6 de janeiro de 2017

64

Warner está sentado em um canto. Adam, no outro. Os dois pediram para serem deixados em paz.
E os dois estão encarando James.
James, que ainda é apenas um montinho roncando.
Adam parece exausto, mas não derrotado. Cansado, mas não chateado. Ele parece mais livre. Suas sobrancelhas não estão franzidas. As mãos estão abertas. Seu rosto está calmo de uma maneira que eu não vejo há o que parece muito tempo.
Ele parece aliviado.
Como se tivesse carregado um grande fardo que pensou que poderia matá-lo. Como se tivesse pensado que compartilhar essa verdade com Warner pudesse de alguma forma inspirar uma guerra pela vida toda entre ele e seu novíssimo irmão biológico.
Mas Warner não estava nem um pouco bravo. Ele nem estava chateado.
Ele só estava tão chocado que não conseguia acreditar.
Um pai, eu penso. Três irmãos. Dois que quase mataram um ao outro, tudo por causa do mundo em que foram criados. Por causa das muitas palavras, das muitas mentiras que tiveram de engolir.
As palavras são como sementes, eu acho, plantadas em nosso coração em uma idade tenra. Elas criam raízes em nós conforme crescemos, acomodando-se profundamente na nossa alma. As boas palavras são boas plantações. Elas florescem e encontram morada no nosso coração. Elas criam troncos em volta da nossa coluna, estabilizando-nos quando nos sentimos mais frágeis; plantando nossos pés com firmeza quando estamos nos sentindo menos seguros. Mas as palavras ruins crescem mal. Nosso tronco é infestado e estragado até estarmos ocos e abrigando os interesses de outras pessoas e não os nossos. Somos forçados a comer os frutos que essas palavras geraram, mantidos como reféns pelos galhos que criam ramificações em volta do nosso pescoço, sufocando-nos até morrermos, uma palavra por vez.
Não sei como Adam e Warner darão a notícia para James. Talvez não contem até ele estar mais velho e poder lidar com as consequências de conhecer sua linhagem. Não sei o que acontecerá com James quando ele souber que o pai é na verdade um assassino em massa e um ser humano desprezível que destruiu todas as vidas em que tocou.
Não.
Talvez seja melhor James não saber, ainda não.
Talvez já seja suficiente por ora que Warner saiba.
Não posso deixar de achar ao mesmo tempo doloroso e belo o fato de Warner ter perdido uma mãe e ganhado dois irmãos na mesma semana. E, embora eu entenda que ele pediu para ser deixado em paz, não consigo me impedir de andar até ele. Não direi uma palavra, prometo a mim mesma. Mas eu só quero ficar perto dele agora.
Assim, eu me sento a seu lado e inclino a cabeça contra a parede. Apenas respirando.
— Você devia ter me contado — ele sussurra.
Eu hesito antes de responder.
— Você não faz ideia de quantas vezes eu quis isso.
— Você devia ter me contado.
— Eu sinto muito — digo, baixando a cabeça. Baixando a voz. — Eu sinto muito mesmo.
Silêncio.
Mais silêncio.
Então.
Um sussurro.
— Eu tenho dois irmãos.
Eu levanto a cabeça. Olho para ele.
— Eu tenho dois irmãos — ele repete, a voz muito suave. — E quase matei um deles.
Seus olhos estão focados em um ponto longe, longe daqui, apertados de dor e confusão, e algo que parece arrependimento.
— Eu acho que eu devia ter percebido — ele diz para mim. — Ele consegue tocar em você. Ele mora no mesmo setor. E os olhos dele sempre foram estranhamente familiares para mim. Eu percebo agora que eles têm o formato igual aos do meu pai.
Ele suspira.
— Isso é tão insuportavelmente inconveniente — diz. — Eu estava preparado para odiá-lo pelo resto da vida.
Eu me assusto, surpresa.
— Você quer dizer... que não o odeia mais?
Warner baixa a cabeça. Sua voz está tão fraca que eu mal consigo ouvir.
— Como eu posso odiar a raiva dele — ele começa — quando sei muito bem de onde ela vem?
Estou olhando para ele. Pasma.
— Eu posso imaginar muito bem até onde foi o relacionamento dele com o meu pai — Warner afirma, fazendo que não com a cabeça. — E ele ter conseguido pelo menos sobreviver, e com mais humanidade do que eu?
Uma pausa.
— Eu não posso odiá-lo. E estaria mentindo se dissesse que não o admirei.
Eu acho que posso chorar.
Os minutos passam entre nós, quietos e imóveis, parando apenas para nos ouvir respirar.
— Venha — eu enfim sussurro, pegando a mão dele. — Vamos para a cama.
Warner faz que sim com a cabeça, fica em pé, mas, então, para. Confuso. Muito torturado. Ele olha para Adam. Adam olha de volta.
Eles ficam se encarando por muito tempo.
— Com licença — Warner diz.
E eu observo, atônita, conforme ele cruza a sala. Adam fica de pé imediatamente, defensivo, incerto. Conforme Warner se aproxima, Adam parece relaxar.
Os dois agora estão cara a cara, e Warner está falando.
Adam trava os dentes. Vira os olhos para o chão.
Faz que sim com a cabeça.
Warner ainda está falando.
Adam engole a seco, com dificuldade. Faz que sim com a cabeça de novo.
Depois, levanta o olhar.
Os dois trocam um olhar de reconhecimento por um longo instante. E, depois, Warner coloca uma mão no ombro de Adam.
Eu devo estar sonhando.
Os dois trocam mais algumas palavras antes de Warner se virar e sair andando.

5 comentários:

  1. Respostas
    1. Não faço a mínima ideia....
      Let

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  2. Mano não entendi poha nenhuma, mas eu tô louca pro James descobrir q o mozão também é irmão dele, e tô louca pra ver o mozão sendo afetuoso com o James *-*

    "— Venha — eu enfim
    sussurro, pegando a mão dele. —
    Vamos para a cama."
    maliciei e.e

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  3. Fiquei tão perdida c/isso tudo que até esqueci o que ia comentar... Ah lembrei:
    "— Eu posso imaginar muito bem até onde foi o relacionamento dele com o meu pai — Warner afirma, fazendo que não com a cabeça. — E ele ter conseguido pelo menos sobreviver, e com mais humanidade do que eu?
    Uma pausa.
    — Eu não posso odiá-lo. E estaria mentindo se dissesse que não o admirei." Não achei que seria possível o Warner se tornar ainda mais maravilhoso, mas sim é possível

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  4. Ahhh que capitulooo!!! Ameiii!! Warner sendo fofo! Vai ser o melhor irmão mais velho! Gostei desse "diálogo" deles no finalzinho... Acho que eles deram um pequeno passo pra fazer as pazes, fiquei curiosa demais pra saber sobre o que falaram...

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Boa leitura :)