6 de janeiro de 2017

75

Eu enfio a arma de volta no coldre. Ando até a forma mole, ainda respirando, de Kenji, e o jogo por cima do meu ombro.
Chuto e derrubo a porta.
Volto diretamente pelo corredor.
Dou um chute para entrar no quarto de Sonya e Sara e deixo Kenji cair na cama.
— Consertem-no — digo, mal respirando agora. — Por favor, consertem-no.
Eu caio de joelhos.
Sonya e Sara começam imediatamente. Elas não falam. Elas não choram. Elas não gritam. Elas não desmoronam. Elas começam a trabalhar no mesmo instante e eu não acho que já as amei mais do que amo neste momento. Elas o deitam esticado na cama, Sara parada de um lado dele, Sonya, do outro, e juntam as mãos na cabeça dele, primeiro. Depois, no coração.
Depois, alternam, cada vez uma forçando a vida a voltar para partes diferentes do corpo dele até Kenji estar se mexendo, seus olhos tremendo, mas não se abrindo, a cabeça chicoteando para frente e para trás.
Estou começando a ficar preocupada, mas tenho muito medo e estou muito cansada para me mexer, até mesmo um centímetro.
Finalmente, finalmente, elas se afastam.
Os olhos de Kenji ainda não estão abertos.
— Funcionou? — pergunto, morrendo de medo de ouvir a resposta.
Sonya e Sara fazem que sim com a cabeça.
— Ele está dormindo — elas falam.
— Ele vai melhorar? Completamente? — pergunto, desesperada agora.
— Esperamos que sim — Sonya fala.
— Mas ele vai ficar dormindo por alguns dias — Sara acrescenta.
— O dano foi muito profundo — elas contam juntas. — O que aconteceu?
— Ondas de pressão — digo a elas, minhas palavras são um sussurro. — Ele nem deveria ter conseguido sobreviver.
Sonya e Sara estão me encarando, ainda esperando.
Eu me forço a ficar em pé.
— Anderson está morto.
— Você o matou — elas sussurram.
Não é uma pergunta.
Eu faço que sim com a cabeça.
Elas estão me encarando, de queixo caído e atônitas.
— Vamos — eu falo. — Esta guerra acabou. Temos de contar aos outros.
— Mas como vamos sair? — Sara pergunta.
— Há soldados por toda a parte — Sonya argumenta.
— Não mais — conto a elas, muito cansada para explicar, mas muito grata por sua ajuda.
Por sua existência. Pelo fato de elas ainda estarem vivas. Eu lhes dou um sorrisinho antes de andar até a cama e levantar o corpo de Kenji e colocá-lo sobre meus ombros. Seu peito está curvado sobre as minhas costas, um dos braços jogado sobre meu ombro esquerdo, o outro pendurado em frente a mim. Meu braço direito está envolvendo as duas pernas dele.
Eu o coloco mais para cima dos meus ombros.
— Prontas? — falo, olhando para as duas meninas.
Elas fazem que sim com a cabeça.
Eu as guio para fora da porta e pelos corredores, esquecendo por um momento que não faço ideia de como sair deste navio. Mas os corredores estão sem vida. Todos estão machucados ou inconscientes ou se foram. Nós desviamos dos corpos caídos, tiramos os braços e as pernas do caminho. Somos tudo o que restou.
Eu, carregando Kenji.
Sonya e Sara logo atrás.

Eu enfim encontro uma escada. Subo. Sonya e Sara dividem o peso de Kenji entre si e eu estendo as mãos para baixo para puxá-lo. Temos de fazer isso mais três vezes, até estarmos finalmente no convés superior, onde eu o jogo sobre meus ombros pela última vez.
E, depois, nós andamos, em silêncio, pelo navio abandonado, pelo píer e de volta para terra firme.
Desta vez, eu não me importo em roubar tanques. Não me importo em ser vista. Não me importo com nada além de encontrar meus amigos. E acabar com esta guerra.
Há um tanque do exército abandonado na margem da estrada. Eu testo a porta.
Destrancada.
As meninas sobem e me ajudam a puxar Kenji para o colo delas. Eu fecho a porta atrás delas.
Subo para o lado do motorista. Aperto o polegar no escâner para ligar o motor; muito agradecida por Warner ter nos programado para ter acesso ao sistema.
É apenas então que eu me lembro de que ainda não faço ideia de como dirigir.
Provavelmente, é bom que eu esteja dirigindo um tanque.
Não presto atenção a semáforos ou ruas. Dirijo o tanque para fora da estrada e diretamente de volta ao coração do setor, na direção geral de onde nós viemos. Exagero na força no acelerador, exagero na força no freio, mas minha mente está em um lugar onde mais nada importa.
Eu tinha um objetivo. O primeiro passo foi realizado.
E, agora, vou cuidar dele até o final.

Deixo Sonya e Sara na base e as ajudo a carregar Kenji para fora. Aqui, eles estarão seguros.
Aqui, eles podem descansar. Mas ainda não é a minha vez de parar.
Eu sigo direto para cima e atravesso a base militar, subo pelo elevador até onde eu me lembro que foi de onde saímos para a assembleia. Atravesso com violência porta depois de porta, seguindo diretamente para o lado de fora e o pátio, onde subo até alcançar o topo. Trinta metros no ar.
Onde tudo começou.
Há uma cabine para técnicos ali, um sistema de manutenção para os alto-falantes que estão espalhados pelo setor. Eu me lembro disso. Eu me lembro de tudo isso agora, embora meu cérebro esteja entorpecido e minhas mãos ainda estejam tremendo, e sangue que não pertence a mim esteja escorrendo pelo meu rosto até meu pescoço.
Mas este era o plano.
Tenho de terminar o plano.
Eu digito a senha no teclado e espero para ouvir o clique. A cabine do técnico se abre com um estalo. Eu passo os olhos pelos diferentes fusíveis e botões e viro o interruptor que está identificado como TODOS OS ALTO-FALANTES e respiro fundo. Aperto o botão do interfone.
— Atenção, Setor 45 — digo, as palavras ásperas e altas e confusas no meu ouvido. — O Supremo Comandante d’O Restabelecimento está morto. A capital se rendeu. A guerra acabou.
Estou tremendo bastante agora, meu dedo escorregando do botão enquanto tento mantê-lo apertado.
— Eu repito, o Supremo Comandante d’O Restabelecimento está morto. A capital se rendeu. A guerra acabou.
Termine, digo a mim mesma.
Termine agora.
— Sou Juliette Ferrars e vou liderar esta nação. Desafio qualquer um que se oponha a mim.

10 comentários:

  1. D louca psicotica e lider de uma nacao, ainda tem esperanca pra mim

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  2. Juju é a pessoa mais poderosa do mundo, É MULHERES NO PODER HEUHEU mano ela evoluiu muito, se tornou poderosa e hoje eu só tenho orgulho da nossa Juju *-*

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  3. Empoderamento feminino eis aí uma coisa que eu amo em livros!

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  4. ´Sou Juliette Ferrars e vou liderar esta nação. Desafio qualquer um que se oponha a mim.`
    nada mais, nada menos que: INCRIVEL

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  5. Gente amei essa final simplesmente d+

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  6. Heeeeeem, quem q é Anderson agora pra botar medo... Nossa, essa bicha é forte msm pra tá em pé até agora...

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Boa leitura :)