26 de janeiro de 2017

Capítulo 5

Os dias se tornaram mais frenéticos, e antes que percebesse, o dia do casamento tinha chegado. Will vestiu-se com seu uniforme cerimonial, projetado por Crowley alguns anos atrás para o casamento de Halt e Pauline, e verificou-se no espelho antes de deixar a cabana. Ele deu um tapinha nos seus bolsos do uniforme para assegurar-se de que não faltava nada, e percebeu com um susto que não tinha chegado a reescrever o seu discurso. Ele rolou os seus olhos na sua imagem no espelho.
— Ah, bem. Todo mundo me diz que eu deveria falar com o coração.
Era um belo dia de sol e o casamento seria realizado ao ar livre – no pátio do Castelo Redmont, onde centenas de espectadores pudessem assistir. Nas ameias estavam o pessoal do castelo e as pessoas da aldeia, e uma seção do pátio tinha sido arrumada por Arald para que os aldeões e os funcionários comemorassem mais tarde. Vários bois e javalis já se transformavam em espetos sobre fogueiras. O aroma esfumaçado de carne assada moveu-se pelo pátio.
Arald executaria a cerimônia. O Rei, é claro, entregaria sua filha. A Shigeru havia sido concedido a posição honrada de promotor-mor do casamento. Quando ele perguntou educadamente sobre suas funções, Duncan sorriu e dirigiu-lhe a Lady Pauline.
— Pergunte a Pauline — disse ao monarca de Nihon-Ja. — Ela inventou a posição para mim em seu casamento.
Evanlyn, desprezando a prática elegante, apareceu na hora certa para o casamento. Ela surgiu a partir do castelo, escoltada pelo rei Duncan e acompanhada por Alyss, sua dama de honra, e houve um suspiro de admiração da multidão reunida.
— Ooooooohhhhhhhh!
Duncan sorria orgulhosamente, sua filha estava linda. Mais uma vez, tipicamente, ela tinha ignorado a moda atual, que exigia das noivas usarem vestidos volumosos de cauda longa e camada depois de camada de renda.
Ela usava um vestido simples, mas elegante de cetim branco, estreito que acentuava seu corpo esbelto. Havia um pequeno véu em seus cabelos claros e ela parecia pequena e delicada ao lado de seu pai alto de ombros largos.
Will, em pé ao lado de Horace no estrado onde a cerimônia aconteceria, olhou para Evanlyn, acenou com a cabeça em aprovação, e depois só tinha olhos para a menina loira andando graciosamente atrás dela.
Alyss usava uma versão formalizada de seu uniforme de diplomata, um estilo que deixava um ombro descoberto. Para diferenciar da noiva, a cor branca padrão dos Mensageiros tinha sido alterada nesta ocasião para azul pálido. Ela está linda, Will pensou, e seu coração inchou em seu peito.
Ao lado dele, seu melhor amigo tinha o olhar fixo em sua noiva. Horace, sendo um cavaleiro, usava uma armadura cerimonial para a ocasião – uma armadura de prata reluzente e usava uma túnica branca com a insígnia da folha de carvalho verde. Na cintura usava a espada de aço nihon-jin que tinha sido entregue a ele pelo Imperador meses atrás. A sua mão esquerda apertava o punho da espada enquanto ele observava a chegada da procissão do casamento.
— Meu Deus, ela é linda — ele sussurrou para Will.
— Realmente ela é — o jovem arqueiro respondeu.
Nenhum deles sabia que estavam falando de duas pessoas diferentes. Arald realizou a cerimônia com a mistura correta de solenidade e simpatia. Felizmente, Lady Sandra tinha-o advertido a não fazer suas piadas. Com tristeza, ele tinha concordado.
— Temo que meu humor é inteligente demais para a maioria das pessoas — ele disse. — Parece ir sobre suas cabeças.
— Eu tenho certeza de que é exatamente o que acontece, querido — sua esposa respondeu, dando um tapinha na sua mão.
Foi uma cerimônia curta e passou poucos minutos até que ele proferiu as palavras finais.
— Eu vos declaro marido e mulher. Você pode...
Horace, sem esperar por mais convite ou permissão, puxou Cassandra em seus braços e beijou-a longa e profundamente. Ela respondeu bem animadamente. A multidão aplaudiu com prazer, assustando as andorinhas que estavam aninhadas em cantos ao longo das muralhas e fazendo-as voar para o ar em um tributo de aves para os recém-casados. Duncan irradiava orgulho e ao mesmo tempo limpava uma lágrima. Alyss e Will trocaram sorrisos.
— ... beijar a noiva – eu suponho — Arald concluiu, sentindo que as palavras eram inúteis à luz dos acontecimentos.
Então havia um clamor de parabéns. Em seguida, Sir Rodney conduziu o grupo de estudantes da Escola de Guerra e outros espectadores a darem três vivas empolgantes para o casal, depois mais três para o rei. Então convocou vivas para Shigeru, Selethen e Erak, até que sua noiva colocou a mão suavemente em seu braço.
— Acho que é o suficiente de vivas, querido — disse ela.
Ele pareceu um pouco assustado. Estava bastante animado, percebeu.
— Ah, sim, claro. Isso mesmo, minha querida.
Em suma, era uma coisa boa que as senhoras de Redmont estivessem presentes naquele dia.
Por fim, a festa de casamento foi transferida para o Grande Salão, onde mesas foram montadas para o banquete. Arald olhou para o banquete e decorações.
— Esta é a melhor parte de qualquer casamento para mim! — ele comentou com entusiasmo a Lady Sandra.
Ela revirou os olhos.
— Esta é a melhor parte de qualquer dia para você — ela respondeu, rindo.
Arald considerou a declaração, então balançou a cabeça enfaticamente.
— É, eu não posso negar.
Ela sorriu, sabendo por que o amava.
Horace e Evanlyn lideraram o caminho para o palanque erguido onde foi colocada a mesa do casamento. Enquanto Will os seguiu, olhou com admiração. O estrado fora encimado por um magnífico dossel de seda branca, apoiados em postes e um quadro de luz a três metros acima da plataforma. Era um belo toque de acabamento, ele pensou.
Todo mundo estava sentado, com um barulho prolongado de bancos e cadeiras sendo arrastados no chão de pedra do corredor. Então, Shigeru, que tinha permanecido de pé, deu um passo para a frente do palanque e falou. Não pela primeira vez, Will ficou surpreso com a profundidade e o timbre da voz que veio de seu quadro de leve.
— Meus amigos — disse ele quando o silêncio caiu sobre a sala e as pessoas esticaram-se para ver esta pessoa exótica de um outro reino — disseram-me que é meu agradável dever como promotor-mor abrir estas festividades. E também — ele se virou e sorriu para o rei Duncan — que é meu dever igualmente conceder um presente caro para esses jovens.
Duncan assentiu seriamente com a cabeça, mas então não pôde evitar deixar um sorriso escapar. O papel de promotor-mor tinha sido criado por Lady Pauline em ocasião de seu próprio casamento com Halt, para evitar uma situação embaraçosa em que o Rei não tinha nenhum papel a desempenhar no casamento.
— Desta forma, eu decidi conceder-lhes o castelo de Hashan-Ji, na província Koto do meu país, com a as terras circundantes, florestas de madeira e direitos de caça — ele se virou e sorriu para Horace e Evanlyn — por estranha coincidência, está muito perto do meu palácio de verão.
Houve um suspiro de surpresa do público, em seguida, um murmúrio suave de conversa correu ao redor do grande salão. Este era um magnífico presente, de fato.
Shigeru ergueu as mãos pedindo silêncio e, gradualmente, o murmúrio cessou.
— Eu nomeei um castelão para administrar o castelo em sua ausência. Mas espero que haja momentos em que vocês serão capazes de nos visitar. Vocês serão conhecidos como Lorde e Lady Kurokuma, é claro.
Ele virou-se para a mesa de casamento e se curvou profundamente. Depois de um momento, enquanto o pleno entendimento do que ele tinha dado ao casal caiu sobre todos, as pessoas no corredor começaram a aplaudir. Então, alguns ficaram de pé, e outros seguiram, até que todo o grupo estava de pé, aplaudindo e torcendo quando a figura ligeira retomou seu assento.
Horace inclinou-se sobre a Cassandra e murmurou algo. Ela assentiu com entusiasmo e, em seguida, o cavaleiro se levantou, erguendo as mãos em um pedido de silêncio.
Enquanto ruído lentamente morria, ele se virou para Shigeru, curvou-se, e em seguida, falou.
— Esta é uma grande honra, Senhor Shigeru. Minha esposa e eu...
Por um momento, ele não conseguiu seguir em frente. Era uma antiga tradição de que a primeira vez que um noivo usasse a frase “minha esposa e eu” todos os presentes deveriam aplaudir. Ele esperou que fosse feito silêncio novamente, e quando se fez, sorrindo timidamente, ele continuou.
— ... gostaríamos de pedir que todos os rendimentos futuros do castelo e sua propriedade fossem compartilhados entre as famílias daqueles Kikori que deram suas vidas para você na guerra contra o traidor Arisaka.
Um momento de silêncio saudou este anúncio. Em seguida, a voz de Sir Rodney cresceu em torno do salão.
— Ah, muito bem, Horace! Muito bem, de fato!
E as salvas de palmas começaram novamente.
Duncan levantou-se para falar enquanto uma longa linha de funcionários surgia da cozinha, serpenteando entre as mesas para servir a primeira rodada do banquete. Ele recebeu Horace em sua família e, com um sorriso torto, desejou a ele uma ótima vida futura com Cassandra. Olhando significativamente o jovem sorridente ao lado dele, ele ofereceu um pequeno conselho.
— Nunca tente fazê-la mudar de ideia quando ela tiver decidido fazer algo. — falou, balançando a cabeça em desespero fingido.
Houveram muitas risadas com isso. A maioria das pessoas sabia que a princesa era uma jovem teimosa e determinada. Então a multidão aplaudiu o discurso do rei e ele retomou seu assento.
Quando a primeira rodada do banquete terminou, os serviçais trouxeram a segunda rodada, e Selethen levantou-se e fez um discurso encantador de parabéns como governante de seu país e seus próprios votos de felicidade
Novamente, a multidão aplaudiu, mas não tão animada quanto aplaudiram para Duncan. Selethen, afinal, não era uma figura bem conhecida em Araluen.
O entusiasmo voltou com a próxima rodada e Erak, o próximo orador. O enorme oberjarl tomou seu lugar à frente da plataforma e fez seus próprios votos e parabéns para o casal. Houve um tempo em que um governante escandinavo não teria sido um convidado bem-vindo em uma cerimônia Araluense. Mas isso estava há muito no passado. Os espectadores sabiam da dívida que tinham para com os escandinavos. Gundar Hardstriker e sua tripulação, hoje presentes no salão, ajudaram a salvar o reino de uma invasão das ferozes tribos scottis.
Erak falou de uma batalha anterior, quando um pequeno grupo de araluenses ajudou seus homens numa invasão dos ferozes temujais do oriente. Ele destacou Cassandra, elogiando-a em especial, contando a sua coragem na batalha de quando ela continuou a comandar os tiros de um pequeno grupo de arqueiros mesmo quando eles estavam sob ataque direto. Muitos dos presentes conheciam a história geral, mas não tinham ouvido os detalhes específicos da coragem de Cassandra naquele dia.
Ele esqueceu de mencionar o fato de que, no momento da batalha, ela estava condenada à sentença de morte pelo seu antecessor, Ragnak.
Houve mais aplausos quando ele se sentou, em seguida, serviçais chegaram com mais comida.
Will, que estava gostando mesmo, percebeu que Erak era o último dos oradores do exterior e agora era a vez dele. Ele levantou-se apressadamente.
Alyss, que estava sentada ao seu lado, colocou a mão sobre a dele e apertou levemente.
— Tome seu tempo — disse ela. — E fale com o seu coração.
Ele fez uma pausa, respirou fundo e avançou para a frente da plataforma. Sua mão voou inconscientemente por um momento ao bolso no peito de seu uniforme, buscando um discurso que não estava lá. Ele endireitou-se, olhando para o povo reunido, e sua mente ficou completamente em branco. Em seguida, ficou claro e ele sabia o que ia dizer.
— Eu escrevia um discurso para este momento, mas, enquanto o fazia, foi queimado em uma fogueira há algumas semanas. Isso pode muito bem vir a ser uma coisa boa.
— Ouçam, ouçam!
Veio uma voz rouca da multidão. Uma voz que ele reconheceu muito bem.
— Obrigado por isso, Halt — ele falou, apontando para a mesa onde Halt, Pauline e Crowley estavam sentados.
Ele estava feliz que seu antigo mentor tivesse conseguido voltar a tempo para o casamento. Ele sabia que sua ausência teria diminuído o dia para Horace e Cassandra. Outra onda de riso correu ao redor do salão e ele relaxou. Estes eram amigos, ele percebeu. Não havia motivo para nervosismo.
— Desde então, as pessoas tem vindo aconselhar-me a simplesmente para falar com meu coração — ele se virou e sorriu brevemente para Alyss — então, aqui vai o que está em meu coração. Eu vim para Redmont como um órfão, sem família, sem irmãos ou irmãs. Isso mudou. Ao longo dos anos, Horace tornou-se mais do que um irmão para mim, e Evanl... Cassandra — ele se corrigiu — tornou-se a mais amada das irmãs. Eu confiaria minha vida em suas mãos. Horace salvou minha vida em mais ocasiões que posso contar. Cassandra salvou minha sanidade alguns anos atrás. Devo-lhes muito. É uma dívida que jamais poderei pagar. Tudo o que posso dizer é que eu não posso imaginar nenhum melhor marido para Cassandra do que Horace e não há melhor mulher para Horace do que Cassandra. Eu amo ambos. Por favor, um brinde a sua felicidade futura. A Cassandra e Horace!
Houve um barulho de bancos e cadeiras sendo empurrados para trás e todos ficaram de pé, em seguida, centenas de vozes repetiu seu brinde:
— Cassandra e Horace!
O som ecoou por todo o vasto salão e assustou uma andorinha que estava aninhada no alto das vigas. O pequeno pássaro disparou para fora com o susto repentino, fazendo Will a capturar seu movimento com seu olho. Então, quando o barulho diminuiu, ela empoleirou-se em uma viga de apoio maciço. Mas seus olhos, voltados para cima, haviam registrado outra coisa. Era um detalhe que ele tinha esquecido – algo tão familiar que ele havia esquecido completamente.
Bem acima do chão do salão, uma galeria de pedra balaustrada corria em torno do interior das paredes.
Com seu coração batendo, Will voltou para a mesa.
Alyss sorriu para ele.
— Bem dito — ela começou, então, vendo seu rosto, perguntou: — o que há de errado?
— Talvez não seja nada. Eu tenho que verificar uma coisa.
Ele olhou ao longo da mesa. Horace e Evanlyn estavam conversando profundamente com Shigeru. Erak e Duncan estavam igualmente absortos.
Ele tomou uma decisão. Iria lidar com isso sozinho.
Alyss apertou sua mão.
— Apenas esteja de volta antes da dança de núpcias — disse ela.
Horace seria o próximo a falar, quando a rodada do banquete final chegasse. Em seguida, a dança iria começar.
Ele acenou com a cabeça, um pouco distraído.
— Eu estarei.
Tão discreto como ele poderia ser, e arqueiros poderiam ser muito discretos quando quisessem, ele fez o seu caminho para baixo do estrado e se dirigiu para a parede oposta. Halt e Crowley estavam sentados a uma certa distância, para a direita. Como sempre, Halt tinha escolhido ficar uma posição tão discreta quanto possível. Levaria tempo para Will fazer o seu caminho através do salão lotado e entre os serviçais que circulavam por ali. Will viu uma alternativa mais rápida.
A tripulação de Gundar estava sentada em uma mesa entre os dois contrafortes que Will havia notado no mapa. Eles estavam a poucos metros de distância e Will se apressou em direção a eles. Nils Ropehander o viu chegando.
— Bom discurso, menino!
Will tomou uma decisão. Nils era grande e poderoso, mesmo para um escandinavo. E ele não fazia perguntas.
— Venha comigo! Eu preciso de você — Will disse com urgência.
Nils deu de ombros.
— Então eu sou o seu homem.
Ele empurrou sua cadeira para trás e se levantou.
Enquanto eles faziam o seu caminho, Will perguntou:
— Você está armado?
Nils balançou a cabeça, sorrindo.
— Eles não nos deixaram trazer armas.
Will percebeu a verdade dessa afirmação. Escandinavos, armas e bebida não eram uma boa combinação para um casamento. Ele, é claro, tinha suas duas facas. Elas faziam parte do uniforme formal de arqueiro que usava.
Will procurou a parede entre os contrafortes. Havia uma porta que levava a uma escada, lembrou-se agora. E que levaria à galeria acima.
Um dos marechais do casamento estava por perto. Havia seis marechais parados nas saídas ao longo do corredor. Seu papel era puramente cerimonial estes dias, mas era uma lembrança dos tempos em que, para botar ordem, tinham que ser mantidos em assembleias públicas como esta. Para esse fim, o homem carregava uma haste oficial – um bastão pesado de madeira negra de dois metros. Will o tirou das mãos do homem assustado e entregou a Nils.
— Aqui. Utilize este.
Nils o levantou experimentalmente.
— Não é ruim — ele comentou.
O marechal finalmente recuperou-se da surpresa.
— O que você acha que está fazendo, arqueiro Will? — disse indignado, mas Will o interrompeu.
— Você vai recebê-la de volta. Não há tempo para explicar!
Em seguida, ele mergulhou através da pequena porta que dava para a escada em espiral, com Nils atrás dele. As botas de Will eram de sola macia e fizeram praticamente nenhum som nos degraus de pedra nua. Nils, como a maioria dos escandinavos, usava botas de pele de foca e elas eram quase tão silenciosas. Sua respiração era alta e tornou-se mais e mais barulhenta à medida que subiam as escadas íngremes.
Do salão, Will ouviu uma explosão de aplausos e percebeu que Horace tinha terminado o seu discurso. O noivo tinha sido brevemente louvável. O próximo item na agenda seria a dança de núpcias. Will já podia ouvir o chiado fraco e os ruídos da orquestra afinando seus instrumentos.
Em seguida, o entendimento o atingiu como um raio. Então era por isso que tinham marcado a palavra dança.
Este seria o momento em que Duncan estaria mais exposto à flecha de um assassino.
Anteriormente, quando ele estava sentado na mesa do banquete, o dossel de seda que cobria o estrado o acobertava a partir de um ponto de vista elevado, como a galeria. Mas agora, ele e Cassandra se moveriam para baixo para dançarem e circularem sozinhos antes de os outros convidados se juntarem a eles. Por pelo menos trinta segundos, ele seria um alvo perfeito, sem obstruções.
— Droga, Horace — disse ele com os dentes cerrados. — Só desta vez, não poderia ter divagado um pouco?
— O que você tá dizendo? — Nils perguntou.
Mas Will apenas fez um gesto para eles redobrarem o ritmo.
— Vamos lá!
Ele ouviu a voz de Desmond vagamente através das paredes de pedra, o secretário anunciava o momento em que o Rei e a noiva iriam iniciar a dança. Houve uma longa rodada de aplausos. Will subiu as escadas com mais pressa. Atrás dele, ouviu Nils tropeçar. Em sua mente, ele podia ver Duncan estendendo a mão para ajudar sua filha a levantar da mesa. Eles iriam virar e curvar-se para o público, em seguida, caminhariam lentamente para as escadas que levavam até o piso principal.
Ele tinha apenas alguns segundos.
Ele alcançou a porta de madeira e bronze que levava à balaustrada e, com um esforço enorme, parou de correr. Silenciosamente, lentamente, ele abriu a porta pesada, alguns centímetros de cada vez, em seguida, olhou ao redor da sala.
Ele sentiu um solavanco de pânico no coração quando os viu. Duas figuras, vestidas com familiares capas de cor roxa, estavam agachados a cerca de oito metros de distância. Um deles levantou a besta. Ele estava atrás da balaustrada em si, diminuindo a chance de que pudesse ser visto por aqueles na sala abaixo. O segundo genovês estava agachado um metro ou mais atrás dele. Ele tinha uma besta também. Mas a sua não mirava o rei. Ele seria o atirador de reserva, no caso de que algo desse errado.
Tudo parecia estar acontecendo em câmera lenta, enquanto Will deslizou a pesada faca de caça de sua bainha cerimonial. Atrás dele, ele podia ouvir Nils bufar até os últimos metros. As paredes de pedra na escadaria pareciam afetar o som da audição dos assassinos.
Ele teve tempo de perceber que os genoveses não estavam usando suas bestas padrões. As que possuíam eram menores, como os arcos usados pela cavalaria dos arridi. Ele pensou sobre isso, então rejeitou o pensamento. A distância era longa, mas os arcos menores seriam mais do que capazes de acertar seu alvo. E, além disso, se o genoveses fossem fiel a seu estilo, os dardos provavelmente seriam envenenados – até mesmo um ligeiro ferimento seria fatal. Ele viu os dedos do atirador se mexerem no gatilho e seu punho apertava a besta, viu como ele tomou fôlego.
Então o seu próprio braço foi para trás e para a frente em uma ação e atirou a faca de caça girando pelo espaço entre eles. Ela era um borrão de luz brilhante enquanto cruzava no espaço entre eles.
No último momento, Will percebeu que o atirador, assustado com a faca, involuntariamente talvez pudesse desencadear um tiro com o arco. Ele havia então apontado para um alvo diferente.
A lâmina pesada foi girando e cortou a grossa corda da besta.
Quando a tensão repentinamente foi quebrada, as extremidades da besta saltaram para frente com uma rachadura feia. A flecha caiu da besta, pulando e fazendo barulho pelo chão de pedra da sala. O atirador recuou de surpresa enquanto tentava entender o que tinha acontecido. Seu companheiro compreendeu mais rápido. A fuga agora era sua primeira prioridade e ele virou seu arco na direção da figura que apareceu de repente na porta da escada. Só que a faca de Will já estava a caminho. Ele lançou no genovês antes mesmo que ele atirasse sua primeira flecha.
E teria acertado nele se o primeiro assassino não tivesse escolhido esse momento para levantar-se da posição de agachamento, entrando no caminho da faca que girava. A faca de arremesso acertou-o no peito, matando-o instantaneamente, e ele caiu para trás contra seu companheiro. A seta desviou do trajeto e errou Will por pouco, batendo na porta de madeira próximo a sua cabeça.
O atirador deixou cair a besta e puxou uma longa adaga de dentro de sua capa. Ele empurrou seu cúmplice morto para um lado e avançou rapidamente em Will, que agora estava desarmado. Ele estava a apenas um metro ou mais de distância quando Will sentiu uma onda de movimento por trás dele e Nils disse em voz alta:
— Abaixe-se!
E ele viu a expressão de espanto no rosto do genovês ao ver o enorme lobo do mar escandinavo que acabara de aparecer na porta. Em seguida, Nils, segurando o bastão preto como uma lança por cima do ombro, atirou-o para frente em um impulso, batendo a ponta de bronze pesado na testa do genovês, bem entre os olhos.
A força do golpe, com o todo peso do ombro, braço e corpo todo por trás de Nils foi surreal. O genovês voou para trás dois ou três metros e caiu no chão de pedra da sala. Sua adaga caiu de sua mão e ele estava inconsciente. Nils olhou para o bastão na mão mais uma vez e assentiu com aprovação.
— Não é mau de todo — disse ele.
Will se levantou e olhou rapidamente sobre a balaustrada para o salão abaixo. Ninguém parecia ter notado o barulho acima deles. A música provavelmente abafou qualquer barulho que eles tinham feito, pensou ele. Ele viu que Duncan e Evanlyn já estavam a meio caminho na sua dança. Ele olhou para Nils, que estava sorrindo contente, então apontou o polegar para o genovês inconsciente.
— Tome conta dele. Eu tenho que voltar para lá
— Eu vou assegurar de que ele não vá a lugar nenhum — Nils concordou alegremente.
Então, antes que Will pudesse sair, o escandinavo colocou uma mão enorme em seu ombro.
— Você sabe, arqueiro, este não poderia ser um casamento melhor. Uma bela noiva. Um noivo bonito. Boa comida, cerveja boa. E para coroar tudo isso, uma luta. É apenas como voltar para casa.
Em seguida, Will foi correndo de volta escada abaixo. Ele estimava que tinha menos de trinta segundos para voltar ao salão e levar Alyss para a dança.
Ele pode ter salvado a vida de Duncan, mas se perdesse outra dança de casamento com Alyss, não tinha certeza quanto à sua própria.

2 comentários:

  1. Que casamento cheio de surpresas!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
  2. Kkkkkkkk Amei a última frase.
    Ass: Lua

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)