6 de janeiro de 2017

72

A voz de Kenji me atinge como um soco na garganta.
Eu nem tenho tempo de piscar antes de ser jogada contra a parede.
Minhas costas, eu penso. Algo está errado com as minhas costas. A dor é tão lancinante que não posso deixar de pensar se elas estão quebradas. Estou tonta e me sinto lenta; minha cabeça está girando e há uma estranha campainha em meus ouvidos.
Eu me levanto desajeitada.
Sou atingida, de novo, com muita força. E nem sei de onde a dor está vindo. Não consigo piscar rápido o bastante, não consigo equilibrar a cabeça por tempo suficiente para me livrar da confusão.
Tudo está tombando para o lado.
Estou me esforçando muito para me livrar disto.
Sou mais forte do que isso. Melhor do que isto. Eu deveria ser indestrutível.
Levanto, de novo.
Devagar.
Algo me atinge com tanta força que eu voo pela sala, batendo na parede. Eu escorrego até o chão.
Estou curvada agora, segurando a cabeça com as duas mãos, tentando piscar, tentando entender o que está acontecendo.
Eu não entendo o que poderia estar me acertando.
Tão forte.
Nada deveria ser capaz de me atingir com tanta força assim. Não de novo e de novo.
Parece que alguém está chamando meu nome, mas eu não consigo ouvir. Tudo está tão abafado, tão escorregadio e desequilibrado, como se estivesse ali, só um pouco além do meu alcance e eu não pareço conseguir encontrar. Sentir.
Preciso de um novo plano.
Eu não me levanto de novo. Fico ajoelhada, rastejando para a frente e, desta vez, quando o golpe vem, tento mandá-lo de volta. Estou me esforçando muito para empurrar minha energia para a frente, mas todos os golpes na minha cabeça me deixaram desestabilizada. Estou me agarrando à minha energia com um desespero maníaco e, embora eu não consiga avançar, também não sou jogada para trás.
Tento levantar a cabeça.
Devagar.
Não há nada em frente a mim. Nenhuma máquina. Nenhum elemento estranho que possa ser capaz de criar esses impactos poderosos. Eu pisco com força contra a campainha em meus ouvidos, tentando freneticamente limpar minha visão.
Algo me atinge de novo.
A intensidade ameaça me empurrar paras trás, mas eu enterro os dedos no chão até eles atravessarem a madeira e estou me agarrando ao piso.
Eu gritaria, se pudesse. Se ainda tivesse alguma energia.
Levanto a cabeça de novo. Tento de novo ver.
E, desta vez, duas figuras entram em foco.
Uma é Anderson.
A outra é alguém que não reconheço.
É um loiro atarracado com cabelo cortado bem curto e olhos cruéis. Ele parece vagamente familiar para mim. E está parado ao lado de Anderson com um sorriso convencido, as mãos estendidas à sua frente.
Ele bate as mãos.
Apenas uma vez.
Sou arrancada do chão e jogada para trás contra a parede.
Ondas de som.
São ondas de pressão, eu percebo.
Anderson encontrou um brinquedinho.
Eu balanço a cabeça e tento limpá-la de novo, mas os golpes estão vindo mais depressa agora. Com mais força. Com mais intensidade. Eu tenho de fechar os olhos contra a pressão dos ataques e tento engatinhar, desesperadamente, quebrando as tábuas do chão para ter algo em que agarrar.
Outro golpe.
Com força na cabeça.
É como se ele causasse uma explosão cada vez que junta as mãos, e o que está me matando não é a explosão. Não é seu impacto direto. É a pressão liberada por uma bomba.
De novo e de novo e de novo.
Eu sei que o único motivo de eu conseguir sobreviver é porque sou muito forte.
Mas Kenji, eu penso.
Kenji deve estar em algum lugar desta sala. Foi ele que chamou meu nome, que tentou me avisar.
Ele deve estar aqui, em algum lugar, e, se eu mal consigo sobreviver a isto agora, não sei como ele poderia estar se saindo melhor.
Ele deve estar se saindo pior.
Muito pior.
Esse medo é suficiente para mim. Sou fortalecida com um novo tipo de força, uma intensidade desesperada, animal, que me domina e me força a me levantar. Eu consigo ficar de pé diante de cada impacto, cada golpe, conforme ele chacoalha minha cabeça e ressoa em meus ouvidos.
E eu ando.
Um passo por vez, eu ando.
Ouço um tiro de pistola. Três. Mais cinco. E percebo que são todos direcionados a mim. Balas quebrando-se em meu corpo.
O loiro está se mexendo. Recuando. Tentando se afastar de mim. Ele está aumentando a frequência de seus golpes, esperando me tirar do caminho, mas eu cheguei muito longe para perder esta luta.
Nem estou pensando agora, quase nem estou lúcida, concentrada unicamente em chegar até ele e silenciá-lo para sempre. Não faço ideia se ele já conseguiu matar Kenji. Não faço ideia se estou prestes a morrer. Não faço ideia de quanto tempo mais posso aguentar isto.
Porém, tenho de tentar.
Mais um passo, digo a mim mesma.
Mexa sua perna. Agora, o pé. Dobre o joelho.
Você está quase lá, digo a mim mesma.
Pense em Kenji. Pense em James. Pense nas promessas que você fez para aquele menino de dez anos, digo a mim mesma. Leve Kenji para casa. Leve a si mesma para casa.
Lá está ele. Bem na sua frente.
Eu estendo o braço como se atravessasse uma nuvem. E aperto o punho em volta do pescoço dele.
Aperto.
Aperto até as ondas de som pararem.
Ouço algo se quebrar.
O loiro cai no chão.
E eu desmaio.

3 comentários:

  1. EITAAA :o

    ~filha de Zeus

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  2. Sério??? ela desmaiou???? NÃO É HORA DE DESMAIAR QUERIDAAAAAAAAA

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  3. Tinha q desmaiar, sempre senao nao ia ser juliette, pelamor q raiva!!!

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