5 de janeiro de 2017

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Está uma chuva dos infernos.
O dia está frio e úmido e lamacento e uma merda, e eu odeio isto. Faço uma careta feia para Kenji e Juliette, com inveja dos seus trajes pomposos. Essas coisas foram criadas para lhes dar proteção contra este tempo louco de inverno. Eu devia ter pedido um.
Já estou congelando.
Estamos na clareira, o terreno estéril na entrada do Ponto Ômega, e a maioria das outras pessoas se dispersou. Nossa única defesa é a luta de guerrilha e, assim, fomos divididos em grupos. Eu, Kenji mal-conseguindo-andar-em-linha-reta e Juliette (que oficialmente se trancou na sua própria mente hoje); essa é a nossa equipe.
É, definitivamente, estou preocupado.
De qualquer forma, pelo menos Kenji está fazendo o que sabe: já estamos invisíveis. No entanto, agora está na hora de encontrar a luta e entrar nela. O som de tiros soa alto e claro e, assim, já temos uma direção na qual nos movermos. Ninguém conversa, mas nós já sabemos as regras: lutamos para proteger os inocentes e lutamos para sobreviver. É isso.
Entretanto, a chuva está mesmo atrapalhando. Está caindo com mais força e rapidez agora, golpeando-me no rosto e embaçando minha visão. Mal consigo ver direito. Tento tirar a água dos olhos, mas não adianta. É muita.
Sei que estamos nos aproximando dos aglomerados e, assim, pelo menos temos isso. O contorno dos prédios ganha foco e eu sinto que estou ficando agitado. Estou armado até os dentes e pronto para lutar — pronto para fazer o que for necessário para derrubar O Restabelecimento —, mas não vou mentir: ainda estou um pouco preocupado por estarmos com alguém debilitado.
Juliette nunca fez isto antes.
Se dependesse de mim, ela estaria lá na base com James, onde sei que estaria segura, mas ela nem me ouviria se eu pedisse isso. Kenji e Castle sempre a estão paparicando quando não deviam e, para ser sincero? É perigoso. Não é bom fazê-la pensar que ela pode fazer esse tipo de coisa quando, de verdade, isso provavelmente vai matá-la. Ela não é um soldado; ela não sabe lutar; e ela não faz ideia de como usar seus poderes, não de verdade, o que piora ainda mais a situação. É basicamente como dar uma banana de dinamite a um bebê e mandá-lo ir para o meio de um incêndio.
Então, sim, estou preocupado. Estou com muito medo de alguma coisa acontecer a ela. E talvez a nós, por consequência.
Porém, ninguém me escuta e, assim, estamos aqui.
Eu suspiro e avanço, irritado, até ouvir um grito muito alto a distância. Grande alerta. Kenji aperta minha mão e eu aperto a dele de volta para avisar que entendi.
Os aglomerados estão bem à frente, e Kenji nos puxa até estarmos colados contra a parede dos fundos de uma unidade. Há apenas uma saliência suficiente do telhado para conter a chuva. É puro azar meu estarmos fazendo isto em um dia chuvoso. Minhas roupas estão tão molhadas que eu sinto como se tivesse mijado nas calças.
Kenji me cutuca com o cotovelo, de leve, e estou prestando atenção de novo. Ouço o barulho de uma porta sendo batida e fico duro; coloco a mão na arma automaticamente. Parece que já passei por isto um milhão de vezes, mas nunca me acostumo.
— Esta é a última deles — uma voz grita. — Ela estava se escondendo aqui.
Um soldado está arrastando uma mulher para fora da casa dela e ela não para de gritar. Meu coração acelera e eu seguro a arma com mais força. É doentia a maneira como alguns dos soldados tratam os civis. Entendo que eles receberam ordens — entendo mesmo —, mas a pobre mulher está implorando por misericórdia e ele a está arrastando pelos cabelos e gritando para ela ficar quieta.
Kenji mal está respirando ao meu lado. Olho na direção de Juliette antes de perceber que ainda estamos invisíveis, e, conforme viro a cabeça, tenho o vislumbre de outro soldado. Ele vem correndo do outro lado do campo e manda para o primeiro homem um sinal. Não o sinal que eu estava esperando.
Merda.
— Jogue-a junto com todos os outros — o outro soldado está dizendo agora. — Depois vamos dar a área como limpa.
De repente ele se vai, vira uma esquina, e não resta ninguém além de nós, um soldado e a moça que ele está mantendo como refém. Outros soldados devem ter reunido o restante dos civis antes de chegarmos aqui.
Depois, a mulher enlouquece. Ela está completamente histérica e não parece mais estar no controle do seu corpo. Virou um completo animal, arranhando e fincando as unhas e se agitando, tropeçando nos próprios pés. Está perguntando pelo marido e a filha e quase tenho que fechar os olhos. É difícil assistir a essas coisas quando já sei o que vai acontecer. A guerra nunca fica mais fácil se você não concorda com o que está acontecendo. Às vezes eu me deixo ficar animado para ir para a batalha — tenho de me convencer de que estou fazendo algo que valha a pena —, mas lutar com outro soldado é muito mais fácil do que lidar com uma moça que está prestes a ver a filha levar um tiro na cabeça.
Juliette provavelmente vai vomitar.
A ação está tão perto de nós agora que eu instintivamente aperto minhas costas contra a parede, esquecendo de novo que estamos invisíveis. O soldado agarra a moça e joga o corpo dela contra o lado de fora da unidade, e eu sinto que nós três ficamos apavorados por um segundo, acalmando-nos bem a tempo de ver o soldado apertar o cano da arma no pescoço da moça e dizer:
— Se você não calar a boca, eu atiro em você agora.
Que imbecil.
A moça desmaia.
O soldado não parece se importar. Ele a tira de vista — na mesma direção em que seu colega foi — e essa é a nossa deixa para segui-lo. Posso ouvir Kenji falar palavrões em voz baixa. Ele tem um estômago sensível, esse cara. Sempre foi fraco quando se trata dessas coisas. Eu o conheci em uma das nossas rondas; quando voltamos, Kenji perdeu a cabeça.
Simplesmente perdeu a cabeça por completo. Ele foi colocado no confinamento solitário por um tempinho e, depois disso, diminuiu suas crises emocionais. A maioria dos soldados sabe que não deve reclamar em voz alta. Eu devia ter sabido na época que Kenji não era de verdade um de nós.
Eu tremo contra o frio.
Ainda estamos seguindo o soldado, mas é difícil ficar muito perto dele nesse tempo. A visibilidade é pouca e o vento está soprando a chuva em círculos com muita força. Assim, é quase como estarmos presos em um furacão. A situação vai ficar feia bem depressa.
E, então, uma voz baixa:
— O que vocês acham que está acontecendo?
Juliette.
É claro que ela não faz ideia do que está acontecendo… Por que faria? O mais inteligente a fazer seria escondê-la em algum lugar. Mantê-la em segurança. Longe do perigo. Um elo fraco pode mandar tudo por água abaixo, e não acho que seja hora de correr riscos. Mas Kenji, como sempre, não parece concordar. Aparentemente, ele não se importa de tirar um tempo para dar a Juliette uma aula sobre como é estar em Guerra no Setor 45.
— Eles os estão reunindo — Kenji explica. — Estão criando grupos de pessoas para matar ao mesmo tempo.
— A mulher… — Juliette diz.
— É — Kenji a interrompe. — É — ele repete. — Ela e qualquer outra pessoa que eles achem que possa ter ligação com os protestos — diz. — Não matam apenas quem incita. Eles matam os amigos e os parentes da pessoa também. É a melhor maneira de manter as pessoas na linha. Nunca falha e dá um susto dos infernos nos poucos que são deixados vivos.
Prefiro interferir antes de Juliette fazer mais perguntas. Aqueles soldados não vão esperar pacientemente que cheguemos lá; temos que tomar uma atitude agora, e precisamos de um plano.
— Tem de haver uma maneira melhor de tirá-los de lá — digo. — Talvez possamos derrubar os soldados encarregados...
— É, mas ouçam, vocês sabem que vou ter que soltá-los, certo? — Kenji pergunta. — Já estou meio que perdendo a força; minha energia está se esgotando mais rápido do que o normal. Então, vocês vão ficar visíveis. Vocês vão ser um alvo mais claro.
— Mas que outra opção nós temos? — Juliette pergunta.
Ela parece uma segunda versão de James. Coloco a mão na minha arma, dobrando e desdobrando os dedos em volta dela. Precisamos seguir em frente.
Temos que ir agora.
— Poderíamos tentar derrubá-los no estilo “atirador de elite” — Kenji diz. — Não precisamos entrar em combate direto. Temos essa opção.
Ele faz uma pausa.
— Juliette, você nunca esteve neste tipo de situação antes. Quero que saiba que eu respeito a sua decisão de ficar fora da linha de fogo direta. Nem todo mundo tem estômago para o que podemos ver se seguirmos esses soldados. Não há vergonha nem culpa nisso.
Isso. Ótimo. Que ela fique para trás onde não vai ser ferida.
— Vou ficar bem — ela diz.
Eu falo um palavrão baixinho.
— É só que… Certo… Mas não tenha medo de usar suas habilidades para se defender — Kenji diz.
Ele parece um pouco nervoso por causa dela também.
— Sei que você é toda estranha e não quer machucar as pessoas ou sei lá. Mas esses caras não estão brincando. Eles vão tentar matá-la.
— Certo — Juliette concorda. — É. Vamos.

11 comentários:

  1. ESSE é o problema do Adam, ele queria ter, sobre a Juliette, o mesmo controle que tem sobre o James. Sou team Warner forevemente!

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  2. Ulllhhhh é tão bom achar alguem q tbm é do TEAM WARNER!!! Kkkk

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  3. Acho que ela vai ficar com o Adam, mas eu com certeza escolheria o Aaron. O Adam tá muito chatinho e o Aaron é mais decidido!
    Bianca

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  4. #" Que Idiota, Ele não acredita no potencial dela, bem diferente do discurso do warner, #Teamwarner ❤❤

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    1. Concarteza
      #teamAaronwarner ❤❤❤

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    2. Conzerteza
      #teamAaronWaner❤❤❤🙏🙏🙏

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  5. ´Ela não é um soldado; ela não sabe lutar; e ela não faz ideia de como usar seus poderes, não de verdade, o que piora ainda mais a situação. É basicamente como dar uma banana de dinamite a um bebê e mandá-lo ir para o meio de um incêndio.`
    A confiança que ele tem com ela é inspiradora.

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  6. Gosto da maneira como o Adam quer que ela fique segura, mas assim não dá! Ele tem que acreditar mais nela, ver seu potencial, ele está protetor demais e isso faz ele ficar irritante.
    Foi mal Adam, mas tempos desesperados requerem medidas desesperadas. NÃO DÁ PRA EVITAR A GUERRA.
    #TeamAgarraOsDoisJUJU

    ~polly~

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  7. Essa atitude superprotetora não tá legal. É completamente compreensivel que ele tenha medo de perder ela ou temer que ela se machuque, mas isso já é demais! Ela não é de porcelana, não, moço, e tu precisa ter um pouco mais de confiança nela e parar de agir feito macho escroto ajudaria bastante. Não dá pra colocar a Juliette numa redoma de vidro e tu tá completamente errado se pensou o contrário. Isso é uma guerra e ela é uma das principais envolvidas. Lide com isso, migo.
    Ah, mais uma coisa:
    #TeamWarner 4ever

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Boa leitura :)