2 de janeiro de 2017

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Estou cega de novo.
O calor está sendo derramado em mim com tal intensidade que literalmente tirou minha visão. Não consigo sentir nada além do calor, calor, calor enorme que flui por meus ossos, meus nervos, minha pele, minhas células.
Tudo está pegando fogo.
No início, penso que é o mesmo calor do meu peito, a mesma dor do buraco onde meu coração costumava estar, mas, depois, percebo que, na verdade, este calor não dói. É um calor do tipo tranquilizador. Muito potente, muito intenso, mas, de alguma forma, é bem-vindo. Meu corpo não quer rejeitá-lo. Não quer se encolher para longe dele, não está procurando uma maneira de se proteger dele.
Na verdade, sinto minhas costas se erguerem do chão quando o fogo atinge meus pulmões. De repente, estou tomando fôlegos enormes, violentos e hiperventilados, tragando grandes goles de ar como se fosse chorar se não fizer isso. Estou bebendo oxigênio, devorando-o, engasgando com ele, tomando-o o mais rápido possível, meu corpo todo arfando conforme se esforça para voltar ao normal.
Meu peito parece estar sendo costurado de volta, como se a pele estivesse se regenerando, curando-se em um ritmo inumano, e estou piscando e respirando e estou mexendo a cabeça e tentando ver, mas ainda está muito embaçado, ainda indistinto, mas está ficando mais fácil. Posso sentir os dedos dos pés e das mãos e a vida em meus braços e em minhas pernas e posso mesmo ouvir meu coração bater de novo e, de repente, os rosto sobre mim entram em foco.
De uma vez, o calor desaparece.
As mãos saem.
Eu caio de volta no chão.
E tudo fica preto.

4 comentários:

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Boa leitura :)