6 de janeiro de 2017

60

Há um suspiro de espanto audível dos soldados parados logo abaixo.
Eles definitivamente se lembram de mim.
Warner tira um pedaço quadrado de malha de metal do bolso e o pressiona contra os lábios, apenas uma vez, antes de segurá-lo na mão fechada. A voz dele é amplificada pela multidão quando ele fala.
— Setor 45 — diz.
Eles se mexem. Seus punhos direitos sobem para se apoiar em seu peito, os punhos esquerdos soltos, caídos ao lado de seus corpos.
— Disseram a vocês — ele fala —, há pouco mais de um mês, que nós vencemos uma batalha contra um grupo de resistência chamado Ponto Ômega. Disseram a vocês que dizimamos a base deles e massacramos os homens e mulheres deles que restavam no campo de batalha. Disseram a vocês — ele continua — para nunca duvidarem do poder d’O Restabelecimento. Somos imbatíveis. Insuperáveis em poder militar e controle de terra. Disseram a vocês que nós somos o futuro. A única esperança.
A voz dele ressoa sobre a multidão, os olhos passando pelos rostos de seus homens.
— E eu espero — ele diz — que vocês não tenham acreditado nisso.
Os soldados estão olhando fixamente, pasmos, enquanto Warner fala. Eles parecem ter medo de pisar fora da linha caso isso revele ser um tipo elaborado de piada, ou talvez um teste d’O Restabelecimento. Eles não fazem nada além de olhar, sem se importar mais em fazer seus rostos parecerem o mais estoicos possível.
— Juliette Ferrars — ele diz — não morreu. Ela está aqui, parada ao meu lado, apesar das alegações feitas por nosso Comandante Supremo. Ele realmente deu um tiro no peito dela. E ele realmente a deixou para morrer. Mas ela conseguiu sobreviver a esse atraque contra sua vida e chegou aqui hoje para fazer uma oferta a vocês.
Eu pego a malha de metal da mão de Warner, encosto-a em meus lábios como ele fez. Baixo-a para a minha mão fechada.
Respiro fundo. E digo cinco palavras.
— Eu quero destruir O Restabelecimento.
Minha voz está tão alta, tão poderosamente projetada sobre a multidão que, por um momento, ela me surpreende. Os soldados estão me encarando com horror. Choque. Descrença. Assombro. Estão começando a cochichar.
— Quero liderá-los para a batalha — digo a eles. — Quero revidar...
Ninguém está me ouvindo mais.
As linhas perfeitamente organizadas deles foram abandonadas. Eles agora estão se juntando em uma grande massa, falando e gritando e tentando deliberar entre si. Tentando entender o que está acontecendo.
Não acredito que perdi a atenção deles tão depressa.
— Não hesite — Warner diz para mim. — Você precisa reagir. Agora.
Eu estava esperando guardar esta para mais tarde.
Neste instante, nós estamos a apenas uns 4,5 metros do chão, mas Warner me disse que há mais quatro andares, se eu quiser subir até o fim. O andar mais alto abriga os alto-falantes designados para esta área em especial. Tem uma pequena plataforma de manutenção que só é acessada por técnicos.
Já estou subindo.
Os soldados estão distraídos de novo, apontando para mim enquanto eu subo as escadas; ainda falando alto uns com os outros. Não faço ideia se é possível que a notícia desta situação já tenha chegado aos civis e aos espiões subordinados ao Supremo. Não tenho tempo para me importar agora porque nem terminei de fazer meu discurso e já os perdi.
Isto não é bom.
Quando eu enfim chego ao último andar, estou a cerca de 30 metros do chão. Tenho cuidado ao subir na plataforma, e tenho mais cuidado de não olhar para baixo por muito tempo. E, quando finalmente firmo meus pés, levanto o olhar e observo a multidão.
Tenho a atenção de todos de novo.
E fecho a mão em volta da malha de metal que serve de microfone.
— Tenho apenas uma pergunta — digo, minhas palavras poderosas e claras, projetando-se na distância. — O que O Restabelecimento já fez por vocês?
Eles estão mesmo olhando para mim agora. Ouvindo.
— Eles não lhes deram nada além de salários baixos e promessas de um futuro que nunca virá. Eles dividiram suas famílias e as forçaram a atravessar o que sobra desta terra. Eles fizeram seus filhos passar fome e destruíram seus lares. Eles mentem para vocês, de novo e de novo, forçando-os a aceitar empregos no exército para poderem controlá-los. E vocês não têm escolha — falo. — Nenhuma opção. Assim, vocês lutam as guerras deles e matam seus próprios amigos, só para poderem alimentar suas famílias.
Sim, eu tenho a atenção deles agora.
— A pessoa que vocês permitem que lidere esta nação é um covarde — digo para ele. — Ele é um homem fraco que tem medo demais de mostrar o rosto para o povo. Ele vive em segredo, esconde-se das pessoas que contam com ele e, ainda assim, ensinou-os a ter medo dele — afirmo. — Ele os ensinou a se curvarem quando seu nome é dito. Talvez vocês ainda não o tenham conhecido — continuo. — Mas eu conheci. E não fiquei impressionada.
Não acredito que ninguém atirou em mim ainda. Não me importa se eles deveriam estar desarmados. Alguém provavelmente tem uma arma. E ninguém atirou em mim ainda.
— Participem da uma nova resistência — digo, falando para a multidão. — Nós somos a maioria e podemos ficar unidos. Vocês vão continuar a viver assim? — pergunto a eles, apontando os aglomerados a distância. — Vocês vão continuar a passar fome? Porque eles vão continuar mentindo para vocês! Nosso mundo não passou do limite em que pode ser consertado. Não passou do limite em que pode ser salvo. Podemos ser o nosso próprio exército — digo a eles. — Podemos ficar juntos. Juntem-se a mim — peço — e prometo que a situação vai mudar.
— Como? — ouço alguém gritar. — Como você pode prometer algo assim?
— Não sou intimidada pelo Restabelecimento — respondo. — E tenho mais força do que vocês podem saber. Eu tenho o tipo de poder que o Comandante Supremo não pode enfrentar.
— Nós já sabemos o que você pode fazer! — outra pessoa grita. — Isso não a salvou antes!
— Não — respondo a eles —, vocês não sabem o que eu posso fazer. Vocês não fazem ideia do que eu posso fazer.
Estendo os braços à minha frente, as duas mãos apontadas na direção da multidão. Tento achar um bom meio. E, depois, eu me concentro.
Sinta o seu poder, Kenji disse para mim certa vez. Ele faz parte de você; parte do seu corpo e da sua mente. Ele vai ouvi-la se você aprender a controlá-lo.
Eu fixo os pés. Preparo-me.
E, então, eu divido a multidão.
Devagar.
Foco minha energia em reconhecer cada corpo e permito que meu poder se movimente com fluidez, trabalhando em volta dos soldados com delicadeza, em vez de passar depressa entre eles e acidentalmente rasgá-los. Meu poder se agarra à forma deles como meus dedos fariam, enfim achando um meio perfeito que divide o grupo em duas partes. Eles já estão olhando um para o outro de cada lado do pátio, tentando entender por que não conseguem se mexer contra as paredes invisíveis que os separam.
Porém, assim que a energia se estabiliza no lugar, eu abro os braços, bem distantes.
Empurro.
Os soldados são jogados para trás. Metade para a esquerda. Metade para a direita. Não o suficiente para se machucarem, mas o suficiente para ficarem admirados. Quero que eles sintam o poder que tenho em mim. Quero que eles saibam que estou me segurando.
— Eu posso proteger vocês — digo a eles, minha voz ainda ressoando alta sobre todos. — E tenho amigos que poderiam fazer mais. Que vão ficar ao meu lado e lutar.
E, assim, como se seguissem uma deixa, eles aparecem do nada, bem no meio do pátio, no espaço que acabei de abrir.
Os soldados recuam depressa, pasmos, indo mais para cada canto.
Castle estende um braço, fazendo uma pequena árvore a distância se arrancar do chão. Ele usa as duas mãos para puxá-la do solo e, depois disso, a árvore avança, balançando sem controle, voando pelo ar, os galhos chacoalhando ao vento. Castle a empurra para trás, mexendo-a com nada além de sua mente.
Ele a joga ainda mais para o alto, logo acima da cabeça deles, e Brendan estende os braços.
Bate as mãos, com força.
Um raio de eletricidade atinge a árvore na base e sobe pelo tronco tão depressa, e com um poder tão extremo, que praticamente a desintegra; os pedaços restantes chovem no chão.
Eu não estava esperando isso; eles nem deveriam estar me ajudando hoje. Mas acabaram de criar a apresentação perfeita para mim.
Agora. Bem agora.
Todos os soldados estão assistindo. O pátio tem um espaço aberto. Vejo os olhos de Kenji lá embaixo e procuro uma confirmação.
Ele faz que sim com a cabeça.
Eu pulo.
Trinta metros no ar, olhos fechados, pernas estendidas, braços abertos. E eu sinto mais poder correr pelo meu ser do que já senti antes. Eu o controlo. Eu o projeto.
E pouso com tanta força no chão que ele se estilhaça debaixo de mim.
Estou agachada, uma mão estendida à minha frente. O pátio está tremendo tanto que, por um segundo, não tenho certeza se não provoquei outro terremoto.
Quando eu enfim fico de pé e olho ao redor, posso ver os soldados com muito mais clareza. Seus rostos, suas preocupações. Eles estão me olhando admirados, os olhos arregalados de assombro e um toque de medo.
— Vocês não vão ficar sozinhos — digo a eles, me virando para ver seus rostos. — Não precisam mais ter medo. Queremos retomar o nosso mundo. Queremos salvar a vida dos nossos parentes, dos nossos amigos. Queremos que seus filhos tenham a chance de um futuro melhor. E queremos lutar. Nós queremos vencer.
Eu prendo meu olhar no olhar deles.
— E estamos pedindo a ajuda de vocês.
Há um silêncio absoluto.
E, depois, um caos absoluto.
Comemorações. Gritos e berros. Pés batendo no chão.
Eu sinto o quadro de malha de metal ser puxado da minha mão. Ele voa pelo ar até a mão de Warner.
Ele se dirige a seus homens.
— Parabéns, senhores — diz. — Passem a notícia para suas famílias. Seus amigos. Amanhã, tudo mudará. O Supremo virá para cá em questão de dias — ele fala. — Preparem-se para a guerra.
E, depois, de uma só vez.
Kenji faz com que todos nós desapareçamos.

10 comentários:

  1. Mais dramatico impossível shsuahsuhaush 😂😂

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    1. No quesito drama esse pessoal tem doutorado. kkkkk

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  2. Vou chorar d emocao \○/

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  3. SIM, EU VOTO SIIIIMMMMM HEUHEU MEU MDS ESSA ENTRADA DELES FOI ÉPICA E DRAMÁTICA KKKKK
    Juju, vc foi simplesmente demais *-*

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  4. Mortaaaaaaa com o dicursso da JUJU ....

    Drama eh pouco ... amoooooooooooooo

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  5. Arrasou juju, arrasou. Todos vocês arrasaram!

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  6. Que cena épica!!!!
    Estou sem palavras.

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  7. LACRADORA não importa quantas vezes eu leia sempre bate uma emoção!!

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Boa leitura :)