2 de janeiro de 2017

58

— O quê?
— Ele não está morto — Warner diz —, embora esteja gravemente ferido. Acho que conseguirão acordá-lo.
— O quê...
Estou em pânico, em pânico até os ossos.
— Do que você está falando...?
— Por favor — Warner pede. — Sente-se. Eu vou explicar.
Ele se dobra no chão e dá uma batidinha no lugar ao seu lado. Não sei mais o que fazer e minhas pernas agora estão oficialmente trêmulas demais para ficarem em pé sozinhas.
Meus braços e minhas pernas espalham-se pelo chão; nós dois estamos com as costas contra a parede, o lado direito dele e o meu lado esquerdo divididos apenas por um fino centímetro de ar.
Um
Dois
Três segundos passam.
— Eu não quis acreditar em Castle quando ele disse que posso ter um... um dom — Warner começa.
Sua voz está tão baixa que tenho de me esforçar para ouvi-la, mesmo estando a apenas alguns centímetros de distância.
— Uma parte de mim esperava que ele estivesse tentando me enlouquecer para seu próprio bem.
Um pequeno suspiro.
— Mas não fazia nenhum sentido, se eu pensasse bem a respeito. Castle me contou sobre Kent também — Warner diz. — Que ele pode tocar em você e que eles descobriram o porquê. Por um momento, perguntei-me se, talvez, tinha uma habilidade parecida. Uma tão patética quanto a dele. Tão inútil quanto.
Ele ri.
— Fiquei extremamente relutante em acreditar.
— Não é uma habilidade inútil — eu me ouço dizer.
— É mesmo?
Ele se vira para me olhar. Nossos ombros quase se tocam.
— Diga-me, amor, o que ele pode fazer?
— Ele pode desativar coisas. Habilidades.
— Certo — ele continua —, mas como isso poderá ajudá-lo? Como pode ajudá-lo o fato de conseguir desativar os poderes da sua gente? É absurdo. É um desperdício. Não ajudará em nada nesta guerra.
Eu me arrepio. Decido ignorar isso.
— O que isso tem a ver com Kenji?
Ele se desvira. Sua voz está mais suave quando diz:
— Você acreditaria se eu dissesse que posso sentir sua energia neste instante? Sentir o tom e o peso dela?
Eu o encaro, examino seus traços e a nota sincera e incerta de sua voz.
— Sim — respondo. — Acho que acreditaria em você.
Warner sorri de uma forma que parece entristecê-lo.
— Eu posso sentir — afirma, respirando fundo — as emoções que você está sentindo com mais força. E, como a conheço, consigo compreender esses sentimentos. Sei que o medo que está sentindo agora, por exemplo, não está direcionado a mim, mas a você mesma e ao que acha que fez com Kenji. Sinto sua hesitação, sua relutância em acreditar que não foi culpa sua. Sinto sua tristeza, sua agonia.
— Pode mesmo sentir isso? — pergunto.
Ele faz que sim com a cabeça, sem olhar para mim.
— Nunca soube que isso era possível — digo a ele.
— Eu também não... Eu não sabia disso — ele afirma. — Não soube por muito tempo. Na verdade, achava que era normal ter uma percepção aguçada das emoções humanas. Achava que, talvez, fosse mais perceptivo que outros. É um importante motivo de meu pai ter permitido que eu assumisse o Setor 45 — ele conta. — Porque tenho uma habilidade bizarra de saber quando alguém está escondendo alguma coisa, ou sentindo-se culpado, ou, o que é mais importante, mentindo.
Uma pausa.
— Por isso — ele diz — e por eu não ter medo de distribuir castigos se a ocasião pedir. Foi apenas quando Castle sugeriu que poderia haver algo mais em mim que comecei a analisar esse fato. Quase fiquei louco.
Ele balança a cabeça.
— Fiquei repassando isso na mente, pensando em maneiras de provar ou destruir as teorias dele. Mesmo com toda a minha cuidadosa deliberação, negava a possibilidade. E, embora esteja um pouco chateado (por sua causa, não por minha) com o fato de Kenji ter sido idiota o bastante para interferir hoje, acho que foi, na verdade, bastante providencial. Porque agora, enfim, tenho uma prova. Uma prova de que estava errado. De que Castle — ele completa — estava certo.
— O que quer dizer?
— Peguei sua energia — ele me conta — e não sabia que eu conseguia fazer isso. Eu pude senti-la com muita intensidade quando nós quatro nos unimos. Adam era inacessível... O que, a propósito, explica por que nunca suspeitei da deslealdade dele. Suas emoções sempre estiveram escondidas. Sempre bloqueadas. Fui ingênuo e supus que ele fosse simplesmente robotizado, destituído de qualquer personalidade ou interesse. Ele me iludiu e a culpa foi minha. Confiei muito em mim mesmo para ser capaz de prever uma falha no meu sistema.
E eu quero dizer: a habilidade de Adam não é tão inútil afinal, certo?
Mas não digo.
— E Kenji — Warner diz depois de um instante.
Ele esfrega a testa. Ri um pouco.
— Kenji era... muito esperto. Muito mais esperto do que eu lhe dava crédito... O que, no final das contas, era exatamente sua tática. Kenji — ele continua, assoprando o ar — teve o cuidado de ser uma ameaça óbvia em vez de uma discreta. Ele sempre se metia em problemas; exigindo porções extras de comida, brigando com outros soldados, desrespeitando o toque de recolher. Ele quebrava regras simples para chamar atenção. Para me enganar e me fazer vê-lo como um cara irritante e nada mais. Sempre achei que havia algo estranho nele, mas atribuí isso ao seu comportamento barulhento e bagunceiro e a sua incapacidade de seguir regras. Descartei-o como um soldado ruim. Alguém que nunca seria promovido. Alguém que sempre seria visto como perda de tempo.
Ele balança a cabeça. Ergue as sobrancelhas, olhando para o chão.
— Brilhante — diz, parecendo quase impressionado. — Foi brilhante. Seu único erro — Warner acrescenta, após um momento — foi ter sido abertamente amigável com Kent. E esse erro quase lhe custou a vida.
— E... então? Você estava tentando dar fim nele esta noite?
Ainda estou muito confusa, tentando voltar a me concentrar na conversa.
— Você o machucou de propósito?
— Não de propósito.
Warner balança a cabeça.
— Eu não sabia de verdade o que estava fazendo. Não no início. Sempre apenas senti energia; nunca soube que podia tomá-la. Mas tomei a sua energia simplesmente tocando em você... Havia tanta adrenalina entre nós três que a sua praticamente se jogou em mim. E, quando Kenji agarrou meu braço — ele conta —, você e eu, nós ainda estávamos ligados. E eu... de alguma forma, consegui redirecionar seu poder na direção dele. Foi bastante acidental, mas senti quando aconteceu. Senti seu poder entrar em mim. Sair de mim.
Ele levanta o olhar. Encontra meus olhos.
— Foi a coisa mais extraordinária que já experimentei.
Acho que eu teria caído se já não estivesse sentada.
— Então, você consegue tomar... Você consegue simplesmente tomar o poder de outras pessoas? — pergunto a ele.
— Parece que sim.
— E tem certeza de que não machucou Kenji de propósito?
Warner ri, olha para mim como se eu tivesse acabado de dizer algo muito divertido.
— Se eu tivesse desejado matá-lo, eu o teria matado. E não teria precisado de um arranjo tão complicado para alcançar isso. Não me interesso por atitudes dramáticas — ele afirma. — Se quero machucar alguém, não preciso de muito além de minhas mãos.
Estou atordoada e perco a voz.
— Na verdade, estou impressionado — diz Warner — com como você consegue conter tanto poder sem achar maneiras de liberar o excesso. Eu mal conseguiria segurar. A transferência do meu corpo para o de Kenji não foi apenas imediata, foi necessária. Eu não conseguiria tolerar a intensidade por muito tempo.
— E eu não posso machucá-lo?
Pisco os olhos para ele, pasma.
— Nem um pouco? Meu poder simplesmente entra em você? Você simplesmente o absorve?
Ele concorda, balançando a cabeça. Diz:
— Gostaria de ver?
E estou fazendo que sim com a cabeça e os olhos e os lábios e nunca fiquei mais aterrorizada por estar animada na minha vida.
— O que tenho de fazer? — pergunto a ele.
— Nada — ele responde, muito baixo. — Apenas toque em mim.
Meu coração está batendo, pulando, correndo, acelerando pelo meu corpo e estou tentando me concentrar. Tentando ficar calma. Vai ficar tudo bem, digo a mim mesma. Vai ficar tudo bem. É apenas um experimento. Não há necessidade de ficar tão animada por poder tocar em alguém de novo, fico dizendo a mim mesma.
Mas, ó, estou tão, tão animada.
Ele estende a mão desprotegida.
Eu a seguro.
Espero sentir alguma coisa, alguma fraqueza, alguma diminuição na minha energia, algum sinal de que uma transferência está acontecendo do meu corpo para o dele, mas não sinto nada. Sinto-me exatamente igual. Mas observo o rosto de Warner conforme seus olhos se fecham e ele faz um esforço para se concentrar. Depois, sinto sua mão apertar em volta da minha e ele ofega.
Seus olhos se abrem de repente e sua mão livre atravessa o chão.
Dou um salto para trás, em pânico. Estou tombando para o lado, minhas mãos me amparando atrás do corpo. Devo estar tendo alucinações. Devo estar tendo alucinações com o buraco no chão a menos de dez centímetros de onde Warner ainda está sentado. Devo ter tido alucinações quando vi sua palma apoiada no piso apertar com muita força e atravessá-lo. Devo estar tendo alucinações com tudo. Tudo isto. Estou sonhando e tenho certeza de que acordarei logo. Deve ser isso.
— Não tenha medo...
— C-como — eu gaguejo —, como você f-fez isso...
— Não fique assustada, amor, está tudo bem, eu juro... Isso é novo para mim também...
— Meu... Meu poder? Ele não... Você não sente dor?
Ele balança a cabeça.
— Pelo contrário. É a descarga de adrenalina mais incrível... É diferente de tudo que conheço. Na verdade, me sinto um pouco zonzo — descreve — da melhor maneira possível.
Ele ri. Sorri para si mesmo. Larga a cabeça sobre as mãos. Olha para cima.
— Podemos fazer de novo?
— Não — eu respondo muito rápido.
Ele está com um sorriso largo.
— Tem certeza?
— Não posso... Eu apenas, ainda não consigo acreditar que você pode tocar em mim. Que você realmente... Quero dizer...
Estou chacoalhando a cabeça.
— Não há truques? Não há condições? Você toca em mim e ninguém se machuca? E não apenas ninguém se machuca, mas você se diverte? Você gosta de verdade da sensação de tocar em mim?
Ele está piscando os dois olhos para mim agora, encarando-me como se não soubesse bem como responder a minha pergunta.
— E então?
— Sim — ele diz, mas é uma palavra sem fôlego.
— Sim o quê?
Posso ouvir o quanto seu coração bate com força. Posso ouvir de verdade no silêncio entre nós.
— Sim — ele repete. — Eu gosto.
Impossível.
— Você nunca precisa ter medo de tocar em mim — ele garante. — Não vai me machucar. Isso só me dá força.
Quero rir, uma daquelas risadas estranhas, agudas, enlouquecidas que assinalam o fim da sanidade de uma pessoa. Porque este mundo, eu penso, tem um senso de humor terrível. Ele sempre pareceu rir de mim. À minha custa. Deixando minha vida infinitamente mais complicada o tempo todo. Arruinando todos os meus planos mais bem formulados ao tornar toda escolha muito difícil.
Ao tornar tudo tão confuso.
Não posso tocar no garoto que amo.
Porém, posso usar meu poder para fortalecer o garoto que tentou matar aquele que amo.
Ninguém, quero dizer ao mundo, está achando graça.
— Warner.
Eu levanto o olhar, atingida por um entendimento repentino.
— Você precisa contar ao Castle.
— Por que eu faria isso?
— Porque ele precisa saber! Explicaria a situação do Kenji e poderia nos ajudar amanhã! Você vai lutar ao nosso lado e isso pode ser útil...
Warner ri.
Ele ri e ri e ri, com os olhos brilhantes, reluzindo mesmo nesta iluminação fraca. Ele ri até virar apenas uma respiração rápida, até virar um suspiro suave, até dissolver-se em um sorriso divertido. E, depois, ele abre um sorriso largo para mim até estar sorrindo para si mesmo, até baixar os olhos e olhar minha mão, a que está descansando mole sobre meu colo. E hesita apenas por um instante antes de seus dedos roçarem a pele macia e fina que cobre os nós dos meus dedos.
Eu não respiro.
Eu não falo.
Eu nem me mexo.
Ele está hesitante, como se estivesse esperando para ver se vou me afastar, e eu deveria, sei que deveria, mas não me afasto. Assim, ele pega minha mão. Examina-a. Passa os dedos pelas linhas da minha palma, as dobras das minhas articulações, o ponto sensível entre meu polegar e o dedo indicador, e seu toque é tão terno, tão delicado e gentil, e é tão bom que dói, dói de verdade. E é demais para meu coração aguentar agora.
Eu tiro minha mão em um movimento estranho, aos trancos, o rosto corando, o pulso descompassado.
Warner não se retrai. Não levanta o olhar. Nem parece surpreso. Apenas encara sua mão agora vazia enquanto fala:
— Sabe? — ele começa, com a voz estranha e suave. — Acho que Castle é pouco mais do que um tolo otimista. Ele se esforça demais para receber bem muitas pessoas e esse tiro vai sair pela culatra, simplesmente porque é impossível agradar todos.
Uma pausa.
— Ele é o exemplo perfeito do tipo de pessoa que não sabe as regras deste jogo. Alguém que pensa muito com o coração e agarra-se com desespero demais a uma noção fantástica de esperança e paz. Nunca vou ajudá-lo.
Ele suspira.
— Na verdade, será o fim dele, tenho quase certeza. Mas há algo a seu respeito — Warner continua —, algo na maneira como você tem esperança.
Ele balança a cabeça.
— É tão ingênuo que é estranhamente amável. Você gosta de acreditar nas pessoas quando elas falam — afirma. — Você prefere a gentileza.
Ele sorri, apenas um pouco. Levanta os olhos.
— Isso me diverte.
De repente, sinto-me uma idiota.
— Você não vai lutar conosco amanhã.
Warner está com um sorriso bem aberto agora, os olhos muito carinhosos.
— Vou embora.
— Você vai embora.
Estou entorpecida.
— Meu lugar não é aqui.
Estou balançando a cabeça, dizendo:
— Não entendo... Como você pode ir embora? Você disse a Castle que lutaria conosco amanhã... Ele sabe que você vai embora? Alguém sabe? — pergunto a ele, examinando seu rosto. — O que planejou? O que vai fazer?
Ele não responde.
— O que você vai fazer, Warner...
— Juliette — ele sussurra e seus olhos têm urgência, de repente estão sofrendo. — Preciso lhe pedir uma cois...
Alguém está correndo pelos túneis.
Chamando meu nome.
Adam.

11 comentários:

  1. AAAAAAAAAAAAA EU SABIAAAA, CARA TEM COMO Ñ SHIPPAR ESSES DOIS? OBVIO QUE Ñ *-* o Adam tinha q atrapalhar -_-'

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  2. Juju meu bem vc e o Aaron foram feitos um pro outro. É simplesmente impossível não shippa-los.

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  3. "Não posso tocar no garoto que amo.
    Porém, posso usar meu poder para fortalecer o garoto que tentou matar aquele que amo.
    Ninguém, quero dizer ao mundo, está achando graça."
    Na verdade eu achei kkk

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  4. Respostas
    1. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 03:13

      se vc estiver se referindo ao Aaron, eu tb odeio ele. Eu gosto do Adam

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  5. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 03:12

    PRFVR O KENJI NÃO PODE ESTAR MORTO!!! O AARON É COMPLETAMENTE BIPOLAR E CONFUSO. CUIDADO COM ELE JULLIE, ELE NÃO TE AMA, ISSO NÃO É AMOR É OBSEÇÃO DOENTIA

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  6. minha gente eles sao perfeitos um pro outro!
    e pq o adam estraga esse momento!!

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  7. O warner é UM LOUCO PSICOPATA eu pensava q ele era um fofo Mas estava enganada ele tem q morre

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  8. Ninguém, quero dizer ao mundo, está achando graça.

    na verdade eu achei kkkk

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  9. potterhead-selecionada10 de setembro de 2017 15:12

    Vocês que acham que o warner é louco,psicopata,doente e etc,não poderiam estar mais equivocados.eu também pensava assim,mas graças a Deus eu li destrua-me depois do primeiro livro.



    WARNER É MARAVILHOSO.se eu pudesse trazer dois personagens para o mundo real certeza que eu traria o warner e o maxon shreave. 😘😘😘😘😘😘😘😘😘😘😘

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Boa leitura :)