2 de janeiro de 2017

56

É como passar seis meses apenas tentando aspirar o ar.
É como esquecer como movimentar seus músculos e reviver cada momento nauseante da sua vida e lutar para tirar todas as lascas debaixo da sua pele. É como aquela vez em que você acordou e tropeçou e caiu em um buraco de coelho e uma menina loira com vestido azul ficou lhe pedindo orientações de caminhos, mas você não podia ajudá-la, não fazia ideia, ficava tentando falar, mas sua garganta estava cheia de nuvens de chuva e é como se alguém tivesse pegado o oceano e enchido-o de silêncio e derramado-o por toda esta sala.
É assim.
Ninguém está falando. Ninguém está se mexendo. Todos estão olhando.
Para Adam.
Para Adam olhando para mim.
Os olhos dele estão arregalados, piscando rápido demais, seus traços passando de confusão a raiva, a dor e a confusão, muita confusão, e um toque de traição, de suspeita, de muito mais confusão e uma dose extra de dor e estou ofegando como um peixe instantes antes de morrer.
Queria que ele dissesse alguma coisa. Queria que ele pelo menos perguntasse ou acusasse ou exigisse alguma coisa, mas ele não diz nada, ele apenas me examina, encara, e vejo a luz sumir de seus olhos conforme a raiva dá lugar à dor e à extraordinária impossibilidade que ele deve estar vivendo agora, e ele se senta.
Não olha na minha direção.
— Adam...
Ele está em pé. Ele está em pé. Ele está em pé e está saindo correndo da sala e eu tropeço em meus pés, persigo-o porta a fora e ouço o caos irromper atrás de mim, a multidão dissolvendo-se em raiva de novo e quase trombo com ele, estou ofegando e ele se vira e diz.
— Não entendo.
Seus olhos estão tão machucados, tão profundos, tão azuis.
— Adam, eu...
— Ele tocou em você.
Não é uma pergunta. Ele mal consegue olhar em meus olhos e parece quase envergonhado com as palavras que diz em seguida:
— Ele tocou na sua pele.
Seria bom se fosse apenas isso. Seria bom se fosse simples assim. Seria bom se eu pudesse tirar essas correntes do meu sangue e Warner da minha cabeça e por que estou tão confusa...
— Juliette.
— Sim — digo a ele, mal mexo os lábios.
A resposta para a sua não pergunta é sim.
Adam toca a boca com os dedos, levanta o olhar, desvia o olhar, solta um som estranho de descrédito.
— Quando?
Conto a ele.
Conto a ele quando aconteceu, como tudo começou, conto a ele que eu estava usando um dos vestidos que Warner sempre me fazia usar, que ele estava lutando para me conter antes de um pular pela janela, que sua mão roçou em minha perna e ele me tocou e nada aconteceu.
Conto a ele que tentei fingir que era tudo apenas invenção da minha imaginação até que Warner nos pegou de novo.
Não conto a ele que Warner disse que sentiu minha falta, que disse que me amava e que me beijou, que me beijou com uma intensidade selvagem e descuidada. Não digo a ele que fingi corresponder aos sentimentos de Warner apenas para poder deslizar as mãos para baixo do seu casaco e pegar a arma dentro de seu bolso. Não digo a ele que fiquei surpresa, até chocada, com a maneira como me senti em seus braços e que expulsei esses sentimentos estranhos porque odiava Warner, porque estava tão horrorizada por ele ter atirado em Adam que queria matá-lo.
Tudo o que Adam sabe é que quase fiz isso. Quase matei Warner.
E, agora, Adam está piscando, digerindo as palavras que eu lhe disse, inocente quanto aos eventos que guardei para mim mesma.
Sou mesmo um monstro.
— Eu não queria que você soubesse — consigo dizer. — Achei que complicaria nosso relacionamento... Depois de tudo com o que tivemos de lidar... Apenas achei que seria melhor ignorar isso e não sei.
Eu me atrapalho, fico sem palavras.
— Foi idiota. Foi muito idiota. Eu devia ter contado. Sinto muito. Sinto muito mesmo. Não queria que você descobrisse assim.
Adam está com a respiração pesada, esfregando a parte de trás da cabeça antes de passar a mão pelo cabelo, e diz:
— Eu não... Não entendo... Quero dizer... Sabemos por que ele pode tocar em você? É como eu? Ele pode fazer o que eu faço? Eu não... Meu Deus, Juliette, e você tem passado todo esse tempo sozinha com ele...
— Não aconteceu nada — eu afirmo. — Tudo o que fiz foi falar com ele e ele nunca tentou tocar em mim. E não faço ideia de por que ele pode tocar em mim... Acho que ninguém entende. Ele não começou os testes com Castle ainda.
Adam suspira e arrasta a mão pelo rosto e diz tão baixinho, que apenas posso ouvi-lo:
— Nem sei por que estou surpreso. Temos o mesmo maldito DNA.
Ele sussurra um palavrão. E de novo.
— Será que um dia vou ter um descanso? — pergunta, levantando a voz, falando com o ar. — Vai existir um momento em que não me joguem merda na cara? Jesus. É como se esta loucura nunca fosse acabar.
Quero dizer a ele que não acho que ela vá acabar.
— Juliette.
Eu congelo com o som da voz dele.
Fecho e comprimo os olhos, comprimo muito, recusando-me a acreditar em meus ouvidos. Warner não pode estar aqui. É claro que ele não está aqui. Não é nem possível ele estar aqui fora, mas, então, eu me lembro. Castle disse que ele não é mais um refém.
Castle deve tê-lo deixado sair do quarto.
Ó.
Ó, não.
Isto não pode estar acontecendo. Warner não está tão perto de Adam e de mim agora, não de novo, não assim, não depois de tudo, isto não pode estar acontecendo... mas Adam olha por cima do meu ombro, olha atrás de mim para a pessoa que estou tentando tanto ignorar e não posso levantar os olhos. Não quero ver o que está prestes a acontecer.
A voz de Adam parece ácido quando ele fala:
— Que diabos você está fazendo aqui?
— É bom vê-lo de novo, Kent.
Posso mesmo ouvir Warner sorrir.
— Devíamos colocar a conversa em dia, sabe? Especialmente à luz dessa nova descoberta. Eu não fazia ideia de que tínhamos tanto em comum.
Você não tem mesmo a menor ideia, quero dizer em voz alta.
— Seu doente de merda — Adam diz para ele, com a voz baixa e controlada.
— Que linguajar infeliz.
Warner balança a cabeça.
— Apenas aqueles que não sabem se expressar de maneira inteligente recorrem a substituições tão grosseiras no vocabulário.
Uma pausa.
— É porque eu o intimido, Kent? Estou deixando-o nervoso?
Ele ri.
— Você parece estar se esforçando para não perder o controle.
— Eu vou matá-lo...
Adam lança-se para frente, para pegar Warner pelo pescoço no momento em que Kenji bate contra ele, contra os dois, separando-os com um olhar de puro desgosto.
— Que diabos vocês dois acham que estão fazendo?
Seus olhos estão em chamas.
— Não sei se notaram, mas estão bem em frente à porta e estão deixando as criancinhas apavoradas, Kent. Então, vou ter de pedir que vocês se acalmem.
Adam tenta falar, mas Kenji o interrompe.
— Olhem, não faço ideia do que Warner está fazendo fora do quarto, mas não é decisão minha. Castle está no comando aqui e temos de respeitar isso. Você não pode sair por aí matando pessoas só porque deu vontade.
— Este é o mesmo cara que tentou me torturar até a morte! — Adam grita. — Você foi espancado sem dó pelos homens dele! E tenho de viver com ele? Lutar ao lado dele? Fingir que está tudo bem? Castle perdeu a cabeça...
— Castle sabe o que está fazendo — Kenji estoura. — Você não precisa ter opinião a respeito disso. Você vai se submeter ao julgamento dele.
Adam joga as mãos para o alto, furioso.
— Não acredito. Isso é uma piada! Quem faz isso? Quem trata reféns como se estivesse em um tipo de retiro? — ele grita de novo, sem se esforçar para manter a voz baixa. — Ele pode voltar e fornecer todos os detalhes sobre este lugar... Ele pode revelar nossa localização exata!
— Isso é impossível — Warner diz. — Não faço ideia de onde estamos.
Adam vira-se para Warner com tanta rapidez que eu me viro tão rápido quando ele, apenas para acompanhar a ação. Adam está gritando, falando alguma coisa, parecendo que pode atacar Warner bem aqui, neste momento, e Kenji está tentando contê-lo, mas mal posso ouvir o que está acontecendo ao meu redor. O sangue está sendo bombeado com muita força na minha cabeça e meus olhos estão se esquecendo de piscar porque Warner está olhando para mim, apenas para mim, com seus olhos tão focados, tão concentrados, tão dolorosamente profundos que fico completamente imóvel.
O peito de Warner está subindo e descendo, com força o bastante para eu ver de onde estou. Ele não está prestando atenção à comoção ao seu lado, ao caos na sala de jantar ou a Adam tentando esmurrá-lo e derrubá-lo no chão; ele não se deslocou um único centímetro. Ele não desvia o olhar e sei que tenho de fazer isso por ele.
Viro a cabeça.
Kenji está gritando para Adam se acalmar por algum motivo e eu estendo a mão, agarro o braço de Adam, ofereço-lhe um sorriso e ele se acalma.
— Venha — digo a ele. — Vamos voltar lá para dentro. Castle ainda não terminou e precisamos ouvir o que ele está dizendo.
Adam faz um esforço para recuperar o controle sobre si mesmo. Respira fundo. Dirige-me um aceno rápido com a cabeça e permite que eu o conduza para frente. Estou me esforçando para manter a concentração em Adam e, assim, poder fingir que Warner não está aqui.
Warner não gosta muito do meu plano.
Agora, ele está em frente a nós, bloqueando nosso caminho, e eu olho para ele, apesar das minhas melhores intenções para não fazê-lo, apenas para ver algo que nunca vi antes. Não nesse nível, não assim.
Dor.
— Mexa-se — Adam explode com ele, mas Warner não parece notar.
Ele está olhando para mim. Ele está olhando para minha mão agarrada ao redor do braço coberto de Adam, e a agonia em seus olhos está quebrando meus joelhos e não consigo falar, não deveria falar, não saberia o que dizer mesmo se conseguisse falar e, então, ele diz meu nome. Ele fala de novo. Ele diz:
— Juliette...
— Mexa-se! — Adam grita de novo, desta vez perdendo o controle e empurrando Warner com força suficiente para derrubá-lo no chão.
Mas Warner não cai. Ele tropeça para trás, apenas um pouco, mas o movimento de alguma forma dispara algo dentro dele, algum tipo de raiva adormecida que ele fica ansioso demais para libertar e ele está se lançando para frente, pronto para causar danos, e estou tentando descobrir o que fazer para pará-lo, estou tentando pensar em um plano e sou idiota.
Idiota o bastante para entrar no meio da briga.
Adam agarra-me para tentar me afastar, mas já estou pressionando a palma de uma das mãos no peito de Warner e não sei no que estou pensando, mas não estou pensando em nada e esse parece ser o problema. Estou aqui, estou presa nos milissegundos que separam dois irmãos dispostos a destruírem um ao outro e nem sou eu quem consegue fazer alguma coisa.
É Kenji.
Ele segura os dois garotos pelos braços e tenta afastá-los, mas o som repentino que sai rasgando de sua garganta é uma tortura e um terror que eu queria poder arrancar do meu crânio.
Ele está caído.
Ele está no chão.
Ele está engasgando, ofegando, convulsionando no chão até ficar mole, até mal conseguir respirar e, depois, fica imóvel, muito imóvel, e acho que estou gritando, fico tocando em meus lábios para ver de onde está vindo este som e estou de joelhos. Estou tentando chacoalhá-lo para acordá-lo, mas ele não está se mexendo, ele não está reagindo e não faço ideia do que acabou de acontecer.
Não faço ideia de se Kenji está morto.

5 comentários:

  1. KENJI NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO *^* ELE Ñ PODE MORRER *^* mas não entendo, ele não tocou na Juju, apenas no Adam e no Warner...pera...MANO TO ACHANDO QUE MINHA TEORIA ESTA CORRETA, D ALGUMA FORMA O WARNER ABSORVEU O PODER DA JUJU E O KENJI TOCOU NELE *0*

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    1. Pelo visto tu tavatar certa. O Warner é a vampira

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  2. Acho que ela conseguiu expandir seu poder pra ele.. ai mds.

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    1. Ou...talvez nao foi ela.
      Ass•analu

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  3. Kenji morto?? Nãããããããããoooooooo.....

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Boa leitura :)