2 de janeiro de 2017

67

Ouço mensageiros dos ventos.
Ouço mensageiros dos ventos sendo soprados até a histeria por um vento tão violento que é uma ameaça real e tudo em que consigo pensar é que o tilintar é incrivelmente familiar para mim. Minha cabeça ainda está girando, mas tenho de me manter o mais alerta possível. Tenho de saber para onde estão me levando. Tenho de ter alguma ideia de onde estou. Preciso ter um ponto de referência e estou me esforçando para manter a cabeça reta sem revelar que estou consciente.
Os soldados não conversam.
Estava esperando pelo menos extrair algumas informações das conversas que eles pudessem ter, mas não dizem uma palavra uns para os outros. São como máquinas, como robôs programados para seguir em frente com uma tarefa específica, e eu me pergunto, sou muito curiosa, não consigo entender por que tive de ser arrastada para longe do campo de batalha para ser morta. Pergunto-me por que minha morte tem de ser tão especial. Pergunto-me por que eles estão me carregando para fora do tanque na direção do caos de um mensageiro dos ventos nervoso e ouso abrir os olhos apenas um pouquinho e quase solto um grito.
É a casa.
É a casa, a casa em território não regulamentado, a que foi pintada no tom perfeito de azul como um ovo de tordo americano e é a única casa tradicional e habitável em um raio de um quilômetro. É a mesma casa que Kenji disse que devia ser uma armadilha, é a casa onde eu estava certa de que encontraríamos o pai de Warner e é quando eu entendo. Uma marreta. Um trem-bala. Um golpe de entendimento esmaga meu cérebro.
Anderson deve estar aqui. Ele deve querer me matar com as próprias mãos.
Sou uma entrega especial.
Eles até tocam a campainha.
Ouço passos arrastados. Ouço rangidos e gemidos. Ouço o vento estalando pelo mundo e, depois, vejo meu futuro, vejo Anderson torturando-me até a morte de todas as maneiras possíveis e pergunto-me como vou sair desta situação. Anderson é muito esperto. Ele provavelmente vai me acorrentar ao chão e cortar minhas mãos e meus pés um por vez. É provável que ele queira aproveitar a experiência.
Ele abre a porta.
— Ah! Cavalheiros. Muito obrigado — diz. — Por favor, sigam-me.
E sinto o soldado que está me carregando reequilibrar seu peso sob meu corpo molhado, mole e, de repente, pesado. Estou começando a sentir um arrepio frio invadir meus ossos e percebo que passei tempo demais correndo sob a chuva.
Estou tremendo e não é de medo.
Estou queimando e não é de raiva.
Estou delirando tanto que, mesmo se tivesse força para me defender, não tenho certeza de que conseguiria fazê-lo direito. É incrível a quantidade de maneiras como eu poderia chegar ao meu fim hoje.
Anderson tem um aroma terroso e de riqueza; posso sentir o cheiro dele, apesar de estar sendo carregada por outra pessoa e é perturbadoramente agradável.
Ele fecha a porta atrás de nós logo depois de aconselhar os soldados que esperam para voltar ao trabalho. O que é, na essência, uma ordem para eles irem matar mais pessoas.
Acho que estou começando a ter alucinações.
Vejo uma lareira quente do tipo que vi apenas em livros. Vejo uma sala de estar confortável com sofás macios e peludos e um tapete oriental espesso enfeitando o chão. Vejo o lintel da lareira com fotos que não reconheço daqui e Anderson está me mandando acordar, está dizendo você precisa tomar um banho, você se sujou bastante, não foi, e assim não será possível, será? Vou precisar que você fique acordada e totalmente coerente ou não será muito divertido, ele diz, e estou quase certa de que estou perdendo a cabeça.
Sinto as batidas, batidas, batidas de passos pesados subindo pelo poço de uma escada e percebo que meu corpo está se mexendo com elas. Ouço uma porta ser aberta com um gemido, ouço o arrastar de outros pés e estão sendo ditas palavras que não consigo mais distinguir. Alguém diz algo a alguém e sou largada em um chão frio e duro.
Ouço-me choramingar.
— Tenha cuidado para não tocar na pele dela — é a única frase que consigo entender em sequência.
Todo o restante é “banho” e “dormir” e “pela manhã” e “não, acho que não” e “muito bom”, e ouço outra porta ser batida. É a que está bem perto da minha cabeça.
Alguém está tentando tirar meu traje.
Eu o agarro tão rápido que dói; sinto algo passar queimando pelo meu corpo, pela minha cabeça, até atingir-me bem no olho e sei que sou uma mistura de muitas coisas agora. Não consigo me lembrar da última vez em que comi e não durmo de verdade há mais de 24 horas. Meu corpo está ensopado, minha cabeça está latejando de dor, meu corpo foi torcido e pisoteado e estou dolorida de um milhão de maneiras diferentes. Mas não permitirei que nenhum homem estranho tire minhas roupas. Eu preferiria morrer.
Porém, a voz que escuto desta vez não é nem um pouco masculina. Soa suave e gentil, maternal. Ela está falando comigo em um idioma que não entendo, mas, talvez, seja apenas a minha cabeça que não consegue entender nada. Ela solta sons tranquilizadores, esfrega as mãos nas minhas costas, fazendo pequenos círculos. Ouço uma corrente de água e sinto o calor aumentar ao meu redor e está muito quente, parece vapor e acho que este lugar deve ser um banheiro, ou uma banheira, e não posso deixar de pensar que não tomo um banho quente desde que estava na sede com Warner.
Tento abrir os olhos e não consigo.
É como se duas bigornas estivessem sobre minhas pálpebras, como se tudo estivesse preto e bagunçado e confuso e exaustivo e consigo apenas entender as circunstâncias gerais da minha situação. Vejo através de um espaço um pouco maior que duas fendas; vejo apenas a porcelana brilhante do que suponho ser uma banheira e rastejo até lá, apesar dos protestos em minha orelha e subo.
Eu tombo direto na água quente toda vestida, luvas e botas e traje intactos e é um prazer inacreditável que não esperava vivenciar.
Meus ossos começam a descongelar e meus dentes estão diminuindo suas batidas e meus músculos estão aprendendo a relaxar. Meu cabelo flutua em torno do meu rosto e sinto-o fazer cócegas no meu nariz.
Eu afundo da superfície.
EU PEGO NO SONO.

7 comentários:

  1. Puta merda, como ela é útil em uma batalha em ¬¬

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  2. tanto poder , tao forte , pra acabar de bandeja nas maos do Anderson

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  3. A garota é poderosa, tem um imenso poder, aí quando vai pra guerra oq acontece? Ela cai d bandeja nas mãos do sogrão ¬¬ e quem será essa mulher? '-'

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  4. Eu acho que essa mulher que aparesel é mãe de Warner

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  5. Bem-vinda ao clube das mocinhas prisioneiras Juju! Devia ter fugido c/o habibi

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  6. Querida Juliette, tu é songa assim normalmente ou só qnd tu precisa usar a PORCARIA DOS TEUS PODERES E FAZER ALGO ÚTIL?! MDS, vá ser útil assim no raio que o parta. Depois de terminar esses livros vou necessitar urgentemente de uma personagem feminista ou de uma que realmente se ligue que está no meio de uma guerra e saia da bolha mágica que a Juliette parece viver

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Boa leitura :)