2 de janeiro de 2017

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Não consigo sentir os joelhos.
Há 27 pessoas em linha, uma ao lado da outra, no meio de um campo grande e estéril. Homens e mulheres e crianças de todas as idades. De todos os tamanhos. Todos em pé diante do que poderia ser chamado de esquadrão de fuzilamento. A chuva está desmoronando ao nosso redor, golpeando tudo e todos com gotas duras como ossos. O vento está verdadeiramente furioso.
Os soldados estão decidindo o que fazer. Como matar as pessoas. Como liquidar os 27 pares de olhos voltados bem para frente. Algumas pessoas estão chorando, outras estão tremendo de medo e tristeza e horror, outras ainda estão perfeitamente eretas, estoicas diante da morte.
Um dos soldados dispara um tiro.
O primeiro homem cai no chão e sinto-me como se tivesse sido chicoteada na coluna. Tantas emoções entram em mim e saem no espaço de poucos segundo que tenho medo de desmaiar; estou me agarrando à consciência com um desespero animalesco e tentando engolir as lágrimas, tentando ignorar a dor que me atravessa como uma lança.
Não consigo entender por que ninguém se mexe, por que nós não nos mexemos, por que nenhum dos civis está se mexendo nem que seja para pular fora do caminho e um pensamento me ocorre, percebo que correr, tentar escapar ou tentar revidar simplesmente não é uma opção viável. Eles estão subjugados por completo. Não têm armas. Nenhuma munição de nenhum tipo.
Mas eu tenho.
Tenho uma arma.
Tenho duas, na verdade.
Este é o momento, é agora que temos de nos soltar, é agora que temos de lutar sozinhos, apenas nós três, três crianças anciãs lutando para salvar 26 rostos ou morrer tentando. Meus olhos estão presos em uma menininha que não deve ser muito mais velha que James, com os olhos muito arregalados, muito assustados, a parte da frente das calças já molhada por causa do medo e isso me despedaça, isso me mata, e minha mão livre já está procurando a arma quando digo a Kenji que estou pronta.
Vejo o mesmo soldado mirar a arma na próxima vítima quando Kenji nos solta.
Três armas estão erguidas, prontas para atirar, e ouço as balas antes de elas serem soltas no ar, vejo que uma acha seu alvo no pescoço de um soldado e não faço ideia de se é minha.
Agora não importa.
Ainda há cinco soldados a enfrentar e, agora, eles podem nos ver.
Estamos correndo.
Estamos nos desviando das balas disparadas na nossa direção e vejo Adam jogar-se no chão, vejo-o atirar com precisão perfeita e, ainda assim, sem encontrar um alvo. Olho ao redor à procura de Kenji apenas para descobrir que ele desapareceu e fico muito feliz por isso; três soldados caem quase no mesmo instante. Adam aproveita a distração dos soldados que restam e derruba mais um. Atiro no quinto soldado pelas costas.
Não sei se o matei ou não.
Estamos gritando para as pessoas nos seguirem, estamos guiando-as de volta aos aglomerados, berrando para que fiquem abaixadas, para que fiquem fora de vista; dizemos que a ajuda está a caminho e faremos o possível para protegê-las e elas estão tentando nos alcançar, tocar em nós, agradecer-nos e pegar nossas mãos, mas não temos tempo. Temos de fazê-las correr até um lugar que pelo menos pareça seguro e seguir para onde quer que o restante desta dizimação esteja acontecendo.
Eu ainda não esqueci o único homem que não fomos capazes de salvar. Não me esqueci do número 27.
Nunca mais quero que isso aconteça.
Estamos correndo pelos vários quilômetros de terra reservados a esses aglomerados agora, sem nos preocuparmos em nos esconder ou bolar um plano definitivo. Ainda não conversamos, ainda não discutimos o que fizemos ou o que podemos fazer e apenas sabemos que precisamos continuar em movimento.
Seguimos Kenji.
Ele tece o caminho por um grupo de aglomerados demolidos e sabemos que alguma coisa deu muito errado. Não há sinal de vida em nenhuma parte. As pequenas caixas de metal que costumavam abrigar civis estão destruídas por completo e não sabemos se ainda havia pessoas dentro delas quando isso aconteceu.
Kenji nos diz que precisamos continuar procurando.
Entramos mais no território regulamentado, esses pedaços de terra usados para habitação humana, até ouvirmos passos apressados, um som mecânico suavemente agitado.
Os tanques.
Eles funcionam com eletricidade e, assim, é mais difícil notá-los conforme se movimentam pelas ruas, mas conheço-os bem o suficiente para conseguir reconhecer o monótono barulho elétrico. Adam e Kenji também.
Seguimos o som.
Estamos lutando contra o vento que tenta nos empurrar para fora do caminho e é quase como se ele soubesse, como se o vento tentasse nos proteger do que quer que nos espera do outro lado deste aglomerado. Ele não quer que tenhamos de ver isso. Não quer que tenhamos de morrer hoje.
Algo explode.
Um fogo feroz rasga a atmosfera a menos de 15 metros de onde estamos. Suas chamas lambem a terra, puxando o oxigênio com sua língua, e nem mesmo a chuva consegue ensopar a devastação de uma vez. O fogo chicoteia e agita-se ao vento, enfraquecendo-se apenas o suficiente, rebaixado até à submissão pelo céu.
Precisamos ir para onde quer que esteja esse fogo. Algo aconteceu.
Nossos pés lutam para encontrar tração no solo lamacento e não sinto o frio enquanto corremos, não sinto a umidade, sinto apenas a adrenalina correr pelos braços e pernas, forçando-me a ir em frente, a arma apertada demais em meu punho, pronta de mais para mirar, pronta demais para atirar.
Porém, quando chegamos às chamas, quase deixo cair a arma.
Quase caio no chão.
Quase não acredito em meus olhos.

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Boa leitura :)