2 de janeiro de 2017

63

O café da manhã é uma provação.
Warner desapareceu e deixou uma trilha de caos atrás dele.
Ninguém sabe como ele escapou, como conseguiu sair de seu quarto e encontrar a saída e todos estão culpando Castle. Todos estão dizendo que ele foi idiota ao confiar em Warner, a lhe dar uma chance, a acreditar que ele podia ter mudado.
Bravas é um insulto para o nível de agressividade das pessoas aqui, agora.
Porém, não serei eu a dizer a todos que Warner já estava fora de seu quarto na noite passada. Não serei eu a dizer que ele provavelmente não precisou fazer muito para encontrar a saída. Não explicarei que ele não é imbecil. Tenho certeza de que descobriu com muita facilidade. Tenho certeza de que encontrou uma maneira de passar pelos guardas.
Agora, todos estão prontos para lutar, mas pelos motivos errados. Querem matar Warner: em primeiro lugar, por tudo o que ele fez; em segundo lugar, por trair a confiança deles. E o que é ainda mais aterrorizante: todos estão preocupados que ele revele todas as nossas informações secretas. Não faço ideia do que Warner conseguiu descobrir sobre este lugar antes de partir, mas nada do que acontecer agora poderá ser bom.
Ninguém tocou no café da manhã.
Todos estão vestidos, armados, prontos para enfrentar o que poderia ser uma morte quase instantânea, e estou me sentindo um pouco melhor do que completamente entorpecida. Não dormi nada noite passada, meu coração e minha mente entupidos e atormentados, e não consigo sentir as pernas nem os braços, não consigo sentir o gosto da comida que estou comendo e não consigo ver direito, não consigo me concentrar nas coisas que deveria estar ouvindo. Tudo em que consigo pensar é em todos os infortúnios e os lábios de Warner no meu pescoço, suas mãos no meu corpo, a dor e a paixão em seus olhos e as muitas maneiras possíveis como eu poderia morrer hoje. Consigo apenas pensar em Warner tocando em mim, beijando-me, torturando-me com seu coração e Adam sentado ao meu lado, sem saber o que fiz.
Isso provavelmente nem importará mais depois de hoje.
Talvez eu seja morta e talvez a agonia destes últimos 17 anos terá sido para nada. Talvez eu simplesmente caia da face da Terra, sumida para sempre, toda a minha angústia adolescente terá sido uma ridícula reflexão tardia, uma memória risível.
No entanto, talvez eu sobreviva.
Talvez eu sobreviva e tenha de enfrentar as consequências das minhas ações.
Terei de parar de mentir para mim mesma; terei de tomar mesmo uma decisão.
Tenho de encarar o fato de que estou lutando contra sentimentos por alguém que não tem escrúpulos para colocar uma bala na cabeça de outro homem.
Tenho de pensar na possibilidade de eu estar mesmo virando um monstro. Uma criatura horrível e egoísta que se importa apenas com si mesma.
Talvez Warner estivesse certo desde o começo.
Talvez ele e eu sejamos mesmo perfeitos um para o outro.
Quase todo mundo saiu da sala de jantar em fila. As pessoas estão trocando as despedidas de última hora com os idosos e os jovens que estão deixando para trás. James e Adam tiveram uma longa despedida esta manhã mesmo. Adam e eu temos de sair em cerca de dez minutos.
— Minha nossa. Quem morreu?
Viro-me ao som da voz dele. Kenji está em pé. Está nesta sala. Está parado ao lado da nossa mesa e parece prestes a cair, mas está acordado. Está vivo. Está respirando.
— Caramba — Adam está ofegando. — Cacete.
— É bom vê-lo também, Kent.
Kenji abre um sorriso torto. Acena para mim com a cabeça.
— Pronta para quebrar umas caras hoje?
Eu o agarro.
— UAU... Ei... Obrigado é... Isso é... Ahn...
Ele limpa a garganta. Tenta se desviar de mim e eu me encolho, me afasto.
Cobri meu corpo todo, exceto o rosto; estou usando minhas luvas e meus socos-ingleses e meu traje está fechado até o pescoço. Kenji não costuma me evitar.
— Ei, ahn, talvez você deva evitar tocar em mim por um tempinho, certo?
Kenji tenta sorrir, tenta fazer soar como uma piada, mas sinto o peso de suas palavras, a tensão e a pitada de medo que ele está se esforçando para esconder.
— Não estou em perfeitas condições ainda.
Sinto o sangue me abandonar, deixando-me fraca nos joelhos e precisando sentar.
— Não foi ela — Adam conta. — Você sabe que ela nem tocou em você.
— Eu não sei disso, na verdade — Kenji diz. — E não a estou culpando... Estou apenas dizendo que, talvez, ela esteja projetando e não saiba, certo? Porque, da última vez que verifiquei, acho que não tínhamos nenhuma outra explicação para o que aconteceu ontem à noite. Com toda a certeza não foi você — ele fala para Adam — e, merda, pelo que sabemos, a capacidade de Warner tocar em Juliette poderia ser apenas um acaso. Não sabemos nada sobre ele ainda.
Uma pausa. Ele olha ao redor.
— Certo? A menos que Warner tenha tirado algum tipo de coelho mágico da bunda enquanto eu estava ocupado com a morte ontem à noite?
Adam faz uma careta. Eu não digo uma palavra.
— Certo — Kenji continua. — Foi o que pensei. Então, acho melhor eu me afastar, a menos que seja totalmente necessário.
Ele se vira para mim.
— Tudo bem? Sem querer ofender. Quero dizer, quase morri. Acho que você pode me dar uma folga.
Mal consigo ouvir minha própria voz quando respondo:
— Sim, é claro.
Tento rir. Tento descobrir porque não estou contando a eles sobre Warner. Por que ainda o estou protegendo. Provavelmente porque sou tão culpada quanto ele.
— Enfim, de qualquer forma — Kenji diz —, quando partiremos?
— Você está louco — Adam fala para ele. — Você não vai a lugar algum.
— Pro diabo que não vou.
— Você mal consegue ficar em pé sozinho! — Adam observa.
E ele está certo. Está claro que Kenji está se inclinando na mesa para ganhar apoio.
— Prefiro morrer lá fora a ficar sentado aqui como uma espécie de idiota.
— Kenji...
— Ei — Kenji diz, interrompendo-me. — Eu ouvi a comoção barulhenta porque Warner conseguiu escapar daqui na noite passada. O que aconteceu?
Adam solta um som estranho. Não é bem uma risada.
— É — ele começa. — Quem é que sabe? Nunca achei boa ideia mantê-lo como refém aqui. Foi uma ideia ainda mais idiota confiar nele.
— Então, primeiro você insulta minha ideia e, depois, insulta Castle, hein?
A sobrancelha de Kenji está torta.
— Foram decisões ruins — Adam afirma. — Ideias ruins. Agora, temos de pagar por elas.
— Bem, como eu deveria saber que Anderson estaria tão disposto a deixar o próprio filho apodrecer no inferno?
Adam encolhe-se e Kenji muda de atitude.
— Ó, ei... Desculpe, cara... Não quis falar assim...
— Esquece — Adam o interrompe.
Seu rosto está duro de repente, frio de repente, distante.
— Talvez você deva voltar à ala médica. Vamos partir logo.
— Não vou para lugar algum além de fora daqui.
— Kenji, por favor...
— Não.
— Você não está sendo razoável. Isso não é brincadeira — digo a ele. — Pessoas vão morrer hoje.
Porém, ele ri para mim. Olha para mim como se eu tivesse dito algo indiretamente divertido.
— Desculpe, você está tentando me ensinar sobre a realidade da guerra?
Ele balança a cabeça.
— Está esquecendo que fui soldado do exército de Warner? Tem ideia de quanta loucura já vimos?
Ele faz um gesto entre ele e Adam.
— Sei exatamente o que esperar de hoje. Warner era louco. Se Anderson for, no mínimo, duas vezes tão ruim quanto o filho, estaremos mergulhando em um banho de sangue. Não posso deixá-los na mão assim.
Mas fico presa a uma frase. Uma palavra. Quero apenas perguntar.
— Ele era tão ruim assim...?
— Quem?
Kenji está me encarando.
— Warner. Ele era tão desumano assim?
Kenji ri alto. Ri mais alto. Dobra a altura. Está praticamente ofegando quando diz:
— Desumano? Juliette, o cara é doente. É um animal. Acho que ele nem sabe o que significa ser humano. Se existe inferno, acho que foi criado especialmente para ele.
É muito difícil tirar essa espada da minha barriga.
Passos apressados.
Viro-me.
Todos devem deixar os túneis em uma fila única na tentativa de mantermos a ordem enquanto saímos deste mundo subterrâneo. Kenji, Adam e eu somos os únicos combatentes que ainda não se juntaram ao grupo.
Todos nós nos levantamos.
— Ei... E então, Castle sabe o que você está fazendo?
Adam está olhando para Kenji.
— Acho que ele não concordaria com a sua saída hoje.
— Castle quer que eu seja feliz — Kenji diz, sem demonstrar emoção. — Não ficarei feliz se permanecer aqui. Tenho trabalho a fazer. Pessoas a salvar. Moças a impressionar. Ele respeitaria essa atitude.
— E o restante das pessoas? — pergunto a ele. — Todos estavam tão preocupados com você... Você já viu alguém? Para, pelo menos, avisar que está bem?
— Não — Kenji responde. — Eles provavelmente não dariam a mínima se soubessem que vou subir. Achei que seria mais seguro não alardear. Não quero assustar ninguém. E Sonya e Sara... pobrezinhas... estão desmaiadas. É culpa minha estarem tão exaustas, e elas ainda estão falando em sair hoje. Querem lutar, embora vão ter muito trabalho depois de acabarmos com o exército do Anderson. Eu estava tentando convencê-las a ficar aqui, mas elas são tão teimosas. Precisam economizar energia — ele diz — e já desperdiçaram muito comigo.
— Não foi um desperdício... — digo a ele.
— Enfiiim — Kenji fala. — Podemos ir, por favor? Sei que você está doido para caçar o Anderson — ele se dirige a Adam —, mas, pessoalmente? Eu adoraria pegar o Warner. Meter uma bala naquele merda imprestável e acabar com isso.
Alguma coisa me dá um soco no estômago com tanta força que tenho medo de ficar enjoada de verdade. Minha visão está falhando, estou me esforçando para ficar em pé, lutando para ignorar a imagem de Warner morto, seu corpo amarrotado em vermelho.
— Ei... Você está bem?
Adam me puxa para o lado. Olha meu rosto com atenção. Seus olhos são forçados a se juntar, tensos de preocupação.
— Estou bem — minto para ele.
Faço que sim com a cabeça vezes demais. Balanço a cabeça uma ou duas vezes.
— Apenas não dormi o bastante ontem à noite, mas ficarei bem.
Ele hesita.
— Tem certeza?
— Absoluta — minto de novo.
Faço uma pausa. Agarro a camisa dele.
— Ei... Tenha cuidado lá fora, combinado?
Ele solta um suspiro pesado. Faz que sim com a cabeça uma vez.
— É. Você também.
— Vamos vamos vamos! — Kenji nos interrompe. — Hoje é o dia da nossa morte, senhoritas.
Adam lhe dá um empurrão. Leve.
— Ó, então agora você está maltratando uma criança aleijada, hein?
Kenji leva um momento para se equilibrar antes de dar um soco no braço de Adam.
— Guarde sua angústia para o campo de batalha, irmão. Vai precisar.
Um apito agudo soa a distância.
É hora de ir.

6 comentários:

  1. Meu Deus, só peço que ninguém legal morra

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  2. Kenji <3 seu lindo, fico feliz q esteja melhor *-* mas VC TA LOUCO POHA??? VC Ñ POSE LUTAR, Ñ PODE MORRER *^* mas é muito nobre da tua parte *-*

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  3. "Tenho de pensar na possibilidade de eu estar mesmo virando um monstro. Uma criatura horrível e egoísta que se importa apenas com si mesma."
    Me poupe, se poupe, nos poupe. Vc sempre foi egoista e sempre se importou consigo mesma, querida. sejamos realista, não é mesmo? não é mesmo!

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  4. Kenji😍❤ ele é como um irmão mais velho amo ele

    ~MIRELLE

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  5. Porque as protagonistas possuem tantos problemas em fazer a coisa certa?! Custa essa garota falar francamente ao menos com o Castle?! Puxa! Dá raiva...

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  6. Kenji se vc tocar no aeron vc é um cara morte, vou desejar em cada trecho sua morte ate o final do livro. -_-

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Boa leitura :)