2 de janeiro de 2017

55

Tic tac.
Castle convocou uma reunião repentina para informar a todos os detalhes da luta de amanhã; temos menos de 12 horas até sairmos. Nós nos reunimos na sala de jantar porque é o melhor lugar para acomodar todos ao mesmo tempo.
Tivemos uma última refeição, uma porção de conversas forçadas, duas horas tensas recheadas com momentos breves e espasmódicos de risadas que mais pareciam pessoas engasgando. Sara e Sonya foram as últimas a chegarem à sala; as duas me viram e acenaram para me cumprimentar antes de se sentarem do outro lado do aposento. Depois, Castle começou a falar.
Todos terão de lutar.
Todos os homens e mulheres em condições. Os idosos, incapazes de entrar na batalha, ficarão com os mais novos, e os mais novos incluem James e seu antigo grupo de amigos.
James está apertando a mão de Adam com força agora.
Anderson vai atrás da população, Castle diz. As pessoas têm provocado tumultos, mais enfurecidas com o Restabelecimento do que nunca. Nossa batalha lhes deu esperança, Castle nos contou. Elas tinham apenas escutado rumores sobre uma resistência, mas a batalha concretizou essas especulações. Estão esperando que nós as apoiemos, fiquemos ao lado delas, e, agora, pela primeira vez, lutaremos com nossos dons sem escondê-los.
Nos aglomerados.
Onde os civis verão como somos.
Castle está dizendo para nos prepararmos para agressões vindas dos dois lados. Ele diz que, às vezes, principalmente quando estão assustadas, as pessoas não têm uma reação positiva ao ver gente como nós. Elas preferem o terror familiar ao desconhecido ou inexplicável, e nossa presença, nossa exibição pública pode criar novos inimigos.
Temos de estar preparados para isso.
— Então, por que vamos nos importar com eles? — uma garota grita do fundo da sala.
Ela fica em pé e eu reparo em seu cabelo preto liso, uma folha pesada de tinta que para na sua cintura. Seus olhos brilham sob a luz fluorescente.
— Se vão apenas nos odiar — ela continua —, por que devemos defendê-los? É ridículo!
Castle respira fundo.
— Não podemos culpar todos pela tolice de um.
— Mas não é apenas um, é? — uma nova voz soa. — Quantos deles vão se voltar contra nós?
— Não temos como saber — Castle responde. — Poderia ser um. Poderia não ser nenhum. Estou apenas aconselhando-os a terem cuidado. Nunca devem esquecer que esses civis são inocentes e estão desarmados. Estão sendo mortos por sua desobediência... Simplesmente por se posicionarem e pedirem um tratamento justo. Estão passando fome e perderam seus lares, suas famílias. Com certeza, vocês devem saber como é. Muitos de vocês ainda têm membros perdidos na família, espalhados pelo país, não?
Há um murmúrio geral na multidão.
— Vocês precisam imaginar que é sua mãe. Seu pai. Seus irmãos e irmãs entre eles. Estão sofrendo e estão sendo desmoralizados. Temos de fazer o pouco que pudermos para ajudá-los. É a única maneira. Somos a única esperança deles.
— E os nossos homens?
Outra pessoa fica em pé. Ele deve ter 40 e tantos anos, é gordo e robusto, muito mais alto que os demais.
— Qual é a garantia de que traremos Winston e Brendan de volta?
O olhar de Castle baixa por apenas um segundo. Pergunto-me se sou a única que repara na dor que entra e sai de seus olhos.
— Não há garantia, amigo. Nunca há. Mas faremos o melhor que pudermos. Não desistiremos.
— Então, de que adiantou fazer o menino de refém? — ele protesta. — Por que não o matar, simplesmente? Por que o estamos mantendo vivo? Ele não nos serviu para nada e está comendo nossa comida e usando nossos recursos, que deveriam ir para o restante de nós.
A multidão rompe-se em um frenesi exacerbado, nervoso, louco de emoções. Todos estão gritando ao mesmo tempo, berrando palavras como “matem-no!” e “o supremo vai ver só!” e “temos de mostrar do que somos capazes” e “ele merece morrer!”.
Há um repentino aperto no meu coração. Quase comecei a hiperventilar e percebo, pela primeira vez, que a ideia da morte de Warner não é nada atraente para mim.
Ela me aterroriza.
Olho para Adam à procura de um tipo diferente de reação, mas não sei o que estava esperando. Sou idiota por ficar surpresa com a tensão em seus olhos, sua testa, seus lábios rígidos. Sou idiota por ter esperado qualquer coisa além de ódio de Adam. É claro, Adam odeia Warner. É claro que sim.
Warner tentou matá-lo.
É claro que ele, também, quer que Warner morra.
Acho que vou ficar enjoada.
— Por favor! — Castle grita. — Sei que vocês estão chateados! Amanhã será um momento difícil a enfrentar, mas não podemos canalizar nossa agressividade em uma única pessoa. Temos de usá-la como combustível para nossa luta e temos de nos manter unidos. Não podemos deixar nada nos dividir. Não agora!
Seis segundos de silêncio.
— Não lutarei até ele estar morto!
— Vamos matá-lo esta noite!
— Vamos pegá-lo agora!
A multidão é um rugido de corpos nervosos, determinados, caras feias muito assustadas, muito selvagens, muito contorcidas em uma raiva inumana. Eu não havia percebido que as pessoas do Ponto Ômega estavam acumulando tanto ressentimento.
— PAREM!
As mãos de Castle estão no ar, seus olhos pegam fogo. Todas as cadeiras e mesas do salão começam a chacoalhar. As pessoas estão olhando ao redor, assustadas e dispersando-se, acovardadas.
Ainda não estão dispostas a derrubar a autoridade de Castle. Pelo menos por ora.
— Nosso refém — Castle começa — não é mais um refém.
Impossível.
Isso é impossível.
Isso não é possível.
— Ele me procurou esta noite — Castle conta — e pediu abrigo no Ponto Ômega.
Meu cérebro está gritando, enfurecido com as 11 palavras que Castle acabou de pronunciar.
Não pode ser verdade. Warner disse que ia embora. Disse que ia encontrar uma forma de sair.
Porém, o Ponto Ômega está ainda mais chocado do que eu. Até Adam está tremendo de raiva ao meu lado. Tenho medo de olhá-lo no rosto.
— SILÊNCIO! POR FAVOR!
Castle levanta a outra mão para reprimir a explosão de protestos.
Ele diz:
— Descobrimos recentemente que ele também tem um dom. E ele disse que quer se juntar a nós. Disse que lutará conosco amanhã. Disse que lutará contra o pai e nos ajudará a encontrar Brendan e Winston.
Caos
Caos
Caos
explode em todos os cantos do salão.
— Ele é um mentiroso!
— Prove isso!
— Como pode acreditar nele?
— Ele é um traidor do seu próprio povo! Vai nos trair também!
— Nunca lutarei ao lado dele!
— Vou matá-lo antes!
Os olhos de Castle contraem-se, brilhando sob as luzes fluorescentes, e suas mãos mexem-se pelo ar como espanadores, reunindo todos os pratos, todas as colheres, todos os copos de vidro do salão, e ele os segura ali, bem no ar, desafiando qualquer um a falar, a gritar, a discordar.
— Vocês não vão tocar nele — ele diz, em voz baixa. — Fiz o juramento de ajudar pessoas como nós e não vou quebrá-lo agora. Pensem em si mesmos! — grita. — Pensem no dia em que descobriram! Pensem na solidão, no isolamento, no terror que os dominou! Pensem em como foram excluídos por suas famílias e seus amigos! Não acham que ele pode ter mudado? Como vocês mudaram, amigos? Vocês o julgam agora! Vocês julgam um dos seus que pedem anistia!
Castle parece estar muito bravo.
— Se ele fizer qualquer coisa que comprometa qualquer um de nós, se ele fizer uma única coisa para desmentir sua lealdade... Apenas nessa situação vocês estarão livres para julgá-lo. Mas, primeiro, damos a ele uma chance, não damos?
Ele não está mais se importando em esconder sua ira.
— Ele disse que nos ajudará a encontrar nossos homens! Ele disse que lutará contra o pai! Ele tem informações valiosas que podemos usar! Por que não estaríamos dispostos a arriscar? Ele não passa de uma criança de 19 anos! Ele é apenas um e nós somos muitos!
As pessoas estão calmas agora, sussurrando entre si, e eu ouço fragmentos de conversas e palavras como “ingênuo” e “ridículo” e “ele vai causar a morte de todos nós!”, mas ninguém levanta a voz e fico aliviada. Não posso acreditar no que estou sentindo agora e queria não me importar nem um pouco com o que acontece a Warner.
Queria poder desejar sua morte. Queria não sentir nada por ele.
Mas não consigo. Não consigo. Não consigo.
— Como você sabe? — alguém pergunta.
Uma voz nova, calma; uma voz que luta para ser racional.
A voz está sentada bem ao meu lado.
Adam levanta-se. Engole em seco, com dificuldade. Diz:
— Como você sabe que ele tem um dom? Você o testou?
E ele olha para mim, Castle olha para mim, ele me encara como se quisesse me incentivar a falar, e sinto como se tivesse aspirado todo o ar para fora desta sala, como se tivesse sido jogada em um tanque de água fervente, como se nunca mais fosse encontrar as batidas do meu coração e estou implorando, rezando, esperando e desejando que ele não diga as palavras que ele pronuncia em seguida, mas ele as diz.
É claro que diz.
— Sim — Castle responde. — Sabemos que ele, como você, pode tocar em Juliette.

8 comentários:

  1. Assim tipo juju se teve chance de contar mas resolver esconder entao agora sinto mto querida tu se ferrou
    abraços <3

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  2. Ela ama o mozão, mas não adimite pra si mesma -_- FERROU JUJU, CORRE PARA AS COLINAS o.O

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  3. Ngm toca no habibi! Eu avisei Juju que esse negócio de esconder as coisas não dá certo

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  4. Rindo mt neste capitulo, ninguém mandou ficar de segredinho 😂😂😂

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  5. — Sim — Castle responde. — Sabemos que ele, como você, pode tocar em Juliette.

    Doeu ler isso,foi como se uma faca estivesse perfurando meu fígado.

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Boa leitura :)