6 de janeiro de 2017

5

Eu perdi a capacidade de falar.
— Eu enfim entendo a dor dela — Warner diz. — Eu enfim entendo como deve ser para ela. Por sua causa. Porque eu vi o que fez com você, o que faz com você, carregar esse tipo de fardo, existir com tanto poder assim e viver entre aqueles que não entendem.
Ele inclina a cabeça para trás contra a parede, aperta a base das mãos nos olhos.
— Ela, de maneira bem parecida com você — ele fala —, deve se sentir como se houvesse um monstro dentro dela. Porém, diferente de você, a única vítima dela é ela mesma. Ela não consegue viver no próprio corpo. Ela não pode ser tocada por ninguém; nem por suas próprias mãos. Nem tirar um cabelo da testa ou apertar os punhos. Ela tem medo de falar, de mexer as pernas, de esticar os braços, até de mudar para uma posição mais confortável, simplesmente porque a sensação da sua pele raspando contra ela mesma causa uma quantidade excruciante de dor.
Warner baixa as mãos.
— Parece — continua, lutando para manter a voz estável — que alguma coisa no calor do contato humano dispara esse poder terrível e destrutível dentro dela e, como ela é ao mesmo tempo a origem e a receptora da dor, de alguma forma é incapaz de se matar. Em vez disso, vive como prisioneira dos seus próprios ossos, incapaz de escapar dessa tortura causada em si mesma.
Meus olhos estão ardendo muito. Eu pisco depressa.
Durante muitos anos eu achei que minha vida fosse difícil; eu pensei que entendesse o que significava sofrer. Mas isso. Isso é algo que eu não consigo nem começar a compreender. Nunca parei para pensar que outra pessoa pudesse ter uma situação pior que a minha.
Faz com que eu tenha vergonha de ter sentido tanta pena de mim mesma.
— Durante um longo tempo — Warner continua —, eu pensei que ela estivesse apenas... doente. Pensei que ela houvesse desenvolvido algum tipo de doença que estava atacando seu sistema imunológico, algo que deixava sua pele sensível e dolorida. Presumi que, com o tratamento adequado, ela acabaria se curando. Continuei tendo esperança — ele diz — até enfim perceber que anos haviam se passado e nada tinha mudado. A agonia constante começou a destruir a estabilidade mental dela; ela acabou desistindo da vida. Ela deixou a dor assumir o controle. Ela se recusou a sair da cama ou a comer com regularidade; parou de se importar com a higiene básica. E a solução do meu pai foi drogá-la. Ele a mantém trancada naquela casa sem ninguém além de uma enfermeira para fazer companhia. Agora ela está viciada em morfina e perdeu completamente a cabeça. Nem sabe mais quem eu sou. Não me reconhece. E, nas poucas vezes em que eu tentei tirá-la dos remédios — ele conta, em voz baixa agora — ela tentou me matar.
Ele fica um segundo em silêncio, parecendo ter se esquecido de que eu ainda estou no quarto.
— Minha infância foi quase suportável em alguns momentos — diz — apenas por causa dela. E, em vez de cuidar dela, meu pai a transformou em algo irreconhecível.
Ele levanta o olhar, rindo.
— Sempre achei que poderia consertar isso — ele fala. — Eu achava que, se pudesse encontrar a causa disso... Eu achava que poderia fazer alguma coisa. Eu achava que poderia...
Ele para. Passa uma mão pelo rosto.
— Não sei — sussurra.
Vira-se para o outro lado.
— Mas eu nunca quis usar você contra sua vontade. A ideia nunca me pareceu boa. Eu apenas tinha que manter o fingimento. Meu pai, sabe, não aprova meu interesse no bem-estar da minha mãe.
Ele abre um sorriso estranho e torto. Olha na direção da porta. Ri.
— Ele nunca quis ajudá-la. Ela é um fardo que o deixa com nojo. Ele acha que, ao mantê-la viva, está fazendo a ela uma grande gentileza, pela qual eu tenho que ser grato. Ele acha que isso deve ser suficiente para mim, poder ver minha mãe se transformar em uma criatura selvagem tão totalmente consumida por sua própria agonia que se retirou por completo de sua mente.
Warner passa uma mão trêmula pelo cabelo, agarra a nuca.
— Mas não foi — diz em voz baixa. — Não foi suficiente. Fiquei obcecado por tentar ajudá-la. Trazê-la de volta para a vida. E eu queria sentir — ele diz, olhando diretamente em meus olhos. — Eu queria saber como seria aguentar uma dor como aquela. Eu queria saber o que ela devia passar todo dia. Eu nunca tive medo de tocar em você — ele declara. — Na verdade, era algo bem-vindo. Eu tinha muita certeza de que, em algum momento, você me atacaria, você tentaria se defender de mim; e estava ansioso por esse momento. Mas você nunca me atacou.
Ele faz que não com a cabeça.
— Tudo o que eu tinha lido nos seus arquivos me dizia que você era uma criatura incontrolável e má. Eu estava esperando que você fosse um animal, alguém que tentaria me matar e matar meus homens em todas as oportunidades; alguém que precisava ser supervisionada com atenção. Mas você me decepcionou sendo humana demais, adorável demais. Tão insuportavelmente inocente. Você não revidava.
Os olhos dele estão sem foco, lembrando.
— Você não reagiu contra minhas ameaças. Você não reagia às coisas importantes. Você agia como uma criança insolente — ele diz. — Você não gostava das suas roupas. Você não queria comer a comida chique.
Ele ri alto e revira os olhos e eu, de repente, esqueci minha compaixão.
Fico tentada a jogar alguma coisa nele.
— Você ficou muito magoada — ele fala — por eu ter pedido que usasse um vestido.
Ele então olha para mim, os olhos brilhando de diversão.
— Lá estava eu, preparado para defender minha vida contra o monstro incontrolável que podia matar — diz —, matar um homem só com as mãos...
Ele morde os lábios para conter outra risada.
— E você fez escândalos por causa de roupas limpas e refeições quentes. Ah — ele continua, fazendo não com a cabeça, olhando o teto —, você foi ridícula. Você foi completamente ridícula e foi a maior diversão que eu já tive. Não sei dizer o quanto gostei. Eu adorava deixá-la brava — ele me conta, os olhos perversos. — Eu adoro deixá-la brava.
Estou agarrando um dos travesseiros dele com tanta força que tenho medo de que possa rasgá-lo.
Olho irritada para ele.
Ele ri de mim.
— Eu estava muito distraído — ele fala, sorrindo. — Sempre queria passar um tempo com você. Fingindo planejar coisas para seu suposto futuro com O Restabelecimento. Você era inofensiva e bela e sempre gritava comigo — ele afirma, sorrindo bastante agora. — Meu Deus, você gritava comigo pelos motivos mais insignificantes — diz, lembrando. — Mas nunca encostou uma mão em mim. Nem uma vez, nem para salvar sua própria vida.
O sorriso dele diminui.
— Isso me preocupava. Eu ficava assustado em pensar que você estava muito disposta a se sacrificar antes de usar suas habilidades para se defender.
Solta a respiração.
— Assim, mudei de tática. Tentei provocá-la para você me tocar.
Eu me encolho, lembrando-me muito bem daquele dia na sala azul. Quando ele me insultou e manipulou e eu cheguei muito perto de machucá-lo. Ele enfim encontrara as palavras exatas a dizer para me machucar o bastante e eu querer machucá-lo de volta.
Eu quase fiz isso.
Ele tomba a cabeça. Solta um suspiro profundo e derrotado.
— Mas isso não deu certo também. E eu rapidamente comecei a perder de vista meu objetivo original. Eu fiquei tão focado em você que tinha me esquecido do porquê de levá-la para a base, para início de conversa. Eu estava frustrado por você não ceder, por você se recusar a atacar mesmo quando eu sabia que você queria. Mas, toda vez que eu ficava pronto para desistir, você tinha uns momentos — ele diz, fazendo que não com a cabeça. — Você tinha uns momentos fantásticos quando enfim mostrava vislumbres de força pura e descontrolada. Era incrível.
Ele para. Inclina-se de novo contra a parede.
— E, então, você sempre recuava. Como se tivesse vergonha. Como se não quisesse reconhecer aqueles sentimentos em você. Assim, mudei de tática de novo. Tentei outra coisa. Algo que eu sabia, com certeza, que a forçaria além do seu ponto de controle. E devo dizer, foi mesmo tudo o que eu esperava que fosse.
Ele sorri.
— Você parecia viva de verdade pela primeira vez.
De repente, minhas mãos estão frias como o gelo.
— A sala de tortura — ofego.

6 comentários:

  1. Mais uma vez chorei, a história da sogrona é tão triste :'( e me derreti toda quando ele revelou o motivo d ter pegado a Juju, quando ele contou detalhes e tudo mais *-* ele o Warner loucamente <3333333

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  2. Uma coisa que me intriga aqui se a mãe de Warner não pode ser tocada como ela teve um relacionamento? Como deu a luz? Ah não ser que de alguma forma o Anderson tenha um poder de neutralizar isso como o Adam, mas a juju tocou nele... Aí essas teorias só me confundem

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    1. A mãe do Aaron pode tocar putras pessoas, o problema é que ela sente muita dor com isso.
      E eu posso até pensar errado mas não lembro da Juju sugar a energia do Anderson, ela tocou nele pra enforca- lo.
      Nem sei mais oq pensar kkkk
      Só lendo pra descobrir.

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    2. Eu acho, pelo que entendi, que a mãe dele não nasceu com a "doença". Parece que do nada ela desenvolveu isso...

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    3. No caso do sogrão ela tava de luva

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Boa leitura :)