiro e não é inútil — Halt apontou. — Você pode ser preguiçoso, é claro. Eu não posso ter certeza sobre isso. E você disse que havia outros iguais a você.
Ele estava obviamente tentando convencer Crowley a sair do seu mau humor. Mas o arqueiro balançou a cabeça e fez um pequeno gesto sem esperança.
— Apenas uns poucos. Uma dúzia, no máximo. E nós estamos muito espalhados. O Comandante do Corpo percebe isso. Eles vão se livrar de nós, um por um, com denuncias forjadas e acusações, assim como fizeram com Pritchard e os outros.
— Por que não agir primeiro? — Halt disse. — Reúna os outros e revidem. Pelo o que você diz sobre os comandantes atuais, eles não vão resistir muito em uma luta.
— Eu acho que isso é o que Morgarath espera que façamos — disse Crowley. —
Ele gostaria de ver os últimos vestígios do antigo Corpo dos Arqueiros totalmente destruídos. Se nos rebelássemos contra a nossa própria liderança, tecnicamente, estaríamos se rebelando contra o Rei.
— É um problema — Halt concordou, pensativo. — Junte todos eles e serão acusados de traição, permaneçam separados e poderão tirar um de cada vez.
— Bem, não é problema seu, de qualquer maneira. Tem alguma ideia do que vai fazer?
Halt encolheu os ombros.
— Como eu lhe disse, eu tinha uma vaga ideia de me unir aos arqueiros. Mas isso não parece ser uma opção agora. Acho que vou me dirigir para o sul e a leste e atravessar para Gálica.
— Bem, podemos cavalgar juntos por um longo tempo. A estrada para o sul está mais ao longo deste caminho. Ficarei contente em ter alguma companhia alegre.
— É a primeira vez que alguém diz isso sobre mim — respondeu Halt.


Eles chegaram a bifurcação na estrada cerca de quarenta minutos depois. A estrada sul ramificava-se para a esquerda, atravessando campos ondulados e terras agrícolas. A estrada para o norte, que Crowley iria seguir, penetrava em uma grande floresta a meio quilómetro de distância. Os dois homens apertaram as mãos.
— Obrigado pela sua ajuda — disse Crowley.
— E minha companhia alegre — Halt acrescentou, sério.
Crowley sorriu.
— Sim. Isso também. Espero que as coisas deem certo para você.
— O mesmo para você — Halt respondeu e o arqueiro encolheu os ombros com uma alegria fingida.
— Oh, eu estarei bem, tenho certeza.
Houve uma pausa desconfortável. Os dois homens haviam desfrutado a companhia um do outro e cada um sentia que o outro tinha um espirito parecido. Mas eles não tiveram uma longa história de amizade para suavizar a partida. Eventualmente, Halt quebrou o silêncio e virou o cavalo para o sul.
—Bem... acho que nos vemos por aí — ele despediu-se Crowley concordou, levantando uma mão em saudação.
— Nos vemos...
Eles viajaram para longe um do outro e Halt considerou quão ridículo suas palavras finais tinham sido. Nós não nos veremos por aí, pensou. Por que dissemos que nos veríamos?
Seu caminho descia uma longa ladeira, então subia uma encosta do outro lado. Ele alcançou o pico e parou para virar-se na sela, procurando por Crowley. Mas o arqueiro já havia desaparecido na densa floresta que circundava a estrada. Halt apertou os lábios. Ele tinha uma vaga sensação de que deveria ter oferecido ajuda ao arqueiro. Tinha a sensação de que estava deixando Crowley na mão. Ele não sabia o que mais poderia ter feito, mas o sentimento desconfortável permaneceu.
Ele estava prestes a incitar seu cavalo de novo quando se lembrou do seu molde de penas de flecha. Ele havia emprestado a Crowley na primeira noite em que estavam acampados e percebeu que o arqueiro não havia devolvido a ele. Ele poderia se virar sem ela, mas o processo de empenar uma flecha seria muito mais demorado.
Ele estalou a língua e virou seu cavalo, pondo-o a um galope, refazendo seu caminho atrás de Crowley.
O cinzento tinha uma marcha fácil a passos longos, e eles cobriram a distância até a floresta em pouco tempo. Viajaram para a frieza escura sob as árvores. Ao longo dos anos, galhos haviam crescido dos dois lados por todo o caminho e fazia com que a estrada parecesse um túnel verde sombreado. A estrada virou-se bruscamente para a direita umas poucas centenas de metros à frente. Não havia nenhum sinal de Crowley. Ele devia ter percorrido mais terreno do que Halt esperava. Ele bateu no cavalo com seus calcanhares, pedindo mais velocidade a ele. Os cascos eram amortecidos pela superfície macia da estrada sob as árvores. Sombreada constantemente pela folhagem baixa, a estrada nunca havia secado e endurecido. Além disso, um tapete grosso de folhas tinha se acumulado através da passagem dos anos.
Quando se aproximaram da curva da estrada, Halt tomou conhecimento de um fraco som, o raspar de aço sobre aço. Ele sentiu um aperto de apreensão em seu estômago. Deslizou o arco de seu ombro e jogou para trás uma ponta do seu manto para deixar a aljava livre.
Os cascos traseiros do cavalo derraparam um pouco sobre o chão úmido enquanto viravam para a direita numa curva da estrada.
A sessenta metros de distância, Crowley estava contra um grande carvalho, cercado por um grupo de homens armados. Enquanto registrava a cena, Halt contou quatro atacantes, e um quinto a poucos metros de distância, fora da luta, de joelhos e encolhido, segurando seu lateral. O cavalo de Crowley estava mancando desajeitadamente distante da estrada.
Sem pensar conscientemente, a mão de Halt voou para a sua aljava e ele enviou duas flechas a caminho no espaço de um batimento cardíaco. O primeiro indício que os atacantes de Crowley tiveram de sua presença foi dois dos seus gritando de dor quando as flechas pretas os perfuraram, cortando a sua cota de malha como se fosse uma roupa de algodão.
Após o primeiro grito, um caiu e ficou em silêncio. O outro continuou a gemer de dor, rastejando sobre mãos e joelhos para longe da cena do combate.
Os outros se voltaram para ver o que tinha acontecido aos seus companheiros. Foi um erro fatal. Crowley se lançou em um e a faca de caça cortou profundamente o corpo do homem. O outro foi arremessado enquanto o cavalo de Halt batia no ombro dele. O homem bateu no chão, escorregando sobre as folhas úmidas, depois ficou imóvel.
Halt freou e desceu da sela, largando o arco e sacando a sua faca de caça. Havia uma mancha de sangue na testa de Crowley.
— Você está bem? — Halt perguntou.
O arqueiro assentiu sem fôlego.
— Graças a você, sim — disse ele.
Ele olhou para o homem que ele acabara de perfurar. Ele estava deitado de costas, olhos abertos, olhando para o céu.
— Você o reconhece?
Halt olhou para baixo. Ele viu o símbolo familiar do raio na túnica do homem, em seguida, olhou mais atentamente para seu rosto. Era o homem corpulento que ele tinha acertado na perna na taverna. Ele olhou rapidamente para os outros. O homem que estava dobrado sobre os joelhos, chorando de dor, também estava na taberna, como também o primeiro dos atacantes em que Halt havia disparado.
— Morgarath tem uma estranha ideia de punição — ele comentou.
Crowley deu-lhe um sorriso cansado.
— Oh, eu não sei. Certamente não fizeram qualquer bem a longo prazo. O que devemos fazer com eles? — ele apontou para os três sobreviventes feridos.
— Deixe-os — Halt disse brevemente. — Não adianta levá-los de volta para Morgarath. Ele, obviamente, mandou-os atrás de você. Cinco deles — acrescentou — ele pensou que precisariam mais do que três desta vez.
— Provavelmente, pensou que você ainda estaria comigo — disse Crowley e Halt acenou com a cabeça, pensativo.
— Você percebe que Morgarath não pode se dar ao luxo de deixá-lo viver agora, não é? Ele provavelmente vai sobrepor algumas acusações contra você, dizer que foi responsável pela morte de dois de seus soldados leais.
— Esse pensamento me ocorreu.
— Então venha comigo. Vamos para Gálica. Há sempre trabalho para bons homens de combate lá. E eu posso ver que você é um bom homem de combate — Halt indicou os corpos espalhados pela estrada.
Mas Crowley já estava balançando a cabeça antes de Halt terminar de falar.
— Eu estava pensando sobre o que você disse, sobre como organizar os arqueiros restantes e revidar. Decidi que é o que vou fazer.
— Você não está preocupado em ser declarado um traidor? — Halt perguntou.
— Estou indo para nordeste encontrar o príncipe Duncan. Como o herdeiro do trono, se ele me der uma autorização real para reunir os outros arqueiros restantes e reformar o Corpo, eu não posso ser acusado de traição. E ele pode achar útil ter uma dúzia de homens altamente treinados a seu serviço.
Halt considerou as palavras de Crowley durante alguns segundos, depois assentiu.
— Esse pode ser o melhor plano de ação — concordou. — E eu gosto da ideia de reformar o Corpo de Arqueiros. Imagine você, uma dúzia de homens não é muito.
— Uma dúzia de arqueiros — Crowley o corrigiu — isso pode não ser muito, mas é um começo — ele fez uma pausa e acrescentou — seria 13 se você considerasse se juntar a nós. Tenho certeza de que o príncipe Duncan pode ser persuadido a dar-lhe um lugar no Corpo.
Halt balançou a cabeça, uma carranca juntando as escuras sobrancelhas.
— Eu não colocaria muita confiança em príncipes.
— Nesse você pode confiar. Ele é um bom homem — Crowley disse.
Mas ainda assim, o hiberniano estava relutante.
— Eles são todos homens bons, até sentir o gostinho do poder.
— Não este. Você pode confiar em Duncan, acredite em mim.
Um olhar longo e estável se passou entre eles.
— Se você diz.
Crowley concordou enfaticamente.
— Sim. Eu digo. Você confia em mim?
Agora Halt olhou fundo nos olhos castanhos de Crowley e ele não viu nada lá, além de honestidade e dedicação, nenhum sinal de fraude ou safadeza. Ele relembrou o momento anterior de desconforto, quando sentiu que de alguma forma ele estava deixando Crowley sem apoio por simplesmente montar para longe. O arqueiro ruivo sentiu Halt que estava vacilante.
— Todos os nossos serviços de apoio estão ainda no lugar – nossos treinadores, criadores de cavalos e armeiros — ele falou. — Eles estão apenas esperando a chance de serem reativados. Em poucos anos, poderíamos construir uma força a ser reconhecida. Eu ficaria feliz em ajudá-lo a completar a sua formação – não que haja muito para aprender. Você já é um atirador muito melhor do que eu.
Ainda assim, Halt não disse nada e um sorriso malicioso apareceu sobre o rosto de Crowley quando ele jogou sua última carta.
— E você não gostaria de uma oportunidade de remodelar o nariz de Morgarath?
Não obstante, Halt sorriu também. Um leve sorriso, na verdade. Mas um sorriso, ainda assim. Vindo dele, era o equivalente a alegria desamparada.
— Bem, isso que é uma oferta atraente — ele respondeu, e desta vez Crowley deu uma gargalhada.
— Então você vai se juntar a nós?
— Você diz que este Duncan é um homem confiável
— Eu digo.
— E um líder que um homem ficaria orgulhoso de seguir?
— Eu certamente digo. Você tem a minha palavra sobre isso.
Houve uma longa pausa. Crowley percebeu que ele tinha dito o suficiente e esperou Halt tomar sua decisão. Finalmente, o hiberniano concordou lentamente.
— Então... por que não? Eu realmente nunca gostei de Gálica.
Ele estendeu a mão e Crowley a pegou. Eles apertaram as mãos, cada homem notando o firme e positivo aperto do outro. Ambos sentindo que este era o início de uma parceria longa e notável.
— Bem-vindo ao Corpo — Crowley disse.

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