5 de janeiro de 2017

6

Juliette não devia ter de ver isto.
Seis soldados reuniram quase trinta civis — uma mistura de homens, mulheres e crianças — e vão matá-los. É basicamente um pelotão de fuzilamento. Eles simplesmente vão seguir a fila, pop pop pop, e, depois, arrastar os corpos para longe. Colocá-los em um incinerador. Limpar tudo, simples e preciso.
É nojento.
Não tenho certeza do que os soldados estão esperando, no entanto. Talvez eles precisem da aprovação final vinda de algum lugar, mas há um pequeno atraso enquanto eles conversam entre si. Está chovendo muito forte mesmo e isso pode ter algo a ver. Para ser sincero, eles podem nem conseguir ver para onde estão atirando. Deveríamos tirar vantagem dessa oportunidade. Esse tempo pode acabar nos ajudando, por outro lado.
Aperto os olhos contra a chuva e olho com mais atenção para as pessoas, esforçando-me para não perder a cabeça. Elas não estão muito bem, eu também não, para ser honesto.
Algumas estão muito histéricas e isso me faz pensar em como eu me sairia em uma situação assim. Talvez eu fosse como aquele cara no meio, parado ali sem nenhuma expressão. Ele quase parece que aceita o que vai acontecer, e, de alguma forma, a certeza dele me atinge com ainda mais força que as lágrimas.
Um tiro soa.
Maldição.
Um cara na extrema esquerda cai no chão e eu estou tremendo de raiva. Essas pessoas precisam da nossa ajuda. Não podemos simplesmente ficar para trás e observar trinta pessoas desarmadas e inocentes serem mortas quando poderíamos encontrar uma maneira de salvá-las.
Deveríamos estar fazendo alguma coisa, mas estamos parados aqui por algum motivo idiota que não consigo entender porque Juliette está com medo ou Kenji está enjoado e acho que a verdade é que somos um bando de adolescentes babacas, dois dos quais mal conseguem ficar em pé direito ou disparar uma arma, e é inaceitável. Estou prestes a dizer alguma coisa — estou prestes a gritar, na verdade — quando Kenji solta da minha mão.
Já não era sem tempo, maldição.
Avançamos em linha reta e minha arma já está levantada e mirando. Vejo o soldado que deu o primeiro tiro e sei que preciso disparar; não há espaço para hesitação. Tenho sorte: ele cai imediatamente. Mais cinco soldados a derrubar — soldados que eu espero não reconhecer — e estou fazendo o melhor que posso, mas não é fácil. Foi simplesmente a sorte que me deu aquele primeiro alvo; é quase impossível atirar bem com este tempo. Mal consigo ver aonde estou indo, muito menos para onde estou atirando, mas me jogo no chão bem a tempo de evitar uma bala perdida. Pelo menos a chuva também está deixando difícil eles nos pegarem.
Kenji está fazendo milagres acontecerem hoje.
Ele está invisível agora, e trabalhando rápido. Está reagindo depressa apesar de ferido e se torna apenas uma parte do vento, derrubando três soldados de uma vez. Restam dois soldados e eles ficam distraídos pela dança de Kenji tempo o bastante para que eu derrube um. Resta um e estou prestes a derrubá-lo também, quando vejo Juliette dar um tiro nele por trás.
Nada mau.
Kenji reaparece nesse momento e começa a gritar para que os civis nos sigam de volta ao abrigo, e Juliette e eu os acompanhamos, fazendo o que podemos para deixá-los em segurança o mais rápido possível. Ainda há alguns aglomerados de pé e devem ser suficientes. Os civis podem entrar e ficar longe da batalha; e também da tempestade que se forma no céu. E, embora a gratidão deles seja tocante, não podemos parar por tempo suficiente para conversar com eles. Precisamos acomodá-los de volta em suas casas e, depois, seguir em frente.
É o que eu sempre fiz.
Sempre siga em frente.
Olho para Juliette enquanto corremos, perguntando-me como ela está se segurando, e, por um segundo, fico confuso; não sei dizer se ela está chorando ou se é apenas a chuva riscando seu rosto. Espero que ela fique bem, no entanto. Fico acabado por vê-la lidando com isso.
Queria que ela não precisasse passar por esta situação.
Estamos correndo de novo, disparando pelos aglomerados agora que levamos os civis de volta para suas casas. Essa foi apenas uma parada no caminho para nosso destino final; nem chegamos ao campo de batalha ainda, onde homens e mulheres do Ponto já estão tentando evitar que os soldados d’O Restabelecimento massacrem civis inocentes. A situação está prestes a ficar muito, muito pior.
Kenji está nos puxando pelo cenário meio demolido. Sei que estamos nos aproximando da luta agora porque aqui está muito mais devastado: unidades desmoronando e metade pegando fogo, seus conteúdos espalhados por toda a parte. Sofás rasgados e abajures queimados, roupas e sapatos e corpos caídos para atravessarmos. Os aglomerados parecem se estender para sempre e, quanto mais longe vamos, pior fica.
— Estamos perto — grito para Kenji.
Ele faz que sim com a cabeça e estou surpreso por ele ter me escutado.
Ouço um som familiar. Alcanço Kenji por tempo suficiente para agarrar o braço dele.
— Tanques! — berro para ele. — Está ouvindo?
Kenji vira um olhar desolado para mim e faz que sim.
— Vamos nos mexer! — ele diz, fazendo um movimento com a cabeça. — Não estamos longe agora!
É uma luta para chegar à luta, o vento assobiando com força em nossos ouvidos e batendo cortante contra nossos rostos, gotas de chuva nervosas golpeando nossa pele, ensopando nossos cabelos. Estou congelado até os ossos, mas não há tempo para ficarmos incomodados.
Tenho adrenalina e isso terá que ser o bastante por ora.
A terra treme sob os nossos pés quando um som duro e retumbante explode o céu. Em um instante, o horizonte se acende com fogo, chamas urrando a distância. Alguém está jogando bombas, e isso significa que já estamos perdidos. Meu coração está batendo depressa e com força, e eu nunca admitiria em voz alta, mas estou começando a ficar nervoso.
Olho para Juliette de novo. Sei que ela provavelmente está assustada e quero tranquilizá-la — dizer a ela que tudo vai ficar bem —, mas ela não olha na minha direção. Ela está em outro mundo, seus olhos frios e cortantes, focados no fogo a distância. Ela parece diferente; até um pouco assustadora. De alguma forma, isso me preocupa ainda mais.
Estou prestando tanta atenção nela que quase tropeço; o chão está liso embaixo de nós e eu estou com lama até os tornozelos. Puxo as pernas conforme avançamos devagar, a arma firme nas mãos, e me concentro. É isso. É aqui que tudo está prestes a ficar muito sério, e sei o suficiente sobre a guerra para ser sincero comigo mesmo: posso entrar no campo de batalha com um coração batendo e ser arrastado dele com um coração morto.
Eu respiro fundo conforme nos aproximamos, três adolescentes invisíveis andando pelos aglomerados. Andamos por cima de unidades destruídas e vidro quebrado de janelas estilhaçadas; desviamos do lixo espalhado e tentamos não ouvir o som das pessoas gritando.
Não sei quanto ao resto de nós, mas estou me esforçando ao máximo para combater a ânsia de dar a volta e retornar para o lugar de onde começamos.
De repente, James é a única pessoa em meus pensamentos.

7 comentários:

  1. Meu Deus do céu, quando ele vai entender que a super-proteção dele é exagerada e chata?

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    1. Provavelmente o livro vai acabar e ele não vai entender isso.

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  2. "Olho para Juliette de novo. Sei que ela provavelmente está assustada e quero tranquilizá-la — dizer a ela que tudo vai ficar bem —, mas ela não olha na minha direção. Ela está em outro mundo, seus olhos frios e cortantes, focados no fogo a distância. Ela parece diferente; até um pouco assustadora. De alguma forma, isso me preocupa ainda mais."
    Estou começando a ficar com nojo do Adam!
    Boy...
    ...decepcionante

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  3. vcs falam d+ a preocupação dele é valida, ela nunca viu coisas assim antes, e lembrem se não tivesse motivo a preocupação dele ela não teria quase sido morta por um tiro no outro livro ...

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  4. Aconteceu tudo isso eh o adam só pensa em que??? No irmão! ...eh lógico que no irmão nem? Eh família mas eh só nele??
    Adam decepcionou total!!!
    Apartir daqui eh só aaron e pronto!!

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Boa leitura :)