2 de janeiro de 2017

50

Estou tão humilhada.
Fiquei pensando nisso a noite toda e cheguei a uma conclusão esta manhã.
Warner deve ter contado a Castle de propósito. Porque ele está fazendo joguinhos comigo, porque ele não mudou, porque ainda está tentando me levar a fazer o que ele quer. Ainda está tentando fazer de mim o seu projeto e está tentando me machucar.
Não permitirei.
Não permitirei que Warner minta para mim, manipule minhas emoções para conseguir o que quer. Não acredito que senti pena dele... Que senti um afeto, uma ternura por ele quando o vi com seu pai... Que acreditei nele quando contou o que pensava sobre meu diário. Sou uma idiota impressionável. Fui estúpida até de pensar que ele fosse capaz de ter emoções humanas.
Eu disse a Castle que talvez ele devesse escalar outra pessoa para essa tarefa, agora que sabe que Warner pode tocar em mim; disse a ele que pode ser perigoso agora. Porém, ele riu e riu e riu e disse:
— Ó, senhorita Ferrars, tenho bastante, bastante certeza de que a senhorita será capaz de se defender. Na verdade, é provavelmente a pessoa mais bem equipada contra ele entre nós. Além disso — acrescentou — é uma situação ideal. Se ele estiver mesmo apaixonado pela senhorita, a senhorita deverá ser capaz de tirar vantagem disso, de alguma maneira. Precisamos da sua ajuda — ele disse para mim, novamente sério. — Precisamos de toda a ajuda que pudermos encontrar e, agora, a senhorita é a pessoa que pode conseguir as respostas de que precisamos. Por favor — ele pediu. — Tente descobrir o que puder. Qualquer coisa. As vidas de Winston e Brendan estão em risco.
E ele está certo.
Assim, estou empurrando minhas preocupações para o lado porque Winston e Brendan estão lá fora, sofrendo em algum lugar, e temos de encontrá-los. E farei o que puder para ajudar.
O que significa que tenho de falar com Warner de novo.
Tenho de tratá-lo como o prisioneiro que ele é. Nada mais de conversas paralelas. Sem cair nos esforços dele para me confundir. Não de novo e de novo e de novo. Serei melhor. Mais esperta.
E quero meu caderno de volta.
Os guardas estão destrancando o quarto dele para mim e estou entrando, estou fechando a porta atrás de mim e preparando-me para fazer o discurso que já montei quando paro no lugar.
Não sei o que eu estava esperando.
Talvez pensasse que fosse pegá-lo tentando fazer um buraco na parede ou, talvez, que ele fosse estar planejando a morte de cada pessoa do Ponto Ômega ou eu não sei eu não sei eu não sei qualquer coisa porque só sei lutar contra um ser nervoso, uma criatura insolente, um monstro arrogante e não sei o que fazer com isto.
Ele está dormindo.
Alguém colocou um colchão aqui, um retângulo simples de qualidade média, fino e gasto, mas melhor do que o chão, pelo menos, e ele está deitado sobre o colchão usando nada além de um par de cuecas boxer pretas.
As calças, as camisas, as meias estão um pouco úmidas, amassadas, claramente lavadas à mão e esticadas para secar; o casaco está dobrado com cuidado sobre as botas e as luvas estão uma ao lado da outra sobre o casaco.
Ele não se mexeu nem um centímetro desde que entrei neste quarto.
Está descansando de lado, as costas para a parede, o braço esquerdo sob o rosto, o braço direito contra o torso, o corpo todo perfeito despido, forte, macio e com um cheiro leve de sabonete. Não sei por que não consigo parar de olhar para ele. Não sei o que há no sono que faz nossos rostos parecerem suaves e inocentes, muito em paz e vulneráveis, mas estou tentando desviar o olhar e não consigo. Estou perdendo de vista meu propósito, esquecendo as palavras corajosas que disse a mim mesma antes de entrar aqui. Porque há algo nele...
Sempre houve algo nele que me intrigou e não entendo. Queria poder ignorar isso, mas não posso.
Porque olho para ele e me pergunto se, talvez, sou apenas eu? Talvez eu seja ingênua?
No entanto, eu vejo camadas, tons de dourado e verde e uma pessoa que nunca recebeu a chance de ser humano e imagino se sou tão cruel quanto meus opressores se decido que a sociedade está certa, que algumas pessoas não têm volta, que você não pode voltar às vezes, que há pessoas neste mundo que não merecem uma segunda chance e não posso não posso não posso...
Não posso deixar de discordar.
Não posso deixar de pensar que 19 anos é jovem demais para desistir de alguém, que 19 anos de idade é apenas o começo, que é muito cedo para dizer a uma pessoa que ela nunca realizará nada além do mal neste mundo.
Não posso deixar de imaginar como teria sido minha vida se alguém tivesse arriscado comigo.
Assim, eu recuo. Viro-me para sair.
Deixo-o dormir.
Paro no lugar.
Tenho um vislumbre do meu caderno sobre o colchão, perto da mão esticada dele, seus dedos parecendo que acabaram de soltar o objeto. É a oportunidade perfeita para roubá-lo de volta se eu puder ser furtiva o bastante.
Vou para frente na ponta dos pés, sempre grata por estas botas que uso terem sido criadas para não fazerem nenhum barulho. Porém, quanto mais me aproximo do corpo dele, mais minha atenção é atraída por algo em suas costas.
Um pequeno borrão retangular de preto.
Aproximo-me lentamente.
Pisco.
Olho de lado.
Inclino-me.
É uma tatuagem.
Nenhum desenho. Apenas uma palavra. Uma palavra, escrita no centro da parte superior das costas dele. Em tinta.
INCENDIAR
E sua pele está rasgada em cicatrizes.
O sangue está correndo tão rápido para a minha cabeça que começo a sentir que vou desmaiar. Como se pudesse, de verdade, revirar o conteúdo do meu estômago neste instante. Quero entrar em pânico, quero chacoalhar alguém, quero saber como entender as emoções que me engasgam, porque não consigo nem imaginar, não consigo nem imaginar, não consigo nem imaginar o que ele deve ter suportado para carregar tal sofrimento na pele.
As suas costas inteiras são um mapa de dor.
Grosso e fino e desigual e terrível. Cicatrizes como estradas que levam a lugar nenhum. São cortes e fatias irregulares que não entendo, marcas de tortura que nunca poderia ter esperado. São as únicas imperfeições em todo o seu corpo, imperfeições escondidas e que escondem seus próprios segredos.
E percebo, não pela primeira vez, que não faço ideia de quem Warner é de verdade.
— Juliette?
Eu congelo.
— O que você está fazendo aqui?
Seus olhos estão arregalados, alertas.
— E-eu vim falar com você...
— Jesus — ele ofega, pulando para longe de mim. — Estou honrado, amor, mas não podia ao menos ter me dado a chance de colocar minhas calças?
Ele se colocou de pé contra a parede, mas não faz nenhum esforço para pegar as roupas. Seus olhos ficam pulando de mim para as calças no chão, como se ele não soubesse o que fazer. Parece determinado a não ficar de costas para mim.
— Você se importa? — ele pergunta, fazendo um gesto com a cabeça para as roupas perto de meus pés e fingindo um ar despreocupado que pouco esconde a apreensão em seus olhos. — Faz frio aqui.
Porém, eu o estou encarando, olhando-o por inteiro, impressionada com como ele parece perfeito visto de frente. O corpo forte, esguio, tonificado e muscular sem ser atarracado. Ele é claro sem ser pálido, a pele tingida com apenas o suficiente da luz do sol para parecer saudável sem esforço. O corpo de um menino perfeito.
Como as aparências podem enganar.
Que engano terrível, terrível.
O olhar dele está fixo em mim, os olhos são chamas verdes que não se extinguirão e o peito está subindo e descendo muito rápido, muito rápido, muito rápido.
— O que aconteceu com as suas costas? — eu me escuto sussurrar.
Vejo a cor sumir do rosto dele. Ele desvia o olhar, passa a mão pela boca, pelo queixo, descendo pela nuca.
— Quem o machucou? — pergunto, com a voz muito baixa.
Estou começando a reconhecer o estranho sentimento que tenho logo antes de fazer algo terrível. Como agora. Agora sinto que poderia matar alguém por causa disso.
— Juliette, por favor, minhas roupas...
— Foi o seu pai? — pergunto, com a voz um pouco mais audível. — Ele fez isso com você...
— Não importa — Warner me interrompe, frustrado agora.
— É claro que importa!
Ele não diz nada.
— Essa tatuagem — digo a ele —, essa palavra...
— Sim — ele fala, embora a voz esteja baixa. Limpa a garganta.
— Eu não...
Eu pisco.
— O que significa?
Warner balança a cabeça, passa a mão pelo cabelo.
— É de um livro?
— Por que você se importa? — ele pergunta, desviando o olhar de novo. — Por que está de repente tão interessada na minha vida?
Não sei, quero dizer a ele. Quero dizer a ele que não sei, mas não é verdade. Porque eu sinto. Sinto os cliques e as voltas e os rangidos de um milhão de chaves destrancando um milhão de portas na minha cabeça. É como se, enfim, eu estivesse me permitindo ver o que realmente penso, como realmente me sinto, como se eu estivesse descobrindo meus próprios segredos pela primeira vez. E, então, procuro nos olhos dele, nos traços dele algo que nem sei nomear.
E percebo que não quero mais ser inimiga dele.
— Acabou — digo. — Não estou na base com você desta vez. Não serei sua arma e você nunca poderá mudar minha opinião sobre essa ideia. Acho que você sabe disso.
Eu examino o chão.
— Então, por que ainda estamos lutando um contra o outro? Por que você ainda está tentando me manipular? Por que ainda tenta me fazer cair nos seus truques?
— Não faço ideia — ele começa, olhando para mim como se não tivesse nem certeza se sou real —, não faço ideia do que você está falando.
— Por que contou a Castle que pode tocar em mim? Não era segredo seu, não podia contar.
— Certo.
Ele solta um suspiro profundo.
— É claro.
Parece voltar a si.
— Olha, amor, você poderia pelo menos me jogar meu casaco se vai ficar aqui e me fazer todas essas perguntas?
Jogo o casaco para ele. Ele pega. Escorrega para o chão. E, em vez de vestir o casaco, ele o dobra sobre o colo. Por fim, diz:
— Sim, eu contei a Castle que posso tocar em você. Ele tinha o direito de saber.
— Não era da conta dele.
— É claro que é da conta dele — Warner retruca. — Ele devia saber.
— Ele não precisa saber.
— Por que é um problema tão grande? — ele pergunta, examinando meus olhos com muito cuidado. — Por que você se incomoda tanto de alguém saber que posso tocá-la? Por que tem que ser um segredo?
Eu luto para encontrar as palavras que não vêm.
— Está preocupada com Kent? Pensa que ele acharia ruim saber que posso tocá-la?
— Eu não queria que ele descobrisse assim...
— Mas por que isso importa? — ele insiste. — Você parece ligar muito para algo que não faz diferença na sua vida pessoal. Não faria — ele continua — nenhuma diferença na sua vida pessoal. Não sei, você ainda alega não sentir nada por mim além de ódio. Porque foi o que disse, não foi? Que me odeia?
Encolho-me no chão em frente a Warner. Puxo os joelhos até o peito.
Concentro-me na pedra sob meus pés.
— Eu não o odeio.
Warner parece parar de respirar.
— Acho que eu o entendo às vezes — digo a ele. — De verdade. Mas bem quando eu penso que, enfim, consegui entendê-lo, você me surpreende. E nunca sei realmente quem você é ou quem vai ser.
Levanto os olhos.
— Mas sei que não o odeio mais. Eu tentei — eu conto —, tentei bastante. Porque você fez tantas coisas terríveis. A pessoas inocentes. A mim. Mas, agora, sei muito sobre você, vi muita coisa. Você é humano demais.
O cabelo dele é dourado. Os olhos, muito verdes. Sua voz está sofrida quando ele fala:
— Está dizendo — ele começa — que quer ser minha amiga?
— E-eu não sei.
Estou muito petrificada, muito, muito petrificada com essa possibilidade.
— Não pensei nisso. Estou apenas dizendo que não sei...
Eu hesito, respiro.
— Não sei mais como odiá-lo. Embora eu queira. Quero mesmo e sei que deveria, mas simplesmente não consigo.
Ele desvia o olhar.
E sorri.
É o tipo de sorriso que me faz esquecer como fazer qualquer coisa além de piscar e piscar e não entendo o que está acontecendo comigo. Não sei por que não consigo convencer meus olhos a encontrarem outra imagem na qual se concentrarem.
Não sei por que meu coração está perdendo a cabeça.
Ele toca no meu caderno como se nem reparasse no que está fazendo. Seus dedos percorrem toda a capa uma, duas vezes antes de ele perceber para onde meu olhar foi e parar.
— Você escreveu estas palavras?
Ele toca no meu caderno de novo.
— Todas elas?
Eu faço que sim com a cabeça.
Ele diz:
— Juliette.
Eu paro de respirar.
Ele diz:
— Eu gostaria muito disso. De ser seu amigo — afirma. — Eu gostaria.
E eu não sei mesmo o que acontece com o meu cérebro.
Talvez seja porque Warner está destroçado e seja tola o bastante para achar que posso consertá-lo. Talvez seja porque eu me vejo, eu vejo a Juliette de 3, 4, 5, 6, 17 anos abandonada, negligenciada, maltratada, insultada por algo fora do seu controle e penso nele como alguém igual a mim, alguém que nunca ganhou uma chance na vida. Penso em como todo mundo já o odeia, como odiá-lo é um fato universalmente aceito.
Warner é horrível.
Sem discussões, sem dúvidas, sem fazer perguntas. Já foi decidido que ele é um ser humano desprezível que se alegra com assassinatos e poder e tortura de outros.
Mas eu quero saber. Preciso saber. Tenho de saber.
Se é mesmo tão simples assim.
Porque, e se um dia eu escorregar? E se um dia eu cair pelas rachaduras e ninguém estiver disposto a puxar-me de volta? O que acontecerá a mim então?
Assim, olho-o nos olhos. Respiro fundo.
E fujo.
Saio correndo pela porta.

19 comentários:

  1. Juliette sempre representando como resolvo meus problemas vou embora para fingir q nao existem

    ResponderExcluir
  2. EU GOSTEI MUITTOOOO DO Aaron <3 Melhor personagem, depois do Kenji é claro!

    ResponderExcluir
  3. Aí a garota prepara um discurso, entra no quarto e oq ela vê? A visão do paraíso e.e o tesão do Warner só d cueca, ah garota d sorte e.e As cicatrizes dele me lembrou do Maxon e da Celaena *^* MDS GAROTA, AS VEZES VC PARECE BURRA, MANO VC Ñ VÊ QUE O WARNER ESTÁ MEXENDO COM VC? JUJU SUA LOUCA VC ESTÁ SE APAIXONANDO POR ELE *0*
    #TeamJuliner

    ResponderExcluir
  4. Jesus — ele ofega, pulando para longe de mim. — Estou honrado, amor, mas não podia ao menos ter me dado a chance de colocar minhas calças?

    KKKKKKKKK não sei por que ri disso

    ResponderExcluir
  5. Só eu q fico mais apaixonada quando o Warner chama ela d amor?

    Carla Rajaram

    ResponderExcluir
  6. Cicatrizes= Sebastian, Maxon, Christian... <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aaaaaaaah vc tbm pensou *-----*

      Excluir
  7. Não acredito q ela saiu corredor pela porta. Ai que raiva.

    ResponderExcluir
  8. Huumm... Eu não sei se sou a unica, mas sinto que as cenas de Juju c/o habibi são muito mais interessantes do que as cenas dela c/o Adam ela se torna uma personagem muito melhor qnd está c/o Warner. Acho que é pq ele consegue mexer c/todas as facetas dela, inclusive as que ela odeia e vamos combinar que Warner por si só já rouba a cena

    ResponderExcluir
  9. Lá se foi a chance dela de se entender com o Warner... Essa Juju é uma figura. O Warner tem bom coração, só demonstra do jeito errado de vez em quando.
    Se eu fosse ela, teria deitado do lado dele e dormido kkkk mentira. #TeamWarner

    ~polly~

    ResponderExcluir
  10. De cuequinha boxer é sacanagem!!! A mulher até esqueceu o que ia falar 😂😂😂😂😍

    ResponderExcluir
  11. Só eu que imagino o Warner como Klaus?

    ResponderExcluir
  12. quem é klaus, alguem me diz

    ResponderExcluir
  13. Não notei quando meu amor pelo Warner começou, mas eu tô apaixonada!!!!!!

    ResponderExcluir
  14. potterhead-selecionada10 de setembro de 2017 18:21

    Por que a Liz (do coment um pouco acima)chamou o warner de habibi?

    ResponderExcluir
  15. potterhead-selecionada14 de setembro de 2017 13:09

    Me lembrou o Maxon também. 😚😚😚😚

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)