26 de janeiro de 2017

Capítulo 3

Eles partiram naquela tarde, após Crowley ter comido. Ele removeu as algemas de dedo dos dois homens e amarrou as mãos de todos os três na frente deles para que pudessem cavalgar com mais facilidade. Ele amarrou seus cavalos juntos e prendeu uma corda a um deles, apenas no caso de os homens ficarem tentados a escapar.
Seu mau humor da manhã tinha passado e ele agora se sentia positivamente alegre enquanto cavalgavam. Halt olhou quando ele começava a assobiar uma alegre melodia.
— O que você está fazendo? — perguntou, franzindo a testa.
Crowley deu de ombros e sorriu para ele.
— Estou de bom humor — explicou.
As sobrancelhas de Halt subiram. Crowley havia notado que o hiberniano parecia usar essa reação facial com bastante frequência.
— Então você está de bom humor. Por que está fazendo esse som estridente?
— Eu estou assobiando. Estou assobiando uma canção alegre.
— Isso não é assobiar. É gritar. Na melhor das hipóteses, é estridente — Halt respondeu.
Crowley virou-se na sela para encará-lo com alguma dignidade.
— Só para constar, meu assobio tem sido amplamente elogiado no feudo de Hogarth.
— Um lugar que deve ser melancólico, se as pessoas consideram este ruído estridente um som musical.
O soldado corpulento com a perna ferida começou a lamentar-se com a dor, interrompendo a sua discussão sobre o que era e o que não era considerada boa música.
Os três soldados estavam andando na frente de Crowley e Halt. Halt instigou seu cavalo para a frente alguns passos para alcançar o homem.
— Primeiro é o som estridente dele, agora é a sua lamentação — disse ele. — Será que estes ruídos não vão parar? Qual é o seu problema?
— Minha perna dói — lamentou o soldado.
— Claro que dói — Halt respondeu — eu transpassei sua perna com uma flecha. Você esperava que não doesse?
O soldado foi pego de surpresa por esta resposta pragmática. Crowley, ouvindo, sorriu para si mesmo. Pelo o que tinha visto de Halt até agora, se o soldado esperasse simpatia, ele estava falando com o homem completamente errado.
— Eu preciso descansar — o homem reclamou. — Este cavalo está sacudindo a minha perna.
— Não — Halt replicou — você precisa se calar. Mas se não pode fazer isso, farei alguma coisa para tirar sua atenção desta perna.
O soldado olhou para ele com medo. Ele estava razoavelmente certo de que Halt não estava propondo aliviar sua dor.
— O que você vai fazer?
— Vou transpassar uma flecha na sua perna boa. Isso vai espalhar a dor pelo corpo.
— Você mataria um homem indefeso? — O soldado encolhia-se na sela, tanto quanto podia, sem perder o equilíbrio e cair.
Halt o encarava de forma constante antes de responder.
— Não esqueça que você ameaçou cortar o nariz do meu amigo enquanto as mãos dele estavam atadas atrás dele. Por isso não é provável que ganhe alguma simpatia de mim.
O soldado abriu a boca para responder, olhou para Halt e fechou-a novamente com um leve audível clop.
Halt, convencido de que ele entendeu o recado, acenou com a cabeça uma vez e freou seu cavalo para voltar a cavalgar ao lado de Crowley mais uma vez.
O arqueiro com cabelos cor de areia sorriu alegremente para ele.
— Então, eu sou seu amigo, não sou? — perguntou.
Halt olhou para frente por alguns segundos antes de responder.
— Contanto que você não comece a assobiar de novo.
Acamparam naquela noite em uma pequena clareira ao lado de um córrego de água limpa e fria. Enquanto Halt desapareceu na floresta com seu arco, Crowley desatou os presos, um por vez, então reamarrou as mãos deles atrás das costas com as algemas de dedo. Sentou-os um ao lado do outro, encostando-os a uma árvore caída. Em cada um dos seus alforjes ele encontrou um cobertor e ele despejou estes sobre os homens.
— Você não vai nos dar algo para comer? — um deles perguntou em um tom ofendido.
Crowley balançou a cabeça.
— Eu temo que não. Uma noite sem comer não vai prejudicá-lo.
Ele derramou água numa taça e deixou-os beber tanto quanto queriam. Quando ele terminou com os homens, acendeu um fogo. Ele tinha algumas batatas em seu kit de cozinha e colocou-as para ferver em uma panela enegrecida. Quando a água começou a borbulhar, Halt reapareceu carregando um coelho gordo, já descascado e limpo.
— Maravilha! — Crowley disse alegremente. — Nada como um coelho fresco para tirar as dores.
O soldado que havia falado anteriormente olhou para cima esperançosamente.
— Podemos...
— Não — Halt e Crowley responderam juntos.
Eles rapidamente cortaram o coelho, jogaram os pedaços na farinha com algumas ervas secas misturadas e então colocaram na manteiga derretida em uma frigideira de ferro sobre o fogo. Conforme as articulações enfarinhadas entraram na manteiga quente e começaram a chiar, Crowley suspirou feliz. Ele gostava de comida.
— É uma maneira muito melhor de preparo do que colocá-lo num espeto sobre o fogo — comentou. — Leva muito tempo para cozinhá-lo dessa maneira.
Quando os pedaços de coelho estavam dourados e cozidos, Crowley acrescentou um monte de verduras na panela, cobrindo-a para que elas murchassem rapidamente. Então ele e Halt desfrutaram sua refeição juntos, sentados um diante do outro perto da fogueira em silêncio sociável. De tempos em tempos, um dos prisioneiros gemia quando o delicioso cheiro de coelho frito temperado chegava até eles. Crowley e Halt ignoraram o som.
Quando eles terminaram a refeição, lamberam os últimos vestígios de manteiga, coelho e batata de seus dedos, em seguida, enxugaram-nos sobre a relva. Crowley fez café e observou quando Halt acrescentou uma grande dose de mel para o seu copo.
— Isto não estraga o gosto? — perguntou ele.
Halt olhou para ele, ponderou a questão, então, respondeu.
— Não.
Crowley sorriu para a resposta de uma palavra.
— Você não fala muito, não é?
Mais uma vez, aqueles olhos escuros se levantaram e se encontraram com os seus.
— Eu digo o que precisa ser dito.
Crowley deu de ombros, bem-humorado.
— Provavelmente uma boa coisa. Tenho tendência a falar demais às vezes.
— Eu notei.
— Isso te incomoda? — Crowley perguntou.
Ele sentiu uma apreciação instintiva para com este estranho escuro e sentiu que Halt pensava o mesmo em troca. Halt encolheu os ombros.
— Te impede de assobiar.
Crowley riu da resposta. Halt manteve uma fachada sombria e séria, mas Crowley podia detectar, no fundo, uma veia de humor impassível no homem.
— Você disse hoje que queria falar sobre alguma coisa — Halt lembrou.
Crowley concordou, reunindo seus pensamentos antes de começar.
— Parece que estamos a partilhar muitas das mesmas habilidades — ele falou. — E as mesmas armas. Eu percebi que você carrega uma faca de caça e uma faca de atirar como as minhas. Gostaria de saber como você as conseguiu.
Crowley, é claro, carregava suas duas facas no cinto de bainha dupla de arqueiro. As de Halt estavam em bainhas separadas, colocadas juntas no lado esquerdo do cinto. Ele olhou para onde o cinturão estava estendido sobre uma rocha ao lado da fogueira.
— O meu mentor me deu. Ele era um arqueiro, como você.
Crowley se surpreendeu com aquele pedaço de informação.
— Um arqueiro? — Repetiu. — Em Hibernia? Qual era o seu nome?
— Ele se chamava Pritchard. Era um homem surpreendente.
— Era, de fato — Crowley afirmou, e agora foi a vez de Halt o olhar surpreso.
— Você o conhecia?
Crowley concordou avidamente.
— Eu fui seu aprendiz por cinco anos. Ele me ensinou tudo o que sei. Como você chegou a conhecê-lo?
— Ele apareceu em Du... Droghela, cerca de três anos atrás. Ele tomou-me sob sua proteção e me ensinou o movimento silencioso, técnicas de faca, rastreamento e o resto. Eu já podia atirar, mas aperfeiçoou um pouco a minha técnica.
Crowley notou a hesitação e correção quando Halt mencionou o nome do lugar onde ele conheceu Pritchard. Mas ele deixou passar.
— Sim. Ele era muito exigente sobre a técnica.
— E a prática — Halt concordou.
Crowley sorriu com a lembrança de seu antigo professor.
— Ele tinha um ditado. “Um arqueiro comum pratica até acertar. Um Arqueiro...
— Pratica até nunca errar — Halt terminou e ambos sorriram.
Eles se sentaram em silêncio por alguns momentos.
— O que aconteceu com ele? — Crowley perguntou. — Ele ainda está em... Droghela, você disse?
Halt balançou a cabeça.
— Ele seguiu em frente. Eu tive alguns contra tempos por lá e fui obrigado a sair. Decidi vir para Araluen e ver se eu poderia contatar um arqueiro – talvez me juntar ao Corpo e completar a minha formação. Pritchard mudou-se para um dos reinos ocidentais em Hibernia. Ele disse que era incapaz de voltar para cá.
Crowley assentiu com tristeza.
— É isso mesmo. Ele foi expulso do país – sob acusações totalmente forjadas, é claro. Mas, infelizmente, isso é o que está acontecendo com o Corpo de Arqueiros nestes dias. Tudo mudou para pior.
— O que você quer dizer? — Halt perguntou. — Você parece muito bem, assim como os arqueiros que Pritchard me falou.
— Eu estou contente de ouvir isso — respondeu Crowley. — Mas as coisas mudaram.
Ele pegou sua aljava. Notou que a pena de duas de suas flechas estavam se soltando e ele começou a repará-las. Halt assistiu-o, depois vasculhou em seu próprio pacote e passou-lhe um molde de penas de flechas.
— Aqui. Utilize isto. Vai facilitar seu trabalho.
— Obrigado — disse Crowley, arrancando as velhas penas do eixo.
Colocou o molde de penas de flechas, que iria segurar o eixo e a nova cauda no local até que a cola estivesse seca e começou a reparar a primeira flecha. Após um minuto ou dois, ele respondeu a pergunta anterior de Halt.
— As coisas mudaram — repetiu ele. — Estes dias, o Corpo de Arqueiros é pouco mais do que um clube de social para beber formado por jovens preguiçosos e nobres. Não há formação, não há aprendizagem. Você compra a sua entrada agora. Eu sou um dos poucos arqueiros remanescentes que foi devidamente treinado. E eles estão tentando me espremer para fora.
— Por que eles fariam isso? — Halt perguntou.
Crowley deu de ombros.
— Acho que eu sou um constrangimento para eles. Eu acabei de ir ao Castelo Araluen apenas para ganhar um tapinha no ombro sobre queixas ridículas. Já aconteceu com os outros antes de mim. Pritchard foi um dos primeiros. Mas, desde então, outros foram expulsos também. Acho que haja talvez apenas uma dúzia de arqueiros devidamente treinados restantes no reino, e estamos muito espalhados.
— Mas por quê? Quem iria querer destruir uma força tão eficaz? O Rei não pode fazer alguma coisa? Vocês são os Arqueiros do Rei, afinal de contas.
Crowley sorriu tristemente.
— O Rei não sabe o que está acontecendo. E quanto a quem iria querer destruir os arqueiros, a resposta é simples. Há um grupo de barões, o Conselho Real, que tem o velho Rei completamente sob sua influência. Ele está doente e senil e não tem ideia do que está acontecendo. Minha opinião é que eles estão planejando para assumir o trono. Eles o fizeram concordar em praticamente exilar o Príncipe Duncan na costa nordeste. O Rei está impotente e estão certificando-se que não haja um grupo coeso que possa apoiar o Príncipe Duncan quando chegar a hora de ele assumir o trono.
— Quem está por trás disso tudo? — Halt perguntou.
Crowley fez um gesto para os três homens amarrados a poucos metros de distância.
— Você vai encontrá-lo amanhã. Eu não posso provar, mas tenho certeza de que é Morgarath.

3 comentários:

  1. Karina, achei um erro aqui na frase:
    "O arqueiro com cabelos COM (TOM) de areia (SORRIU) alegremente para ele."

    ResponderExcluir
  2. KKKK. Agora sei por que o Halt gostava tanto quando o Will não parava de falar e fazer perguntas. kkkk.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)