6 de janeiro de 2017

69

Eu bato meu cotovelo na porta atrás de mim, estilhaçando a madeira em lascas que voam para todo lado. Viro-me e abro o restante da passagem com golpes, chutando e derrubando a porta em uma explosão repentina de adrenalina, e, assim que vejo que esta sala é apenas um pequeno armazém de carvão e um caminho sem saída, faço a única coisa em que consigo pensar.
Pulo.
E aterrisso.
E atravesso direto o chão.
Eu caio sem jeito, mas consigo me equilibrar antes de tombar no chão. Os soldados estão pulando atrás de mim, gritando e berrando. Botas me perseguem enquanto abro a porta com violência e sigo voando pelo corredor. Alarmes estão sendo disparados por toda a parte, sons tão altos e desagradáveis que mal consigo me ouvir pensar. Sinto como se estivesse correndo por um nevoeiro, as sirenes disparando luzes vermelhas, guinchando e berrando e sinalizando uma intrusa.
Estou sozinha agora.
Estou virando depressa em mais corredores, me virando nas curvas deste andar e tentando ter uma ideia da diferença entre ele e aquele logo acima. Não parece haver nenhuma. Eles parecem exatamente iguais e os soldados são tão agressivos quanto.
Eles estão atirando livremente agora, o som ensurdecedor dos tiros colidindo com o berro das sirenes. Nem tenho certeza se já não fiquei surda.
Não acredito que eles continuam conseguindo me errar.
Parece impossível, estatisticamente falando, que tantos soldados a uma distância tão pequena não consigam achar um alvo no meu corpo. Não pode estar certo.
Eu atravesso o chão de novo.
Caio em pé desta vez.
Estou agachada, olhando ao redor, e, pela primeira vez, vejo que este andar é diferente. O corredor é mais largo, as portas estão mais separadas umas das outras. Eu queria que Kenji estivesse aqui. Eu queria ter alguma ideia do que isto significa, qual é a diferença entre os andares. Eu queria saber aonde ir, onde começar a procurar.
Eu chuto uma porta para abri-la.
Nada.
Sigo correndo, chuto outra porta.
Nada.
Continuo correndo. Estou começando a ver o mecanismo interno do navio. Máquinas, canos, vigas de aço, tanques enormes, jatos de vapor. Devo estar indo na direção errada.
Porém, não faço ideia de quantos andares o navio tem e não faço ideia se posso continuar descendo.
Ainda estou levando tiros e estou apenas um passo à frente. Estou deslizando por curvas estreitas e me empurrando contra a parede, e virando em esquinas escuras e esperando que eles não me vejam.
Onde está Kenji?, fico me perguntando. Onde ele está?
Eu preciso ir para o outro lado deste navio, não quero casas de caldeiras ou tanques de água. Isto não pode estar certo. Tudo é diferente neste lado do navio. Até as portas são diferentes. Elas são feitas de aço, não madeira.
Chuto uma para abri-la, só para ter certeza.
Uma sala de controle por rádio, abandonada.
Uma sala de reunião, abandonada.
Não. Eu quero salas de verdade. Grandes escritórios e aposentos. Anderson não estaria aqui. Ele não seria encontrado ao lado dos canos de gás e dos motores chiando.
Eu saio na ponta dos pés do meu mais novo esconderijo, coloco a cabeça para fora.
Gritos. Berros.
Mais tiros.
Eu recuo. Respiro fundo. Controlo toda a minha energia ao mesmo tempo, e decido que não tenho escolha a não ser testar a teoria de Alia.
Eu pulo para fora e disparo pelo corredor.
Correndo, acelerando como nunca fiz antes. As balas passam voando pela minha cabeça e jorrando sobre meu corpo, atingindo meu rosto, minhas costas, meus braços, e eu me forço a continuar correndo, eu me forço a continuar respirando, sem sentir dor, sem me sentir aterrorizada, e me agarrando à minha energia como a uma corda de segurança e sem deixar nada me parar. Estou tropeçando por cima de soldados, derrubando-os com golpes do cotovelo, sem hesitar por tempo suficiente para fazer mais que empurrá-los para fora do meu caminho.
Três deles vêm voando para cima de mim, tentando me prender ao chão e eu empurro todos de volta. Um avança de novo e eu dou um soco direto no rosto dele, sentindo seu nariz quebrar contra meus nós de dedo de metal. Outro tenta agarrar meu braço por trás e eu pego a mão dele, quebrando seus dedos ao apertá-los, e depois pego seu antebraço, puxo-o para perto e jogo-o através de uma parede. Viro-me para encarar o restante deles e todos estão olhando para mim, pânico e terror misturados em seus rostos.
— Lutem comigo — digo a eles, sangue e pressa e um tipo louco de adrenalina fluindo pelo meu corpo. — Eu os desafio.
Cinco deles levantam suas armas na minha direção. Apontam-nas para meu rosto. Atiram.
De novo e de novo e de novo, esvaziando carga após carga. Meu instinto é o de me proteger das balas, mas eu me concentro nos homens em vez disso, em seus corpos e em seus rostos bravos e retorcidos. Tenho de fechar os olhos por um segundo, porque não consigo enxergar através da barra de metal sendo esmagada contra meu corpo. E, quando estou pronta, trago o punho para perto do peito, sentindo o poder aumentar dentro de mim, e o jogo para a frente, de repente, derrubando 75 soldados como se fossem feitos de palitos de fósforo.
Eu tiro alguns momentos para respirar.
Meu peito está arfando, meu coração está disparado e olho ao redor, sentindo a calmaria dentro da loucura, piscando com força contra os flashes de luz vermelha do alarme, e percebo que os soldados não se mexem. Ainda estão vivos, eu posso ver, mas estão inconscientes. E eu me permito um instante para olhar para baixo.
Estou cercada.
Balas. Centenas de balas. Uma poça de balas. Por toda parte em volta dos meus pés. Caindo do meu traje.
Do meu rosto.
Sinto algo frio e duro em minha boca e cuspo para a mão. Parece um pedaço quebrado e destroçado de metal. Como se tivesse sido frágil demais para me enfrentar.
Balinha esperta, eu penso.
E, então, eu corro.

6 comentários:

  1. Krl mano, que foda, essa Juju ta poderosa demais *-*
    Mds cadê o Kenji? Tô preocupa com ele *^*

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  2. " BALINHA ESPERTA, EU PENSO"

    KKKKKK MORTA COM A juuuuuuu

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  3. Caraca. O que foi isso?

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  4. Caramba, a Juju já tá em outro patamar...

    Dorei <3

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Boa leitura :)