2 de janeiro de 2017

54

Os guardas me deixam entrar no quarto de Warner sem dizer uma única palavra.
Meus olhos correm pelo espaço agora parcialmente mobiliado, com o coração batendo forte, os punhos cerrados, o sangue correndo, correndo, correndo. Algo está errado. Algo aconteceu. Warner estava ótimo quando o deixei na noite anterior e não posso imaginar o que o inspirou a perder a cabeça assim, mas estou assustada.
Alguém lhe deu uma cadeira. Percebo agora como ele conseguiu amassar a porta de aço. Ninguém devia ter lhe dado uma cadeira.
Warner está sentado nela, com as costas voltadas para mim. Apenas sua cabeça está visível de onde estou.
— Você voltou — ele diz.
— É claro que voltei — respondo, aproximando-me devagar. — O que há de errado? Tem alguma coisa errada?
Ele ri. Passa a mão pelo cabelo. Olha para o teto.
— O que aconteceu?
Estou muito preocupada agora.
— Você está... Aconteceu alguma coisa com você? Você está bem?
— Preciso sair daqui — ele diz. — Preciso sair. Não posso mais ficar aqui.
— Warner...
— Você sabe o que ele disse para mim? Ele contou a você o que disse para mim?
Silêncio.
— Ele simplesmente entrou no meu quarto hoje pela manhã. Entrou direto aqui e disse que queria ter uma conversa comigo.
Warner ri de novo, alto, alto demais. Balança a cabeça.
— Ele me disse que posso mudar. Ele disse que posso ter um dom como todos os outros daqui... Que, talvez, eu tenha uma habilidade. Ele disse que posso ser diferente, amor. Ele disse que acredita que posso ser diferente, se eu quiser.
Castle contou a ele.
Warner levanta-se, mas não se vira por completo, e vejo que ele não está usando camisa. Ele nem parece se importar de que eu possa ver as cicatrizes nas suas costas, a palavra INCENDIAR tatuada em seu corpo. Seu cabelo está bagunçado, desgrenhado, caindo no rosto, e as calças estão com o zíper fechado, mas o botão aberto, e eu nunca o vi tão desarrumado antes. Ele aperta as palmas das mãos contra a parede de pedra, os braços esticados; seu corpo está curvado, sua cabeça está baixa como se ele rezasse. O seu corpo todo está tenso, retesado, os músculos estão se contraindo contra a pele. Suas roupas estão em uma pilha no chão e o colchão está no meio do quarto e a cadeira em que estava sentado está virada para a parede, olhando para o nada, e percebo que ele começou a perder a cabeça aqui.
— Pode acreditar nisso? — ele pergunta, ainda sem olhar na minha direção. — Pode acreditar que ele acha que posso simplesmente acordar certa manhã e ser diferente? Cantar músicas alegres e dar dinheiro aos pobres e implorar ao mundo que me perdoe pelo que fiz? Acha isso possível? Acha que posso mudar?
Por fim, ele se vira para me encarar e seus olhos estão rindo, seus olhos são como esmeraldas brilhando no pôr do sol, e sua boca está se torcendo, contendo um sorriso.
— Acha que eu poderia ser diferente?
Ele dá alguns passos na minha direção e não sei por que isso afeta minha respiração. Por que não consigo encontrar minha boca.
— É apenas uma pergunta — ele fala e está bem em frente a mim e nem sei como chegou até aqui.
Ele ainda está olhando para mim, com os olhos tão focados e tão simultaneamente amedrontadores, brilhantes, resplandecendo com algo que nunca identifico.
Meu coração não fica quieto, ele se recusa a parar de palpitar, palpitar, palpitar.
— Diga-me, Juliette. Eu adoraria saber o que você realmente pensa de mim.
— Por quê? — quase um sussurro na tentativa de ganhar algum tempo.
Os lábios de Warner dobram-se para cima em um sorriso antes de se abrirem, apenas um pouco, apenas o suficiente para se contraírem em uma expressão estranha e curiosa que se demora em seus olhos. Ele não responde. Não diz uma palavra. Apenas se aproxima de mim, analisando-me, e estou paralisada no lugar, minha boca cheia dos segundos em que ele não fala, e estou lutando contra cada átomo do meu corpo, cada célula idiota do meu sistema por me sentir tão atraída por ele.
Ó.
Meu Deus.
Estou tão terrivelmente atraída por ele.
A culpa está crescendo rapidamente dentro de mim, acomodando-se em meus ossos, quebrando-me ao meio. É um cabo torcido em volta do meu pescoço, uma lagarta rastejando pelo meu estômago. É a noite e a meia-noite e o crepúsculo da indecisão. São muitos segredos que não consigo mais conter.
Não entendo por que quero isso.
Sou uma pessoa horrível.
E é como se ele visse o que estou pensando, como se pudesse sentir a mudança que está acontecendo na minha cabeça, porque, de repente, ele fica diferente. Sua energia desacelera, seus olhos estão profundos, perturbados, ternos; seus lábios estão suaves, ainda um pouco separados e, agora, o ar no quarto está tão tenso, tão cheio de algodão, e sinto o sangue correr pela cabeça, colidindo com cada região racional do meu cérebro.
Gostaria que alguém me lembrasse de como se respira.
— Por que não pode responder a minha pergunta?
Ele está olhando com tanta intensidade para os meus olhos, que fico surpresa de não ter me curvado sob ele, e percebo então, bem neste momento, percebo que tudo nele é intenso. Nada nele é administrável ou fácil ou compartimentado.
Ele é muito. Tudo nele é muito. Suas emoções, suas ações, sua raiva, sua agressividade.
Seu amor.
Ele é perigoso, elétrico, impossível de conter. Seu corpo está se agitando com uma energia tão extraordinária que, mesmo quando ele já se acalmou, ela é quase palpável. Tem uma presença.
Porém, desenvolvi uma fé estranha e assustadora em quem Warner realmente é e quem ele tem a capacidade de se tornar. Quero encontrar o garoto de 19 anos que alimenta um cão de rua. Quero acreditar no garoto com uma infância torturada e um pai abusivo. Quero entendê-lo. Quero desvendá-lo.
Quero acreditar que ele é mais do que o molde em que foi forçado a entrar.
— Acho que você pode mudar — escuto-me dizer. — Acho que todo mundo pode mudar.
E ele sorri.
É um sorriso lento e contente. O tipo de sorriso que vira uma risada e ilumina os traços dele e o faz suspirar. Ele fechou os olhos. Seu rosto está tão alegre, tão divertido.
— É simplesmente tão doce — ele diz. — Tão insuportavelmente doce. Porque você acredita mesmo nisso.
— É claro que sim.
Ele enfim me olha quando sussurra:
— Mas está enganada.
— O quê?
— Sou insensível — ele me diz, suas palavras frias, vazias, voltadas para dentro. — Sou um babaca insensível e um ser cruel e vil. Não me importo com os sentimentos das pessoas. Não me importo com seus medos ou seus futuros. Não me importo com o que elas querem ou se têm ou não uma família, e não me arrependo — afirma. — Nunca me arrependi de nada que fiz.
Eu realmente demoro alguns instantes para me recuperar.
— Mas você pediu desculpas para mim — digo a ele. — Você pediu desculpa para mim ontem à noite...
— Você é diferente — ele fala, interrompendo-me. — Você não conta.
— Não sou diferente — digo. — Sou apenas mais uma pessoa, como qualquer outra. E você provou que tem a capacidade de sentir remorso. Compaixão. Sei que você pode ser gentil...
— Não sou assim — sua voz está repentinamente dura, repentinamente forte demais. — E não vou mudar. Não posso apagar 19 anos desgraçados da minha vida. Não posso perder as memórias do que fiz. Não posso acordar certa manhã e decidir viver com esperanças e sonhos emprestados. As promessas de outra pessoa de um futuro melhor. E não vou mentir para você — ele continua. — Nunca me importei nem um pouco com outras pessoas e não faço sacrifícios nem concessões. Não sou bom, ou justo, ou decente, e nunca serei. Não posso ser. Porque tentar ser alguma dessas coisas seria constrangedor.
— Como pode pensar assim?
Quero chacoalhá-lo.
— Como pode ter vergonha da tentativa de ser melhor?
Mas ele não está ouvindo. Está rindo. Está dizendo:
— Pode me imaginar assim? Sorrindo para criancinhas e entregando presentes em festas de aniversário? Pode me imaginar ajudando um estranho? Brincando com o cachorro do vizinho?
— Sim — digo a ele. — Sim, posso.
Já vi isso, não digo a ele.
— Não.
— Por que não? — insisto. — Por que é tão difícil acreditar?
— Esse tipo de vida — afirma — é impossível para mim.
— Mas por quê?
Warner fecha e abre cinco dedos antes de passá-los pelo cabelo.
— Porque sinto — ele responde, com a voz mais baixa agora. — Sempre pude sentir.
— Sentir o quê? — sussurro.
— O que as pessoas pensam a meu respeito.
— O quê...?
— Seus sentimentos... Sua energia... É... Não sei o que é — ele diz, frustrado, cambaleando para trás, balançando a cabeça. — Eu sempre soube. Sei que todos me odeiam. Sei o quão pouco meu pai se importa comigo. Sei a agonia do coração da minha mãe. Sei que você não é como os outros.
Sua voz se recupera.
— Sei que você está dizendo a verdade ao falar que não me odeia. Que quer e não consegue. Porque não há maldade no seu coração, não comigo, e, se houvesse, eu saberia. Assim como sei — ele acrescenta, sua voz rouca contida — que você sentiu alguma coisa quando nos beijamos. Sentiu o mesmo que eu senti e tem vergonha disso.
Estou escorrendo de pânico por toda parte.
— Como pode saber isso? — pergunto. — C-como... Não pode simplesmente saber coisas assim...
— Ninguém nunca olhou para mim como você olha — ele murmura. — Ninguém nunca fala comigo como você fala, Juliette. Você é diferente — diz. — Você é muito diferente. Você me entenderia. Mas o restante do mundo não quer minha solidariedade. Não quer meus sorrisos. Castle é o único homem na Terra que foi uma exceção a essa regra, e sua ansiedade para confiar em mim e me aceitar apenas me mostra como esta resistência é fraca. Ninguém aqui sabe o que está fazendo e todos vão ser massacrados...
— Isso não é verdade... Não pode ser verdade...
— Ouça — Warner diz para mim, com urgência agora. — Você precisa entender... As únicas pessoas que importam neste mundo ordinário são as que têm poder verdadeiro. E você — ele completa —, você tem poder. Você tem o tipo de força que poderia abalar este planeta... Que poderia conquistá-lo. E, talvez, ainda seja cedo demais, talvez você precise de mais tempo para reconhecer seu próprio potencial, mas sempre estarei esperando. Sempre vou querê-la ao meu lado. Porque nós dois... Nós dois — ele diz, ele para. Parece sem fôlego. — Pode imaginar?
Seus olhos estão atentos aos meus, as sobrancelhas unidas. Analisando-me.
— É claro que pode — ele sussurra. — Você pensa nisso o tempo todo.
Eu sufoco um grito.
— Seu lugar não é este — ele argumenta. — Seu lugar não é ao lado destas pessoas. Vão arrastá-la com elas e fazê-la morrer...
— Não tenho escolha!
Estou brava agora, indignada.
— Eu preferiria ficar aqui com aqueles que estão tentando ajudar... Tentando fazer a diferença! Pelo menos, não estão assassinando pessoas inocentes...
— Acha que seus novos amigos nunca mataram antes? — Warner grita, apontando para a porta. — Acha que Kent nunca matou ninguém? Que Kenji nunca atravessou uma bala pelo corpo de um estranho? Eles eram meus soldados! — ele diz. — Eu os vi fazer isso com meus próprios olhos!
— Eles estavam tentando sobreviver — eu falo, tremendo, lutando para ignorar o terror da minha própria imaginação. — A lealdade deles nunca esteve com o Restabelecimento.
— Minha lealdade — ele começa — não está com o Restabelecimento. Minha lealdade está com aqueles que sabem viver. Tenho apenas duas opções neste jogo, amor.
Ele está respirando com dificuldade.
— Matar. Ou ser morto.
— Não — digo a ele, recuando, sentindo-me enjoada. — Não precisa ser assim. Você não precisa viver assim. Você poderia se afastar do seu pai, dessa vida. Você não tem de ser o que ele quer que você seja...
— O estrago — ele fala — já está feito. É tarde demais para mim. Já aceitei meu destino.
— Não... Warner...
— Não estou pedindo para se preocupar comigo — ele diz. — Sei exatamente como será meu futuro e tudo bem. Fico feliz em viver na solidão. Não tenho medo de passar o restante da vida na companhia da minha pessoa. Não tenho medo da solidão.
— Você não precisa ter essa vida — digo. — Você não precisa ser sozinho.
— Não ficarei aqui — ele responde. — Apenas queria que você soubesse disso. Vou encontrar uma maneira de sair e vou partir assim que tiver uma chance. Minhas férias — ele continua — chegaram oficialmente ao fim.

7 comentários:

  1. Vontade de dar um soco no Warner QUERIDO LARGA DE SER IDIOTA MDS

    E JULIETTE PELO AMOR DE DEUS FALA LOGO OQ TA SENTINDO MINHA FIA FICA NESSE MIMIMI AGE PF

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  2. Ela ta apaixonada por ele, FALA LOGO QUE O AMA JUJU -_-

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  3. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 02:55

    acho que Warner não tem jeito

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  4. meu deus!!!!!!! q raiva dele pq ta sendo ta desistindo agora?
    e ela ta sendo muito lerda gente !!!quero da um acorda pra vida neles

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Boa leitura :)