2 de janeiro de 2017

68

Acordo em uma cama feita de paraíso e estou usando roupas que pertencem a um garoto.
Estou aquecida e confortável, mas ainda posso sentir um rangido em meus ossos, a dor em minha cabeça, a confusão que obscurece minha mente. Sento-me. Olho ao redor.
Estou no quarto de alguém.
Estou emaranhada em roupas de cama azuis e laranja decoradas com pequenas luvas de beisebol. Há uma pequena escrivaninha com uma pequena cadeira ao lado e há uma cômoda, uma coleção de troféus de plástico arrumada em filas perfeitamente retas em cima. Vejo uma porta simples de madeira com uma maçaneta de latão tradicional que deve levar para fora; vejo um conjunto deslizante de espelhos que deve estar escondendo um guarda-roupa. Olho para a direita e acho um pequeno criado-mudo com um despertador e um copo de água e eu o pego.
É quase constrangedora a velocidade com que sugo o conteúdo.
Desço da cama apenas para descobrir que estou usando shorts de ginástica azul-marinhos, tão baixos na minha cintura que tenho medo de que caiam. Estou usando uma camiseta cinza com uma espécie de logo e estou nadando no pano extra. Não tenho meias. Nem luvas. Nem roupa de baixo.
Não tenho nada.
Pergunto-me se tenho permissão para sair e decido que vale a pena tentar.
Não tenho ideia do que estou fazendo aqui. Não tenho ideia de por que ainda não estou morta.
Congelo diante das portas espelhadas.
Meu cabelo foi bem lavado e cai em ondas grossas e macias ao redor do rosto. Minha pele está radiante e, com exceção de alguns arranhões, relativamente sem ferimentos. Meus olhos estão arregalados; uma mistura estranha e vibrante de verde e azul piscando para mim, surpresos e surpreendentemente sem medo.
Mas meu pescoço.
Meu pescoço é uma bagunça roxa, um grande machucado que descolore toda a minha aparência. Não tinha percebido o quanto fui estrangulada até a morte ontem — acho que foi ontem — e apenas agora percebo o quanto dói para engolir. Tomo um fôlego cortante e forço-me a ir além dos espelhos. Preciso encontrar uma forma de sair daqui.
A porta abre quando a toco.
Olho ao redor pelo corredor procurando um sinal de vida. Nem faço ideia de que horário do dia é ou no que me meti. Não sei se existe alguém nesta casa além de Anderson — e quem quer que tenha me ajudado no banheiro —, mas preciso avaliar minha situação. Tenho de determinar exatamente quanto perigo estou correndo antes de tramar um plano para lutar e sair.
Tento descer as escadas em silêncio, na ponta dos pés.
Não funciona.
Os degraus rangem e gemem sob meu peso e mal tenho chance de recuar antes de ouvi-lo chamar meu nome. Ele está no andar de baixo.
Anderson está no andar de baixo.
— Não seja tímida — ele diz.
Eu ouço o farfalhar de algo que parece papel.
— Tenho comida para você e você deve estar faminta.
De repente, meu coração está pulsando na minha garganta. Penso que escolha tenho, que opções devo considerar e decido que não posso me esconder dele em seu próprio esconderijo.
Encontro-o no andar inferior.
Ele é o mesmo homem bonito de antes. O cabelo perfeito e brilhante, as roupas novas, limpas, profissionalmente passadas. Ele está sentado na sala de estar em uma das poltronas macias com um cobertor dobrado sobre o colo. Reparo em uma muleta maravilhosa, de aparência rústica, com entalhes intrincados inclinada contra o apoio de braço. Ele tem uma pilha de papéis na mão.
Sinto cheiro de café.
— Por favor — ele fala para mim, nem um pouco surpreso com minha aparência estranha e selvagem. — Sente-se.
Eu me sento.
— Como está se sentindo? — pergunta.
Levanto os olhos. Não respondo.
Ele balança a cabeça para cima e para baixo.
— Sim, bem, tenho certeza de que está muito surpresa em me ver aqui. É uma casinha adorável, não é?
Ele olha ao redor.
— Mantive-a preservada logo depois de levar minha família para o que é agora o Setor 45. Esse setor devia ser meu, no final das contas. Acabou se revelando o lugar ideal para guardar minha esposa.
Ele balança a mão.
— Parece que ela não se dá muito bem nos aglomerados — conta, como se eu devesse ter alguma ideia do que ele está falando.
Guardar a esposa?
Não sei por que permito que qualquer palavra saída da boca dele me surpreenda.
Anderson parece perceber minha confusão. Ele parece achá-la divertida.
— Devo entender que meu garoto apaixonado não lhe contou sobre sua amada mãe? Ele não discorreu por horas e horas sobre seu amor patético pela criatura que lhe deu à luz?
— O quê? — é a primeira palavra que falo.
— Estou chocado de verdade — Anderson afirma, sorrindo como se não estivesse nem um pouco chocado. — Ele não se deu ao trabalho de mencionar que tem uma mãe doente e fraca que mora nesta casa? Ele não contou que foi por isso que quis o posto aqui, neste setor, com tanto desespero? Não? Não lhe contou nada sobre isso?
Ele levanta a cabeça.
— Estou tão chocado — ele mente de novo.
Estou tentando controlar a velocidade das batidas do meu coração, tentando descobrir por que diabos ele está me contando isso, tentando ser mais esperta que ele, mas ele está se saindo superbem na tarefa de me confundir pra burro.
— Quando fui escolhido como comandante supremo — ele continua —, ia deixar a mãe de Aaron aqui e levá-lo comigo ao Capitólio. Mas o garoto não quis abandonar a mãe. Ele queria cuidar dela. Não queria deixá-la. Ele precisava ficar com ela como uma criança idiota — diz, subindo o tom da voz no final, esquecendo a maneira como sempre se comporta.
Ele engole em seco. Recupera a compostura.
E estou esperando.
Esperando pela bigorna que ele está preparando para jogar na minha cabeça.
— Ele contou quantos outros soldados queriam ficar encarregados do Setor 45? Entre quantos ótimos candidatos tivemos de escolher? Ele tinha apenas 18 anos!
Ele ri.
— Todos pensaram que ele havia enlouquecido. Mas eu lhe dei uma chance — Anderson diz. — Pensei que poderia ser bom para ele assumir esse tipo de responsabilidade.
Ainda esperando.
Um suspiro profundo e satisfeito.
— Ele já lhe contou — Anderson começa — o que teve de fazer para provar seu merecimento?
Aí está.
— Ele já contou o que eu o obriguei a fazer para ganhar o cargo?
Sinto-me morta por dentro.
— Não — Anderson diz, com os olhos brilhantes, brilhantes demais. — Suspeito que ele não tenha desejado mencionar essa parte, certo? Aposto que ele não incluiu essa parte do seu passado, não é?
Não quero ouvir isso. Não quero saber isso. Não quero ouvir mais...
— Não se preocupe — Anderson fala. — Não vou estragar a surpresa. É melhor deixá-lo compartilhar esses detalhes com você por conta própria.
Não estou mais calma. Não estou calma e, oficialmente, comecei a entrar em pânico.
— Voltarei para a base logo mais — Anderson comenta, examinando seus papéis, sem parecer se importar em ter uma conversa inteiramente de mão única comigo. — Não suporto estar sob o mesmo teto que a mãe dele por muito tempo... Não me dou bem com os doentes, infelizmente... Mas este lugar revelou ser um acampamentozinho conveniente nas circunstâncias atuais. Tenho usado a casa como base a partir de onde supervisiono o que acontece nos aglomerados.
A batalha.
A luta.
O derramamento de sangue e Adam e Kenji e Castle e todos que deixei para trás.
Como eu poderia esquecer...
As horripilantes, aterrorizantes possibilidades estão surgindo na minha mente. Não faço ideia do que aconteceu. Se eles estão bem. Se eles sabem que estou viva. Se Castle conseguiu levar Brendan e Winston de volta.
Se alguém que eu conheço morreu.
Meus olhos estão enlouquecidos, lançando-se de um lado ao outro. Fico em pé, convencida de que tudo isso é apenas uma armadilha elaborada, que, talvez, alguém venha me espancar por trás ou alguém esteja esperando na cozinha com uma faca de açougueiro, e não consigo recuperar o fôlego, estou ofegante e estou tentando entender o que fazer o que fazer o que fazer e digo:
— O que estou fazendo aqui? Por que você me trouxe para cá? Por que ainda não me matou?
Anderson olha para mim. Levanta a cabeça. Fala:
— Estou muito chateado com você, Juliette. Muito, muito triste.
Ele diz:
— Você fez uma coisa muito ruim.
“O quê?” parece ser a única pergunta que sei fazer.
— Do que está falando?
Por um louco instante, pergunto-me se ele sabe o que aconteceu com Warner.
Quase me sinto corar.
Porém, ele respira fundo. Pega a bengala apoiada na poltrona. Tem de usar toda a parte de cima do copo para se levantar. Está tremendo, mesmo com a bengala para apoiá-lo.
Ele está aleijado.
Diz:
— Você fez isto comigo. Conseguiu me dominar. Atirou nas minhas pernas. Quase atirou no meu coração. E sequestrou meu filho.
— Não — ofego —, isso não foi...
— Você fez isto comigo — ele me interrompe. — E, agora, quero uma compensação.

5 comentários:

  1. Estou muito curiosa com o passado do mozão *-* a sogrona parece ser um amorzinho e BEM FEITO SOGRÃO, VC TEM SORTE D TER FICADO APENAS ALEIJADO, VC DEVERIA ESTÁ MORTO -_-

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  2. Ela é a garota mais inútil do mundo, se quisse quebrar a casa no meio, quebra, mas não, ela é sempre uma inútil não ajuda em nada, não pensa em nada não liga nada, sempre se preocupando com seus sentimentos antes do que com as pessoas em seu redor, sempre atrasa tudo e estraga tudo pq não é capaz de se concentrar um segundo pra usar o seu poder

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    1. Todos contando com ela, mas a egoísta só pensa em seus dileminhas aff é a figura mais patética 😒

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  3. Que povo chato. Parem de falar mal da Juju!

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Boa leitura :)