6 de janeiro de 2017

77

Os aglomerados são lugares tão desolados e estéreis, eu penso ao passar por eles. Eles têm de ser os primeiros a sumir. Nossos lares devem ser reconstruídos. Restaurados.
Precisamos começar de novo.
Eu escalo a lateral de uma das pequenas casas de um aglomerado. Subo pelo segundo andar também. Estendo a mão para cima, agarrando o telhado, e me puxo. Chuto os painéis solares para o chão e me firmo no topo, bem no meio, enquanto olho para a multidão.
Procurando rostos conhecidos.
Esperando que eles me vejam e venham para cá.
Esperando.
Fico em pé no telhado desta casa pelo que parecem dias, meses, anos e não vejo nada além dos rostos dos soldados e de suas famílias. Nenhum dos meus amigos.
Eu me sinto balançar, a tontura ameaçando me dominar, meus batimentos acelerados e fortes. Estou pronta para desistir. Fiquei aqui tempo o bastante para as pessoas apontarem, para meu rosto ser reconhecido, para que se espalhasse a notícia de que estou aqui, esperando alguma coisa. Alguém.
Qualquer um.
Estou prestes a mergulhar de volta na multidão para procurar os corpos caídos deles quando a esperança agarra meu coração.
Um a um, eles emergem, de todos os cantos do campo, bem de dentro das casernas, do outro lado dos aglomerados. Sangrando e machucados. Adam, Alia, Castle, Ian, Brendan e Winston, cada um abre caminho até mim, mas viram-se e esperam os outros chegarem. Winston está chorando bastante.
Sonya e Sara estão arrastando Kenji para fora das casernas, pequenos passos empurrando-o para frente. Vejo que seus olhos estão abertos agora, apenas um pouco. Kenji teimoso, teimoso. É claro que ele está acordado quando deveria estar dormindo.
James vem correndo na direção deles.
Ele bate contra Adam, agarrando-se às suas pernas, e Adam levanta o irmãozinho, pega-o nos braços, sorrindo como eu nunca o vi sorrir antes. Castle acena para mim com um movimento da cabeça, sorrindo muito. Lily me manda um beijo. Ian faz um movimento estranho como uma arma com os dedos e Brendan acena. Alia nunca pareceu mais radiante.
Estou olhando para eles, meu sorriso firme, seguro nos lábios por nada além de pura força de vontade. Ainda estou olhando, esperando meu último amigo aparecer. Esperando que ele nos encontre.
Mas ele não está aqui.
Estou passando os olhos pelas centenas de pessoas espalhadas por este terreno gelado, gelado e não o vejo, em nenhum lugar, e o terror deste momento me golpeia no estômago até eu estar sem fôlego e sem esperança, piscando depressa e tentando me manter firme.
O telhado de metal sob meus pés está balançando.
Eu me viro na direção do som, o coração acelerado, e vejo uma mão alcançar o topo.

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