2 de janeiro de 2017

57

Definitivamente, estou gritando.
Braços estão me levantando do chão e ouço vozes e sons que não me importo em reconhecer porque tudo que sei é que isto não pode acontecer. Não com Kenji, não com meu amigo engraçado e complicado que guarda segredos por trás de seus sorrisos, e estou me livrando das mãos que me seguram e estou cega, estou correndo para a sala de jantar e uma centena de rostos borrados misturam-se ao fundo porque o único que quero ver está usando um paletó azul-marinho e uma cabeça cheia de dreads presos em um rabo de cavalo.
— Castle!
Estou gritando. Ainda estou gritando. Posso ter caído no chão, não tenho certeza, mas sei que meus joelhos estão começando a doer e não me importo, não me importo, não me importo.
— Castle! É o Kenji... Ele está... Por favor...
Nunca vi Castle correr antes.
Ele corre pela sala em uma velocidade inumana, passa por mim e vai para o corredor. Todos na sala estão em pé, frenéticos, alguns gritando, em pânico, e estou seguindo Castle de volta para o túnel e Kenji ainda está lá. Ainda mole.
Imóvel.
Muito imóvel.
— Onde estão as garotas? — Castle está gritando. — Alguém... Busquem as garotas.
Ele está protegendo a cabeça de Kenji como se fosse um bebê, tentando puxar o corpo pesado dele para seus braços e nunca o ouvi falar assim antes, nem quando falava de nossos reféns, nem quando falava sobre o que Anderson fez com os civis. Olho ao redor e vejo todos os membros do Ponto Ômega em pé em volta de nós, a dor entalhada em seus rostos, e muitos deles já começaram a chorar, agarrando-se uns aos outros, e percebo que nunca dei a Kenji todo o crédito que merecia. Não entendi o alcance da autoridade dele, nunca vi de verdade o quanto ele é importante para as pessoas que estão aqui.
O quanto elas o amam.
Eu pisco e Adam é uma das 50 diferentes pessoas que tentam ajudar a carregar Kenji e, agora, eles estão correndo, esperançosos, apesar da terrível situação, e alguém está dizendo:
— Elas foram para a ala médica! Estão preparando uma cama para ele!
E é como uma debandada, todos correm atrás deles tentando descobrir o que há de errado e ninguém olha para mim, ninguém me olha nos olhos e eu me afasto, saio de vista contornando um canto do corredor e entrando na escuridão.
Sinto o gosto das lágrimas conforme caem na minha boca, conto cada gota salgada porque não consigo entender o que aconteceu, como aconteceu, como é possível, pois não estava tocando nele, não poderia estar tocando nele, por favor, por favor, por favor, não poderia ter tocado nele, mas, então, congelo.
Estalactites formam-se em meus braços quando percebo:
Não estou usando minhas luvas.
Esqueci minhas luvas. Estava tão apressada para chegar aqui esta noite que pulei do chuveiro e deixei as luvas no quarto e não parece ser real, não parece possível eu ter feito isso, eu ter esquecido, eu ser responsável por mais uma vida perdida e eu apenas, eu apenas, eu apenas...
Eu caio no chão.
— Juliette.
Olho para cima. Pulo para ficar em pé.
Digo:
— Fique longe de mim.
E estou tremendo, estou tentando conter as lágrimas, mas estou encolhendo até virar nada porque acho que deve ser isso. Esta deve ser minha punição máxima. Mereço esta dor, mereço ter matado um dos meus únicos amigos no mundo e quero murchar e desaparecer para sempre.
— Vá embora...
— Juliette, por favor — Warner diz, aproximando-se.
Seu rosto está encoberto pela sombra. Este túnel está apenas meio iluminado e não sei aonde leva. Tudo o que sei é que não quero ficar sozinha com Warner.
Não agora. Nunca mais.
— Eu disse para ficar longe de mim — minha voz está tremendo. — Não quero falar com você. Por favor... Apenas me deixe em paz!
— Não posso abandoná-la assim! — ele diz. — Não quando você está chorando!
— Talvez você não entendesse esta emoção — respondo com grosseria. — Talvez não se importasse porque matar pessoas não significa nada para você!
A respiração dele está pesada. Rápida demais.
— Do que você está falando?
— Estou falando de Kenji! — eu estouro. — Eu fiz aquilo! É culpa minha! É culpa minha você e Adam terem brigado e é culpa minha Kenji ter saído para contê-los e é culpa minha...
Minha voz falha uma, duas vezes.
— É culpa minha ele estar morto!
Os olhos de Warner se arregalam.
— Não fale besteira — diz. — Ele não está morto.
Estou em agonia.
Estou chorando por causa do que fiz e por ele com certeza estar morto, você não viu, ele nem estava se mexendo e eu o matei, e Warner continua em completo silêncio. Ele não fala nada enquanto lanço insultos horríveis, terríveis nele e o acuso de ter o coração frio demais para entender o que é sofrer de angústia. Nem percebo que ele me puxou para os seus braços até estar aninhada contra seu peito e não ofereço resistência. Não ofereço nem um pouco de resistência. Agarro-me a ele porque preciso deste calor, sinto falta de ter braços fortes em volta de mim e estou apenas começando a perceber o quão rápido passei a confiar na capacidade de cura de um excelente abraço.
Quão desesperadamente senti falta disto.
E ele apenas me abraça. Ajeita meu cabelo, desce uma mão delicada pelas minhas costas, e eu ouço seu coração em um batimento estranho e louco que parece rápido demais para ser humano.
Seus braços estão totalmente enrolados em mim quando ele diz:
— Você não o matou, amor.
E eu respondo:
— Talvez você não tenha visto o que eu vi.
— Você está entendendo tudo errado nesta situação. Você não fez nada para machucá-lo.
Balanço a cabeça contra o peito dele.
— Do que você está falando?
— Não foi você. Sei que não foi você.
Eu me afasto. Levanto os olhos até os dele.
— Como pode saber algo assim?
— Porque — ele explica — não foi você que machucou Kenji. Fui eu.

6 comentários:

  1. AAAAAAAAAAAAA EU SABIAAAAAAAAAA, MINHA TEORIA ESTÁ CORRETA, O WARNER CONSEGUE MESMO ABSORVER OS PODERES DE OUTRAS PESSOAS, TIPO A VAMPIRA DO X-MEN. Mano o dom do Warner é muito foda *0*

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  2. Esses dois abraçados♥ E Kenji não está morto. Não pode estar

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  3. Pqt mano q loko nao consigo parar de ler isso <3

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Boa leitura :)