2 de janeiro de 2017

6

Kenji solta um assobio baixo.
Castle está dizendo o nome de Adam, pedindo que ele vá mais devagar, que converse com ele, que discuta o assunto de maneira racional. Adam não olha para trás.
— Eu disse que ele era mal-humorado — Kenji sussurra.
— Ele não é mal-humorado — eu me escuto dizer, mas as palavras parecem distantes, desconectadas dos meus lábios.
Eu me sinto entorpecida, como se tivessem arrancado o interior dos meus braços e a única coisa que faz peso em meu corpo agora é esse cérebro cheio demais de matéria, porque tudo, tudo é importante agora. E tudo isso está em minha cabeça.
Onde deixei minha voz não encontro minha voz não encontro minha
— Então! Você e eu, hein?
Kenji bate as mãos.
— Pronta para ser arrasada?
— Kenji.
Aí está. Voz boba, estava escondida sob o medo e a paranoia e a negação e a dor e a dor e
— Sim?
— Quero que me leve para onde eles foram.
Kenji está me olhando como se eu tivesse acabado de pedir para ele dar um soco na própria cara.
— Ahn, certo... Que tal um sem chance carinhoso para esse pedido? Funciona para você? Porque funciona para mim.
— Eu preciso saber o que está acontecendo.
Viro-me para ele, desesperada, sentindo-me idiota.
— Você sabe, não sabe? Você sabe o que está errado...
— Claro que sei.
Ele franze as sobrancelhas, cruza os braços. Direciona o olhar para mim.
— Eu moro com esse pobre infeliz e praticamente administro este lugar.
— E por que não me conta? Kenji, por favor...
— Sim, ahn, vou deixar passar essa, mas sabe o que vou fazer? Vou ajudá-la a dar o fora deste salão onde todos estão ouvindo tudo o que falamos.
Essa última parte ele diz mais alto, olhando ao redor, balançando a cabeça.
— Voltem aos seus cafés da manhã, pessoal. Não há nada para ver aqui.
É apenas nesse momento que percebo o espetáculo que fizemos. Todos os olhos do salão estão piscando para mim, julgando julgando julgando, imaginando que diabos está acontecendo. Eu tento um sorriso fraco e um aceno nervoso antes de permitir que Kenji me tire de lá arrastando os pés.
— Não precisa acenar para o povo, princesa. Não é uma cerimônia de coroação.
Ele me empurra para um dos muitos corredores longos e mal iluminados.
— Diga-me o que está acontecendo.
Eu tenho de piscar várias vezes antes de meus olhos se adaptarem à iluminação.
— Não é justo... Todos sabem o que está acontecendo, menos eu.
Ele encolhe os ombros e encosta um deles na parede.
— Não cabe a mim contar. Quero dizer, gosto de provocar o cara, mas não sou um babaca. Ele me pediu para não dizer nada. Então, não vou dizer nada.
— Mas... Quer dizer... Ele está bem? Você pode pelo menos me dizer se ele está bem?
Kenji passa uma das mãos pelos olhos; bufa, irritado. Examina meu rosto antes de respirar fundo. Lança-me um olhar. Diz:
— Certo, bem, você já viu um acidente de trem?
Não espera que eu responda.
— Eu vi um quando era criança. Era um daqueles trens grandes e loucos com bilhões de vagões presos uns aos outros, completamente descarrilado, parcialmente explodido. Tinha um monte de merda pegando fogo e todo mundo estava gritando, tipo, que diabos acabou de acontecer, e você sabe que as pessoas ou estão mortas ou estão prestes a morrer e você não quer mesmo olhar, mas não consegue parar de olhar, sabe?
Ele acena com a cabeça. Morde a parte interna da bochecha.
— É parecido com isso. Seu garoto é um maldito acidente de trem.
Não consigo sentir minhas pernas.
— Quero dizer, não sei — Kenji continua. — Na minha opinião? Acho que ele está exagerando. Coisas piores já aconteceram, certo? Caramba, não estamos sufocados até o pescoço com merdas maiores para resolver? Mas não, o senhor Adam Kent não parece saber disso. Na verdade, tenho quase certeza de que ele enlouqueceu. Nem acho que ele durma mais. E, quer saber? — ele acrescenta, inclinando-se. — Acho que ele está começando a assustar um pouco o James e, para ser sincero, isso está começando a me irritar porque aquele menino é gentil demais e bacana demais para ter de lidar com os dramas de Adam...
Porém, eu já não estou ouvindo mais.
Estou tendo visões dos piores cenários possíveis, os piores resultados possíveis. Coisas horríveis, assustadoras, que terminam com Adam morrendo de um jeito terrível. Ele deve estar doente, ou deve ter algum tipo de problema horrível, ou algo que o leve a fazer coisas que não pode controlar ou, ó, meu Deus, não.
— Você tem de me contar.
Não reconheço minha própria voz. Kenji está olhando para mim, chocado, com os olhos arregalados, com um medo genuíno escrito em seu rosto, e é apenas nesse momento que percebo que o encurralei contra a parede. Meus dez dedos estão enrolados na camisa dele, punhos cheios de tecido apertados em cada mão, e posso apenas imaginar o que devo estar parecendo para ele agora.
O mais assustador é que nem me importo.
— Você vai me contar alguma coisa, Kenji. Você precisa. Eu tenho de saber.
— Você, ahn — ele passa a língua nos lábios, olha ao redor, solta uma risada nervosa —, talvez possa me soltar.
— Vai me ajudar?
Ele coça atrás da orelha. Encolhe-se um pouco.
— Não?
Jogo-o com mais força contra a parede, reconheço o fluxo de algum tipo selvagem de adrenalina queimar minhas veias. É estranho, mas sinto que poderia rasgar o chão apenas com as mãos.
Parece que seria fácil. Muito fácil.
— Certo... tudo bem... maldição.
Kenji está com os braços levantados, respirando rapidamente.
— Apenas... Que tal me soltar? E eu vou, ahn, vou levá-la aos laboratórios de pesquisa.
— Os laboratórios de pesquisa?
— Sim, é onde fazem os testes. É onde fazemos todos os nossos testes.
— Promete me levar se eu soltá-lo?
— Você vai esmagar meu cérebro na parede se eu não a levar?
— Provavelmente — eu minto.
— Então, sim. Eu a levo. Maldição.
Eu o largo e cambaleio para trás; esforço-me para me recompor. Sinto-me um pouco envergonhada agora que o soltei. Uma parte de mim sente que devo ter exagerado.
— Desculpe-me por isso — digo. — Mas obrigada. Agradeço pela sua ajuda.
Tento erguer o rosto com alguma dignidade.
Kenji bufa. Está olhando para mim como se não tivesse ideia de quem sou, como se não tivesse certeza se deveria rir ou aplaudir ou correr feito louco na direção oposta. Ele esfrega a nuca, os olhos fixos em meu rosto. Não para de me encarar.
— O que foi? — pergunto.
— Quanto você pesa?
— Uau. É assim que você conversa com todas as garotas que conhece? Isso explica muito.
— Eu tenho mais ou menos 79 quilos — ele comenta. — De músculo.
Eu o encaro.
— Quer um prêmio?
— Ora, ora, ora — ele diz, levantando a cabeça, o sinal quase imperceptível de um sorriso percorrendo seu rosto. — Veja quem é a espertinha agora.
— Acho que estou aprendendo com você — eu sugiro.
No entanto, ele não está mais sorrindo.
— Olhe — ele diz. — Não estou querendo me gabar ao comentar isso, mas eu poderia atirá-la na parede do outro lado com meu mindinho. Você pesa, tipo, quase nada. Tenho quase o dobro de sua massa corporal.
Ele faz uma pausa.
— Então, como você me prendeu contra a parede?
— O quê?
Eu franzo as sobrancelhas.
— Do que você está falando?
— Estou falando de você — ele aponta para mim — conseguindo me prender — ele aponta para si mesmo — contra a parede.
Ele aponta para a parede.
— Quer dizer que você não conseguia mesmo se mexer?
Eu pisco.
— Achei que só estava com medo de tocar em mim.
— Não — ele diz. — Eu realmente não conseguia me mexer. Mal conseguia respirar.
Meus olhos estão arregalados, muito arregalados.
— Você está brincando.
— Você nunca tinha feito isso antes?
— Não.
Estou balançando a cabeça.
— Quero dizer, não acho que eu...
Seguro um grito quando a memória de Warner e sua câmara de tortura aparece do fundo de minha mente; tenho de fechar os olhos com o fluxo de imagens. A menor lembrança daquele evento é suficiente para me deixar insuportavelmente enjoada; já posso sentir minha pele romper-se em um suor frio. Warner estava me testando, tentando me colocar em uma situação que me forçasse a usar meu poder contra um bebê. Fiquei tão horrorizada, tão enraivecida, que atravessei a barreira de concreto para chegar até Warner, que esperava do outro lado. E ele ficara preso entre mim e a parede também. Apenas não percebi que ele estava intimidado com minha força. Pensei que ele estivesse com medo de se mexer porque eu chegara muito perto de tocá-lo.
Acho que eu estava errada.
— É — diz Kenji, acenando com a cabeça para algo que deve ver em meu rosto. — Bem. Foi o que pensei. Teremos de nos lembrar desse delicioso detalhe quando chegarmos às nossas sessões de treinamento de verdade.
Ele me lança um olhar cheio de significado.
— Quando quer que isso aconteça.
Estou fazendo que sim com a cabeça, sem prestar atenção de verdade.
— Claro. Está bem. Mas, primeiro, leve-me aos laboratórios de pesquisa.
Kenji suspira. Balança a mão com uma reverência e um floreio.
— Vá na frente, princesa.

9 comentários:

  1. — Você é mal-humorado. É sempre “Cale a boca, Kenji”, “Vai dormir, Kenji”, “Ninguém quer vê-lo pelado, Kenji”. Quando eu tenho certeza de que há milhares de pessoas que adorariam me ver pelado... Eu sou uma dessas pessoas T.T

    ResponderExcluir
  2. Okay, me deu uma pequena raiva da Juju, VC FICOU LOUCA??? VC QUASE MACHUCOU O KENJI SEM PERCEBER, SUA CRETINA, Ñ É ASSIM QUE SE PEDE PRA ALGUÉM TE CONTAR ALGO, VAI USAR A FORÇA QUANDO ALGUÉM SE RECUSAR??? Mas ainda sim te amo Juju *-~

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mano ...ela está presa nesse lugar praticamente... e as pessoas transmitem zero confiança escondendo as coisas dela.. acho que ela tá certa de usar as habilidades dela pra conseguir resposta .. fora que nem foi de propósito ...esse Kenji é meu perdoem favorito até agora ...

      Excluir
  3. Yesubai, a filha do vilão11 de abril de 2017 21:40

    Eu percebi uma coisa, ela fica mais forte quando está com raiva, quando ela tinha que salvar o bb,ou quando ela arrebentou a parede pra salvar o Adam, em todas as situações ela estava com raiva

    ResponderExcluir
  4. O Adam está com o fulgor huehuehue bem q parece

    ResponderExcluir
  5. Eu também acho que a raiva,medo e tals servem como um gatilho para os poderes dela.E ela não percebe isso!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim,é como o "escudo"de Bella em Crepúsculo. Quando ela vê Renesmee ou Edward ameaçados o escudo se estica e ganha forma e ela pode protegê-los,tudo isso canalizando a raiva e com um pouco de prática.

      Excluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)