2 de janeiro de 2017

52

A situação está piorando.
A tensão entre os cidadãos do Ponto Ômega está aumentando a cada hora que passa. Tentamos conseguir contato com os homens de Anderson sem sucesso; não tivemos notícia da equipe deles ou de seus soldados e não temos novidades sobre nossos reféns. Porém, os civis do Setor 45 — o setor que costumava estar sob o comando de Warner, o setor que ele costumava supervisionar — estão ficando cada vez mais inquietos. Rumores sobre nós e nossa resistência estão se espalhando rápido demais.
O Restabelecimento tentou encobrir as notícias de nossa batalha recente chamando-a de um ataque padrão de membros do partido rebelde, mas o povo está ficando mais esperto. Protestos estão explodindo e algumas pessoas estão se recusando a trabalhar, enfrentando as autoridades, tentando escapar dos aglomerados e fugindo de volta para o território não regulamentado.
Isso nunca acaba bem.
As perdas foram muitas e Castle está ansioso para fazer algo. Todos nós estamos sentindo que sairemos de novo, e em breve. Não recebemos nenhum relatório de que Anderson está morto, o que significa que ele, provavelmente, está apenas esperando o momento certo... Ou talvez Adam esteja certo e ele esteja apenas se recuperando. Porém, qualquer que seja o motivo, o silêncio de Anderson não pode ser bom.
— O que a senhorita está fazendo aqui? — Castle pergunta para mim.
Acabei de pegar meu jantar. Acabei de me sentar à mesa de sempre com Adam, Kenji e James. Olho para Castle e pisco, confusa.
Kenji diz:
— O que está acontecendo?
Adam diz:
— Está tudo bem?
Castle diz:
— Peço desculpas, senhorita Ferrars, não quis interromper. Confesso que estou um pouco surpreso em vê-la aqui. Pensei que estivesse cuidando de uma tarefa agora.
— Ó — eu me surpreendo.
Olho para minha comida e volto a olhar para Castle.
— Eu... Bem, sim, eu estava... Mas já falei duas vezes com Warner... Na verdade, eu o vi ontem...
— Ó, é uma notícia excelente, senhorita Ferrars. Excelente.
Castle junta as mãos; seu rosto é a expressão do alívio.
— E o que conseguiu descobrir?
Ele parece ter tanta esperança que eu começo mesmo a sentir vergonha de mim mesma.
Todos estão me encarando e não sei o que fazer. Não sei o que dizer.
Balanço a cabeça.
— Ah.
Castle baixa as mãos. Olha para o chão. Balança a cabeça para si mesmo.
— Então, a senhorita decidiu que suas duas visitas foram mais do que suficientes?
Ele não olha para mim.
— Qual é sua opinião profissional, senhorita Ferrars? Acha melhor ir com calma nesta situação em especial? Que Winston e Brendan ficarão descansando em conforto até a senhorita achar uma oportunidade em sua agenda lotada para interrogar a única pessoa que pode ser capaz de nos ajudar a encontrá-los? A senhorita acha que...
— Irei agora mesmo.
Pego minha bandeja e pulo para fora da mesa, quase tropeçando em mim mesma no processo.
— Sinto muito... Eu apenas... Irei agora mesmo. Até o café da manhã, rapazes — eu sussurro e saio correndo pela porta.
Brendan e Winston
Brendan e Winston
Brendan e Winston, fico dizendo a mim mesma.
Ouço Kenji rir enquanto eu saio.

Parece que não sou muito boa em interrogatórios.
Tenho tantas perguntas para Warner, mas nenhuma delas tem a ver com nossos reféns. Todas as vezes que digo a mim mesma que farei as perguntas certas, Warner consegue me distrair de alguma maneira. É quase como se ele soubesse o que vou perguntar e já estivesse preparado para redirecionar a conversa.
Isso me confunde.
— Você tem alguma tatuagem? — ele me pergunta, sorrindo enquanto se inclina contra a parede às suas costas, usando a camisa de baixo; com as calças, as meias, sem sapatos. — Todo mundo parece ter tatuagem hoje em dia.
Esta não é uma conversa que eu pensei que teria com Warner.
— Não — eu respondo. — Nunca tive a oportunidade de fazer uma. Além disso, acho que ninguém um dia vai querer chegar assim tão perto da minha pele.
Ele examina as próprias mãos. Sorri. Diz:
— Talvez um dia.
— Talvez — concordo.
Uma pausa.
— E então, e a sua tatuagem? — pergunto. — Por que INCENDIAR?
O sorriso dele está maior agora. Covinhas de novo. Ele balança a cabeça e diz:
— Por que não?
— Não entendo.
Tombo a cabeça na direção dele, confusa.
— Quer lembrar a si mesmo de pegar fogo?
Ele sorri, contém uma risada.
— Uma porção de letras nem sempre forma uma palavra, amor.
— Eu... Eu não faço ideia do que você está falando.
Ele respira fundo. Senta-se mais ereto.
— Então — diz —, você costumava ler muito?
Sou pega de surpresa. É uma pergunta estranha e não posso deixar de imaginar, por um instante, se é um truque. Se admitir tal coisa me criaria problemas. E, depois, lembro que Warner é o meu refém, não o contrário.
— Sim — digo a ele. — Costumava.
O sorriso dele diminui e torna-se um pouco mais sério, calculado. Seus traços estão cuidadosamente desprovidos de emoção.
— E quando teve a chance de ler?
— O que quer dizer?
Ele encolhe os ombros lentamente, olha para o nada do outro lado do quarto.
— Apenas parece estranho que uma garota que foi isolada por completo a vida toda tenha grande acesso à literatura. Em especial neste mundo.
Eu não digo nada.
Ele não diz nada.
Eu respiro algumas vezes antes de responder.
— Eu... Eu nunca pude escolher meus livros — conto a ele e não sei por que me sinto tão nervosa por dizer isso, por que tenho de me lembrar de não sussurrar. — Eu lia o que estivesse à mão. Minhas escolas sempre tiveram bibliotecas pequenas e meus pais tinham algumas coisas em casa. E, depois...
Eu hesito.
— Depois, passei alguns anos em hospitais e alas psiquiátricas e um centro de detenção juvenil.
Meu rosto pega fogo como se estivesse preparado, sempre pronto para sentir vergonha do meu passado, de quem fui e continuo sendo.
Mas é estranho.
Enquanto uma parte de mim esforça-se para ser tão natural, outra parte, na verdade, sente-se confortável em conversar com Warner. Segura. Familiar.
Porque ele já sabe tudo sobre mim.
Ele sabe cada detalhe dos meus 17 anos. Tem todos os meus registros médicos, sabe tudo sobre meus incidentes com a polícia e o doloroso relacionamento que tive com meus pais. E, agora, ele leu meu caderno também.
Não há nada que eu possa revelar sobre minha história que vá surpreendê-lo; nada sobre o que fiz que vá chocá-lo ou horrorizá-lo. Não me preocupo que ele vá me julgar ou fugir de mim.
E essa conclusão, talvez mais do que qualquer outra coisa, faz meus ossos chacoalharem.
E me dá certa sensação de alívio.
— Sempre havia livros por ali — eu continuo, de alguma forma incapaz de parar agora, com os olhos colados no chão. — No centro de detenção. Muitos deles eram velhos e gastos e não tinham capa, assim nem sempre sabia o título ou o autor. Apenas lia tudo que podia encontrar. Contos de fadas e mistérios e história e poesia. Não importava o que fosse. Eu lia de novo e de novo e de novo. Os livros... Eles me ajudaram a não perder completamente a cabeça.
Minha voz vai sumindo, contenho-me antes de dizer muito mais. Horrorizada quando percebo o quanto quero fazer confidências a ele. A Warner.
O terrível, terrível Warner que tentou matar Adam e Kenji. Que fez de mim seu brinquedo.
Eu odeio sentir-me segura o bastante para falar com tanta liberdade na presença dele. Odeio que, entre todas as pessoas, Warner seja a única com quem eu consigo ser sincera por inteiro. Sempre sinto que tenho de proteger Adam de mim, da história de terror que é minha vida. Nunca quero assustá-lo ou contar-lhe muito por medo de que ele mude de ideia e perceba o erro que cometeu ao confiar em mim; ao demonstrar afeto por mim.
No entanto, com Warner não há nada a esconder.
Quero ver sua expressão; quero saber o que ele está pensando agora que me abri, ofereci a ele uma visão pessoal do meu passado, mas não consigo me forçar a encará-lo. Assim, fico sentada aqui, congelada, a humilhação empoleirada sobre meus ombros, e ele não diz uma palavra, não se mexe um centímetro, não faz um único som. Segundos passam voando, um enxame pelo quarto de uma única vez, e eu quero afugentá-los com as mãos; quero pegá-los e enfiá-los nos meus bolsos por um período longo o bastante para parar o tempo.
Por fim, ele interrompe o silêncio.
— Eu gosto de ler também — conta.
Levanto a cabeça, surpresa.
Ele se encosta na parede de novo, com a mão presa no cabelo. Passa os dedos pelas camadas douradas apenas uma vez. Baixa a mão. Encontra meu olhar. Os olhos dele são muito, muito verdes.
— Você gosta de ler? — pergunto.
— Você está surpresa.
— Pensei que o Restabelecimento fosse destruir todas essas coisas. Pensei que fosse ilegal.
— Vão destruir e será ilegal — ele diz, mexendo-se um pouco. — Em breve, de qualquer forma. Já destruíram um pouco, na verdade.
Ele parece desconfortável pela primeira vez.
— É uma ironia — continua — eu apenas ter começado a ler de verdade quando o plano de destruir tudo estava em vigor. Fui escolhido para examinar algumas listas; dar minha opinião sobre o que deveríamos guardar, do que deveríamos nos livrar, o que reciclaríamos para usar nas campanhas, no currículo futuro etc.
— E acha que isso é certo? — pergunto a ele. — Destruir o que resta da cultura, todos os idiomas, todos aqueles textos? Concorda com isso?
Ele está brincando com meu caderno de novo.
— Há... muitas coisas que eu faria de maneira diferente — ele responde — se estivesse no comando.
Uma respiração profunda.
— Mas um soldado nem sempre tem de concordar para obedecer.
— O que faria diferente? — questiono. — Se estivesse no comando.
Ele ri. Suspira. Olha para mim, sorri com os cantos dos olhos.
— Você faz muitas perguntas.
— Não consigo evitar — digo a ele. — É só que você parece muito diferente agora. Tudo o que diz me surpreende.
— Como?
— Não sei — eu falo. — Você apenas está... tão calmo. Um pouco menos louco.
Ele solta uma dessas risadas silenciosas, o tipo que chacoalha seu peito sem fazer barulho, e diz:
— Minha vida não foi nada além de batalha e destruição. Estar aqui?
Ele olha ao redor.
— Longe de deveres, responsabilidades. Morte — diz, com os olhos fixos na parede. — É como estar de férias. Não preciso pensar o tempo todo. Não preciso fazer nada nem conversar com ninguém nem estar em nenhum lugar. Nunca tive tantas horas para simplesmente dormir — ele continua, sorrindo. — Na verdade, é meio luxuoso. Acho que gostaria de virar refém com mais frequência — acrescenta, principalmente para si mesmo.
E não posso deixar de examiná-lo.
Estudo seu rosto de uma forma que nunca ousei antes e percebo que não tenho a menor ideia do que é viver a vida dele. Ele me disse certa vez que eu não tinha noção, que eu não podia entender as leis estranhas deste mundo, e estou apenas começando a ver que ele estava certo. Porque não sei nada sobre esse tipo de existência sangrenta e cheia de regras. Porém, de repente, quero saber.
De repente, quero entender.
Observo os movimentos cuidadosos dele, o esforço que ele faz para parecer despreocupado, relaxado. No entanto, vejo o quanto isso é calculado. Como há um motivo por trás de cada movimento, cada reajuste do seu corpo. Ele está sempre ouvindo, sempre encostando uma mão no chão, na parede, olhando para a porta, examinando seu contorno, suas dobradiças, a maçaneta. Vejo a maneira como ele fica tenso, apenas um pouco, ao som dos menores barulhos, metal raspando, vozes abafadas do lado de fora do quarto. É óbvio que ele está sempre alerta, sempre no limite, pronto para lutar, reagir. Fico me perguntando se ele já conheceu a tranquilidade. A segurança. Se já foi capaz de dormir a noite toda. Se já foi capaz de ir a algum lugar sem olhar constantemente por cima do ombro.
Suas mãos estão unidas.
Ele está brincando com um anel na mão esquerda, girando e girando e girando ao redor do dedo mindinho. Não acredito que levei tanto tempo para reparar que ele o está usando; é um anel sólido de jade, um tom de verde pálido o bastante para combinar perfeitamente com seus olhos. E, então, lembro-me de repente de já tê-lo visto antes.
Apenas uma vez.
Na manhã depois de eu ter machucado Jenkins. Quando Warner veio me buscar em seu quarto. Ele me pegou olhando para esse anel e logo colocou as luvas.
É um déjà-vu.
Ele me vê olhando para suas mãos e rapidamente cerra o punho esquerdo, cobre-o com o direito.
— O qu...
— É apenas um anel — diz. — Não é nada.
— Por que está escondendo se não é nada?
Já estou muito mais curiosa do que estava um instante atrás, muito ansiosa por uma oportunidade de fazê-lo se abrir, de descobrir que diabos passa na cabeça dele.
Ele suspira.
Flexiona e relaxa os dedos. Olha para as mãos, as palmas para baixo, os dedos separados. Tira o anel do mindinho e segura-o contra a luz fluorescente; olha para ele. É um pequeno “o” de verde. Por fim, olha nos meus olhos. Deixa o anel cair na palma da mão e fecha o punho.
— Não vai me contar? — pergunto.
Ele balança a cabeça.
— Por que não?
Ele esfrega a lateral do pescoço, massageia para aliviar a tensão da parte mais baixa, a parte que toca suas costas. Não posso deixar de observar. Não posso deixar de imaginar como seria ter alguém massageando meu corpo desse jeito para livrá-lo da dor. As mãos dele parecem tão fortes.
Já quase esqueci sobre o que estamos falando quando ele diz:
— Tenho este anel há quase dez anos. Costumava caber no meu dedo indicador.
Ele dá uma olhada para mim antes de desviar o olhar de novo.
— E não quero falar sobre isso.
— Nunca?
— Não.
— Ó.
Mordo o lábio inferior. Decepcionada.
— Gosta de Shakespeare? — ele pergunta.
Uma estranha mudança de assunto.
Eu balanço a cabeça.
— Tudo o que sei sobre ele é que roubou meu nome e escreveu-o do jeito errado.
Warner fica me encarando por um segundo inteiro antes de cair na risada — rajadas de risada fortes e sem restrições —, tentando controlá-la e sem conseguir.
De repente, sinto-me desconfortável, nervosa diante deste garoto estranho que ri e usa anéis secretos e faz perguntas sobre livros e poesia.
— Eu não estava tentando ser engraçada — consigo dizer.
Porém, os olhos dele ainda estão cheios de sorrisos quando ele diz:
— Não se preocupe. Eu não sabia muito sobre ele até, mais ou menos, um ano atrás. Ainda não entendo metade das coisas que ele diz, assim, acho que vamos nos livrar da maioria delas, mas ele escreveu uma fala de que gostei muito.
— Qual era?
— Gostaria de ver?
Ver?
Mas Warner já está em pé, desabotoando as calças e estou imaginando o que poderia estar acontecendo, preocupada de ter sido enganada para participar de algum jogo novo e doentio quando ele para. Percebe o olhar horrorizado em meu rosto. Diz:
— Não se preocupe, amor. Não vou ficar nu, prometo. É apenas outra tatuagem.
— Onde? — pergunto, paralisada no lugar, querendo e não querendo desviar o olhar.
Ele não responde.
Suas calças estão abertas, mas penduradas abaixo da cintura dele. Suas cuecas boxer estão visíveis por baixo. Ele puxa e puxa o elástico da cueca até ele ficar logo abaixo do seu osso do quadril.
Estou corando até o topo da testa.
Nunca vi uma área tão íntima do corpo de ninguém antes, e não consigo me forçar a desviar os olhos. Meus momentos com Adam sempre foram no escuro e sempre foram interrompidos; nunca vi tanto assim dele não porque não quisesse, mas porque nunca tive a chance. E, agora, as luzes estão acesas e Warner está parado em frente a mim e estou tão atraída, tão intrigada pelo corte do seu corpo. Não posso deixar de observar a maneira como sua cintura afina até os quadris e desaparece sob um pedaço de tecido. Quero saber como seria entender outra pessoa sem essas barreiras.
Conhecer uma pessoa tão completa, tão intimamente.
Quero estudar os segredos guardados entre seus cotovelos e os sussurros presos entre seus joelhos. Quero seguir as linhas da sua silhueta com meus olhos e as pontas dos meus dedos. Quero rastrear os rios e os vales pelos músculos ondulados do seu corpo.
Meus pensamentos me chocam.
Há um calor desesperado na boca do meu estômago que queria poder ignorar. Há borboletas em meu peito que eu queria poder explicar e resolver. Há uma dor no centro do meu ser que não estou disposta a nomear.
Lindo.
Ele é tão lindo.
Devo estar louca.
— É interessante — ele diz. — Parece muito... relevante, eu acho. Mesmo tendo sido escrita há tanto tempo.
— O quê?
Arranco os olhos da parte de baixo do corpo dele, tentando desesperadamente evitar que minha imaginação complete os detalhes. Olho para as palavras tatuadas em sua pele e presto atenção desta vez.
— Ó — eu exclamo. — Sim.
São duas linhas. A fonte como de máquina de escrever gravada bem na parte baixa do seu torso.

o i n f e r n o e s t á v a z i o .
e t o d o s o s d e m ô n i o s e s t ã o a q u i .

Sim. Interessante. Sim. Claro.
Acho que preciso me deitar.
— Livros — ele está dizendo, puxando a cueca para cima e fechando as calças — são fáceis de destruir. Mas as palavras viverão enquanto as pessoas puderam se lembrar delas. Tatuagens, por exemplo, são muito difíceis de esquecer.
Ele fecha o botão.
— Acho que há algo na efemeridade da vida hoje em dia que torna necessário gravarmos tinta na nossa pele — ele continua. — Lembra-nos de que fomos marcados pelo mundo, que ainda estamos vivos. Isso nunca esqueceremos.
— Quem é você?
Não conheço este Warner. Nunca seria capaz de reconhecer este Warner.
Ele sorri para si mesmo. Senta-se de novo. Diz:
— Ninguém mais precisará saber.
— O que quer dizer?
— Sei quem eu sou — ele responde. — É o suficiente para mim.
Fico em silêncio por um instante. Franzo as sobrancelhas, olhando para o chão.
— Deve ser ótimo passar a vida com tanta confiança.
— Você é confiante — ele diz para mim. — É teimosa e durona. Tão corajosa. Tão forte. Tão sobrenaturalmente bonita. Você poderia conquistar o mundo.
Eu chego a dar risada, levanto o rosto para encontrar o olhar dele.
— Eu choro demais. E não estou interessada em conquistar o mundo.
— Isso — ele diz — é algo que nunca entenderei.
Ele balança a cabeça.
— Você está apenas com medo. Está com medo do que não conhece. Está muito preocupada em não decepcionar as pessoas. Você sufoca seu próprio potencial — acrescenta — por causa do que acha que os outros esperam de você... Porque ainda segue as regras que lhe dão.
Ele olha para mim, com atenção.
— Eu gostaria que você não fizesse isso.
— Eu gostaria que você deixasse de esperar que eu use meu poder para matar pessoas.
Ele encolhe os ombros.
— Eu nunca disse que você tem de fazer isso. Mas acontecerá ao longo do caminho; é inevitável em uma guerra. É estatisticamente impossível evitar matar alguém.
— Está brincando, não é?
— Definitivamente não.
— Sempre podemos evitar matar pessoas, Warner. Isso é possível ao não irmos para a guerra.
Porém, ele sorri, um sorriso tão brilhante, sem nem prestar atenção.
— Adoro quando você diz meu nome — ele afirma. — Nem sei por quê.
— Warner não é seu nome — eu observo. — Seu nome é Aaron.
O sorriso dele está grande, muito grande.
— Meu Deus, eu amo isso.
— Seu nome?
— Apenas quando você diz.
— Aaron? Ou Warner?
Ele fecha os olhos. Inclina a cabeça para trás contra a parede. Covinhas.
De repente, sou atingida pela realidade do que estou fazendo aqui. Sentada aqui, passando o tempo com Warner como se tivéssemos muitas horas para gastar. Como se não houvesse um mundo terrível do lado de fora destas paredes.
Não sei como consegui ficar me distraindo e prometo a mim mesma que, desta vez, não deixarei a conversa sair do controle. Mas, quando abro a boca, ele diz:
— Não vou devolver seu caderno.
Minha boca se fecha.
— Sei que o quer de volta — ele continua —, mas temo que eu vá ficar com ele para sempre.
Ele levanta o caderno, mostra-o para mim. Sorri. E, depois, coloca-o no bolso. O único lugar em que eu nunca ousaria mexer.
— Por quê? — não posso deixar de perguntar. — Por que você o quer tanto?
Ele gasta tempo demais apenas olhando para mim. Sem responder a minha pergunta. E, depois, diz:
— Nos dias mais escuros, você tem de procurar um ponto de luz; nos dias mais frios, você tem de procurar um ponto de calor; nos dias mais desoladores, você tem de manter os olhos para frente e para cima e, nos dias mais tristes, você tem de deixá-los abertos para permitir que chorem. Para, então, permitir que sequem. Para dar a eles uma chance de lavar a dor, para verem com frescor e clareza mais uma vez.
— Não acredito que decorou isso — eu sussurro.
Ele se inclina para trás de novo. Fecha os olhos de novo. Diz:
Nada nesta vida jamais fará sentido para mim, mas não posso deixar de tentar juntar o troco e esperar que seja suficiente para pagar por meus erros.
— Eu escrevi isso também? — pergunto a ele, incapaz de acreditar ser possível ele estar recitando as mesmas palavras que caíram dos meus lábios para as pontas dos meus dedos e sangraram na página. Ainda incapaz de acreditar que ele agora conhece meus pensamentos íntimos, sentimentos que captei com uma mente torturada e martelei em frases que enfiei em parágrafos, ideias que eu prendi juntas com pontuações que não têm função além de determinar onde um pensamento acaba e o outro começa.
Este garoto loiro tem meus segredos na boca.
— Você escreveu muitas coisas — ele diz, sem olhar para mim. — Sobre seus pais, sua infância, suas experiências com outras pessoas. Você falou de esperança e redenção e de como seria ver um pássaro passar voando. Você escreveu sobre dor. E como é pensar que você é um monstro. Como era ser julgada por todos mesmo antes de trocar duas palavras com eles.
Uma inspiração profunda.
— Muito disso era como me ver no papel — ele sussurra. — Como ler todas as coisas que nunca soube dizer.
E eu queria que meu coração simplesmente se calasse, se calasse, se calasse, se calasse.
— Todo santo dia eu me arrependo — ele diz, as palavras quase um sussurro agora. — Arrependo-me de acreditar no que ouvi sobre você. E, depois, machucá-la quando achei que a estivesse ajudando. Não posso me desculpar por quem sou — ele continua. — Essa parte minha já está feita, já está arruinada. Desisti de mim mesmo há muito tempo. Mas sinto muito por não a ter entendido melhor. Tudo que fiz, fiz porque queria ajudá-la a ser mais forte. Queria que você usasse sua raiva como ferramenta, como arma para ajudar a aproveitar a força que há dentro de você; queria que você fosse capaz de enfrentar o mundo. Provoquei-a de propósito — afirma. — Forcei demais, muito, fiz coisas para horrorizá-la e enojá-la e fiz tudo de propósito. Porque foi assim que me ensinaram a me preparar para o terror deste mundo. Foi assim que me treinaram para revidar. E eu queria ensinar você. Sabia que você tinha o potencial para ser mais, muito mais. Eu podia ver grandeza em você.
Ele olha para mim. Olha para mim de verdade, mesmo.
— Você vai fazer coisas incríveis — diz. — Eu sempre soube disso. Acho que só queria ser parte disso.
E eu tento. Tento mesmo lembrar todos os motivos para dever odiá-lo, tento lembrar todas as coisas horríveis que o vi fazer. Mas sou torturada porque entendo muito bem o que é ser torturado. Fazer as coisas porque você não conhece nada além. Fazer as coisas porque acha que são certas, porque nunca lhe ensinaram o que é errado.
Porque é muito difícil ser gentil com o mundo quando tudo que você já sentiu foi ódio.
Porque é difícil ver bondade no mundo quando tudo que você já conheceu foi terror.
Quero dizer alguma coisa para ele. Algo profundo e completo e memorável, mas ele parece entender. Ele me oferece um sorriso estranho e instável que não chega aos seus olhos, mas diz muito.
Então...
— Diga à sua equipe — ele avisa — para se preparar para a guerra. A menos que seus planos tenham mudado, meu pai ordenará um ataque a civis depois de amanhã e não será nada menos que um massacre. Também será a única oportunidade de vocês salvarem seus homens. Eles estão sendo mantidos em algum lugar dos níveis mais baixos do quartel-general do Setor 45. Temo que seja tudo que eu possa lhe dizer.
— Como você...
— Sei por que você está aqui, amor. Não sou idiota. Sei por que você está sendo forçada a passar um tempo comigo.
— Mas por que oferecer essa informação de tão boa vontade? — pergunto a ele. — Que motivo você tem para nos ajudar?
Há um vislumbre de mudança em seus olhos que não dura o bastante para eu examiná-lo. E, embora sua expressão esteja cuidadosamente neutra, algo no espaço entre nós parece diferente, de repente. Carregado.
— Vá — ele diz, com os olhos fechados. — Você precisa contar a eles agora.

21 comentários:

  1. A cada capítulo me apaixono um pouco mais pelo Warner s2

    ~ filha de Zeus

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    1. Eu sinto um pouquinho de dó dele. Só um pouquinho. Acho que ainda está cedo demais pra tirar esse tipo de conclusão e me apaixonar pelo personagem...

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    2. O Aaron Warner é realmente um conquistador, pois aos poucos está conseguindo quebrar meu coração. Mas p'ra esta guerra seria fodástico Aaron e Adam aparecerem para o pai deles e acabarem com o babaca supremo.
      Anna!!!

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  2. Warner está me conquistando de um jeito que nenhum personagem já conquistou.

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  3. Adam foi mal querido mas depois dessa cansei de tu #TeamWarner alem de ser gostoso o cara e super fofo mds que homem

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  4. Estou apaixonada pelo Warner <3

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  5. Warner incrivelmente fofo

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  6. GENTE SOCORRO, MDS EU Ñ CONSIGO PARAR D AMAR O WARNER, A CADA CAPÍTULO ME APAIXONO MAIS POR ELE, WARNER ME CONQUISTOU D UMA FORMA QUE NENHUM OUTRO PERSONAGEM JAMAIS CONSEGUIU, CARA Ñ TEM COMO Ñ SHIPPAR ESSES DOIS, JUJU FICA COM ELEEEEE
    #TeamJuliner

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  7. Eu amo esse Aaron szsz

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  8. Quero me casar c/vc habibi Aaron! Amando cada vez mais esse cara... Gosta de cães, gosta de livros... Como não amar? Nunca em minha vida literária torci tanto para um casal ficar junto. Será que a autora planejou que os leitores (grande parte pelo menos) fossem se apaixonar tanto por ele ou ela apenas jogou no vento sem ter a dimensão de onde isso iria chegar

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  9. "— Gosta de Shakespeare? — ele pergunta.
    Uma estranha mudança de assunto.
    Eu balanço a cabeça.
    — Tudo o que sei sobre ele é que roubou meu nome e escreveu-o do jeito errado."
    Isso tudo é por causa da convivência com o Kenji kkk

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  10. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 02:46

    GENTE PELO AMOR D DEUS!!! ENQUANTO A JULIETTE FICA AÍ BABANDO PELO WARNER, OUVINDO AS HISTORIAS DELE, O BRENDAN E O WINSTON ESTÃO EM PERIGO. JULLIE CONCENTRA GATA!
    #EuAmoBrendan #eusoumaluca #FODASEADAMEAARON

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  11. Pq eu to chorando??????? .-.

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    1. Psé,tbm chorei no livro 1 na maioria dos capitulos ksksk

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  12. potterhead-selecionada14 de setembro de 2017 12:57

    Quem diz q ainda é muito cedo para se apaixonar pelo Warner é pq ainda não leu DESTRUA-ME.




    SeriO...Eu tô pirando com o Aaron.Ele é muito fofo,fod@ e é apaixonado pela Juju.AMO MUITO ELE.❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤

    PS:não aguento mais me apaixonar por pessoas que sequer existem.😣😣😣

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  13. Vocês que dizem ser apaixonadas pelo Warner,me esclareçam:amam o "Warner vilão" ou o "Warner bom moço",que ele pode se tornar?
    É sério gente,ainda não entendi.

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    1. Bem, no que ele pode se tornar, acho. Eu, pelo menos, não gostava de Warner, mas ele, a promessa do que ele poderia ser, foi me conquistando aos poucos

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Boa leitura :)