6 de janeiro de 2017

50

Há uma cama aqui.
Uma cama de solteiro. Cercada por máquinas e medicações intravenosas e frascos e comadres novíssimas. Há pilhas de lençóis e pilhas de cobertas e as mais belas estantes de livros e almofadas bordadas e animais de pelúcia adoráveis empilhados por toda a parte. Há flores frescas em cinco vasos diferentes e quatro paredes pintadas em cores alegres e há uma pequena escrivaninha no canto com uma cadeirinha combinando e há uma planta cultivada em um vaso e um conjunto de pincéis antigos e há porta-retratos, por toda a parte. Nas paredes, na escrivaninha, apoiados na mesa ao lado da cama.
Uma mulher loira. Um menininho loiro. Juntos.
Eles nunca envelhecem, eu noto. As fotos nunca vão além de um certo ano. Elas nunca mostram a evolução da vida da criança. O menino destas fotos é sempre pequeno, e sempre assustado, e sempre agarrando firme a mão da mulher em pé ao lado dele.
Mas essa mulher não está aqui. E sua enfermeira sumiu também.
As máquinas estão desligadas.
As luzes estão apagadas.
A cama está vazia.
Warner está caído no canto.
Ele está enrolado em si mesmo, os joelhos puxados para o peito, os braços envolvendo as pernas, a cabeça enterrada nos braços. E ele está tremendo.
Os tremores estão balançando seu corpo todo.
Eu nunca, nunca o tinha visto parecer uma criança antes. Nunca, nem uma vez, não durante o tempo todo em que o conheço. Porém, neste momento, ele está igual a um menininho. Assustado. Vulnerável.
Totalmente só.
Não preciso de muito para entender por quê.
Caio de joelhos diante dele. Sei que ele deve conseguir sentir minha presença, mas não sei se quer me ver agora. Sei como ele vai reagir se eu estender a mão para ele.
Mas eu tenho de tentar.
Toco nos braços dele, com muita delicadeza. Desço a mão pelas costas dele, seus ombros. E, depois, ouso enrolar meu corpo ao redor do dele até ele lentamente se esticar, desdobrando-se diante de mim.
Ele ergue a cabeça.
Seus olhos estão com círculos vermelhos ao redor e com um tom de verde surpreendente e impressionante, brilhando com uma emoção mal contida. Seu rosto é o retrato de muita, muita dor.
Eu quase não consigo respirar.
Um terremoto atinge meu coração então, racha-o bem ao meio. E penso que aqui, nele, há mais sentimento do que qualquer pessoa deveria ter dentro de si.
Eu tento abraçá-lo mais apertado, mas ele se enrola em volta de meus quadris em vez disso, sua cabeça caindo no meu colo. Eu me curvo sobre ele instintivamente, protegendo seu corpo com o meu.
Aperto minha bochecha na testa dele. Dou um beijo em sua têmpora.
E, então, ele desmorona.
Tremendo com violência, estilhaçando-se em meus braços, um milhão de pedaços arfando e engasgando que estou me esforçando para manter juntos. E prometo a mim mesma, naquele momento, que vou abraçá-lo para sempre, exatamente desta maneira, até toda a dor e a tortura e o sofrimento terem sumido, até ele ter a chance de viver o tipo de vida em que ninguém nunca mais poderá machucá-lo tão profundamente assim.
E nós somos aspas, invertidas e de ponta-cabeça, agarradas uma à outra no final desta sentença de vida. Presos por vidas que não escolhemos.
Está na hora, eu penso, de nos libertarmos.

6 comentários:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)