2 de janeiro de 2017

59

Fico em pé com um pulo, frenética, e digo a Warner que voltarei logo.
Estou dizendo não vá embora ainda, não vá a lugar algum ainda, voltarei logo, mas não espero a resposta dele porque estou em pé e estou correndo para o corredor iluminado e quase trombo com Adam. Ele me segura e me abraça com força, muito perto, sempre se esquecendo de não tocar em mim deste jeito e está ansioso e diz “você está bem?” e “sinto muito mesmo” e “procurei por você em toda parte” e “achei que você tivesse ido para a ala médica” e “não foi culpa sua, espero que saiba disso...”.
Fico sendo atingida no rosto, na cabeça, na coluna por esse entendimento do quanto me importo com ele. Do quanto ele se importa comigo. Ficar perto dele assim é um lembrete doloroso de tudo que tive de me forçar a abandonar. Eu respiro fundo.
— Adam — pergunto —, Kenji está bem?
— Ele ainda não recuperou a consciência — Adam me conta —, mas Sara e Sonya acham que ficará bem. Elas ficarão acordadas com ele a noite toda, apenas para garantir que ele chegue inteiro ao dia seguinte.
Uma pausa.
— Ninguém sabe o que aconteceu — ele diz. — Mas não foi você.
Os olhos dele prendem os meus no lugar.
— Você sabe disso, não? Você nem tocou nele. Sei que não tocou.
E, embora eu abra a boca um milhão de vezes para falar “foi o Warner. Warner fez isso. Foi ele que fez isso com Kenji, você precisa pegá-lo e capturá-lo e pará-lo, ele está mentindo para todos vocês! Ele vai escapar amanhã!”, não digo nada disso e não sei por quê.
Não sei por que eu o estou protegendo.
Acho que uma parte de mim está com medo de dizer essas palavras em voz alta, medo de torná-las verdade. Ainda não sei se Warner vai embora de verdade ou não e nem como ele vai escapar; nem sei se isso é possível. E não sei se já posso contar a alguém sobre a habilidade de Warner; acho que não quero explicar ao Adam que, enquanto o restante do Ponto Ômega estava cuidando de Kenji, eu estava escondida em um túnel com Warner — nosso inimigo e refém —, segurando a mão dele e testando seu novo poder.
Eu queria não estar tão confusa.
Queria que minhas interações com Warner parassem de me fazer sentir tanta culpa. Todo momento que passo com ele, toda conversa que tenho com ele me faz sentir que, de alguma maneira, traí Adam, embora, tecnicamente, não estejamos mais juntos. Meu coração ainda parece muito unido a Adam; sinto-bme ligada a ele, como se precisasse compensá-lo por já o ter magoado tanto.
Não quero ser o motivo da dor em seus olhos, não de novo, e, de alguma forma, decidi que guardar segredos é a única maneira de impedir que ele se machuque.
Porém, lá no fundo, sei que isso não pode estar certo. Lá no fundo, sei que isso poderia acabar mal.
Porém, não sei mais o que fazer.
— Juliette?
Adam ainda está me abraçando com força, ainda muito próximo e quente e maravilhoso.
— Você está bem?
E não sei o que me leva a perguntar, mas, de repente, preciso saber:
— Algum dia você vai contar a ele?
Adam se afasta, apenas um centímetro.
— O quê?
— Warner. Algum dia você vai contar a ele a verdade? Sobre vocês dois?
Adam está piscando, pasmo, pego de surpresa por minha pergunta.
— Não — ele enfim responde. — Nunca.
— Por que não?
— Porque é necessário muito mais do que sangue para fazer uma família — ele explica. — E não quero ter nada a ver com ele. Gostaria de poder vê-lo morrer e não sentir compaixão, não sentir remorso. Ele é o exemplo perfeito de um monstro — Adam diz para mim. — Assim como meu pai. E eu morro antes de reconhecê-lo como irmão.
De repente, sinto que posso cair.
Adam agarra minha cintura, tenta olhar nos meus olhos.
— Você ainda está em choque — ele afirma. — Precisamos conseguir algo para você comer... Ou talvez um pouco de água...
— Está tudo bem — digo a ele. — Estou bem.
Permito-me aproveitar um último segundo nos braços dele antes de me afastar, precisando respirar. Fico tentando me convencer de que Adam está certo, que Warner fez coisas terríveis, horríveis e eu não devia perdoar-lhe. Não devia sorrir para ele. Não devia nem falar com ele. E, então, quero gritar, porque acho que meu cérebro não aguenta a personalidade dupla que pareço estar desenvolvendo nos últimos tempos.
Digo a Adam que preciso de um minuto. Digo que preciso passar no banheiro antes de irmos para a ala médica e ele diz tudo bem, diz que vai esperar por mim.
Diz que vai esperar por mim até eu estar pronta.
E eu volto para o túnel escuro nas pontas dos pés para dizer a Warner que tenho de ir, que não vou voltar no final das contas, mas, quando comprimo os olhos na escuridão, não consigo ver nada.
Olho ao redor.
Ele já se foi.

3 comentários:

  1. NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO, WARNER MEU MOZÃO VOLTE, Ñ VÁ PARA LONGE DA JUJU *^*

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    1. Será que ele ouviu???
      Ass•analu

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  2. Acho que a Ju tá sendo uma besta em não contar. Ela pode prejudicar todo mundo, e agora que ela tá tendo amigos, ninguém vai acreditar que não foi ela que tocou nele... Eu odeio como ela é tão sentimental assim, como não consegue se controlar nunca

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Boa leitura :)