2 de janeiro de 2017

64

Está chovendo.
O mundo está chorando aos nossos pés, prevendo o que estamos prestes a fazer.
Devemos nos dividir para entrar nos aglomerados, lutar em grupos unidos para não podermos ser todos mortos ao mesmo tempo. Não temos homens suficientes para lutar ofensivamente e, assim, precisamos ser discretos. E, embora sinta uma pontada de culpa por admitir, estou muito feliz por Kenji ter decidido vir conosco. Seríamos mais fracos sem ele.
Mas temos que sair da chuva.
Já estamos ensopados e, embora Kenji e eu estejamos usando trajes que oferecem pelo menos um pouquinho de proteção contra os elementos da natureza, Adam não está usando nada além de roupas básicas de algodão macio e temo que não duremos muito assim. Todos os membros do Ponto Ômega já se dispersaram. A área bem acima do Ponto não é nada além de um pedaço de terra infértil que nos deixa expostos ao sairmos.
Para nossa sorte, temos Kenji. Nós três já estamos invisíveis.
Os homens de Anderson não estão longe daqui.
Tudo o que sabemos é que, desde a chegada de Anderson, ele está fazendo todo o possível para provar seu poder e a mão de ferro do Restabelecimento. Qualquer voz de oposição, não importa o quão fraca ou debilitada, não importa o quão inofensiva ou inócua, foi silenciada. Ele está bravo por nós termos inspirado rebelião e, agora, está tentando mostrar do que é capaz. O que quer de verdade é destruir todos nós.
Os pobres civis estão apenas no meio desse ataque de Anderson contra sua própria população.
Tiros.
Automaticamente, vamos na direção do som que ecoa a distância. Não estamos falando nada. Sabemos o que temos de fazer e como temos de agir. Nossa única missão é nos aproximarmos o máximo possível da devastação e, então, derrubar o maior número possível de homens de Anderson. Nós protegemos os inocentes. Nós damos apoio aos nossos colegas do Ponto. Nós nos esforçamos muito para não morrer.
Posso distinguir os aglomerados ficando mais próximos, mas a chuva dificulta a visão. Todas as cores estão se misturando, misturando-se ao horizonte, e tenho de me esforçar para discernir o que há à nossa frente. Por instinto, toco nas armas presas aos coldres às minhas costas e, por um instante, lembro-me de meu último encontro com Anderson — meu único encontro com o horrível e desprezível homem — e pergunto-me o que aconteceu a ele.
Pergunto-me se, talvez, Adam estava certo quando disse que Anderson podia estar ferido com gravidade, que, talvez, ainda estivesse lutando para se recuperar. Pergunto-me se Anderson aparecerá no campo de batalha. Pergunto-me se, talvez, ele é covarde demais para lutar suas próprias guerras.
Os gritos nos dizem que estamos chegando perto.
O mundo ao nosso redor é um cenário borrado de azuis e acinzentados e tons manchados e as poucas árvores ainda em pé têm uma centena de braços trêmulos atravessando seus troncos, lançando-se para o céu como se rezassem, implorassem por um alívio da tragédia onde foram enraizadas. É o suficiente para me deixar com pena das plantas e dos animais forçados a serem testemunhas do que fizemos.
Eles nunca pediram por isso.
Kenji nos guia para os arredores dos aglomerados e deslizamos para ficarmos bem colados à parede de uma das pequenas casas quadradas, amontoados sob o pedaço extra de telhado que, pelo menos por um instante, cede-nos um abrigo temporário contra os punhos cerrados que caem do céu.
O vento atormenta as janelas, forçando-se contra as paredes. A chuva está estalando contra o teto como pipoca sobre um painel de vidro.
A mensagem do céu é clara: estamos irritados.
Estamos irritados e vamos puni-los e faremos com que paguem pelo sangue que derramam sem nenhum controle. Não ficaremos ociosamente indiferentes, não mais. Nunca mais. Vamos arruiná-los, é o que o céu diz para nós.
Como puderam fazer isso comigo?, ele sussurra ao vento.
Eu lhes dei tudo, ele diz para nós.
As coisas nunca mais serão iguais.
Pergunto-me por que ainda não vejo nenhum sinal do exército. Não vejo mais ninguém do Ponto Ômega. Não vejo ninguém mesmo. Na verdade, estou começando a achar que este aglomerado está um pouco pacífico demais.
Estou prestes a sugerir que continuemos em frente quando ouço uma porta ser aberta com um estrondo.
— É a última deles — alguém grita. — Ela estava escondida ali.
Um soldado está arrastando uma mulher, que chora, para fora do aglomerado contra o qual estamos amontoados, e ela está gritando, está implorando por misericórdia e perguntando sobre seu marido, e o soldado berra para ela ficar quieta.
Tenho de evitar que as emoções sejam derramadas pelos meus olhos, minha boca.
Não falo.
Não respiro.
Outro soldado chega correndo de onde não posso ver. Ele grita algum tipo de mensagem de aprovação e faz um movimento com as mãos que não entendo.
Sinto Kenji endurecer ao meu lado.
Algo está errado.
— Jogue-a junto com todos os outros — o segundo soldado grita. — E daremos esta área como limpa.
A mulher está histérica. Ela está berrando, enterrando as unhas no soldado, dizendo a ele que não fez nada errado, que não entende, onde está seu marido, ela procurou a filha em toda parte e o que está acontecendo, ela grita, ela berra, ela bate os punhos contra o homem que a pegou como um animal.
Ele pressiona o cano da arma contra o pescoço dela.
— Se você não calar a boca, atiro agora mesmo.
Ela choraminga uma vez, duas vezes e, depois, fica mole. Desmaiou nos braços dele e o soldado parece enojado conforme a puxa fora de vista, para onde quer que estejam mantendo todos os outros. Não faço ideia do que está acontecendo. Não entendo o que está acontecendo.
Nós os seguimos.
O vento e a chuva aumentam seu ritmo e há barulho suficiente no ar e distância suficiente entre os soldados e nós para eu me sentir segura para falar.
Aperto a mão de Kenji. Ele ainda é a cola entre Adam e eu, projetando seus poderes para nos manter invisíveis.
— O que você acha que está acontecendo? — pergunto.
Ele não responde logo.
— Estão reunindo todos eles — diz, após um instante. — Estão formando grupos de pessoas para matar de uma vez.
— A mulher...
— Sim.
Eu o ouço limpar a garganta.
— Sim, ela e quem quer que eles pensem que possa estar ligado aos protestos. Não matam apenas os incentivadores — ele me conta. — Matam os amigos e familiares também. É a melhor forma de manter as pessoas na linha. Nunca deixa de apavorar os poucos que são deixados vivos.
Tenho de engolir o vômito que ameaça me prostrar.
— Tem de haver um meio de tirá-los de lá — Adam diz. — Talvez possamos pegar os soldados que estão no comando.
— É, mas, ouçam, vou ter de soltá-los, certo? Já estou meio que perdendo a força; minha energia está acabando mais rápido do que o normal. Então, vocês ficarão visíveis — Kenji avisa. — Serão um alvo mais claro.
— Mas que outra opção nós temos? — pergunto.
— Poderíamos tentar derrubá-los ao estilo atirador de elite — Kenji sugere. — Não precisamos entrar em combate direto. Temos essa opção.
Ele faz uma pausa.
— Juliette, você nunca esteve neste tipo de situação antes. Quero que saiba que respeitaria sua decisão de ficar fora da linha direta de tiro. Nem todo mundo tem estômago para o que podemos ver se seguirmos esses soldados. Não há vergonha nem culpa nisso.
Sinto um gosto de metal na boca ao mentir:
— Ficarei bem.
Ele fica quieto por um instante.
— Apenas... Tudo bem... Mas não tenha medo de usar suas habilidades para se defender — ele me diz. — Sei que você tem essa coisa estranha de não querer machucar as pessoas ou sei lá, mas esse pessoal não está brincando. Eles vão tentar matá-la.
Faço que sim com a cabeça, embora saiba que ele não pode me ver.
— Certo — respondo. — É.
Mas estou completamente em pânico.
— Vamos lá — sussurro.

5 comentários:

  1. Digite seu comentário...Agora sim a ação vai começar, TACA-LHE PAU JUJU

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  2. Manda bala Ju!
    Bianca

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  3. Nossa quero que Ju fique com o Arom Warner

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Boa leitura :)