26 de janeiro de 2017

Capítulo 5

Como Will havia observado, grande parte do tempo de um arqueiro era utilizado sentado, assistindo e esperando por dias, com breves períodos de ação.
Ele e Halt se alternavam no posto de observação a cada três horas, observando a praia e a península abaixo deles.
Nos momentos em que não estavam vigiando, eles exercitavam os cavalos e caçavam como pequena distração. Uma mudança muito bem vinda no acampamento foi a decisão de Halt de que poderiam acender uma fogueira, os moondarkers estavam a uma distância considerável e havia uma colina entre eles, e como os dois arqueiros escolheram um local alto na colina, a chance de um dos bandido tropeçar no esconderijo era muito pequena.
Mesmo assim, o velho arqueiro insistia que eles não poderiam acender uma fogueira enquanto o vento estivesse soprando do norte, o que poderia levar o cheiro de madeira queimada para os moondarkers. Havia uma pequena chance de que eles notassem a diferença mesmo com as grandes fogueiras de cozinhar e o cheiro de fumaça que estava em todo lugar. Mas mesmo uma pequena chance era uma chance, e Halt não gostava de se arriscar. Como ele dizia, essa preocupação o ajudara a se manter vivo por todos esses anos, e ele gostaria de manter o recorde.
Isso significava que Will poderia cozinhar refeições mais interessantes, e deu-lhe algo para fazer nos momentos de tédio. Também lhes deu algo para se preocupar além da tediosa tarefa de manter vigia.
A escala que eles tinham adotado deixava Halt com a última vigia do dia – quando o sol já havia desaparecido atrás da colina. Eles ficavam atentos a qualquer tentativa dos moondarkers de agir. Para evitar a chance de serem descobertos, os moondarkers esperariam ate o último momento para acender o falso farol. Isso os forçaria a preparar tudo pela manhã, e até lá não haveria motivo para manter o posto de observação durante a noite.
Will levou as duas refeições para o posto de observação, eles iriam comer juntos e discutir as táticas para quando os moondarkers agissem.
— Eu andei pensado — começou Halt — nós deveríamos arranjar ajuda.
Will sorriu ironicamente.
— Eu pensei que nós aguentaríamos dezesseis pessoas facilmente.
Halt suspirou em reconhecimento.
— Eu realmente achava, mas me ocorreu que precisarei de você na península enquanto eu estarei na praia, o que pode dificultar as coisas.
— Como assim? O que eu irei fazer na península?
— Você terá que vigiar o falso farol. Teremos que esperar eles o acenderem antes de agirmos. Até que eles o acendam, não temos provas de que eles realmente estão tentando enganar os navios. Precisamos ver o navio e o farol aceso tentando levá-lo para a praia.
— O fato de que eles estão preparando o farol já não é suficiente? — Will perguntou.
Halt bateu balançou sua cabeça.
— Não é uma prova concreta. Eles poderiam dizer que estavam preparando uma festa de aniversário, ou que estavam planejando assar um porco ou uma ovelha. Precisamos de provas concretas. Infelizmente, Duncan é um pouco exigente sobre isso. Ao mesmo tempo, teremos que mostrar que não estavam na verdade tentando avisar os navios.
— Então você quer que eu espere eles acenderem o fogo, assim eu irei apagá-lo e você irá prender todos eles — Will falou.
Halt levantou uma sobrancelha para ele.
— Você tem alguma ideia de quão grande será esse farol? Não é uma fogueira de acampamento que se pode chutar um pouco de areia e apagá-la. Será uma grande quantidade de troncos com combustível e terá no mínimo dois metros de altura. Quando estiver acesa, não será simples “apagá-la”, como você disse. Precisará de um balde para apagá-la – e não há água a menos de meio quilômetro do local.
Will não havia pensado nessa situação.
— Então o que iremos fazer?
Em resposta Halt procurou em sua bolsa e pegou um pequeno recipiente preso com cera, de seis por três centímetros.
— Você jogará isso no fogo.
Will pegou o pequeno saco e o examinou. Estava bem amarrado, mas ele podia sentir a natureza granulada do conteúdo, parecia que estava cheio de areia molhada.
— O que é isso? — ele perguntou.
Halt tocou com o dedo.
— É uma tintura colorida e é extremamente inflamável. Quando você jogar no farol, irá queimar e mudar a cor do fogo – não tenho certeza de qual será. Deve ser vermelho ou amarelo. Com isso, o capitão do navio verá a cor do fogo mudar e perceberá que não é o farol real e voltará para o mar. Mas, ainda assim, precisaremos da nossa prova.
— Tudo bem, faz sentido, mas como você irá lidar com dezesseis moondarkers na praia enquanto eu estarei fazendo isso?
— Eu precisarei de ajuda. Vou esperar até ter certeza de que eles planejam atacar, e quando eles tiverem o farol e lanternas acessas, irei a Hambley e avisar o líder dos vigias.
— Mas você disse que eles provavelmente estão agindo juntos com os moondarkers.
— Não exatamente, eles fingem que não sabem e pegam o que os bandidos deixam para trás, por isso se souberem que estamos aqui provavelmente iriam avisá-los. Por isso eu sempre mantenho um olho no vilarejo enquanto não estou de vigia, não houve comércio com os moondarkers.
— Então se você aparecer no vilarejo no último momento e não lhes dar tempo para avisar os bandidos, não poderão recusar te ajudar — Will entendeu.
— Exatamente. Eles ficarão relutantes, e terão que nos fornecer homens da guarda para nos ajudar. Não poderão falar para um Arqueiro do Rei que um navio naufragado até que seria uma boa ideia.
Will mordeu o lábio com dúvida.
— Está botando muita fé no respeito que os moradores tem pelos arqueiros.
Halt inclinou a cabeça, concordando com o ponto de vista.
— Verdade, mas já fiz isso antes e nunca falhou. Essas pessoas não são criminosas, são pobres desesperadas e têm uma vida difícil, por isso se virem que poderão ser punidos por não cooperar, eles ajudam.
— Eles poderiam bater na sua cabeça e tirá-lo da jogada — Will avisou.
Halt considerou a ideia.
— Eles poderiam, mas não quereriam, eu estarei preparado se eles tentarem algo parecido, mesmo não sendo provável, e sabendo que há outro arqueiro na área, duvido que eles corram o risco.
— Então eu jogo a tintura no fogo e você prende os moondarkers na praia, parece que nós temos um plano perfeito — Will falou.
Mesmo questionando o plano de Halt, ele sabia o quão poderosa poderia ser a figura de um Arqueiro do Rei sobre esses moradores pobres.
— Nunca se tem tudo planejado — Halt disse soberbamente — sempre existe algo que pode dar errado.
Ele terminou a última colher do seu ensopado de coelho que Will tinha preparado, raspando os últimos resquícios de comida do prato.
— Tem mais comida?
Mas Will negou.
— Desculpe, você comeu todo o resto.
Halt resmungou.
— Pensei que sim — ele deitou nas sombras. O chão abaixo deles estava em total escuridão e o mar tinha adquirido uma cor prateada — bem, duvido que eles começarão algo agora, e nós devemos ter um café preto no acampamento também.
— É por isso que gosto de ficar com você, você é cheio de boas ideias.


No dia seguinte, os moondarkers começaram o trabalho.
Will notou o primeiro sinal de que algo estava acontecendo na metade da sua vez no posto de observação. Um cavaleiro passou na estrada da costa logo abaixo da colina, e assim que ele estava alinhado com o acampamento dos moondarkers, ele se virou para fora da estrada e levou seu cavalo por entre as árvores.
Will rapidamente o perdeu de vista, mas não tinha duvida para onde ele estava indo. Ele saiu do esconderijo, continuou agachado e correu para avisar Halt.
— Não há duvida de que um navio está fazendo rota para Hambley. É comum deixarem um batedor para avistar qualquer navio que apareça na costa. Se esse for o caso, irão preparar as tochas hoje.
— O que faremos? — Will perguntou.
Halt apontou um dedo para o acampamento dos moondarkers.
— Vamos ver o que eles já prepararam.
Eles deixaram o acampamento juntos, se movendo como sombras por entre as árvores, escorregando de um lugar para outro, com o chão cinza e verde os deixando quase invisíveis. Um observador teria um grande problema tentando vê-los de uma distância de mais de vinte metros, e com o treino e a constante pratica eles se moviam instintivamente, sem pensar no que estavam fazendo, e enquanto pisavam no solo, seus pés com botas de solado acolchoado ajudavam a sentir qualquer folha e galho abaixo, para que pudessem movê-lo para o lado e prosseguir, deixando o peso sobre um pé levemente para não produzir nenhum ruído. Parecia simples, mas na verdade era um resultado de anos de prática.
Levou cerca de meia hora para chegar ao ponto de observação que Halt tinha usado da primeira vez. Will apontou para um cavalo com sela fora de uma das tendas. Logicamente ele pertencia ao batedor que tinha chegado mais cedo.
Ele estava prestes a comentar sobre o pouco cuidado que os bandidos tinham pelos animais quando três homens surgiram da tenda. Um deles, alto com barba preta em uma vestimenta de couro com broches, começou a gritar ordens, o acampamento tomou vida e outras tendas liberaram seus ocupantes, que começaram a carregar as carroças que Halt tinha observado na visita anterior, cheias com madeira para fogo e lanternas. Os cavalos foram levados dos locais onde estavam para puxar as carroças, os homens pegaram ferramentas e sacos de provisões, também tinham espadas e pás presas aos seus cintos.
— Já vimos o suficiente, vamos embora antes que nos notem — Halt decidiu.
Eles se arrastaram de volta para o esconderijo, e pouco tempo depois viram os moondarkers emergirem da floresta abaixo e se moverem para a praia. Três das carroças estavam vazias, os homens carregavam pilhas de madeira e pedaços de ferro, colocando no local determinado pelo líder, o homem alto com veste de couro.
Will olhou curiosamente esse homem se mover para longe dos companheiros com as costas para o mar e começar a apontar lugares onde deveriam acender fogueiras e montar as vigas de ferro, formando tripés. De tempos em tempos, ele olhava para um pedaço de papel na mão, mostrando que uma pilha ou outra de madeira deveria se reposicionada e alguns tripés deveriam ir um pouco para frente.
— O que eles estão falando? — Will perguntou.
Mesmo estando a meio quilômetro de distância, ele mantinha a voz um pouco mais alta que um sussurro.
— Eu diria que ele tem uma planta de Hambley ali, como ela parece a partir do mar. Ele provavelmente trabalhou nisso nos últimos dias, agora está organizando para que pareça a cidade em si.
Will ficou muito admirado.
— Eles são espertos, eu admito.
Halt concordou.
— Sim, eles sabem o que estão fazendo, não são iniciantes. É uma pena. Olhe! As últimas carroças estão se movendo, eu acho que estão indo para a península.
Quatro dos homens que haviam terminado a preparação das tochas subiram na ultima carroça que estava carregada com madeira. Um deles pegou um chicote e bateu nas costas do cavalo. Relutantemente, o animal jogou o peso para frente e começou e se mover para a península.
Era uma carga pesada para um pequeno animal como aquele, e por isso a carroça se movia lentamente. Quando chegou na encosta em direção a península, o cavalo fez mais força e a lentidão piorou.
— Eles se moveriam mais rapidamente se alguns deles fossem a pé — Will comentou.
Halt sacudiu a cabeça.
— Eles são bandidos e criminosos, estão sempre procurando pelo caminho mais fácil, não o mais eficiente.
Devagar, a pesada carroça subia a encosta em direção ao final da península. Até que os homens fossem levados, o cavalo não teria descanso. Ele parou de repente no meio do caminho e ficou ali mesmo, olhando para os homens que o haviam colocado para puxar tanto peso:
— Se eu fosse eles — Halt observou — eu ficaria distante da zona de coice desse cavalo.
Os homens desceram da carroça e começaram a descarregá-la. A maioria da carga estava na forma de madeira cortada – para a grande fogueira, Will arriscou, baseando-se no tamanho regular dos pedaços, e havia vários pequenos barris e mais varas de ferro. Finalmente três dos homens tiraram uma pesada cesta de metal, com quase um metro de comprimento e meio metro de altura:
— Aquilo irá segurar o fogo do falso farol — Halt informou-lhe — Eles farão outro tripé com aquelas varas, depois colocarão a cesta de fogo no topo e a abastecerão com madeira.
— E para que os barris? — Will perguntou, mesmo tendo quase certeza para que seriam usados.
— Combustível. Quando o navio estiver perto, eles colocarão na madeira para ter certeza de que irá acender rapidamente. Se eles colocarem muito precocemente, poderá secar ou evaporar, e provavelmente irão banhar a madeira em algum lugar na sombra.
Instintivamente, Will olhou para cima para ver a posição do sol, que havia apenas passado do seu auge.
— Quando você acha que eles irão acender a fogo? — Will perguntou.
— Eles preferem a escuridão total da lua, porem há apenas um pequeno pedaço da lua visível hoje a noite. Acho que irão esperar até que ela desapareça atrás da colina, algo próximo das dez horas. Eu irei a Hambley e acordarei o vigia em torno das nove e meia. Não haverá tempo para levarem a mensagem para os moondarkers, mesmo se forem rápidos.
— Mais espera e observação — Will comentou.
— Esse é o nosso trabalho — Halt concordou — mas não espere a minha volta com reforços, se eles acenderem o farol e você ver um navio se aproximando, vá imediatamente e jogue a tintura no fogo. Prefiro perder a chance de pegar o grupo do que ter um navio envolvido em perigo.
Com a tarde terminando, eles assistiram os moondarkers fazerem seus ajustes finais nas lanternas e fogueiras que eles levantaram. Os quatro homens na península colocaram a madeira na cesta de metal, a qual foi suspensa a mais de dois metros de altura. Eles embarcaram na carroça mais uma vez e foram em direção a praia. Desta vez descendo a colina, o pequeno cavalo fez um tempo melhor. Will notou que ainda havia dois barris no chão ao lado do tripé.
Finalmente, o alto líder parecia satisfeito com o trabalho. Ele deu um descanso aos homens e cozinharam uma pequena refeição. Os homens deitaram pelo local na grama em frente a praia, comeram suas refeições e continuaram conversando. Alguns até chegaram a dormir.
— Será um dia cheio — Halt falou.
O fato de que os bandidos não voltaram para o acampamento era uma prova de que eles iriam agir nesta noite. Will sentiu o pequeno desconforto no estômago que sempre aparecia antes de alguma ação.
Halt sorriu para ele. Nada que ele dissesse iria tornar o momento melhor.
— Nervoso? — Halt perguntou.
— Não — Will disse prontamente, porém logo reconsiderou — bem, talvez um pouco, estou um pouco tenso, sentar e esperar não ajuda.
— É bom para se manter atento, apenas tolos não se sentem dessa maneira. Isso irá mantê-lo na realidade, e não ficará superconfiante.
Will olhou para seu antigo mentor de forma curiosa. Ele parecia calmo e imperturbado, mas então, ele sempre parecia dessa maneira quando algo importante ia acontecer.
— E você Halt? Está nervoso?
A barba grisalha foi marcada por um pequeno sorriso:
— Eu sinto como se houvesse uma pedra no meu estômago, e estou tentando digeri-la — ele falou.
Will estava de boca aberta. Halt tinha descrito seu próprio sentimento de forma perfeita.
— Eu nunca notei — ele falou, balançando a cabeça devagar.
— Eu aprendi a esconder — Halt contou-lhe.

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