2 de janeiro de 2017

62

Estou tão cansada quando entro em meu quarto que estou apenas meio consciente enquanto visto a regata e as calças de pijama que uso para dormir. Foram um presente de Sara. Ela recomendou que eu tirasse meu traje enquanto durmo; ela e Sonya acham importante dar à minha pele contato direto com o ar fresco.
Estou prestes a entrar debaixo das cobertas quando ouço uma batida suave na porta.
Adam
é meu primeiro pensamento.
Porém, então abro a porta. E logo a fecho.
Devo estar sonhando.
— Juliette?
Ó. Meu Deus.
— O que você está fazendo aqui? — eu grito/sussurro através da porta fechada.
— Preciso falar com você.
— Agora. Você precisa falar comigo agora.
— Sim. É importante — Warner diz. — Ouvi Kent dizer que aquelas meninas gêmeas vão ficar na ala médica esta noite e pensei que seria um bom momento para conversarmos com privacidade.
— Você escutou minha conversa com Adam?
Começo a entrar em pânico, preocupada por ele poder ter escutado demais.
— Tenho zero de interesse na sua conversa com Kent — ele responde, o tom de repente equilibrado, neutro. — Fui embora assim que ouvi que você ficaria sozinha esta noite.
— Ó — eu solto o ar. — Como você conseguiu chegar aqui sem ser parado pelos guardas?
— Talvez você devesse abrir a porta para eu poder explicar.
Não me mexo.
— Por favor, amor, não farei nada para machucá-la. Já devia saber disso.
— Vou lhe dar cinco minutos. Depois, tenho de dormir, combinado? Estou exausta.
— Certo — ele diz. — Cinco minutos.
Respiro fundo. Abro a porta. Espio Warner.
Ele está sorrindo. Não parece sentir nenhum remorso.
Balanço a cabeça.
Ele desliza para dentro e senta-se diretamente na minha cama.
Fecho a porta, atravesso até o lado oposto a ele e sento-me na cama de Sonya, de repente consciente demais do que estou vestindo e do quão incrivelmente exposta me sinto. Cruzo os braços por cima do algodão fino que se agarra ao meu peito — embora tenha certeza de que ele não pode me ver — e faço um esforço para ignorar o frio no ar. Sempre me esqueço do quanto meu traje ajuda a controlar minha temperatura tão abaixo do solo.
Winston foi um gênio ao fazê-lo para mim.
Winston.
Winston e Brendan.
Ó, como espero que estejam bem.
— E então... O que foi? — pergunto a Warner.
Não consigo ver nada nesta escuridão, mal consigo definir a forma da silhueta dele.
— Você simplesmente foi embora mais cedo, no túnel. Embora tenha lhe pedido para ficar.
Algumas batidas de silêncio.
— Sua cama é muito mais confortável que a minha — ele diz com voz baixa. — Você tem um travesseiro. E um cobertor de verdade?
Ele ri.
— Está vivendo como uma rainha neste alojamento. Eles a tratam bem.
— Warner.
Estou me sentindo nervosa agora. Ansiosa. Preocupada. Tremendo um pouco e não por causa do frio.
— O que está acontecendo? Por que você está aqui?
Nada.
Ainda nada.
De repente.
Uma respiração tensa.
— Quero que venha comigo.
O mundo para de girar.
— Quando eu for embora amanhã — ele completa. — Quero que venha comigo. Não pude terminar de conversar com você mais cedo e achei que pela manhã seria um momento péssimo para pedir.
— Quer que eu vá com você.
Não tenho certeza se ainda estou respirando.
— Sim.
— Quer que eu fuja com você.
Isto não pode estar acontecendo.
Uma pausa.
— Sim.
— Não posso acreditar.
Estou balançando a cabeça, de novo e de novo e de novo.
— Você realmente perdeu a cabeça.
Quase posso ouvi-lo sorrir no escuro.
— Onde está seu rosto? Sinto como se estivesse falando com um fantasma.
— Estou bem aqui.
— Onde?
Levanto-me.
— Estou aqui.
— Ainda não consigo vê-la — ele diz, mas sua voz está de repente muito mais perto do que antes. — Você consegue me ver?
— Não — eu minto e estou tentando ignorar a tensão imediata, a eletricidade zumbindo no ar entre nós.
Dou um passo para trás.
Sinto as mãos dele nos meus braços, sinto a pele dele contra a minha pele e estou prendendo a respiração. Não me mexo nem um centímetro. Não digo nem uma palavra conforme as mãos dele baixam para a minha cintura, para o fino material que faz uma fraca tentativa de cobrir meu corpo. Seus dedos roçam a pele macia da parte inferior das minhas costas, bem debaixo da bainha da minha camiseta e estou perdendo a conta de quantas vezes meu coração se esquece de bater.
Estou lutando para levar oxigênio aos pulmões.
Estou lutando para manter as minhas mãos longe dele.
— É possível — ele sussurra — que você não sinta este fogo entre nós?
As mãos dele estão subindo pelos meus braços de novo, o toque muito leve, os dedos deslizando para debaixo das alças da minha camiseta e isso está me destruindo, está doendo no centro do meu ser, é uma pulsação batendo em cada centímetro do meu corpo e estou tentando me convencer a não perder a cabeça quando sinto as alças caírem e tudo para.
O ar está imóvel.
Minha pele está com medo.
Até meus pensamentos estão sussurrando.
Dois
Quatro
Seis segundos em que me esqueço de respirar.
Depois, sinto os lábios dele contra meu ombro, delicado e flamejante e terno, tão gentil que quase poderia acreditar ser o beijo de uma brisa e não de um garoto.
De novo.
Desta vez, na minha clavícula, e é como se eu estivesse sonhando, revivendo a carícia de uma memória esquecida, e é como uma dor procurando ser aliviada, é uma panela fervente jogada na água gelada, é uma bochecha corada apertada a um travesseiro frio em uma noite quente, quente, quente e estou pensando isso, estou pensando assim, estou pensando obrigada, obrigada, obrigada...
... Até me lembrar de que sua boca está em meu corpo e não estou fazendo nada para impedi-lo.
Ele se afasta.
Meus olhos recusam-se a reabrirem.
Seus dedos t-tocam no meu lábio inferior.
Ele delineia o formato da minha boca, as curvas, o sulco, a depressão e meus lábios se abrem embora eu lhes peça para não abrirem e ele se aproxima. Eu o sinto muito mais perto, enchendo o ar ao meu redor até não sobrar nada além dele e do calor de seu corpo, o aroma de sabonete fresco e algo impossível de identificar, algo doce, mas não doce, algo real e quente, algo que tem o cheiro dele, como se pertencesse a ele, como se ele fosse derramado em uma garrafa e eu estivesse me afogando dentro dela e nem percebo que estou me inclinando para ele, inalando o aroma do seu pescoço até perceber que seus dedos não estão mais nos meus lábios porque suas mãos estão em volta da minha cintura e ele diz:
— Você — e ele sussurra isso, letra por letra, ele aperta a palavra na minha pele antes de hesitar.
Depois.
Mais suave.
Seu peito arfando com força desta vez. Suas palavras quase ofegando desta vez.
— Você me destrói.
Estou caindo aos pedaços nos braços dele.
Meus punhos estão cheios de moedinhas do azar e meu coração é uma jukebox que exige algumas moedas e minha cabeça está jogando moedas cara ou coroa, cara ou coroa, cara ou coroa, cara ou coroa...
— Juliette — ele diz, e forma meu nome com a boca, quase sem som, e está derramando lava derretida em minhas mãos e meus pés e eu nunca soube que poderia derreter até a morte.
— Eu a desejo — ele diz.
Ele diz:
— Eu a desejo inteira. Desejo-a por dentro e por fora e respirando com dificuldade e sofrendo por mim como sofro por você.
Ele diz que é como um cigarro aceso alojado em sua garganta, como se quisesse mergulhar-me em mel quente e diz:
— Nunca foi segredo. Nunca tentei esconder isso de você. Nunca fingi querer nada menos.
— Você... Você disse que queria a-amizade...
— Sim — ele responde, ele engole em seco —, eu queria. Eu quero. Quero mesmo que você seja minha amiga.
Ele faz que sim com a cabeça e percebo o mais leve movimento de ar entre nós.
— Quero ser o amigo por quem você se apaixona perdidamente. O que você aceita nos seus braços e na sua cama e no mundo privado que mantém preso em sua cabeça. Quero ser esse tipo de amigo — ele afirma. — O que vai memorizar o que você fala e também o formato dos seus lábios quando você fala. Quero conhecer cada curva, cada sarda, cada pedaço do seu corpo, Juliette...
— Não — eu ofego. — Não... Não d-diga isso...
Não sei o que farei se ele continuar falando não sei o que farei e não confio em mim mesma.
— Quero saber onde a tocar — ele continua. — Quero saber como tocá-la. Quero saber como convencê-la a esboçar um sorriso apenas para mim.
Sinto seu peito subir, descer, para cima e para baixo e para cima e para baixo e...
— Sim — ele fala. — Quero mesmo ser seu amigo.
Ele diz:
— Quero ser seu melhor amigo no mundo todo.
Não consigo pensar.
Não consigo respirar.
— Quero tantas coisas — ele sussurra. — Quero sua mente. Sua força. Quero ser digno do seu tempo.
Seus dedos roçam a bainha da minha blusa e ele diz:
— Quero que isto suba.
Ele puxa a cintura da minha calça e diz:
— Quero que isto desça.
Ele toca as laterais do meu corpo com as pontas dos dedos e fala:
— Quero sentir sua pele pegar fogo. Quero sentir seu coração acelerado junto ao meu e quero saber que está acelerado por minha causa, porque você me quer. Porque você nunca — ele fala, ele respira — nunca quer que eu pare. Quero cada segundo. Cada centímetro seu. Quero tudo.
E eu caio morta, pelo chão todo.
— Juliette.
Não entendo como ainda posso escutá-lo falar, pois estou morta, morta já, morri de novo e de novo e de novo.
Ele engole em seco, com dificuldade, o peito arfando, suas palavras um murmúrio sem fôlego e trêmulo quando fala:
— Estou tão... Estou tão desesperadamente apaixonado por você...
Estou enraizada no chão, girando em pé, zonza em meu sangue e em meus ossos e estou respirando como se fosse o único humano que já aprendeu a voar, como se estivesse inalando o tipo de oxigênio encontrado apenas nas nuvens e estou tentando, mas não sei como evitar que meu corpo reaja a ele, as suas palavras, à dor em sua voz.
Ele toca em minha bochecha.
Suave, tão suave, como se ele não tivesse certeza se sou real, como se ele estivesse com medo de que, se chegar muito perto, eu vou ó, vejam, ela sumiu, simplesmente desapareceu. Seus quatro dedos roçaram a lateral do meu rosto, devagar, muito devagar antes de escorregarem para a parte de trás da minha cabeça, presos naquele espaço logo acima do meu pescoço. Seu polegar esfrega minha maçã do rosto.
Ele continua olhando para mim, olhando em meus olhos à procura de ajuda, orientação, de algum sinal de protesto, como se estivesse certo de que vou começar a gritar ou chorar ou fugir, mas não vou. Não acho que conseguiria nem se quisesse porque não quero. Quero ficar aqui. Bem aqui. Quero ser paralisada neste momento.
Ele se aproxima, apenas uns centímetros. A mão livre estende-se para aninhar o outro lado de meu rosto.
Está me segurando como se eu fosse feita de penas.
Está segurando meu rosto e olhando para a própria mão como se não pudesse acreditar que pegou este pássaro que está sempre muito desesperado para sair voando. Suas mãos estão tremendo, apenas um pouco, apenas o suficiente para que eu sinta o mais leve estremecimento contra minha pele. Já se foi o garoto com armas e segredos escondidos. Essas mãos que me seguram nunca seguraram uma arma. Essas mãos nunca tocaram na morte. Essas mãos são perfeitas e gentis e carinhosas.
E ele se inclina, com muito cuidado. Respirando e sem respirar e corações batendo entre nós e ele está muito perto, ele está muito perto e não consigo mais sentir minhas pernas. Não consigo sentir meus dedos ou o frio ou o vazio deste quarto porque tudo que sinto é ele, por toda parte, preenchendo tudo, e ele sussurra:
— Por favor.
Ele diz:
— Por favor, não atire em mim por isto.
E me beija.
Seus lábios são mais macios do que qualquer coisa que já conheci, macios como a primeira neve, como morder algodão-doce, como derreter e flutuar e não ter peso na água. É doce, é doce sem fazer esforço.
E, então, muda.
— Ó, meu Deus...
Ele me beija de novo, desta vez com mais força, desesperado, como se precisasse me ter, como se estivesse morrendo para memorizar o toque dos meus lábios contra os dele. O gosto dele está me deixando louca; ele todo é calor e desejo e hortelã e quero mais. Acabei de começar a atraí-lo, a puxá-lo para mim quando ele se afasta.
Ele está respirando como se tivesse perdido a cabeça e está olhando para mim como se algo estivesse quebrado dentro dele, como se tivesse acordado e descoberto que seus pesadelos eram apenas pesadelos, que nunca existiram, que eram apenas um sonho ruim que parecia real demais, mas, agora, ele acordou e está seguro, e tudo ficará bem e...
... estou caindo.
Estou ruindo e caindo dentro do coração dele e sou um desastre.
Ele está me analisando, procurando algo em meus olhos, sins ou nãos ou talvez uma deixa para continuar em frente, e tudo que quero é me afogar nele. Quero beijá-lo até desmoronar em seus braços, até ter deixado meus ossos para trás e flutuado em um novo espaço que é inteiramente nosso.
Sem palavras.
Apenas os lábios dele.
De novo.
Profundo e urgente como se ele não pudesse mais se dar ao luxo de ir devagar, como se houvesse muito que quisesse sentir e não houvesse anos suficientes para viver tudo. As mãos dele passeiam pelas minhas costas todas, aprendendo cada curva do meu corpo, e ele está beijando meu pescoço, minha garganta, o declive dos meus ombros e sua respiração está mais pesada, mais rápida, suas mãos de repente emaranhadas em meu cabelo e estou girando, estou zonza, estou me mexendo e alcançando sua nuca e agarrando-me a ele e é um calor gelado, é uma dor que ataca cada célula do meu corpo. É um desejo muito desesperado, um desejo tão primoroso que rivaliza com tudo, com cada momento feliz que pensei que tivesse vivido.
Estou contra a parede.
Ele está me beijando como se o mundo estivesse rolando por um penhasco abaixo, como se ele estivesse tentando se segurar e tivesse decidido se segurar em mim, como se estivesse faminto por vida e amor e nunca tivesse sabido que poderia ser tão bom estar tão perto de alguém. Como se fosse a primeira vez que já sentiu algo além de fome e não soubesse se equilibrar, não soubesse comer em pequenas porções, não soubesse fazer nada, nada, nada com moderação.
Minhas calças caem no chão e as mãos dele são as responsáveis.
Estou nos braços dele usando roupa de baixo e uma regata que pouco consegue me deixar decentemente vestida e ele se afasta só para me olhar, para sorver a visão que tem de mim e está dizendo “você é tão linda” ele está dizendo “você é tão inacreditavelmente linda” e puxa-me para seus braços de novo e me levanta, carrega-me até minha cama e, de repente, estou apoiada em meus travesseiros e ele está sobre meus quadris e sua camisa não está mais em seu corpo e não faço ideia de para onde foi. Tudo o que sei é que estou olhando para cima e para os olhos dele e estou pensando que não há nada que eu mudaria neste momento.
Ele tem centenas, milhares, milhões de beijos e está dando todos para mim.
Ele beija meu lábio superior.
Ele beija meu lábio inferior.
Ele beija logo abaixo do meu queixo, a ponta do meu nariz, a extensão da minha testa, as duas têmporas, minhas bochechas, por toda a linha do meu queixo. Depois, meu pescoço, atrás das minhas orelhas, descendo minha garganta e
suas mãos
deslizam
para baixo
em meu corpo. O corpo todo dele está descendo pelo meu, desaparecendo enquanto se move para baixo e, de repente, o peito dele está pairando sobre meus quadris; de repente, não consigo mais vê-lo. Posso apenas distinguir o topo da sua cabeça, a curva de seus ombros, o irregular subir e descer das suas costas conforme ele inspira e expira. Ele está descendo as mãos pelas minhas coxas nuas, contornando-as e subindo de novo, passando pelas minhas costelas, ao redor da parte baixa das minhas costas e descendo de novo, passando um pouco do meu osso do quadril. Seus dedos se engancham no elástico da minha calcinha e eu ofego.
Seus lábios tocam minha barriga nua.
É apenas o sussurro de um beijo, mas algo desmorona em minha cabeça. É o roçar leve como pena de sua boca contra minha pele em um lugar que não posso ver bem. Minha mente está falando em mil idiomas diferentes que não entendo.
E percebo que ele está subindo pelo meu corpo.
Está deixando um rastro de fogo pelo meu torso, um beijo após o outro, e realmente acho que não consigo aguentar mais isto; realmente não acho que vá ser capaz de sobreviver a isto. Há um choro crescendo em minha garganta, implorando para se libertar e estou trancando meus dedos no cabelo dele e puxando-o para cima, para mim, em cima de mim.
Preciso beijá-lo.
Levanto as mãos apenas para deslizá-las pelo seu pescoço e pela extensão de seu corpo e percebo que nunca me senti assim, não neste nível, não como se cada momento estivesse prestes a explodir, como se cada respiro pudesse ser nosso último, como se cada toque fosse suficiente para incendiar o mundo.
Estou esquecendo tudo, esquecendo o perigo e o horror e o terror de amanhã e nem consigo lembra por que estou esquecendo, o que estou esquecendo, que há algo que eu pareço já ter esquecido. É difícil demais prestar atenção em algo além dos olhos dele, queimando; a pele dele, nua; o corpo dele, perfeito.
Ele está completamente desarmado pelo meu toque.
Ele tem cuidado para não me comprimir, os cotovelos apoiados em cada lado da minha cabeça, e acho que devo estar sorrindo para ele porque ele está sorrindo para mim, mas ele está sorrindo como se pudesse estar petrificado; ele está respirando como se tivesse esquecido que deve respirar, olhando para mim como se não tivesse certeza de como fazer isso, hesitando como se estivesse incerto sobre como me deixar vê-lo assim. Como se não fizesse ideia de como ser tão vulnerável.
Mas aqui está ele.
E aqui estou eu.
A testa de Warner está prensada contra a minha, sua pele corada com o calor, seu nariz tocando o meu. Ele troca o peso para um braço, usa a mão livre para acariciar minha bochecha com delicadeza, aninhar meu rosto como se fosse feito de vidro e percebo que ainda estou prendendo a respiração e nem consigo me lembrar da última vez em que expirei.
Os olhos dele baixam para meus lábios e sobem de novo. Seu olhar é pesado, faminto, carregado de uma emoção que nunca o achei capaz de sentir. Nunca pensei que ele poderia ser tão completo, tão humano, tão real. Mas aqui está. Está bem aqui. Pura, escrita pelo rosto dele como se tivesse sido arrancada de seu peito.
Ele está me dando seu coração.
E diz uma palavra. Sussurra apenas uma coisa. Com muita urgência.
Ele diz:
— Juliette.
Fecho os olhos.
Ele diz:
— Não quero mais que você me chame de Warner.
Abro os olhos.
— Quero que me conheça — ele diz, sem fôlego, os dedos tirando uma mecha solta de cabelo do meu rosto. — Não quero ser o Warner com você — ele fala. — Quero que seja diferente agora. Quero que me chame de Aaron.
E estou prestes a dizer sim, é claro, eu entendo perfeitamente, mas há algo neste momento de silêncio que me confunde; algo neste momento e na sensação do nome dele na minha língua que destrava outras partes do meu cérebro e há algo ali, algo empurrando e puxando minha pele e tentando me lembrar, tentando me dizer e
levo um tapa na cara
levo um soco no queixo
sou jogada no meio do oceano.
— Adam.
Meus ossos estão cheios de gelo. Todo o meu ser quer vomitar. Estou saindo, cambaleando, de debaixo dele e me afastando e quase caio direto no chão e esta sensação, esta sensação, esta sensação esmagadora de absoluto ódio por mim mesma perfura meu estômago como o corte de uma faca afiada demais, grossa demais, letal demais para que eu permaneça em pé e estou me agarrando a mim mesma, tentando não chorar e dizendo não não não isto não pode acontecer isto não pode estar acontecendo eu amo Adam, meu coração está com Adam, não posso fazer isto com ele...
... e Warner parece que levou um tiro de mim de novo, como se eu tivesse colocado uma bala em seu coração com minhas próprias mãos, e ele levanta, mas mal consegue ficar em pé. Seu corpo está tremendo e ele está olhando para mim como se quisesse dizer alguma coisa, mas, toda vez que tenta falar, não consegue.
— Sinto m-muito — eu balbucio —, sinto muito... Nunca quis que isso acontecesse... Eu não estava pensando...
Mas ele não está ouvindo.
Ele está balançando a cabeça de novo e de novo e de novo e está olhando para as mãos como se estivesse esperando o momento em que alguém lhe diz que isto não é real e sussurra:
— O que está acontecendo comigo? Estou sonhando?
Estou tão enjoada, tão confusa, porque eu o quero, eu o quero e quero Adam também e quero demais e nunca me senti mais como um monstro do que me senti esta noite.
A dor está tão clara no rosto dele que me mata.
Eu a sinto. Eu a sinto me matar.
Estou me esforçando muito para desviar o olhar, para esquecer, para descobrir como apagar o que acabou de acontecer, mas tudo em que consigo pensar é que a vida é como um balanço de pneu quebrado, uma criança na barriga da mãe, um punhado de ossinhos da sorte. É tudo possibilidade e potencial, passos certos e errados na direção de um futuro que nem está garantido para nós, e eu, eu sou tão errada. Todos meus passos são errados, sempre errados. Sou a encarnação do erro.
Porque isso nunca devia ter acontecido.
Foi um erro.
— Você está escolhendo o Kent? — Warner pergunta, quase sem respirar, ainda olhando para mim como se pudesse cair. — Foi isso que acabou de acontecer? Está escolhendo Kent em vez de mim? Porque acho que não entendo o que acabou de acontecer e preciso que você diga alguma coisa, preciso que me diga que diabos está acontecendo comigo agora...
— Não — eu ofego. — Não, não estou escolhendo ninguém... Não estou... Não e-estou...
Mas estou. E nem sei como cheguei a isso.
— Por quê? — ele questiona. — Porque ele é a escolha mais segura para você? Porque você acha que deve algo a ele? Você está cometendo um erro — ele fala, com a voz mais alta agora. — Você está com medo. Não quer fazer a difícil escolha e está fugindo de mim.
— Talvez eu apenas n-não queira ficar com você.
— Você sabe que quer ficar comigo! — ele explode.
— Você está errado.
Ó, meu Deus, o que estou dizendo nem sei onde estou encontrando essas palavras, de onde estão vindo ou de qual árvore as arranquei. Elas simplesmente continuam crescendo na minha boca e, às vezes, eu seguro com força demais um advérbio ou pronome e, às vezes, as palavras são amargas, às vezes, são doces, mas, agora, tudo tem gosto de romance e arrependimento e mentira, mentira, sua mentirosa, por toda minha garganta.
Warner ainda está me encarando.
— Mesmo?
Ele luta para controlar seu humor e vem um passo mais para perto, muito mais perto, e posso ver seu rosto com clareza demais, posso ver seus lábios com clareza demais, posso ver a raiva e a dor e a descrença marcadas em seus traços e não tenho tanta certeza se devo continuar em pé. Acho que minhas pernas não podem me suportar por muito mais tempo.
— S-sim.
Arranco outra palavra da árvore que mente em minha boca, mente, mente, mente em meus lábios.
— Então, estou errado — ele diz a frase com a voz baixa, muito, muito baixa. — Estou errado em achar que você me quer. Que quer ficar comigo.
Seus dedos roçam meus ombros, meus braços; suas mãos descem pelas laterais do meu corpo, traçando cada centímetro meu e estou apertando a boca para evitar que a verdade escape, mas não estou conseguindo, não estou conseguindo, não estou conseguindo porque a única verdade que conheço agora é que estou a poucos instantes de perder a cabeça.
— Diga-me uma coisa, amor — seus lábios estão sussurrando contra o meu maxilar. — Sou cego também?
Eu vou mesmo morrer.
— Você não vai me fazer de palhaço!
Ele se afasta de mim.
— Não permitirei que tire sarro dos meus sentimentos por você! Eu poderia respeitar sua decisão de atirar em mim, Juliette, mas fazer isso... Fazer... fazer o que você acabou de fazer...
Ele mal consegue respirar. Passa a mão pelo rosto, as duas mãos pelo cabelo, parecendo querer gritar, quebrar alguma coisa, como se estivesse real, verdadeiramente a ponto de perder a cabeça. Sua voz é um sussurro rouco quando ele por fim fala:
— É a jogada de uma covarde — ele diz. — Pensei que você fosse muito melhor que isso.
— Não sou covarde...
— Então seja honesta consigo mesma! — ele fala. — Seja honesta comigo! Diga-me a verdade!
Minha cabeça está rolando pelo chão, girando como um pião de madeira, dando voltas e voltas e voltas e não consigo pará-la. Não consigo fazer o mundo parar de girar e minha confusão está sangrando até virar culpa, que rapidamente evolui para raiva e, de repente, está borbulhando, espumando, subindo para a superfície e eu olho para ele. Fecho minhas mãos trêmulas em punhos.
— A verdade — digo a ele — é que nunca sei o que pensar a seu respeito! Suas atitudes, seu comportamento... Você nunca é consistente! Você é horrível comigo e, depois, é gentil comigo e diz que me ama e, depois, machuca as pessoas com quem mais me importo! E você é um mentiroso — falo com grosseria, afastando-me dele. — Diz que não se importa com o que faz... Diz que não se importa com outras pessoas e com o que fez a elas, mas não acredito nisso. Acho que você está se escondendo. Acho que o verdadeiro você está se escondendo embaixo de toda a destruição e acho que você é melhor do que essa vida que escolheu para si mesmo. Acho que você pode mudar. Acho que você pode ser diferente. E sinto pena de você!
Essas palavras, essas palavras idiotas, elas não param de escorrer da minha boca.
— Tenho pena da sua infância horrível. Tenho pena de você ter um pai tão desprezível e imprestável e tenho pena de ninguém nunca ter dado uma chance a você. Tenho pena das decisões terríveis que tomou. Tenho pena de você se sentir preso a elas, de se achar um monstro que não pode ser mudado. Mas, acima de tudo — eu completo —, acima de tudo, tenho pena de você não ter misericórdia de si mesmo!
Warner se encolhe como se tivesse lhe dado um tapa na cara.
O silêncio entre nós massacrou mil segundos inocentes e, quando ele enfim fala, sua voz mal é audível, cheia de descrença.
— Você tem pena de mim.
Minha respiração para. Minha determinação se dilui.
— Você acha que sou um tipo de projeto quebrado que você pode consertar.
— Não... Eu não...
— Você não faz ideia do que fiz! — suas palavras são furiosas conforme ele caminha para frente. — Você não faz ideia do que vi, do que fui obrigado a fazer parte. Você não faz ideia do que sou capaz ou de quanta misericórdia eu mereço. Eu conheço meu próprio coração — ele fala, ríspido. — Sei quem sou. Não ouse sentir pena de mim!
Ó, minhas pernas definitivamente não estão funcionando.
— Pensei que você poderia me amar por mim — ele afirma. — Achei que seria a única pessoa neste mundo maldito a me aceitar como sou! Pensei que você, entre todas as pessoas, entenderia.
Seu rosto está bem em frente ao meu quando ele diz:
— Eu estava enganado. Estava horrível, horrivelmente enganado.
Ele recua. Pega a camisa e vira-se para sair e eu deveria deixá-lo ir, deveria deixá-lo sair pela porta e da minha vida, mas não consigo, agarro o braço dele, puxo-o de volta e digo:
— Por favor, não foi isso que quis dizer...
Ele se vira e diz:
— Não quero a sua compaixão!
— Eu não estava tentando magoá-lo...
— A verdade — ele começa — é um lembrete doloroso do motivo de eu preferir viver entre mentiras.
Não consigo suportar o olhar dele, a dor desgraçada e horrível que ele não está se esforçando para esconder. Não sei o que falar para consertar a situação.
Não sei como retirar o que disse.
Sei que não quero que ele vá embora.
Não assim.
Ele parece que vai falar; muda de ideia. Respira tenso, contrai os lábios como se para impedir que as palavras escapem e estou prestes a dizer algo, estou prestes a tentar de novo quando ele puxa o ar, trêmulo, e diz:
— Tchau, Juliette.
E não sei por que isso está me matando, não entendo minha repentina ansiedade e preciso saber, preciso dizer, preciso fazer a pergunta que não é uma pergunta e falo:
— Não o verei de novo.
Vejo-o lutar para encontrar as palavras, vejo-o virar-se para mim e desvirar-se e, por um milésimo de segundo, vejo o que aconteceu, vejo a diferença em seus olhos, o brilho de emoção que nunca sonhei que ele fosse capaz de ter e sei, entendo por que ele não olha para mim e não consigo acreditar. Quero cair no chão enquanto ele luta contra si mesmo, luta para falar, luta para engolir o tremor em sua voz ao dizer:
— Eu certamente espero que não.
E é isso.
Ele sai.
Sou partida ao meio e ele se vai.
Ele se vai para sempre.

23 comentários:

  1. Se ela não quer o Warner, eu quero! Meu Deus, que homem s2

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  2. Warner...não vai embora não, por favor!!!

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  3. A que vontade de da na cara dela... vem meu lindo eu cuido de vc...

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  4. acho que essa garota realmente é louca , nao quer os caras , mais quer , ai fica chateada quando os dois se afastam dela , vai entender

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  5. Acho que agora o Warner pode literalmente se jogar do penhasco porque essa doeu até em mim.

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  6. Coitado do Adam e do warner sacanagem se decide logo Juliette

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  7. Mano q garota burra, conseguiu estragar o momento, e eu aqui me derretendo com tudo que o Warner disse (impossível eu não amar esse cara) aí dps q tão quase se comendo, a garota estraga tudo, cara essa doeu até em mim, tudo oq ela disse doeu muito. Vem cá mozão, deixa eu cuidar d vc, te consolar *^*

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  8. Que puta situação. Eu amo o Warner e gosto do Adam, mas, sei lá, seria injusto com o Adam.

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  9. AFF, que trouxa!! É 8 ou 80 se decida!

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  10. Como vc pode amar e odiar um capitulo ao mesmo tempo? Aaron se a juju não te quer eu quero. Essa cena me derreteu... Me derreteu como se eu fosse um chocolate em banho maria, esquentou minha pele como se fosse o fogo de 1000 sóis... E no fim me afundou em uma câmara fria e jogou a chave fora. isso não se faz

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  11. Eles ai se pegando um tempão e eu só "Jiuliett. E o Adam".

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  12. Jezuis *-*

    Tava tudo tããão lindo e dai soube que ia dar mérlim no fim :|

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  13. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 03:31

    PQP Jullie kkkkkkkkkkk tá na maior pegação com um e chama pelo nome do outro kkkkkkk isso é sacanagem com o Aaron, mais a verdade é que ela fica sim balançada pelo Warner, mais amor mesmo é o que ela sente pelo Adam
    P.S: Aaron é ultrabipolar

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  14. Quanta burrice pra uma pessoa só, alguém dá um tiro nela logo pfv?

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  15. Cara, todo mundo tem um favorito mas no caso dela é o amor e tudo mais. As vezes a gente tem que pensar que Warner pra ela era o cara mal e como ela tem uma alma boa, não consegue simplesmente esquecer tudo e viver um sentimento.

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  16. Meus Deus, pq, Juliette???? Pq vc fez isso com ele??? Vem cá, Aaron, vem cá que eu te dou todo o meu amor. Meus Deus, tava tudo ótimo. Juliette, pq vc estragou tudo? Aaron, vem cá, meu amor.

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  17. aaaaaaaaa mds pq vc fez isso????

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  18. ela esta confusa gente!!!! Da um tempo, ne? #TeamWarnertte bell

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  19. Que capítulo foi esse😱😍 OMG AMEI

    ~MIRELLE

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  20. Mds que idiotaaa manooo , cara como assim Brasil ? Juliette vc não pode sair por aí magoando meu Mozão . Doeu até em mim

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  21. MEU DEUS. DO CEU.... QUE CAPITULO FOI ESSE??? C-A-R-A,C,A !-! AARON VC CONCERTEZA SABE FAZER O NEGOCIO MELHOR.., CHOQUEI... BOCA ABERTA

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Boa leitura :)