2 de janeiro de 2017

9

Minha boca tem gosto de morte.
Consigo abrir os olhos e imediatamente sinto a ira do inferno rasgar meu braço direito. Minha mão está enfaixada com tantas camadas de gaze que meus cinco dedos ficaram imóveis e descubro que estou grata por isso. Estou tão exausta que não tenho energia para chorar.
Pisco.
Tento olhar ao redor, mas meu pescoço está muito duro.
Dedos roçam em meu ombro e eu descubro que quero soltar o ar. Pisco de novo. E mais uma vez. O rosto de uma garota entra e sai de foco. Viro a cabeça para ver melhor e pisco pisco pisco um pouco mais.
— Como está se sentindo? — ela sussurra.
— Estou bem — digo para o borrão, mas acho que estou mentindo. — Quem é você?
— Sou eu — ela responde, muito delicada. Mesmo sem vê-la com clareza, sinto gentileza em sua voz. — Sonya.
É claro.
Sara provavelmente está aqui também. Devo estar na ala médica.
— O que aconteceu? — pergunto. — Quanto tempo fiquei dormindo?
Ela não responde e me pergunto se não me ouviu.
— Sonya?
Tento encontrar os olhos dela.
— Há quanto tempo estou dormindo?
— Você ficou muito doente — ela diz. — Seu corpo precisava de tempo...
— Quanto tempo? — minha voz vira um sussurro.
— Três dias.
Imagine um trem a centenas de milhões de quilômetros por hora.
Agora, imagine-o atingindo sua cara.
Eu me sento bem ereta e sei que vou enjoar.
Por sorte, Sonya teve a precaução de prever minhas necessidades. Um balde aparece bem a tempo de eu esvaziar o escasso conteúdo de meu estômago nele; depois, tenho ânsias e estou usando algo que não é meu traje, mas um tipo de camisola de hospital, e alguém está passando um pano quente e úmido pelo meu rosto. O vapor é tão quente e reconfortante que, por um instante, esqueço a dor o suficiente para perceber que há outra pessoa na sala conosco.
Sonya e Sara estão pairando sobre mim, os panos quentes em suas mãos, limpando meus braços e minhas pernas despidos, fazendo sons tranquilizadores e dizendo que ficarei bem, que preciso apenas descansar, enfim estou acordada por tempo suficiente para comer algo, não devo me preocupar, pois não há nada com que se preocupar e elas vão cuidar de mim.
Mas eu passo a prestar mais atenção.
Percebo as mãos delas, cuidadosamente cobertas por luvas de látex; percebo a medicação intravenosa presa ao meu braço; percebo a maneira apressada, mas cautelosa, como se aproximam de mim e, então, percebo o problema.
As curandeiras não podem tocar em mim.

7 comentários:

  1. Só eu que não estou entendendo mais nada?

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  2. Eu tbm não, ela já não sabia que as curandeiras não podem tocar nela?!!

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  3. Eu que o problema talves é que as curandeiras ñ podem curar a Juliette sem tocar nela

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  4. Espero q vc fique bem logo Juju e é óbvio q elas não podem tocar em vc -_-

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  5. Que capítulo curto.Esse livro tá ficando sem nequeso.
    Mas mesmo assim ainda gosto do livro.

    Warner meu lindo,top,meu tudo.😍😍😍😍😘😘

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  6. As curandeiros curam rápido as pessoas, porém tem que por as mãos na pessoa.
    E como Ju não pode ser tocada está se curando por si própria, ou seja, devagar

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Boa leitura :)