26 de janeiro de 2017

Capítulo 4

Dois dias depois, o assunto foi afastado de sua mente pela chegada do Wolfwill.
O navio elegante, com sua vela triangular curvada, era transportado pela força do vento, navegando até o último trecho das Tarbus.
A notícia de sua chegada iminente tinha vindo à frente e havia uma grande multidão reunida para saudá-lo. Erak, ao lado de Will, suspirou enquanto observava a abordagem graciosa do navio, uma pequena onda de espuma branca batendo na proa do navio.
— Os tempos mudam, jovem Will — ele disse em um tom abaixado.
Will olhou para o oberjarl maciço e viu um olhar de tristeza em seus olhos. Erak sentia falta dos velhos tempos de liberdade, quando ele e sua tripulação percorriam o mundo, atacando, pilhando e brigando. Will sentiu que Erak gostaria de voltar a esses tempos e utilizar um navio como Wolfwill. Por mais que ele dissesse amar seu antigo navio de vela quadrada, o mais recente projeto, com toda sua velocidade e graça, era algo que nenhum marinheiro de verdade podia olhar sem sentir inveja.
Quando o navio estava a menos de quarenta metros do cais, os espectadores ouviram uma ordem afiada da figura corpulenta em direção aos remos – Gundar. Marinheiros agiram rapidamente para obedecer-lhe e a longa curva foi percorrida rapidamente, o vento soprando a vela enquanto a tripulação a reunia e dobrava. Ao mesmo tempo, uma bandeira foi desfraldada a partir do topo do mastro: três cerejas estilizadas sobre um fundo azul claro. O veloz Wolfwill tinha completado a maior viagem de todas, trazendo seus convidados da maior distância a percorrer.
Shigeru, Imperador de Nihon-Ja, havia chegado para o casamento de seu amigo.
Embora sua chegada fosse esperada por alguns dias, a visão da bandeira era a prova concreta e a grande multidão eclodiu em um coro de aplausos.
Então a pequena figura do Imperador caminhou rapidamente para baixo do convés principal do navio, para tomar uma posição na proa, observando enquanto o Wolfwill navegava suavemente até o cais, o último modo de segui-lo impedido quando alcançou as estacas de madeira.
O navio bateu suavemente contra o cais e os aplausos redobraram quando Shigeru saltou agilmente sobre o baluarte e caminhou até as tábuas ásperas, ladeado pelo comandante da sua guarda pessoal. A dúzia de guerreiros Senshi que compunham sua guarda foram pegos de surpresa pela ação impulsiva do Imperador. Eles cambalearam até terra firme para segui-lo, às pressas formando duas fileiras, marchando atrás dele com a postura peculiar de pernas rígidas dos Senshi.
Rei Duncan reagiu mais rapidamente do que eles. Vendo Shigeru saltar a terra, ele caminhou rapidamente para a frente para encontrá-lo. Parando a poucos metros do pequeno governante nihon-jin, Duncan se curvou profundamente a partir da cintura. Um murmúrio de surpresa correu em torno dos araluenses reunidos. A maioria deles nunca tinha visto o seu Rei curvar-se para qualquer homem. Os olhos de Shigeru brilharam e ele se inclinou por sua vez. Estando mais acostumados com a ação, ele curvou-se ainda mais baixo que Duncan. Os dois governantes ficaram assim, curvados, com olhar para baixo, por alguns segundos. Então, Shigeru falou.
— Eu não tenho certeza sobre você, Sua Majestade, mas minhas costas estão me matando.
Duncan sufocou uma gargalhada, em seguida, respondeu em um tom baixo.
— Talvez devêssemos endireitar-nos, Excelência. Se ficarmos assim por muito tempo, nunca conseguiremos voltar.
Os dois líderes permaneceram em pé e olharam um para o outro. Duncan, alto e de ombros largos, seu cabelo cor de ferrugem começando a mostrar cinza nas têmporas e na sua barba. Shigeru, bem barbeado e muito menor, mas de grande resistência e uma irreprimível energia e curiosidade.
— Bem-vindo a Araluen — disse Duncan.
Shigeru assentiu uma confirmação.
— É um prazer. Eu estive ansioso há algum tempo.
Então ele olhou para além de Duncan e seu rosto se iluminou com verdadeiro prazer quando viu uma figura alta se aproximando da multidão.
— Kurokuma! — ele exclamou.
Horace quase correu os últimos passos, evitando por pouco o sacrilégio de quase de jogar o Rei de lado enquanto cumprimentava seu amigo. Os dois se abraçaram, a pequena figura do Imperador ofuscado pelo jovem guerreiro.
— Eu estava preocupado que você não chegasse a tempo — Horace falou.
Havia vestígios de lágrimas em seus olhos quando ele recuou e, um pouco tardiamente, curvou-se ao Imperador. Shigeru sorriu e retornou a saudação formal.
— Não havia nada para me impedir de vir — ele respondeu à medida que se endireitou. — Meu império está seguro com a intendência do Lorde Nimatsu e seus guerreiros Hasanu.
Horace sorriu.
— É preciso um homem corajoso para discutir com eles — disse o cavaleiro.
Então, lembrando as suas maneiras, ele se afastou para Selethen inaugurar os cumprimentos. O arridi alto fez sua saudação habitual graciosa e cumprimentou o imperador como um velho amigo. Então, era hora de introduzir outro convidado de honra. Um pouco incerto, não tendo certeza do resultado possível, Horace fez as apresentações.
— Lorde Shigeru, Imperador de Nihon-Ja, por favor, conheça Erak, oberjarl da Escandinávia.
Erak avançou, pés afastados, polegares enfiados em seu cinto. A posição do oberjarl era eletiva e escandinavos não acreditavam em qualquer direito hereditário de governar. Por esta razão, e para demonstrar sua natureza independente, Erak nunca referia-se a Duncan como “Sua Majestade” abordando-o em vez disso, pela sua posição – Rei. Ele estava determinado a não mostrar qualquer maior deferência a este governante do leste do tamanho de um esquilo. Ele deu um aceno superficial de sua cabeça, em vez de se curvar e disse rispidamente:
— Como está, Imperador?
Os lábios de Shigeru se torceram e ele tentou suprimir um sorriso. Tinha aprendido muito sobre escandinavos em sua viagem a bordo do Wolfwill. Ele imitou o aceno de Erak e seu tom ríspido perfeitamente.
— Eu vou muito bem, Erak-san. Como está você?
Preparado para uma reação escandalizada, Erak foi um pouco surpreendido pela rápida adaptação de discurso do Imperador. Então ele riu deliciado, e virou-se para Horace.
— Pelas barbas trançadas de Gorlog! Ele vai servir, jovem Horace, ele definitivamente vai servir!
Apenas a tempo, Horace percebeu que Erak estava prestes a bater costas do imperador, então ele pegou a mão enorme de Erak.
— Não é uma boa ideia, Erak.
Erak ficou intrigado por um momento e então percebeu que seis dos Senshi do Imperador tinham se agachado, suas espadas curvas metade para fora de suas bainhas.
— Ah... sim. Eu vejo. Não gostaria de antagonizar os galos de briga.
Ele se virou e fez um gesto vago na direção do Imperador.
Will deu um passo a frente e por sua vez e o cumprimentou.
— É bom ver você de novo, Chocho-san — o Imperador disse calorosamente. — Arrissan está aqui também?
— Ela está ajudando a princesa com seus preparativos, Lorde Shigeru. Vamos vê-las hoje à noite. Barão Arald organizou um jantar privado para recebê-lo.
Shigeru sorriu.
— Estou ansioso para ver ambas, Chocho.
Atrás dele, Will ouviu Erak pedir ninguém em particular:
— Chocho? O que é esse negócio de Chocho?
Seu tom não deixou nenhuma dúvida de que ele sabia exatamente o que significava
Chocho. Will adivinhou que Gundar deve ter dito a ele em algum momento. O apelido de Will entre os nihon-jin era Chocho, ou borboleta, e o tornou alvo contínuo de diversas piadas no passado. Agora, ele adivinhou, vendo uma luz travessa nos olhos de Erak, que iria começar tudo de novo.
O jantar naquela noite foi uma ocasião feliz, reunindo velhos amigos que não tinham visto um ao outro por muitos meses. Mestre Chubb tinha decidido afirmar o seu domínio e decidiu que iria atender sem a ajuda de Jenny. Tanto quanto admirava a habilidade e ingenuidade de sua ex-aprendiz, de vez em quando ele gostava de lembrar ao mundo sobre quem lhe havia ensinado seu ofício.
O Barão Arald fez uma observação ao final da refeição, soltando seu cinto mais uma casa:
— Esse espírito de competição entre Jenny e Chubb é uma das melhores coisas que já me aconteceu.
O grupo se desfez cedo, com a maioria dos convidados felizes em buscar suas camas.
Duncan foi o anfitrião oficial do jantar, assim foi o último a sair. Quando ele e Cassandra caminharam até a porta do quarto de jantar informal do barão, Will encontrou-se com eles.
— Sua Majestade. Eu poderia ter uma palavra? — Então, vendo que a princesa estava prestes a deixá-los sozinhos, ele acrescentou — por favor, fique, Evanlyn. Isto diz respeito a você também.
Muitos anos atrás, ele havia desistido do esforço de pensar de em velha amiga como Cassandra. Ela tinha sido Evanlyn quando eles se encontraram e seria sempre assim para ele. Eles se sentaram em uma mesa ao lado, em cadeiras confortáveis. Um dos serviçais perguntou se eles gostariam de vinho. Duncan assentiu, mas Will perguntou por café.
— Não posso beber café agora — Duncan murmurou. — Eu ficaria acordado a noite toda.
— Eu não tenho esse problema, Sua Majestade — Will comentou. Em seguida, ele acrescentou, com um toque de um sorriso: — Minha consciência leve me deixa dormir em paz.
Evanlyn bufou de escárnio.
— Se alguma vez houve um arqueiro com uma consciência leve, certamente não foi você, intrigante. Como está indo seu discurso?
Parecia que todos tinham ouvido falar sobre seu discurso original e sua destruição no fogo dos moondarkers.
Will deu de ombros.
— Eu vou trabalhar nele amanhã. Tenho estado um pouco distraído.
— Então, Will — o rei lembrou — o que você quer dizer?
Rapidamente, Will expôs sua investigação sobre a morte de Robard, os comerciantes de lã toscanos e suas suspeitas de que eles possam, de fato, ser genoveses.
Quando terminou, Will percebeu que nem Duncan nem Evanlyn partilhavam de sua preocupação.
— É circunstancial, Will, e as chances são de que todas estas coisas podem ser coincidência. Robard pode muito bem ter se matado em face aos anos de difícil trabalho. E os toscanos poderiam muito bem ser toscanos.
Ele estava prestes a perguntar se o arqueiro havia compartilhado de suas suspeitas com Halt, e se Halt tinha qualquer opinião sobre o assunto. Então percebeu que seria um desserviço para o jovem arqueiro. A opinião de Will é tão válida quanto a de Halt, Duncan percebeu.
Will balançou a cabeça obstinadamente.
— Eu não gosto de coincidências, Sua Majestade.
Duncan assentiu gravemente.
— Ainda assim, elas acontecem, e com mais frequência do que seria de esperar.
— Você tem alguma sugestão quanto ao que podemos fazer, Will? — Evanlyn perguntou.
Ele foi responder, então hesitou.
— Bem, eu acho que nós podemos...
Evanlyn inclinou a cabeça para ele e franziu a testa.
— Você não vai dizer “adiar o casamento” não é? — Ela interrompeu, e ele deu de ombros, impotente.
— Nós vam... — ele começou, mas ela o interrompeu novamente.
— Porque não é definitivamente uma opção. Nós não vamos adiar. Nós não vamos mudar para outro local. Essa não é a forma como fazemos as coisas.
— Will — disse Duncan, em um tom mais raciocínio — nós realmente apreciamos o quanto você se preocupa com a nossa segurança. Mas você tem alguma ideia de quantos alarmes falsos, quantas ameaças à nossa vida nós recebemos a cada ano?
— Não. Eu...
— Deve haver dezenas! — Evanlyn respondeu a ele. Ela olhou para o pai. — Quando foi a mais recente, pai?
Duncan pensou por alguns segundos.
— Pelo o que me lembro, a menos de três semanas. Tivemos relatos de que alguns dos ex-companheiros Morgarath estavam planejando raptar-me enquanto eu estava caçando. Tudo deu em nada, é claro.
— É parte de ser integrante da família real — Evanlyn comunicou Will. — Há sempre esses rumores e suspeitas. A maior parte deles são de longe mais concretas e detalhadas do que este conjunto de circunstâncias que você descobriu. E a grande maioria deles, noventa e nove de cem não dão em nada.
— Como Cassandra diz, é tudo parte de ser Rei — Duncan acrescentou. — Nós temos que viver com isso. Tomamos precauções, é claro, mas não podemos deixar vagos rumores ou coincidências como esta governarem nossas vidas. Se nos curvamos a eles, nunca vamos ter qualquer vida que valesse a pena contar.
— Iríamos ficar trancados em nosso castelo durante todo o dia e noite, como flores de estufa — Evanlyn sorriu para ele. — E você sabe que não é o meu estilo.
Com isso, Will foi forçado a sorrir em troca. Foi um sorriso pálido e pequeno, mas ainda assim um sorriso. A ideia de Evanlyn, ou Cassandra, permanecendo trancada em Castelo Araluen como uma flor frágil em uma estufa era tão totalmente estranho à sua natureza que ele não podia nem pensar.
Duncan colocou uma mão em seu ombro.
— Nós não estamos descontando isso, Will. Nunca ignoramos essas coisas completamente. Mas, como as ameaças ao nosso bem-estar, esta é bem baixa na escala de credibilidade. Fique de olho nas coisas de qualquer forma, e se houver qualquer alteração, qualquer informação adicional, deixe-nos saber.
— E ainda assim não iremos adiar o casamento — Evanlyn reafirmou com firmeza.
Seu pai sorriu para ela, então incluiu Will no sorriso.
— É como ela diz — ele afirmou.

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