26 de janeiro de 2017

Capítulo 2

A voz era profunda e confiante, com um distinto sotaque hiberniano.
Crowley virou os olhos na sua direção. O estranho do fundo da sala havia se levantado de sua mesa e aproximava-se deles. Em suas mãos estava um enorme arco, semelhante ao que havia sido tirado de Crowley. Havia uma flecha na corda. Até agora, o estrangeiro não a tinha puxado, mas ele segurava a arma com a tamanha familiaridade que Crowley achava que ele poderia puxar, mirar e atirar no espaço de um batimento cardíaco.
A faca foi retirada do rosto de Crowley e o soldado virou-se e avançou na direção do hiberniano. Instantaneamente, o arco moveu-se e houve um ligeiro raspar de madeira sobre madeira enquanto a flecha era puxada. O soldado viu-se encarando a morte por um fio naquele instante.
— Você não quer me matar — ele falou.
Todo o seu sarcasmo e raiva tinha ido e agora sua voz tinha um tremor que o denunciava. O arqueiro ergueu uma sobrancelha, intrigado. Os outros dois soldados ladearam seu líder. Suas espadas estavam desembainhadas. Crowley podia dizer que eles estavam tentando avaliar suas chances de alcançar o homem e cortá-lo antes que ele pudesse atirar.
— E por que é que você me diria isso? — As palavras saíram com o sotaque hiberniano.
Havia um senso de zombaria divertida por trás dele.
— Eu sou um dos soldados do Barão Morgarath, em missão oficial...
— Você quer dizer que é seu dever embriagar-se e irritar as pessoas em tavernas? — o estranho perguntou ironicamente.
O soldado franziu a testa, não sabendo como responder a essa pergunta. Depois de hesitar um breve momento, ele vociferou:
— Se você me matar, vai ser chicoteado, esfolado e enforcado.
O estranho franziu os lábios, pensativo. Crowley estava avaliando o arco enquanto os dois homens conversavam. A força necessária para tracioná-lo tinha de ser enorme. No entanto, o hiberniano de cabelos escuros já estava segurando ele tracionado por completo por alguns instantes, sem nunca vacilar ou tremer. Crowley se perguntava por quanto tempo ele poderia sustentar esse impasse.
— E qual é a pena se eu te machucar muito? — o estranho perguntou.
Os olhos do soldado reuniram-se em uma carranca de perplexidade.
— O quê...? — ele começou.
Mas naquele instante, o estranho abaixou a mira e atirou na panturrilha esquerda do homem. Ele soltou um grito agudo de choque e dor enquanto a agonia atravessava sua perna. Olhou para baixo aterrorizado ao ver que a flecha tinha atravessado o músculo e a ponta em forma de folha estava saindo pelo outro lado. Sua perna cedeu sob seu peso e ele desabou no chão.
Seus companheiros ficaram chocados com surpresa por um momento. Então eles dispararam para frente. O estranho jogou seu arco para trás e tirou o que parecia ser uma curta e pesada espada debaixo de sua capa. Com uma pitada de surpresa, Crowley a reconheceu como uma faca da caça idêntica a que ele usava na sua cintura. O primeiro soldado atacou-o, mas com o teto baixo da pousada, foi um golpe limitado e ineficaz, com pouco poder por trás dele. O estranho aparou-o de lado facilmente, e como o soldado não encontrou nenhuma resistência, tropeçou para frente. O hiberniano atirou um gancho de esquerda no queixo dele, mandando-o cambaleando de volta para o seu companheiro, a espada caindo de suas mãos.
O segundo homem o amaldiçoou e empurrou seu companheiro de lado, então se moveu para frente, balançando um golpe horizontal contra o hiberniano. Aço tocou no aço quando o hiberniano bloqueou o golpe. Ao mesmo tempo, Crowley sentiu sua própria faca de caça deslizando da bainha. Ele olhou em volta para ver que a garota a tinha sacado e estava cortando a corda que prendia suas mãos.
Novamente, as duas lâminas se tocaram e tintilaram juntas. Crowley assentiu em agradecimentos à menina e pegou o bastão de sacar rolhas de sua mão.
— Obrigado — disse ele.
Ele foi por trás do soldado que estava preparando outro ataque ao hiberniano. O homem de cabelos escuros via seu adversário com um olhar de desdém divertido. Vendo a desajeitada habilidade de espada do soldado, Crowley percebeu que o hiberniano poderia ter simplesmente se movido e impulsionado a sua faca de caça no corpo do homem enquanto desviava da lâmina.
O arqueiro não perdeu mais tempo pensando sobre isso, apenas girou o bastão e bateu contra a parte de trás do crânio do soldado. O soldado deu um grito fraco e seus joelhos fraquejaram. Ele caiu sem sentidos, de bruços, na serragem que estava espalhada pelo chão.
Crowley olhou para cima e encontrou os olhos escuros do desconhecido.
— Obrigado — disse o hiberniano, voltando a faca de caça para sua bainha. Ele acenou para o homem inconsciente no chão entre eles — eu não tinha certeza do que fazer com ele.
Crowley sorriu.
— Tenho certeza que você já tinha pensado em algo. Mas o bastão foi conveniente.
O hiberniano olhou para o pesado saca-rolhas de madeira.
— Um bastão de sacar rolhas, hein? Certamente parou nosso amigo aqui — ele comentou, sem qualquer esboço de um sorriso.
Então ele olhou para onde o seu primeiro atacante estava lentamente se recuperando, arrastando-se sobre as mãos e joelhos para onde sua espada havia caído de uma das mesas. Ele estendeu a mão.
— Posso?
Crowley entregou-lhe o pesado bastão e o estranho passou por cima do homem inconsciente e foi para onde o segundo soldado tinha acabado de pegar o punho de sua espada. O estranho colocou o pé sobre a lâmina, esmagando os dedos do soldado entre o cabo e o chão. Quando o homem gritou de dor, o hiberniano bateu-lhe na cabeça com o bastão. Crowley estremeceu com o impacto enquanto o homem caiu inconsciente no chão.
— Era realmente necessário? — perguntou.
O hiberniano olhou para ele. Novamente, não houve esboço de um sorriso nos olhos escuros.
— Não. Mas foi muito gratificante.
O estrangeiro levou o bastão até onde estava a menina assustada, que tinha visto o processo com os olhos arregalados em descrença.
— Eu acho que nós poderíamos tomar aquela cerveja agora, Glyniss — ele observou.
Ela assentiu com a cabeça sem dizer nada, então se virou e foi para o porão, olhando por cima do ombro enquanto se afastava. Ele fez um movimento suave enxotando-a para apressá-la.
Crowley estendeu a mão direita.
— Obrigado por dar uma mão. Eu sou um pouco afeiçoado a este nariz.
— Há muito para gostar dele — respondeu o estranho, ainda inexpressivamente.
Crowley olhou para o assunto em questão. Ele gostava de pensar em seu nariz como nobre e em forma de falcão. Aquilino, alguém sugeriu uma vez. Em momentos mais honestos, ele admitia que fosse um pouco largo. Ele percebeu que estava de pé, vesgo, a inspecionar o nariz enquanto o outro observava-o com um olhar firme. Ele recuperou a compostura e estendeu a mão.
— De qualquer forma, obrigado. Eu sou Crowley Meratyn, Arqueiro do feudo de Hogarth.
O estranho pegou a mão dele e apertou-a.
— Halt O’Ca... — ele começou, em seguida, se corrigiu. — Halt. Meu nome é Halt. Eu estou viajando.
Crowley não deu nenhum sinal de que ele havia percebido a hesitação. Ele sorriu.
— Acho que você é de hibernia? — perguntou ele, e o estrangeiro assentiu.
— Clonmel. Decidi que era hora de ampliar meus horizontes.
Uma voz fraca do chão os interrompeu.
— Por favor, arqueiro, essa perna está doendo terrivelmente.
Era o soldado corpulento que tinha começado toda a confusão. Ele tinha colocado a si mesmo em uma posição sentada contra uma das pernas da mesa e estava tentando estancar o fluxo de sangue da ferida da flecha na perna.
— Imagino que esteja — disse Crowley. Ele se ajoelhou ao lado do homem, examinando a ferida, então olhou para Halt. — Você irá querer reutilizar esta flecha?
— Não o eixo. Quebre-o. Vou reutilizar a ponta e as penas.
A maneira mais fácil de remover uma flechada através da perna como esta era quebrar a flecha perto do orifício de entrada e puxar o eixo encurtado. A farpa na cabeça da flecha significava que não podia ser retirada por trás, é claro.
Rapidamente, Crowley quebrou o eixo e puxou-o. Ele ignorou o homem choramingar enquanto fazia isso. Uma vez que a flecha estava fora, o sangue fluiu de forma constante tanto da entrada quanto da saída dos ferimentos e ele rapidamente os estancou, limpando com água quente que o estalajadeiro trouxe de uma chaleira pendurada sobre o fogo. Ele enfaixou a perna firmemente, em seguida, lavou as mãos na bacia de água quente e se levantou.
— Isso deve segurá-lo por um tempo.
Ele olhou para os dois companheiros inconscientes do homem, em seguida, ocupou-se em amarrar suas mãos atrás das costas com algemas de dedo. Halt olhava com interesse.
— Elas tem uma ideia útil — ele comentou.
Ele ajudou Crowley a arrastar os dois homens em uma posição sentada, encostada num dos longos bancos.
— Eu estive pensando... — Crowley disse enquanto trabalhavam. — Eu vi a maneira como você se cuidou. Você poderia ter matado os dois sem nenhum problema. E a beleza chorona lá também.
Ele fez um gesto para o soldado ferido, sentado curvado e chorando com dor sobre a perna enfaixada.
Halt encolheu os ombros.
— Eu sou novo no país. Pensei que poderia ser difícil de explicar dois ou três cadáveres para o seu barão. Barões podem ser muito mal-humorados sobre esse tipo de coisa, como eu descobri.
— Isso é verdade. Ainda assim, vou ver o que ele tem a dizer quando eu levar estes três de volta para ele com o meu relatório — Halt levantou uma sobrancelha. — Você vai levá-los de volta a este Barão, Morg... — ele hesitou no nome.
— Morgarath — Crowley o corrigiu. — Sim. Ele é arrogante e prepotente, mas acho que mesmo ele terá de tomar conhecimento de um relatório oficial e reclamação de um Arqueiro do Rei.
— Bem, se você não se importa, eu poderia ir e ajudar você a manter um olho nestes três. Estou interessado em ver que tipo de homem é este Morgarath.
— Eu poderia te dizer — Crowley disse pesadamente — mas provavelmente é melhor você ver por si mesmo. Venha com certeza. O Castelo Gorlan fica a um dia e meio de viagem a partir daqui e há algumas coisas que quero conversar com você.
Halt assentiu.
— Eu vou esperar ansiosamente — disse ele. Então ele se virou quando ouviu a porta do porão raspar abrindo em dobradiças enferrujadas. — E aqui está Glyniss com a nossa cerveja, na hora certa.

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