26 de janeiro de 2017

Capítulo 7

Will recuperou seu equilíbrio e a faca de caça pareceu saltar da bainha para sua mão.
Ele virou de forma que ficou de costas para o fogo e fez um balanço de seu atacante.
Grande, poderoso e inesperadamente leve em seus passos. O homem acompanhou os movimentos de Will rapidamente, nunca perdendo o equilíbrio. Entre eles, um machado de batalha de lâmina única se mexia de um lado para o outro. Sem aviso, o homem balançou o machado de cabo longo assobiando em um arco mortal. Will saltou para trás, evitando por pouco a enorme lâmina. Então, quando ele tentou se aproximar, entrando no alcance do machado, seu atacante reverteu o ataque com incrível velocidade, balançando a parte cega do machado na direção ele como uma pesada clava de metal ou um martelo de guerra, fazendo-o saltar para fora do caminho mais uma vez.
O segundo salto o levou para longe da fogueira. Ele pensou num ataque usando a faca de caça, mas viu o quão rápido era seu adversário.
As chances eram de que ele desviasse a faca, deixando Will sem armas, além de sua pequena faca de atirar. Arremessar a faca de caça seria sua última opção, ele decidiu.
Ele se afastou, os olhos na cabeça do machado conforme ela refletia as luzes da fogueira, brilhando amarela. Ele tinha que voltar para a fogueira e jogar o corante nela. Mas seu constante movimento significava que o homem agora estava entre ele e o fogo.
Ele pensou em pegar sua faca de arremesso e usar as duas facas juntas. Então teve uma memória repentina de um tempo em Céltica, muitos anos antes, quando Horace consultou Gilan sobre as táticas certas para usar contra um homem armado com um machado.
— Eu não aconselho ninguém a enfrentar um machado de batalha com apenas duas facas — Gilan havia respondido a ele.
Will relembrou que essa sessão de treino acabou com Gilan sugerindo que talvez a melhor tática fosse pular de um penhasco.
Pelo menos tem um deles por perto, ele pensou.
O homem inesperadamente atacou de novo. Instintivamente, Will utilizou a faca de caça para aparar o golpe. Mas a defesa foi fraca e o homem, com incrível força no punho, girou o machado e atingiu a faca saxônica diretamente no meio da lâmina. Houve um tinido e a força do golpe tirou a grande faca do aperto de Will, enviando-a voando pelo penhasco, a luz do fogo cintilando enquanto girava.
No último momento, Will conseguiu evitar um acidente vascular cerebral com outro salto desesperado.
Ele estava mais longe do que nunca do farol agora. Ele não tinha tempo para olhar e ver quão perto o navio podia estar. Esse homem era bom demais, muito rápido.
De alguma maneira, ele tinha que neutralizar esse machado de enorme alcance.
Por um momento, ele pensou em chamar Puxão. Então ele parou. O longo machado era feito para soldados a pé usarem contra guerreiros cavaleiros montados – mais especificamente contra seus cavalos. Puxão viria correndo para salvá-lo, e a probabilidade era de que ele fosse morto ou mutilado por um golpe desse machado.
Uma ideia surgiu. Ele deslizou o arco longo de seu ombro, mantendo-o em pé em sua mão direita, abaixo da empunhadura.
— Então está planejando atirar em mim?
O homem sorriu para ele. No minuto em que Will alcançasse uma flecha, o machado iria rasga-lo do ombro ao peito, e ambos sabiam disso.
Will se arrastou para a sua esquerda, fazendo seu caminho de volta a fogueira. O homem o atacou várias vezes e Will dançou para fora de seu alcance em todas elas. Mas em cada ocasião, ele corrigia seu trajeto para se aproximar da fogueira.
Ele escorregou sua bolsa do outro ombro, segurando-a pela alça, balançando para trás e para frente, ameaçando o homem do machado com ela. Os olhos do homem se estreitaram cautelosamente conforme assistia.
Então Will virou-a sobre sua mão, fazendo com que a alça batesse na beirada da cesta de ferro e a bolsa começasse a pegar fogo. Esse era um movimento totalmente inesperado, e o homem, esperando que Will jogasse a bolsa em sua cabeça ou rosto como uma arma, não conseguiu parar seus olhos de seguir o movimento. Ele estava distraído não mais que uma fração de segundos, mais isso foi o suficiente. Will deu um passo adiante e atirou a ponta do arco na cabeça do machado, prendendo a arma num espaço estreito entre o arco e a corda esticada.
A corda era uma corda só no nome. Era um cordão forte criado para lidar com o peso de tração do arco longo. Will puxou o arco para baixo. Seu oponente tentou puxar e soltar sua arma, e por um momento eles lutaram. Will tinha o arco em sua mão direita, o que tornou estranho puxar sua faca de arremesso. Ele procurou em seu bolso e encontrou um striker, trazendo-o para fora e fechando sua mão esquerda em volta do pesado latão.
O homem ainda estava empurrando e puxando o machado, girando com intenção de arranjar sua liberdade do tênue aperto do arco e corda. Will sabia que ele tinha apenas segundos para agir. A qualquer momento agora, o arco ou a corda iriam quebrar.
WHOOOOFFFF!
Uma imensa explosão surgiu na fornalha. Um pilar de chamas cegante, roxo vivo alcançou sete metros no ar.
— O quê...?
O homem do machado levantou seu braço livre num movimento instintivo para se proteger da explosão repentina. Quando ele se virou em direção ao farol, em choque, sua mandíbula do lado direito ficou exposta e Will balançou o striker o mais forte que podia, um giro de braço nada sofisticado que fez com que o cilindro atingisse com tudo na mandíbula do homem – num ponto onde os nervos são conectados ao cérebro. Will sentiu o aperto no machado sumir de repente até ele cair das mãos do homem para a grama, arrastando junto arco. Um segundo depois, seu oponente acertou o chão, seus olhos girando nas órbitas, os membros soltos e seu corpo dobrando como uma boneca de pano.
Will cambaleou para longe da fogueira. Finos grãos de cinzas roxas caíram do noturno céu escuro e o cobriram. Protegendo seus olhos das chamas, ele olhou par ao mar. O navio tinha partido e estava ganhando distância da praia, seguindo para águas seguras mais uma vez.
E agora, pela primeira vez, ele ficou consciente das vozes gritando na praia e o tinido do encontro de armas. Ele virou e olhou. Havia uma grande multidão de homens visíveis à luz dos fogos e lanternas – muito mais que o número original de moondarkers. Eles estavam lutando e combatendo uns aos outros, mas, como ele percebeu, a luta cessou e era óbvio que um grupo tinha ganhado vantagem na briga.
Os outros iam sendo compelidos a sentarem na praia, suas mãos atrás da cabeça, sob guarda pesada. Will não ficou surpreso ao ver uma familiar figura camuflada caminhando entre o grupo vitorioso, apontando e gritando ordens.
Will se moveu até a figura inclinada do homem do machado, que estava começando a se mexer agora. Ele o rolou sobre sua barriga e rapidamente prendeu seus polegares atrás das costas com algemas de couro. Então caiu exausto na grama para esperar por Halt.


Eles voltaram cavalgando para casa alguns dias depois. Halt permitiu a si mesmo um dos seus raros sorrisos. O chefe dos moondarkers foi capturado, com o auxílio da cidade de Hambley. Dois dos sabotadores conseguiram escapar na confusão da praia, mas os outros quatorze estavam seguros. O mais importante, o homem alto barbudo, seu líder, era um dos prisioneiros.
Halt e Will os escoltaram, presos juntos com correntes e com as mãos algemadas, até a guarnição do castelo mais próximo, onde o lorde local foi designado para achar um local para eles na masmorra.
Eles seriam julgados no próximo distrito. Com o testemunho jurado de Will e Halt anotado pela secretaria do lorde do castelo, não havia dúvida de que eles seriam condenados.
Apesar de tudo, foi um bom resultado. No entanto, Halt notou que seu jovem amigo não parecia compartilhar de sua satisfação.
— Porque está com essa cara? — ele perguntou.
Will virou para ele mal humorado.
— Não comece. Eu já tive o suficiente de Puxão.
Eu digo isso melhor do que ele.
— Mesmo assim — disse Halt, parecendo não notar a interrupção de Puxão — foi uma boa operação. Nós pegamos os moonwalkers, capturamos seu líder e salvamos um navio e sua tripulação. Você deveria estar feliz.
— Eu arruinei meu arco na luta. A parte de cima está destruída, nunca mais vai atirar em linha reta novamente.
Halt sorriu.
— Você sempre pode trocar o arco — ele replicou. — Não posso dizer o mesmo da sua cabeça
— Era o meu arco favorito — Will falou.
Halt levantou uma sobrancelha.
— Bem, isso faz dele muito mais valioso que sua cabeça, eu suponho.
Will suspirou.
— Eu suponho que você esteja certo — ele disse. — Eu sempre posso fazer outro arco. Mas tem mais uma coisa...
Ele parou e Halt se virou para ele, franzindo o cenho, imaginando o que havia em sua cabeça. Ele notou que desde a luta com o homem do machado no penhasco, seu jovem amigo tinha perdido um pouco da sua normal exuberância. Will contou pouco sobre o confronto e Halt imaginou que foi pior do que ele deixou parecer. Talvez a luta tenha abalado sua confiança, ele pensou.
— Mais uma coisa? — ele repetiu.
Se Will estava tendo uma reação à luta contra o moonwalker, seria melhor para ele colocar pra fora que manter preso dentro dele.
— Eu esqueci... — Will disse miseravelmente — quando eu joguei minha bolsa no fogo, esqueci que meu discurso estava lá.
Halt levou alguns segundos para reconhecer a grande importância da tragédia. Então ele falou muito deliberadamente.
— Você jogou sua bolsa no fogo?
Will concordou com a cabeça, deprimido.
— Sim
— E... eu estou certo em assumir que aquela era a única cópia do discurso?
— Sim.
Uma longa pausa.
— Você fez algumas notas, não fez?
— Bem, sim. Eu fiz. Muitas delas, na verdade.
— Ah, eu vejo.
— Mas... elas estavam na bolsa também — Will balançou sua cabeça e virou para Halt — Halt, era um discurso tão bom! Eu vim trabalhando nele por semanas, você sabe.
— Eu sei — Halt concordou.
Ele estava se esforçando muito para manter a voz descompromissada.
Eles cavalgaram em silêncio por vários minutos. Então, experimentalmente, Halt abriu o assunto mais uma vez.
— Existe alguma chance de você se lembrar de alguma coisa? — ele perguntou.
Will balançou sua cabeça.
— Nenhuma palavra. Eu venho tentando desde então. Mas eu não consigo me lembrar de nenhuma palavra.
— Você sabe, Will, um grande discurso costuma ser bastante memorável — Halt disse cuidadosamente.
Ele estava em terreno delicado aqui. Antes, ele já havia discutido o discurso com Will, e Pauline o repreendera por sua falta de sensibilidade.
— Eu suponho que sim — Will concordou.
— Então, o fato de você não lembrar nenhuma palavra do discurso não diz nada a você?
Will franziu a testa. Esse pensamento não tinha ocorrido a ele e ele não sabia se importava de examiná-lo.
— Você está dizendo que talvez não fosse um grande discurso?
— Não, você está dizendo isso. Deixe colocar de outra maneira. Pra quem é esse discurso?
Não estava exatamente correto, mas Halt tinha o hábito de ignorar a boa gramatica em nome da concisão e da clareza.
— Quem? Bem, é para...
Mas antes que ele respondesse, Halt o interrompeu.
— É para o Rei, para o barão ou para as centenas de convidados que sem dúvida estarão presentes?
— Não.
— É para algum historiador do futuro, que folheará os registros e encontrará uma nota do casamento?
— Não.
— Então pra quem?
Will se mexeu desconfortavelmente em sua sela. Ele podia ver onde Halt queria chegar.
— Eu suponho que seja para Horace e Evanlyn.
— Você supõe?
— Eu sei. É para Horace e Evanlyn.
Havia um tom de certeza em sua voz.
Halt concordou com a cabeça.
— E o que você quer dizer a eles?
— Eu não sei... eu acho que eu queira dizer isso... eu amo os dois. Eles são dois dos meus amigos mais antigos e queridos. Por isso eu não consigo pensar numa combinação mais perfeita do que eles dois.
— Por que não?
— Porque ambos são bravos, leais e totalmente honestos. Eles são simplesmente perfeitamente adequados um ao outro. Ela é brilhante, cheia de vida e engraçada. Ele é firme e totalmente confiável. E é engraçado do seu próprio jeito. Eu confiaria minha vida aos dois sem qualquer hesitação. Eu já fiz isso no passado.
Ele parou, pensando, ouvindo suas próprias palavras e seus verdadeiros pensamentos pela primeira vez, livre de quaisquer enfeites e frases exageradas.
— Mais alguma coisa?
— Eu não sei... Sim. Mais uma coisa. Eu quero que eles saibam que sempre que precisarem de mim, se eles precisarem me chamar, eu estarei lá, não importa o que seja.
— Isso é o que você quer dizer? — Halt perguntou.
Will parou, e então concordou.
— Sim.
Definitivamente havia um senso de propósito sobre ele agora, e Halt estava feliz em ver isso.
— E você acha que é isso que eles querem ouvir?
— Sim. Sim, eu acho.
Halt puxou as rédeas e Will fez Puxão parar ao seu lado. Eles deram um quarto de volta na sela, se encarando, e Halt estendeu as mãos e levantou as sobrancelhas.
— Muito bem, Will, isso é tudo que você precisa dizer.
Devagar, um sorriso magoado se abriu no rosto de Will.
— Esse discurso que eu escrevi — ele disse. — Era muito ruim, não era?
— Era terrível — Halt confirmou, então ele não pôde resistir em adicionar — e eu posso dizer isso com o coração sobejando.
Will estremeceu quando a memória da frase voltou pra ele.
— Eu realmente escrevi isso — ele lembrou.
Halt confirmou com a cabeça.
— Oh sim. Você escreveu isso.
Ele estalou a língua e Puxão começou a trotar pela estrada de novo. Halt pediu a Abelard que os seguissem. O arqueiro de barba grisalha os alcançou e cavalgaram lado a lado por centenas de metros em silêncio mais uma vez.
Então Halt disse interrogativamente:
— Eu não sabia que seu discurso estava na mochila. Mas isso não explica sobre uma coisa que eu venho pensado... — ele deixou a questão suspensa, inacabada, então Will teve que fazer a pergunta.
— E o que foi?
— Porque as chamas viraram roxas. Não era a tintura. Era o discurso.
— E eu suponho que você vai contar a todos sobre isso, não vai? — Will perguntou.
Halt virou um sorriso inocente para ele.
— É claro que vou — concordou.

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