6 de janeiro de 2017

51

Kenji está esperando no tanque quando voltamos. Ele conseguiu encontrá-lo.
Está sentado no lado do passageiro, sem invisibilidade, e não diz uma única palavra quando Warner e eu subimos e entramos.
Eu tento olhar nos olhos dele, já preparada para inventar uma história louca para o motivo de eu ter levado uma hora para tirar Warner da casa, mas, então, Kenji olha para mim. Olha para mim de verdade.
E eu fecho a boca para sempre.
Warner não diz uma única palavra. Ele nem respira alto. E, quando voltamos à base, ele deixa que Kenji e eu desçamos do tanque sob nosso disfarce de invisibilidade e ainda não diz nada, nem para mim. Assim que saímos do tanque, ele fecha nossa porta e volta para dentro.
Eu o estou observando sair dirigindo de novo quando Kenji desliza o braço para prendê-lo ao meu.
Nós costuramos de volta pela área de armazenamento sem problemas. Cruzamos o espaço de treinamento de tiros sem problema. Porém, logo antes de chegarmos à porta da área de treinamento de Warner, Kenji me puxa para o lado.
— Eu a segui lá dentro — ele diz, sem preâmbulos. — Você demorou muito e eu fiquei preocupado e a segui até lá em cima.
Uma pausa. Uma pausa pesada.
— Eu os vi — ele diz, com a voz muito baixa. — Naquele quarto.
Não pela primeira vez hoje, fico feliz por ele não conseguir ver meu rosto.
— Certo — murmuro, sem saber o que mais dizer.
Sem saber o que Kenji fará com a informação.
— Eu só... — Kenji respira fundo. — Eu só estou confuso, ok? Não preciso saber de todos os detalhes... Eu entendo que o que quer que estivesse acontecendo lá não era da minha conta... Mas você está bem? Aconteceu alguma coisa?
Eu solto a respiração. Fecho meus olhos e digo:
— A mãe dele morreu hoje.
— O quê? — Kenji pergunta, pasmo. — O quê... C-como? A mãe dele estava lá?
— Ela estava doente fazia muito tempo — digo, as palavras saindo depressa de mim. — O Anderson a mantinha trancada naquela casa e a abandonou. Ele a deixou lá para morrer. Warner estava tentando ajudá-la e ele não sabia como. Ela não podia ser tocada, assim como eu não posso tocar em ninguém, e a dor dessa condição a estava matando a cada dia.
Estou perdendo o controle agora, incapaz de continuar mantendo meus sentimentos reprimidos.
— O Warner nunca quis me usar como arma — digo a ele. — Ele inventou isso para ter uma história para contar ao pai. Ele me encontrou por acidente. Porque estava tentando achar uma solução. Para ajudar a mãe. Todos estes anos.
Kenji puxa um fôlego cortante.
— Eu não fazia ideia — ele diz. — Eu nem sabia que ele era próximo da mãe.
— Você não o conhece nem um pouco — eu falo, sem me importar com quão desesperada eu pareço estar. — Você acha que conhece, mas não conhece mesmo.
Eu me sinto em carne viva, como se eu tivesse sido lixada até o osso.
Ele não diz nada.
— Vamos — eu digo. — Preciso de um tempo para respirar. Para pensar.
— É — ele fala. — É, claro. Claro.
Eu me viro para ir.
— J — ele diz, sua mão ainda no meu braço.
Eu espero.
— Sinto muito. Sinto muito mesmo. Eu não sabia.
Eu pisco depressa de novo contra a queimação em meus olhos. Engulo de volta a emoção que vai aumentando em minha garganta.
— Tudo bem, Kenji. Não era para você saber.

3 comentários:

  1. Mano eu não consigo parar d chorar :'(

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  2. Aí Warner :'( Tadinho!
    Vem cá habibi, deixa eu te abraçar

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Boa leitura :)