26 de janeiro de 2017

Capítulo 5

Tomas se apoiou no batente da porta da cozinha. A larga janela que dava em direção a estrada do vilarejo permitiria que qualquer transeunte visse a ele e seus homens se fossem mais para dentro do cômodo. Ele gesticulou para Jenny.
— Puxe a cortina.
Ela passou por ele e puxou a cortina, obstruindo a visão da rua. Satisfeito que não podia ser visto, Tomas se moveu pela cozinha e ficou vagando, olhando em recipientes, abrindo e fechando gavetas. Nuttal e Mound entraram com ele, mas se contentaram em sentar nas cadeiras de costas retas na mesa da cozinha.
Os olhos de Tomas baixaram na torta de ameixa, que Jenny colocou para esfriar no beiral da janela lateral.
— O que é isso?
— É uma torta de ameixa — ela respondeu.
Havia um tom de aviso em sua voz que dizia a ele para manter as mãos longe dela, mas Tomas ignorou esses avisos. Ele pegou o prato de torta e trouxe para a mesa da cozinha. Se sentando, ele sacou sua adaga, cortou um largo e desigual pedaço de torta e encheu a boca. Ele mastigou por alguns segundos, então um olhar de desgosto apareceu em seu rosto e ele permitiu que um bocado meio mastigado caísse de sua boca na mesa da cozinha. Ele tossiu o resto da fatia ao lado.
— Não está doce o bastante — ele exclamou com raiva. — Devia ser mais doce que isso.
Os olhos de Jenny estreitaram. Uma coisa era invadir sua casa e a aprisioná-la. Mas uma critica imbecil sobre como ela cozinhava levava as coisas a um novo nível de inimizade.
— O recheio é de ameixas — ela explicou. — Elas devem ser azedas. É como o gosto da ameixa é.
Tomas balançou sua cabeça.
— É uma torta. Deveria ser doce — ele disse.
— O que você entende sobre isso? É uma torta e isso é o que deveria ser... uma torta!
Ela procurou por outra palavra, percebendo o quão ridículo a repetição pareceu, mas não conseguia achar uma.
— É assim que é! — adicionou.
Suas bochechas começaram a arder com raiva. Gilan amava sua torta de ameixa, ela sabia. E particularmente adorava que ela não a fazia muito doce, mas deixava o sabor natural das ameixas transparecerem. O que esse bobo da corte sabia? Como ele se atreveu a criticar seu prato!
Tomas olhou a jovem mulher nervosa diante dele. Garotas bonitas não deviam discutir com seus superiores, ele pensou. E ele estava convencido que era seu superior, pela simples razão de que era homem. Ela precisava de uma lição. Precisa ser derrubada de um degrau ou dois. Ele jogou o prato e a torta para fora da mesa com as costas da mão, jogando com barulho no chão. A torta quebrou em muitos pedaços e ele esmagou dois grandes pedaços com seu pé, os amassando nas tábuas do chão.
— Ei! — disse Mound, meio levantado de sua cadeira, irritado com o comportamento egocêntrico de seu líder. — Eu não teria me importado com um pedaço dela!
Tomas inclui-o em seu olhar.
— Ela não estava boa. Precisava de açúcar.
Nuttal, sempre ansioso em face a uma briga, levantou-se e se afastou da mesa.
— Sua caveira! — Jenny gritou para Tomas.
Seus olhos se moveram da torta arruinada – a torta de Gilan, ela pensou – para o rosto dele. Essa... coisa... arruinou a torta de Gilan. De repente, ela o odiava com toda seu sentimento.
— Quando Gil...
Ela estava prestes a dizer “Quando Gilan chegar aqui, ele vai fazer você pagar por isso!” mas se controlou a tempo. Ela não devia dar nenhuma dica eles de que o jovem arqueiro ia chegar em menos de uma hora.
Tomas inclinou-se para frente, a testa enrugada com uma expressão pensativa. Ela estava prestes a dizer alguma coisa e então parou, ele percebeu. Em sua experiência, quando as pessoas fazem isso, sabiam alguma coisa que não queriam que ele soubesse.
— Continue — ele pediu. — Quando... o quê?
Jenny balançou a cabeça, abaixando seus olhos.
— Nada. Não é nada importante.
— Então você pode me dizer o que é — ele disse numa voz sedosa, indo para perto dela.
— Não é nada — ela insistiu.
Mas antes que ela pudesse se afastar, ele saltou e agarrou seu antebraço com ambas as mãos. Ele agarrou forte, então com um movimento brusco, girou uma mão para a direita, a outra para a esquerda e continuou segurando. O efeito em sua carne onde as mãos dele se encontraram, torcendo de repente em direções opostas, era agonizante. Uma dor queimou pelo seu antebraço e ela gritou. Tomas diminuiu a pressão e a dor diminuiu.
— Solte-a — Mound falou.
Ele havia sentado, mas agora levantou de novo, confrontando Tomas do outro lado da mesa. Ele não era totalmente contra a tortura se isso pudesse prover informação útil. Mas achou que Tomas estava gostando demais disso. O ladrão barbudo olhou para ele, suas mãos ainda em volta do braço de Jenny.
— Para trás, Mound! Não seja mole! Tem alguma coisa que ela não está nos contando e que eu planejo saber o que é!
— Mesmo assim... — Mound disse e fez um gesto inútil para as mãos de Tomas, ainda segurando o antebraço dela, pronto para infligir mais dor a qualquer segundo. Mas ele não conseguia encontrar um argumento valido para parar Tomas e sua voz se perdeu.
Um sorriso cruel apareceu nos lábios de Tomas e ele voltou a apertar o braço de Jenny.
— Agora, senhorita, você vai me dizer...
Jenny mostrou os dentes, olhando com fúria para ele, determinada que, não importasse o quão ruim fosse à dor, ela não diria nada a ele. Ela sentiu as mãos dele apertarem de novo, então Nuttal interrompeu.
— O que é isso?
Todos olharam para ele. Ele esteve rondando a cozinha, examinando temperos, tachos e panelas, quando seu olhar caiu sobre o bilhete que ela tinha encostado na cômoda. O ladrão pegou-o e espiou mais de perto. Ele não sabia ler, mas reconheceu o carimbo da folha de carvalho no topo da página.
Ele bateu no símbolo com o dedo indicador.
— Essa é a marca dos arqueiros, é sim — ele percebeu. Ele ofereceu a folha a Mound, que era o único entre eles que sabia ler. — O que diz?
Tomas largou o braço de Jenny e se moveu para olhar por trás do ombro de Mound conforme o grande homem lentamente lia a nota, seus lábios dizendo silenciosamente as palavras. Então ele leu e voz alta.
— Querida Jenny, eu ficaria encantado em jantar com você nesta quinta-feira. Irei à sua casa lá pras seis da tarde. Já estou ansioso — ele olhou para cima — está assinado “Gilan” — ele finalizou.
Tomas permitiu-se uma série de maldições saírem de sua boca.
— Gilan! Ele é o que vem quando os arqueiros locais têm que ir para longe.
Nuttal estava carrancudo, não entendendo.
— Mas você disse que ele só viria na próxima semana.
Tomas desdenhou-o como se estivesse falando com uma criança.
— E foi isso que eu disse. Por isso nós roubamos o ourives hoje! — Ele olhou nervoso para Jenny. — Esse Gilan, é um amigo seu, não é?
Ela tentou parecer como se todo o assunto sobre Gilan fosse totalmente sem importância. Ela encolheu os ombros.
— Eu apenas o conheço, isso é tudo. Às vezes ele aparece.
— E ele “simplesmente aparece” como hoje à noite? Às seis horas! — Tomas gritou para ela. — Quando você iria mencionar isso tudo?
Jenny não disse nada. Não tinha nenhuma resposta para dar, a não ser, por que eu deveria? E se ela dissesse isso, só serviria para enfurecer Tomas ainda mais.
— Nós temos que sair daqui! — Nuttal interrompeu.
Seus olhos estavam vagando pela cozinha como se ele esperasse que Gilan entrasse pela porta a qualquer momento.
— É melhor nós corrermos!
— Não seja idiota! — Tomas voltou sua raiva para o pequeno homem, para o alivio de Jenny. — Nós não podemos sair agora! É plena luz do dia lá fora. Nós vamos ser vistos! — Ele voltou para Jenny. — Eu não vou esquecer isso — disse ameaçadoramente para ela.
Ele cuspiu uma série de maldições de novo e Jenny se encolheu com a intensidade de tudo aquilo.
— Deixe-me pensar... — ele murmurou para si mesmo.
Mas foi Mound quem apareceu com a resposta.
— Nós vamos fazer como tínhamos planejado. Vamos esperar algumas horas depois do amanhecer e então nós fugimos.
— E daremos adeus para o arqueiro conforme vamos? — Tomas disse sarcasticamente.
Mound encontrou seu olhar por igual, mostrando ao outro homem que ele não estava intimidado. Então ele respondeu deliberadamente.
— Há três de nós. E ele é só um.
— Mas ele é um arqueiro! — a voz de Nuttal era um guincho e Mound o acertou com um olhar.
— Está certo. E ele não espera que nós estejamos aqui. Ele espera entrar e ter um jantar com a namorada aqui.
Tomas começou a balançar a cabeça quando viu que o grandalhão estava seguindo.
— E quando ele chegar?
— Quando ele chegar, acerte-o na cabeça antes que ele perceba o que está acontecendo. Então tudo volta ao normal — Mound continuou.
Acertá-lo na cabeça. Isso parece inofensivo, Jenny pensou. Mas ela sabia que não era nada disso.
Mound confirmou isso alguns segundos depois que Nuttal continuou seu protesto choramingando.
— Mas ele é um arqueiro! — ele repetia freneticamente.
O grande homem colocou uma mão em seu ombro e o virou para seus olhos se encarem.
— Sim — ele concordou. — E dois segundos depois de ele entrar por aquela porta, será um arqueiro morto.

2 comentários:

  1. Karina Flor, achei um errinho aqui: (Olha as "Zintimidades" sheusheusheus)
    "Tomas olha a jovem nervosa ANTE (ANTES) dele. "

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    1. kkk sem problemas! Corrigido aqui, obrigada!

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Boa leitura :)