6 de janeiro de 2017

6

— Acho que pode chamar assim.
Warner encolhe os ombros.
— Nós chamamos de câmara de simulação.
— Você me fez torturar aquela criança — digo a ele, a raiva e a fúria daquele dia aumentando dentro de mim.
Como eu poderia esquecer o que ele fez? O que ele me fez fazer? As memórias horríveis que ele me forçou a reviver só para sua diversão.
— Nunca vou perdoá-lo por isso — disparo, ácido na minha voz. — Nunca vou perdoá-lo pelo que você fez com aquele menininho. Pelo que você me fez fazer com ele!
Warner franze as sobrancelhas
— Desculpe... O quê?
— Você sacrificaria uma criança! — Minha voz está tremendo agora. — Pelos seus jogos idiotas! Como pôde fazer algo tão desprezível?
Jogo o travesseiro nele.
— Seu monstro doente e sem coração!
Warner pega o travesseiro quando ele lhe atinge o peito, encarando-me como se nunca tivesse me visto antes. Porém, neste momento, uma espécie de compreensão cai sobre ele e o travesseiro escorrega de suas mãos. Vai para o chão.
— Ah — ele diz, bem devagar.
Está apertando muito os olhos fechados, tentando conter sua diversão.
— Ah, você vai me matar — diz, rindo abertamente agora. — Acho que não aguento isso...
— Do que você está falando? Qual é o seu problema? — questiono.
Ele ainda está sorrindo quando diz:
— Conte para mim, amor. Conte exatamente o que aconteceu naquele dia.
Eu aperto os punhos, ofendida pela frivolidade dele e tremendo com uma raiva renovada.
— Você me deu roupas idiotas e minúsculas para vestir! E, depois, você me levou para os andares mais baixos do Setor 45 e me trancou em uma sala velha e suja. Lembro com perfeição — digo para ele, esforçando-me para permanecer calma. — Tinha paredes amarelas nojentas. Tapete verde velho. Um enorme espelho falso.
Warner levanta as sobrancelhas. Faz um gesto para eu seguir em frente.
— Depois... você apertou um tipo de interruptor — falo, forçando-me a continuar falando.
Não sei por que eu estou começando a duvidar de mim mesma.
— E uns espetos de metal enormes começaram a sair do chão. E, depois — eu hesito, preparando-me — uma criancinha entrou. Ela estava com uma venda nos olhos. Você disse que era seu substituto. Você disse que, se eu não a salvasse, você também não a salvaria.
Warner está me olhando com mais atenção agora. Estudando meus olhos.
— Tem certeza de que eu disse isso?
— Sim.
— Sim?
Ele tomba a cabeça.
— Sim, você me viu dizer isso com seus próprios olhos?
— N-não — falo depressa, sentindo-me na defensiva —, mas havia alto-falantes... Eu podia ouvir sua voz...
Ele respira fundo.
— Certo; é claro.
— Eu podia — digo a ele.
— Então, depois de você me ouvir dizer isso, o que aconteceu?
Engulo com dificuldade.
— Eu tinha que salvar o menino. Ele ia morrer. Ele não conseguia enxergar aonde ia e iria ser empalado por aqueles espetos. E tive de pegá-lo nos braços e tentar achar uma maneira de segurá-lo sem matá-lo.
Uma batida de silêncio.
— E você conseguiu? — Warner pergunta para mim.
— Sim — eu sussurro, incapaz de entender por que ele está me perguntando isso se viu tudo acontecer pessoalmente.
— Mas o menino ficou mole — eu falo. — Ele ficou paralisado por um tempo em meus braços. E, depois, você apertou outro interruptor de os espetos desapareceram e eu o coloquei no chão e ele... ele começou a chorar de novo e bateu nas minhas pernas nuas. E ele começou a gritar. E eu... eu fiquei tão brava com você...
— Que atravessou o concreto — Warner diz, um sorriso leve tocando seus lábios. — Você atravessou uma parede de concreto só para tentar me estrangular até a morte.
— Você merecia — eu me ouvi dizer. — Você merecia coisa pior.
— Bem. — Ele suspira. — Se eu fiz, de verdade, o que você diz que eu fiz, com certeza parece que eu merecia.
— O que você quer dizer com se você fez? Eu sei que você fez...
— É mesmo?
— É claro que é!
— Diga então, amor, o que aconteceu com o menino.
— O quê?
Eu congelo; pingentes de gelo sobem se arrastando por meus braços.
— O que aconteceu com aquele menininho? Você diz que o colocou no chão. Mas depois partiu para atravessar uma parede de concreto com um espelho grosso de quase dois metros de largura, sem preocupação aparente com a criancinha que você alega que estava andando pela sala. Não acha que a pobrezinha seria ferida em uma exibição tão selvagem e descuidada? Meus soldados com certeza foram. Você quebrou uma parede de concreto, amor. Você destruiu um pedaço enorme de vidro; você não parou para verificar onde os blocos ou os estilhaços tinham caído ou quem poderia ter se machucado no processo.
Ele faz uma pausa. Encara.
— Parou?
— Não. — Eu ofego, o sangue deixando meu corpo.
— Então, o que aconteceu depois que você saiu? — ele pergunta. — Ou você não se lembra dessa parte? Você se virou e saiu, logo depois de destruir a sala, machucar meus homens e me jogar no chão. Você se virou — ele diz — e saiu direto.
Estou entorpecida agora. É verdade. Foi o que fiz. Não pensei. Apenas sabia que precisava sair dali o mais rápido possível. Eu precisava ir embora, aliviar a cabeça.
— E o que aconteceu com o menino? — Warner insiste. — Onde ele estava quando você estava indo embora? Você o viu?
Um erguer de sobrancelhas.
— E quanto aos espetos? Você se deu ao trabalho de olhar com atenção para o chão e ver de onde eles poderiam ter saído? Ou como poderiam ter perfurado um chão acarpetado sem causar nenhum dano? Você sentiu a superfície sob seus pés rasgada ou irregular?
Estou com a respiração pesada agora, esforçando-me para me manter calma. Não consigo me libertar do olhar dele.
— Juliette, amor — ele diz com suavidade. — Não havia alto-falantes na sala. A sala é toda à prova de som, equipada com nada além de sensores e câmeras. É uma câmara de simulação.
— Não — eu suspiro, recusando-me a acreditar.
Sem querer aceitar que eu estava errada, que Warner não é o monstro que eu sempre achei que fosse. Ele não pode mudar as coisas agora. Não pode me confundir assim. Não é assim que devia funcionar.
— Isso não é possível.
— Sou culpado — ele diz — por forçá-la a passar por uma simulação tão cruel. Eu aceito a culpa por isso e já me desculpei por minhas atitudes. Eu apenas quis forçá-la a finalmente reagir e sabia que esse tipo de recreação iria disparar depressa alguma coisa dentro de você. Mas, pelo bom Deus, amor — ele faz que não com a cabeça —, você deve ter uma opinião absurdamente ruim a meu respeito se acha que eu roubaria o filho de alguém só para vê-la torturá-lo.
— Não foi real?
Eu não reconheço minha própria voz rouca e em pânico.
— Não foi real?
Ele me oferece um sorriso compreensivo.
— Eu criei os elementos básicos da simulação, mas a beleza do programa é que ele evolui e se adapta conforme processa as respostas mais viscerais de um soldado. Nós o usamos para treinar soldados que precisam superar medos específicos ou se preparar para uma missão especialmente delicada. Podemos recriar quase qualquer ambiente — ele conta. — Mesmo soldados que sabem pelo que vão passar vão se esquecer de que estão fazendo uma simulação.
Warner desvia os olhos.
— Eu sabia que seria assustador para você e foi assim mesmo. E, por tê-la machucado, eu me arrependo de verdade. Mas, não — ele fala em voz baixa, olhando-me nos olhos de novo. — Nada daquilo foi real. Você imaginou minha voz na sala. Você imaginou a dor, os sons, os cheiros. Tudo estava na sua mente.
— Não quero acreditar em você — falo para ele, minha voz não é nem um sussurro.
Ele tenta sorrir.
— Por que você acha que eu dei aquelas roupas para você? — pergunta. — O material daquela roupa era forrado com um produto químico desenvolvido para reagir com os sensores daquela sala. E, quanto menos roupa você usasse, mais fácil ficaria para as câmeras rastrearem o calor do seu corpo, seus movimentos.
Ele faz que não com a cabeça.
— Eu nunca tive uma oportunidade de explicar o que você passou. Eu queria segui-la imediatamente, mas achei que deveria dar tempo para você se recuperar. Foi uma decisão idiota da minha parte.
Seu queixo fica tenso.
— Eu esperei e não devia. Porque, quando a encontrei, era tarde demais. Você estava pronta para pular de uma janela só para se afastar de mim.
— Por um bom motivo — eu disparo.
Ele levanta as mãos se rendendo.
— Você é uma pessoa horrível! — eu estouro, jogando o restante dos travesseiros no rosto dele, brava e horrorizada e humilhada ao mesmo tempo. — Por que me faria passar por algo assim se sabe pelo que já passei, seu idiota, arrogante...
— Juliette, por favor — ele diz, dando um passo para a frente, desviando-se de um travesseiro para tentar pegar meus braços. — Eu sinto muito por tê-la machucado, mas eu acho mesmo que valeu a pena...
— Não toque em mim!
Eu me afasto depressa, olhando feio, agarrando o pé da cama dele como se pudesse ser uma arma.
— Eu devia atirar em você de novo por ter feito isso comigo! Eu devia... Eu devia...
— O quê? — Ele ri. — Vai jogar outro travesseiro em mim?
Eu o empurro, com força, e, como ele não se mexe, começo a disparar socos. Estou atingindo o peito dele, seus braços, sua barriga e suas pernas, qualquer lugar que eu consiga alcançar, desejando mais do que nunca que ele não fosse capaz de absorver meu poder, que eu realmente pudesse esmagar todos os ossos de seu corpo e fazê-lo se retorcer de dor sob minhas mãos.
— Seu... monstro... egoísta!
Continuo lançando punhos sem mira na direção dele, sem perceber o quanto o esforço me deixa exausta, sem perceber quão depressa a raiva se dissolve em dor. De repente, tudo o que quero fazer é chorar. Meu corpo está sacudindo tanto de alívio quanto de terror, enfim livre do medo de eu ter causado algum tipo de dano irreparável a outra criança inocente e, ao mesmo tempo, horrorizada por Warner um dia ter me forçado a algo tão terrível. Para me ajudar.
— Sinto muito — ele diz, aproximando-se. — Sinto muito mesmo, de verdade. Eu não a conhecia na época. Não como a conheço agora. Eu nunca faria isso com você agora.
— Você não me conhece — eu balbucio, limpando as lágrimas. — Você acha que me conhece só porque leu meu diário... Seu imbecil estúpido, enxerido e ladrão de privacidade...
— Ah, certo... Sobre isso...
Ele sorri, uma mão rápida tirando o diário de meu bolso enquanto vai na direção da porta.
— Receio que eu não tenha terminado de ler isto.
— Ei! — protesto, lançando o braço na direção dele enquanto ele se afasta. — Você disse que iria me devolver!
— Eu não disse nada disso — ele fala, calmo, largando o diário no bolso de sua calça. — Agora, por favor, espere um instante aqui. Vou buscar alguma coisa para você comer.
Ainda estou gritando quando ele fecha a porta atrás de si.

16 comentários:

  1. kkkkkkkkkkkk... essas tiros de travesseiros... muito engracado. eu sabia k era simulacao

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  2. Q briguinha de casal

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  3. MEO DEOS TA MTO FOFO OS 2
    MAS CARA O RESTO DOS X-MEN LA N PODE TER MORRIDO PQ MDS NE PF

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  4. Gosto dessas cenas fáceis entre eles. Eles são bem engraçados juntos.

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  5. Kkkkkkkkkkkkk
    Que fofo!
    Droga! Esse livro vai me fazer mudar de ideia sobre o Aaron.

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  6. Mano impossível não rir com esse capítulo kkkkk eu amei essa briguinha, eu amo o dois juntos e eu sabia q o mozão não era tão cruel, JUJU FICA LOGO COM O MOZÃO POHA

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  7. KkkKkk... Até nas briguinhas de casal eles são maravilhosos.

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  8. "— Eu criei os elementos básicos da simulação, mas a beleza do programa é que ele evolui e se adapta conforme processa as respostas mais viscerais de um soldado. Nós o usamos para treinar soldados que precisam superar medos específicos ou se preparar para uma missão especialmente delicada. Podemos recriar quase qualquer ambiente — ele conta. — Mesmo soldados que sabem pelo que vão passar vão se esquecer de que estão fazendo uma simulação."
    SÓ EU LEMBREI DE DIVERGENTE?? A JUJU COM CERTEZA NÃO SERIA UMA...RSRSRS

    AMEI ESSA BRIGA DE CASAL E A GUERRA DE TRAVESSEIRO KKKK

    #TeamWarnerEAdam

    ~polly~

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    1. Li oito capítulos de Divergente e detestei.Pretendo dar uma nova chance algum dia,mesmo tendo recebido um spoiler do final da Triz.

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  9. Ameeeeeeeeeeeeeeeei esse capitulo <3 A briga deles foi tão engraçada kkkkkkkkkk Warnerrrrrrrr seuuuu gostosooooo!!!!!!!

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  10. "— Eu criei os elementos básicos da simulação, mas a beleza do programa é que ele evolui e se adapta conforme processa as respostas mais viscerais de um soldado. Nós o usamos para treinar soldados que precisam superar medos específicos ou se preparar para uma missão especialmente delicada. Podemos recriar quase qualquer ambiente — ele conta. — Mesmo soldados que sabem pelo que vão passar vão se esquecer de que estão fazendo uma simulação."

    Pera aí, o Adam não era um soldado?
    Ele sabia disso?

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    1. Verdade! Ele devia saber o tempo todo então, afinal, como soldado, passou pela experiência 😱

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  11. Pq ele
    N disse entao

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    1. Ele nem teve tempo de comentar sobre isso '-'~

      Longe de querer defender o Adam xD Mas é verdade o.o

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Boa leitura :)