2 de janeiro de 2017

60

Não precisamos fazer nada, nada para morrer.
Podemos nos esconder em um armário embaixo da escada pela vida toda e ela ainda assim vai nos encontrar. A morte aparecerá usando uma capa invisível e sacudirá uma varinha mágica e nos varrerá para longe quando menos esperarmos. Apagará todos os traços da nossa existência nesta Terra e fará todo o trabalho de graça. Não pedirá nada em troca. Fará uma reverência em nosso funeral e aceitará os louvores por um trabalho bem feito e, depois, desaparecerá.
Viver é mais complexo. Tem uma coisa que sempre precisamos fazer.
Respirar.
Inspirar e expirar, todo santo dia, a toda hora, minuto e momento devemos respirar. Mesmo enquanto planejamos asfixiar nossas esperanças e nossos sonhos, ainda assim respiramos. Mesmo enquanto murchamos e vendemos nossa dignidade para o homem da esquina, nós respiramos. Respiramos quando estamos errados, respiramos quando estamos certos, respiramos mesmo quando escorregamos, cedo demais, para o túmulo. Não podemos não fazer.
Então, respiro.
Conto todos os degraus que subi em direção ao laço da forca pendurado no teto da minha existência e conto quantas vezes fui idiota e fico sem números.
Kenji quase morreu hoje.
Por minha causa.
Ainda é culpa minha Adam e Warner terem brigado. Ainda é culpa minha eu ter me colocado entre eles. Ainda é culpa minha Kenji ter sentido a necessidade de afastá-los e, se não tivesse sido pega no meio da confusão, Kenji nunca teria se machucado.
E estou parada aqui. Olhando para ele.
Ele mal está respirando e estou implorando. Implorando a ele para fazer a única coisa que importa. A única coisa que importa. Preciso que ele se segure, mas ele não está ouvindo. Ele não pode me ouvir e preciso que ele fique bem.
Preciso que ele sobreviva. Preciso que ele respire.
Preciso dele.
Castle não tinha muito mais a dizer.
Todos estavam parados em volta dele, alguns apertados dentro da ala médica, outros em pé do outro lado do vidro, observando em silêncio. Castle fez um pequeno discurso sobre como precisamos nos unir, como somos uma família e, se não tivermos uns aos outros, o que teremos então? Ele disse que estamos todos assustados, é claro, mas agora é a hora de apoiarmos uns aos outros. Agora é a hora de nos juntarmos e nos defendermos. Agora é a hora, ele disse, de recuperarmos nosso mundo.
— Agora é a hora de vivermos — ele falou. — Adiaremos a partida amanhã apenas o suficiente para que todos tenham um último café da manhã juntos. Não podemos ir para a batalha divididos — ele comunicou. — Temos de ter fé em nós mesmos e uns nos outros. Tirem um tempo a mais pela manhã para ficarem em paz com vocês mesmos. Depois do café da manhã, partiremos. Como um só.
— E o Kenji? — alguém perguntou, e fiquei assustada ao ouvir uma voz familiar.
James. Ele estava parado ali com os punhos cerrados, marcas de lágrimas em seu rosto, o lábio inferior tremendo enquanto lutava para esconder a dor em sua voz.
Meu coração se parte bem no meio.
— O que quer dizer? — Castle questionou.
— Ele lutará amanhã? — James quis saber, fungando as últimas lágrimas, com os punhos começando a tremer. — Ele quer lutar amanhã. Ele me disse que quer lutar amanhã.
O rosto de Castle ganhou vincos ao se franzir. Ele demorou um pouco para responder.
— Eu... eu temo que Kenji não poderá ir conosco amanhã. Mas, talvez — ele disse —, talvez você possa ficar e fazer companhia a ele?
James não respondeu. Ele apenas encarou Castle. Depois, encarou Kenji. Piscou várias vezes antes de abrir caminho pela multidão e subir na cama de Kenji. Encolheu-se ao lado dele e logo caiu no sono.
Todos viram isso como uma deixa para saírem.
Bem, todos menos eu, Adam, Castle e as meninas. Acho interessante todos se referirem a Sonya e Sara como “as meninas”, como se fossem as únicas meninas do lugar todo. Não são. Nem sei como elas ganharam esse apelido e, embora uma parte de mim queira saber, outra parte está exausta demais para perguntar.
Enrolo-me em meu assento e olho para Kenji, que está lutando para inspirar e expirar. Apoio a cabeça sobre o punho, enfrentando o sono que está se tecendo na minha consciência. Não mereço dormir. Eu deveria ficar aqui a noite inteira e cuidar dele. E eu ficaria, se pudesse tocar nele sem destruir sua vida.
— Vocês dois devem ir para a cama.
Acordo em um solavanco, com um pulo, sem perceber que cheguei a cochilar por um segundo. Castle está me encarando com um olhar suave e estranho no rosto.
— Não estou cansada — minto.
— Vá para a cama — ele diz. — Teremos um dia cheio amanhã. Você precisa dormir.
— Posso acompanhá-la até a saída — Adam oferece.
Ele se mexe para levantar.
— E, depois, voltarei...
— Por favor — Castle o interrompe. — Vá. Ficarei bem com as garotas.
— Mas você precisa dormir mais do que nós — digo a ele.
Castle abre um sorriso triste.
— Temo que não vá dormir esta noite.
Ele se vira para olhar Kenji, os olhos enrugando-se de alegria ou dor, ou algo entre as duas.
— Sabem — Castle começa — que conheço Kenji desde que ele era um garotinho? Encontrei-o pouco depois de ter construído o Ponto Ômega. Ele cresceu aqui. Quando o conheci, ele estava vivendo em um velho carrinho de compras que achou na beira da estrada.
Castle faz uma pausa.
— Ele nunca contou essa história a vocês?
Adam senta-se de novo. De repente, estou bem acordada.
— Não — nós dois respondemos ao mesmo tempo.
— Ah... desculpem-me.
Castle balança a cabeça.
— Eu não devia gastar o tempo de vocês com essas coisas — ele diz. — Acho que há muito nas suas cabeças agora. Estou esquecendo quais histórias guardar para mim mesmo.
— Não... Por favor... Quero saber — peço a ele. — De verdade.
Castle olha para as próprias mãos. Sorri um pouco.
— Não há muito para contar — ele afirma. — Kenji nunca conversou comigo sobre o que aconteceu aos seus pais, e tento não perguntar. Tudo o que ele tem é um nome e uma idade. Cruzei com ele por acidente mesmo. Era apenas um menino sentado em um carrinho de compras. Longe da civilização. Era o pico do inverno e ele não usava nada além de uma camiseta velha e calças de moletom alguns números acima do dele. Parecia estar congelando, como se precisasse de algumas refeições e um lugar para dormir. Eu não podia simplesmente ir embora — Castle conta. — Não podia simplesmente deixá-lo ali. Assim, perguntei se ele estava com fome.
Ele para, recordando.
— Kenji não disse nada por, pelo menos, 30 segundos. Apenas olhava para mim. Eu quase fui embora, pensando tê-lo assustado. Mas, depois, finalmente, ele estendeu o braço, agarrou minha mão, colocou-a em sua palma e balançou-a. Com bastante força. E disse “olá, senhor. Meu nome é Kenji Kishimoto e tenho nove anos. É um prazer conhecê-lo”.
Castle ri alto, com os olhos brilhando com uma emoção que contradiz seus sorrisos.
— Ele devia estar faminto, pobrezinho. Ele sempre — Castle continua, agora piscando enquanto olha para o teto —, ele sempre teve uma personalidade do tipo forte e determinada. Tanto orgulho. Impossível de conter esse rapaz.
Ficamos em silêncio por um tempo.
— Eu não fazia ideia — Adam começa — de que vocês eram tão unidos.
Castle levanta-se. Olha para nós ao seu redor e abre um sorriso radiante demais, tenso demais. Diz:
— Sim. Bem, tenho certeza de que ele ficará bem. Estará bem pela manhã e, assim, vocês dois devem mesmo dormir um pouco.
— Tem cert...
— Sim, por favor, vão para a cama. Ficarei bem aqui com as meninas, prometo.
E, assim, nós nos levantamos. Nós nos levantamos e Adam consegue erguer James da cama de Kenji e pegá-lo no colo sem acordá-lo. E saímos.
Eu olho para trás.
Castle cai na cadeira e apoia a cabeça nas mãos e cai para frente, na direção dos joelhos. Vejo-o estender a mão trêmula para pousá-la na perna de Kenji e me pergunto o quanto ainda não sei sobre essas pessoas com quem vivo. O quão pouco permiti a mim mesma fazer parte do mundo delas.
E sei que quero mudar isso.

5 comentários:

  1. Kenji :( tô chorando, quero meu Kenji lindo e saudável, ele é tão legal, tão perfeito *^*

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  2. Nossa.
    Cade o Arom Warner ? meu lindo.

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  3. Juro que já fazia um tempinho que eu estava pensando que o Castle podia ser pai do Kenji, mas agora eu vi que ele é tipo um pai afetivo e não biológico

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  4. Podemos nos esconder em um armário embaixo da escada pela vida toda e ela ainda assim vai nos encontrar. A morte aparecerá usando uma capa invisível e sacudirá uma varinha mágica e nos varrerá para longe quando menos esperarmos.

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  5. potterhead-selecionada10 de setembro de 2017 14:57

    Anônimo de 15 de março de 2017,essa parte me lembrou Harry Potter

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Boa leitura :)