6 de janeiro de 2017

7

Eu caio para trás na cama.
Faço um barulho irritado bem no fundo da garganta. Lanço um travesseiro na parede.
Preciso fazer alguma coisa. Preciso começar a me mexer.
Preciso terminar de bolar um plano.
Estive na defensiva e fugindo por tanto tempo que minha cabeça frequentemente esteve ocupada com sonhos elaborados e impossíveis sobre derrubar O Restabelecimento. Passei a maior parte dos meus 264 dias naquela cela fantasiando exatamente sobre esse tipo de momento impossível: o dia em que eu conseguiria cuspir na cara daqueles que me oprimiram e oprimiram todos logo além de minha janela. E, apesar de eu ter sonhado com um milhão de cenários diferentes em que eu me defenderia, nunca pensei de verdade que teria uma chance de fazer isso acontecer. Eu nunca pensei que teria o poder, a oportunidade ou a coragem.
Mas agora?
Todos se foram.
Talvez eu seja a única que restou.
No Ponto Ômega, eu ficava feliz em deixar Castle liderar. Eu não sabia muito sobre nada e ainda estava muito assustada para agir. Castle já estava no comando e já tinha um plano e, assim, eu confiei que ele era o que mais sabia; que eles sabiam mais.
Um erro.
Eu sempre soube, bem lá no fundo, quem deveria liderar aquela resistência. Eu sinto em segredo há algum tempo, sempre com muito medo para levar as palavras a meus lábios. Alguém que não tem mais nada a perder e tudo a ganhar. Alguém que não tem mais medo de ninguém.
Não Castle. Não Kenji. Não Adam. Nem mesmo Warner.
Deveria ser eu.

Olho com atenção minha roupa pela primeira vez e percebo que devo estar usando uma das roupas antigas de Warner. Estou me afogando em uma camiseta laranja desbotada e uma calça de moletom cinza que quase cai de meus quadris sempre que fico em pé. Tiro um instante para recuperar o equilíbrio, testando meu peso todo no tapete grosso e macio sob meus pés descalços. Eu enrolo a cintura da calça algumas vezes, só até ela se acomodar bem ao meu osso do quadril, e, depois, eu enrolo para cima o material extra da camiseta e dou um nó atrás. Estou vagamente ciente de que devo parecer ridícula, mas fazer a roupa caber no meu corpo me dá um pouco de controle, e eu me agarro a ele. Isso me faz sentir um pouco mais acordada, um pouco mais no controle de minha situação.
Tudo de que preciso agora é um elástico. Meu cabelo é muito pesado; começou a parecer que está me sufocando, e estou desesperada para tirá-lo do pescoço. Estou desesperada para tomar um banho, na verdade.
Viro-me com o barulho da porta.
Sou pega no meio de um pensamento, segurando meu cabelo para cima com as duas mãos em um rabo de cavalo de mentira e, de repente, precisamente ciente do fato de não estar usando roupa de baixo.
Warner está segurando uma bandeja.
Ele está me olhando sem piscar. Seu olhar varre meu rosto, desce pelo meu pescoço, meus braços.
Para na minha cintura. Sigo seus olhos e percebo que meus movimentos ergueram a blusa e expuseram minha barriga. E, de repente, eu entendo por que ele está encarando.
A lembrança de seus beijos pelo meu torso. Suas mãos explorando minhas costas, minhas pernas nuas, a parte de trás de minhas coxas, seus dedos prendendo-se em volta do elástico de minha roupa de baixo...
Ah
Baixo as mãos e o cabelo ao mesmo tempo, as ondas castanhas caindo depressa e com força em volta de meus ombros, minhas costas, atingindo minha cintura. Meu rosto pega fogo.
Warner de repente está muito interessado em um ponto acima da minha cabeça.
— Provavelmente, eu deveria cortar o cabelo — eu digo para ninguém em especial, sem entender por que falei isso.
Não quero cortar o cabelo. Quero me trancar no banheiro.
Ele não responde. Carrega a bandeja até mais perto da cama e é apenas quando vejo os copos de água e os pratos de comida que percebo exatamente quão faminta estou. Não consigo me lembrar da última vez em que comi alguma coisa; eu estava sobrevivendo com a recarga de energia que recebi quando meu ferimento foi curado.
— Sente-se — ele diz, sem me olhar nos olhos.
Ele assente e olha para o chão antes de se agachar no tapete. Eu me sento diante dele. Ele empurra a bandeja em frente a mim.
— Obrigada — digo, meus olhos focados na refeição. — Parece delicioso.
Há salada com molho e arroz colorido e cheiroso. Batatas temperadas cortadas em cubos e uma pequena porção de legumes preparados no vapor. Um ramequin com pudim de chocolate. Uma tigela de frutas recém-cortadas. Dois copos de água.
É uma refeição que eu teria desprezado quando cheguei.
Se soubesse na época o que sei agora, eu teria tirado vantagem de cada oportunidade que Warner me dera. Eu teria comido as refeições e pegado as roupas. Eu teria aumentado minha força e prestado mais atenção quando ele me exibisse pela base. Eu teria procurado rotas de fuga e desculpas para passear pelos aglomerados. E, depois, teria fugido. Eu teria encontrado uma maneira de sobreviver sozinha. E nunca teria arrastado Adam comigo. Nunca teria me colocado e colocado tantos outros nessa bagunça.
Eu queria ter comido as estúpidas refeições.
Eu era uma menina assustada e despedaçada, lutando da única maneira que sabia. Não é de se admirar que eu tenha falhado. Eu não estava pensando direito. Eu estava fraca e aterrorizada e cega para a ideia de possibilidade. Não tinha experiência com ações furtivas e manipulação. Eu mal sabia como interagir com as pessoas; mal podia entender as palavras em minha própria cabeça.
Fico chocada ao pensar no quanto mudei nos últimos meses. Sinto-me uma pessoa totalmente diferente. Mais esperta, de alguma forma. Mais endurecida, com certeza. E, pela primeira vez na vida, disposta a admitir que estou brava.
É libertador.
Levanto o olhar de repente, sentindo o peso da observação de Warner. Ele está me encarando como se estivesse intrigado, fascinado.
— No que você está pensando? — pergunta.
Apunhalo um pedaço de batata com o garfo.
— Estou pensando que fui idiota por um dia ter recusado um prato de comida quente.
Ele levanta as sobrancelhas para mim.
— Não posso dizer que discordo.
Lanço um olhar feio para ele.
— Você estava muito destruída quando chegou aqui — ele diz, respirando fundo. — Eu estava muito confuso. Ficava esperando que você enlouquecesse, pulasse na mesa no jantar e começar a acertar os meus soldados. Eu tinha certeza de que você tentaria matar todo mundo e, em vez disso, você foi teimosa e mal-humorada, recusou-se a trocar suas roupas imundas e reclamou de comer os legumes.
Eu fico cor-de-rosa.
— No começo — ele fala, rindo — pensei que você estivesse tramando alguma coisa. Pensei que você estivesse fingindo ser complacente apenas para me distrair de um objetivo maior. Achei que sua braveza por coisas pequenas fosse uma distração — ele conta, seus olhos fazendo piada de mim. — Achei que tinha de ser.
Cruzo os braços contra o peito.
— A extravagância era nojenta. Tanto dinheiro desperdiçado no exército enquanto outras pessoas morriam de fome.
Warner balança uma mão, negando com a cabeça.
— Não é essa a questão. A questão é que eu não lhe forneci nenhuma daquelas coisas por um motivo calculado e escuso. Não era um tipo de teste.
Ele ri.
— Eu não estava tentando desafiá-la e desafiar seus escrúpulos. Eu achava que estava fazendo um favor a você. Você tinha vindo de um buraco nojento e miserável. Eu queria que tivesse um colchão de verdade. Pudesse tomar banho em paz. Tivesse roupas bonitas e limpas. E você precisava comer — ele diz. — Tinha passado fome até quase morrer.
Eu fico rígida, um pouco menos brava.
— Talvez — falo. — Mas você era louco. Era um maníaco controlador. Nem me deixava falar com os outros soldados.
— Porque eles são animais — ele dispara, a voz inesperadamente cortante.
Levanto o olhar, pasma, e encontro seus olhos verdes bravos e faiscantes.
— Você, que passou a maior parte da sua vida presa — ele continua — não teve a oportunidade de entender quão linda é, ou que tipo de efeito isso pode causar em uma pessoa. Eu estava preocupado com a sua segurança — ele conta. — Você era tímida e fraca e vivia em uma base militar cheia de soldados solitários, muito armados e imbecis com três vezes o seu tamanho. Eu não queria que eles a assediassem. Fiz um espetáculo com a sua demonstração com o Jenkins porque queria que eles tivessem a prova das suas habilidades. Precisava que eles vissem que você era uma oponente formidável; uma de quem eles fariam bem em manter a distância. Eu estava tentando protegê-la.
Não consigo desviar da intensidade nos olhos dele.
— Você deve ter uma opinião ruim a meu respeito.
Ele faz que não com a cabeça, em choque.
— Eu não fazia ideia de que você me odiava tanto. Que tudo o que eu tentei fazer para ajudá-la tinha de passar por um exame minucioso.
— Como você pode estar surpreso? Que escolha eu tinha a não ser esperar o pior de você? Você era arrogante e grosseiro e me tratava como se fosse meu dono...
— Porque eu precisava! — ele me interrompe, sem arrependimento. — Todas as minhas ações, todas as minhas palavras, são monitoradas quando não estou confinado nos meus próprios aposentos. Minha vida toda depende de manter um certo tipo de personalidade.
— E quanto ao soldado que você acertou com um tiro na testa? Seamus Fletcher? — eu o desafio, brava de novo.
Agora que eu a deixei entrar na minha vida, estou percebendo que a raiva é um pouco natural demais para mim.
— Aquilo foi tudo parte do seu plano também? Não, espere, não me conte. — Eu levanto uma mão. — Foi só uma simulação, certo?
Warner fica rígido.
Ele se senta; seu maxilar se contrai de repente. Olha para mim com um misto de tristeza e ira nos olhos.
— Não — diz enfim, mortalmente suave. — Aquilo não foi uma simulação.
— Então você não tem problema com isso? — pergunto a ele. — Você não se arrepende de ter matado um homem porque ele roubou um pouco de comida a mais? Por tentar sobreviver, como você?
Warner morde o lábio inferior por meio segundo. Une as mãos no colo.
— Uau. Como você foi rápida para defendê-lo.
— Ele era um homem inocente — digo a ele. — Não merecia morrer. Não por isso. Não daquele jeito.
— Seamus Fletcher — Warner fala com calma, olhando para a palma de suas mãos abertas — era um imbecil alcoólatra que estava batendo na esposa e nos filhos. Ele não os alimentava fazia duas semanas. Ele deu um soco na boca da filha de nove anos, quebrando os dois dentes da frente e fraturando o maxilar dela. Ele bateu na esposa grávida com tanta força que ela perdeu o bebê. Ele tinha outros dois filhos também — diz. — Um menino de sete anos e uma menina de cinco.
Uma pausa.
— Quebrou os dois braços deles.
Minha comida está esquecida.
— Eu monitoro a vida dos nossos cidadãos com muita atenção — Warner fala. — Gosto de saber quem eles são e como estão se fortalecendo.
Ele encolhe os ombros.
— Eu provavelmente não deveria me importar — diz —, mas me importo.
E eu estou pensando que nunca mais vou abrir a boca.
— Eu nunca aleguei que vivo com base em nenhum conjunto de princípios — Warner me diz. — Nunca aleguei que sou correto, bom, nem justifiquei minhas atitudes. A verdade simples é que não me importo. Eu fui forçado a fazer coisas terríveis na vida, amor, e não estou buscando nem o seu perdão nem a sua aprovação. Porque eu não tenho o luxo de filosofar sobre escrúpulos quando estou sendo forçado a agir movido por instintos básicos todos os dias.
Ele me olha nos olhos.
— Pode me julgar — afirma — o quanto quiser. Mas eu não tolero — ele diz, seco — um homem que bate na esposa. Nenhuma tolerância — fala — com um homem que bate nos filhos.
Ele está com a respiração acelerada agora.
— Seamus Fletcher estava matando a família. E você pode chamar do que quiser, diabos, mas eu nunca vou me arrepender de matar um homem capaz de bater o rosto da esposa contra uma parede. Nunca vou me arrepender de matar um homem capaz de dar um soco na boca da filha de nove anos. Não me sinto mal — declara. — E não vou pedir desculpas. Porque uma criança está melhor sem pai, e uma mulher está melhor sem marido, do que com um como aquele.
Observo o movimento duro da sua garganta.
— Eu sei bem.
— Sinto muito... Warner, eu...
Ele levanta uma mão para me fazer parar. Recompõe-se, os olhos focados nos pratos de comida intocada.
— Já falei, amor, e fico triste de ter de repetir, mas você não entende as escolhas que tenho de fazer. Você não sabe o que já vi e o que sou forçado a testemunhar todo santo dia.
Ele hesita.
— E eu não iria querer que você soubesse. Mas não suponha que entende minhas ações — ele diz, enfim olhando-me nos olhos. — Porque, se fizer isso, posso garantir que só vai encontrar decepções. E, se insistir em continuar a fazer suposições quanto ao meu caráter, dou apenas este conselho: presuma que sempre vai estar errada.
Ele se levanta com uma elegância casual que me assombra. Alisa a calça. Puxa as mangas para trás de novo.
— Fiz seu guarda-roupa ser trazido para o meu closet — conta. — Há coisas para você vestir, se quiser. A cama e o banheiro são seus. Tenho trabalho a fazer — fala. — Vou dormir no meu escritório hoje.
E, com isso, ele abre a porta para o escritório anexo e tranca-se lá dentro.

8 comentários:

  1. A cada capítulo o Warner me surpreende mais :o

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  2. Uou! Tô no chão com esse capítulo...

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  3. nossa! fiquei surpreso com esse cap.

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  4. Mais um capítulo em q eu me derreti pelo Warner e mais um em q ele me surpreende, sempre acreditei q ele não era tão cruel, mas mesmo assim, pra mim o Warner é perfeito a sua maneira e cada vez me apaixono mais por ele *-* meu namorado q me perdoe, mas quero um Warner em minha vida *-*

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  5. Warner... EU TE AMO!!! Tava esperando isso desde o momento que ele contou sobre esse fato em Destrua-me

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  6. WARNER É SUPER HUMANO, GENTE BOA.
    NÃO É RUIM COMO VOCÊ ACHA, JUJU! ENTENDA!
    AGARRA ELE!
    A CADA CAPÍTULO ME SURPREENDO MAIS.
    #TeamWarner #FoiMalAdamEAindaTEAMO
    ~polly~

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  7. Vrááàá, acoooooorda preguicinha, bota a cara no sol mona, suspende as férias do tico e teco, afff como é lentinha.

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  8. Que forçada da autora pra transformar o vilão em bonzinho, hein?

    j.

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Boa leitura :)