2 de janeiro de 2017

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Kenji está esperando por nós em uma mesa vazia.
James costumava fazer as refeições conosco, mas, agora, fez amizade com várias crianças mais novas no Ponto Ômega e prefere sentar-se com elas. Ele parece o mais feliz de todos nós por estar aqui... E eu fico feliz por ele estar feliz... Mas tenho de admitir que sinto falta de sua companhia. No entanto, tenho medo de dizer isso; às vezes, não tenho certeza se quero saber por que ele não fica com Adam quando estou por perto. Não acho que quero saber se as outras crianças conseguiram convencê-lo de que sou perigosa. Quero dizer, eu sou perigosa, mas eu apenas
Adam senta-se no banco e eu escorrego para perto dele. Kenji senta-se à nossa frente. Adam e eu escondemos nossas mãos entrelaçadas sob a mesa e eu me permito aproveitar o simples luxo da proximidade dele. Ainda estou usando as luvas, mas simplesmente estar assim tão perto dele já é suficiente; flores desabrocham em meu estômago, as pétalas macias fazendo cócegas em cada centímetro de meu sistema nervoso. É incrível o efeito que ele tem sobre mim, as coisas que me faz sentir, os pensamentos que me faz ter. É como se eu tivesse ganhado três desejos: tocar, saborear, sentir. É um fenômeno muito estranho. Uma impossibilidade louca e feliz embrulhada em papel de seda, amarrada com um laço, guardada no meu coração.
Muitas vezes, parece um privilégio que não mereço.
Adam se mexe e sua perna fica pressionada contra a minha.
Eu levanto o olhar e vejo que ele está sorrindo para mim, um sorriso secreto e discreto que diz tantas coisas, o tipo de coisas que ninguém devia dizer à mesa do café da manhã. Eu me esforço para respirar enquanto reprimo um sorriso. Viro-me para me concentrar em minha comida. Espero não estar corando.
Adam inclina-se na direção de meu ouvido. Sinto os sussurros delicados de sua respiração logo antes de ele começar a falar.
— Vocês são nojentos. Sabem disso, não?
Eu levanto os olhos, assustada, e vejo Kenji congelado no meio de um movimento, a colher na metade do caminho até a boca, a cabeça levantada em nossa direção. Ele gesticula com a colher em direção ao nosso rosto.
— Que diabos é isso? Vocês estão roçando os pezinhos embaixo da mesa ou algo do tipo?
Adam afasta-se de mim, só alguns centímetros, e solta um suspiro profundo e irritado.
— Sabe, se não gosta, você pode ir embora.
Ele mexe a cabeça na direção das mesas ao nosso redor.
— Ninguém pediu que sentasse aqui.
Esse é o Adam fazendo um esforço cuidadoso para ser simpático com Kenji.
Os dois eram amigos na base, mas, de alguma forma, Kenji sabe exatamente como provocar Adam dos piores jeitos possíveis. Eu quase esqueço, por um momento, que eles são colegas de quarto.
Imagino como deve ser, para eles, morarem juntos.
— Isso é besteira e você sabe — Kenji diz. — Eu disse, hoje pela manhã, que tinha de sentar com vocês. Castle quer que eu ajude vocês dois a se adaptarem.
Ele bufa. Balança a cabeça em minha direção.
— Olha, eu não faço ideia do que você vê nesse cara — afirma —, mas devia tentar morar com ele. Esse homem é mal-humorado pra caramba.
— Eu não sou mal-humorado...
— É, cara.
Kenji baixa os talheres.
— Você é mal-humorado. É sempre “Cale a boca, Kenji”, “Vai dormir, Kenji”, “Ninguém quer vê-lo pelado, Kenji”. Quando eu tenho certeza de que há milhares de pessoas que adorariam me ver pelado...
— Por quanto tempo você tem de ficar sentado aqui? — Adam desvia o olhar, esfrega os olhos com a mão livre.
Kenji endireita-se no banco. Pega a colher apenas para golpear o ar de novo.
— Você devia se considerar sortudo por eu sentar à sua mesa. Estou fazendo-o parecer descolado por associação.
Sinto Adam tenso ao meu lado e decido intervir.
— Ei, podemos falar sobre outra coisa?
Kenji resmunga. Revira os olhos. Enfia outra colher cheia de café da manhã na boca.
Estou preocupada.
Agora que estou prestando bastante atenção, posso ver o cansaço nos olhos de Adam, o peso em sua testa, os ombros endurecidos. Não posso deixar de me perguntar pelo que ele está passando em seu mundo clandestino. O que não está me contando. Puxo um pouco a mão de Adam e ele se vira para mim.
— Tem certeza de que está bem? — eu sussurro.
Sinto que continuo fazendo a mesma pergunta, de novo e de novo e de novo.
Os olhos dele ficam mais suaves imediatamente, parecendo cansados, mas um pouco divertidos. A mão dele solta a minha sob a mesa e só descansa sobre meu colo, apenas para escorregar para minha coxa, e eu quase perco o controle das palavras antes de ele deixar um beijo suave em meu cabelo, seus lábios demorando-se tempo suficiente para destruir minha concentração. Eu engulo em seco com muita dificuldade, quase derrubo o garfo no chão. Levo um instante para lembrar que ele não respondeu a minha pergunta. É apenas depois de desviar o olhar, encarar a comida, que ele balança a cabeça, diz “Estou bem”.
Mas eu não estou respirando e a mão dele ainda está traçando desenhos em minha perna.
— Senhorita Ferrars? Senhor Kent?
Eu me endireito no banco com tanta rapidez que bato os nós dos dedos embaixo da mesa ao som da voz de Castle. Há algo na presença dele que me faz sentir como se ele fosse meu professor, como se eu tivesse sido pega aprontando durante a aula. Adam, por outro lado, não parece nem um pouco assustado com a aproximação de Castle. Estou tentando conter um chorinho que se forma por causa da dor em minha mão quando sinto Adam enlaçar nossos dedos de novo.
Ele leva meus nós dos dedos, sob a luva, até os lábios. Beija cada um deles sem nunca tirar os olhos de sua tigela de café da manhã. Ouço Kenji engasgar com a comida.
Eu agarro os dedos de Adam e levanto o rosto.
Castle está parado ao lado de nossa mesa e Kenji está saindo para deixar sua tigela na cozinha. Ele dá uma batida nas costas de Castle, como se fossem velhos amigos, e Castle lança a Kenji um sorriso carinhoso quando ele passa.
— Volto logo — Kenji grita por cima do ombro, torcendo-se para nos mandar um sinal de ok superentusiasmado. — Tentem não ficar pelados na frente de todo mundo, certo? Há crianças aqui.
Eu me encolho e olho para Adam, mas ele parece estranhamente concentrado na comida. Não disse uma palavra desde a chegada de Castle.
Decido responder por nós dois. Abro um sorriso luminoso.
— Bom dia.
Castle faz um aceno com a cabeça, toca na lapela do terno; sua postura é forte e controlada. Ele sorri para mim.
— Vim apenas dar um oi e ver como estão as coisas. Fico feliz em ver que está aumentando seu círculo de amizades, senhorita Ferrars.
— Ah, obrigada. Mas não posso levar o crédito por essa ideia — eu observo. — Foi você quem me disse para eu me sentar com Kenji.
O sorriso de Castle é um pouco controlado demais.
— Sim, bem — ele diz —, estou feliz em ver que aceitou meu conselho.
Eu aceno com a cabeça na direção de minha comida. Esfrego a testa, distraída. Adam parece nem estar respirando. Estou prestes a dizer algo quando Castle me interrompe.
— Então, senhor Kent — ele diz. — A senhorita Ferrars contou que vai treinar com Kenji agora? Espero que a ajude a progredir.
Adam não responde.
Castle continua, determinado.
— Na verdade, achei que seria interessante ela trabalhar com o senhor também. Desde que eu supervisione.
Os olhos de Adam despertam para prestar atenção. Alarmados.
— Do que está falando?
— Bem...
Castle faz uma pausa. Vejo seu olhar pular entre Adam e eu.
— Pensei que seria interessante aplicar alguns testes no senhor e nela. Juntos.
Adam fica em pé tão rápido que quase bate o joelho na mesa.
— De jeito nenhum.
— Senhor Kent... — Castle começa.
— Sem chance, nem no inferno...
— A escolha é dela...
— Não quero discutir isso aqui...
Eu me levanto na hora. Adam parece pronto para incendiar alguma coisa. Seus punhos estão cerrados nas laterais do corpo; os olhos, contraídos; a testa está tensa, seu corpo todo treme de energia e ansiedade.
— O que está acontecendo? — eu exijo saber.
Castle balança a cabeça. Não está se dirigindo a mim quando fala:
— Quero apenas ver o que acontece quando ela o toca. Isso é tudo.
— Você é maluco...
— Isso é por ela — Castle continua, sua voz cuidadosa, supercalma. — Não tem nada a ver com o seu progresso...
— Que progresso? — eu interrompo.
— Estou apenas tentando ajudá-la a descobrir como afetar organismos que não estejam vivos — Castle está dizendo. — Animais e humanos já descobrimos... Sabemos que um toque é suficiente. As plantas não parecem ter influência alguma nas habilidades dela. Mas e todo o resto? É... diferente. Ela não sabe lidar com essa parte ainda, e eu quero ajudá-la. É tudo que vamos fazer — ele garante. — Ajudar a senhorita Ferrars.
Adam dá um passo mais para perto de mim.
— Se vai ajudá-la a descobrir como destruir coisas sem vida, por que precisa de mim?
Por um rápido segundo, Castle parece mesmo derrotado.
— Não sei bem — ele afirma. — A natureza única do relacionamento de vocês... é muito fascinante. Em especial com tudo o que descobrimos até agora, é...
— O que vocês descobriram? — eu entro na conversa de novo.
— Totalmente possível — Castle continua falando — que tudo esteja ligado de uma maneira que ainda não entendemos.
Adam não parece convencido. Seus lábios estão contraídos em uma linha fina. Não parece que ele quer responder.
Castle vira-se para mim. Tenta parecer animado.
— O que acha? Está interessada?
— Interessada?
Eu olho para Castle.
— Nem sei do que estão falando. E quero saber por que ninguém está respondendo as minhas perguntas. O que vocês descobriram sobre Adam? — pergunto. — O que está errado? Tem alguma coisa errada?
Eu olho rapidamente para os dois; Adam está com a respiração superacelerada e tentando disfarçar; suas mãos ficam abrindo e fechando.
— Alguém me diga, por favor, o que está acontecendo.
Castle franze as sobrancelhas.
Ele está me estudando, confuso, as sobrancelhas unidas como se eu estivesse falando em um idioma que ele não ouve há anos.
— Senhor Kent — ele diz, ainda olhando para mim —, devo entender que ainda não compartilhou suas descobertas com a senhorita Ferrars?
— Que descobertas?
Meu coração está acelerado agora, tanto que está começando a doer.
— Senhor Kent...
— Não é da sua conta — Adam fala, ríspido, a voz muito baixa, muito estável, muito dura.
— Ela deveria saber...
— Não sabemos nada ainda!
— Sabemos o suficiente.
— Bobagem. Não terminamos ainda...
— A única coisa que falta testar são vocês dois juntos...
Adam dá um passo bem em frente a Castle, segurando a bandeja do café da manhã com um pouco de força demais.
— Talvez — ele diz com muito, muito cuidado — em algum outro momento.
Vira-se para sair.
Eu toco em seu braço.
Ele para. Larga a bandeja, se vira na minha direção. Há menos de dois centímetros entre nós e quase me esqueço de que estou em um salão lotado. Seu hálito é quente e sua respiração está curta e o calor de seu corpo está derretendo meu sangue apenas para espalhá-lo pelas minhas bochechas.
O pânico está dando cambalhotas em meus ossos.
— Está tudo bem — ele diz, mas mal posso ouvi-lo com o barulho de nossos corações colidindo. — Tudo vai ficar bem. Eu prometo.
— Mas...
— Eu prometo — ele repete, agarrando minha mão. — Eu juro. Vou consertar isso...
— Consertar isso?
Penso que estou sonhando. Penso que estou morrendo.
— Consertar o quê?
Algo está se quebrando em meu cérebro e algo está acontecendo sem a minha permissão e estou perdida, tão perdida, estou tão tudo, confusa, e estou afundando na confusão.
— Adam, eu não entend...
— Eu estou falando sério.
Kenji está voltando para o nosso grupo.
— Vão fazer isso aqui? Na frente de todo mundo? Essas mesas não são tão confortáveis quanto parecem...
Adam se afasta e bate no ombro de Kenji ao ir embora.
— Não.
É tudo que o escuto dizer antes de ele sumir.

17 comentários:

  1. Affs mano, eu definitivamente estou com raiva do Adam, ele ta todo nervosinho, grosseiro, se irritando com qualquer besteira e ainda fica escondendo as coisas da Juju, há vai se f**** -_-''

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  2. Se ele acha que vai 'ficar tudo bem' mesmo escondendo oq quer q esteja acontecendo ele está muito enganado! Se não pode ao menos confiar na Juju, ele também não merece confiança, e, além do mais, se ele não contar, alguém vai acabar contando..

    "— Isso é besteira e você sabe — Kenji diz. — Eu disse, hoje pela manhã, que tinha de sentar com vocês. Castle quer que eu ajude vocês dois a se adaptarem.
    Ele bufa. Balança a cabeça em minha direção.
    — Olha, eu não faço ideia do que você vê nesse cara — afirma —, mas devia tentar morar com ele. Esse homem é mal-humorado pra caramba.
    — Eu não sou mal-humorado...
    — É, cara.
    Kenji baixa os talheres.
    — Você é mal-humorado. É sempre “Cale a boca, Kenji”, “Vai dormir, Kenji”, “Ninguém quer vê-lo pelado, Kenji”. Quando eu tenho certeza de que há milhares de pessoas que adorariam me ver pelado..."
    Esse Kenji é uma onda! Haha

    * Lanna *

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  3. "— Estou apenas tentando ajudá-la a descobrir como afetar organismos que não estejam vivos — Castle está dizendo. "

    COMO ASSIM NÃO ESTEJAM VIVOS?? ELE ESTÁ MORTO? NOSSSSSA

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  4. O que está acontecendo com Adam,espero que não seja uma coisa que afeta o relacionamento deles.

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  5. O que tá acontecendo Com o Adam?

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  6. KKKkkKKK... Kenji salvador da patria. Juju meu bem eu conheci uns casais nessa minha vida literária que viviam escondendo coisas um do outro e bem... Deu merda! E um deles, na vdd dois nem estão + juntos, mas relaxa que vc tem o Warner♥ e o Kenji melhor pessoa

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  7. Mas gente, o que foi isso? O que o Adam descobriu e não quer compartilhar com ela 😱?

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  8. Nossa. Como a autora mudou a visão de como vemos o Adam nesse livro. Vou esperar pra não dar uma opinião errada, mas até agora ele se mostrou egoísta. Posso mudar de opinião mas a frente. Vamos ver!
    O kenji é hilário. Amo seus comentários!!! Kkkk

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    1. kkkkk imagina, Fabi, você pode comentar o que acha! Suas opiniões podem mudar, é claro, mas não precisa temer estar errada.

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  9. Confusa estou
    O Adam tá morto ou tá no cio?

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    1. Depois desse seu comentário eu estou confusa.

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  10. Yesubai, a filha do vilão11 de abril de 2017 21:30

    eu tô com tanta raiva do Adam nesse livro, quanto eu fiquei com raiva do Dhiren no segundo livro da saga...Que ódio Adam para de esconder as coisas da Jullie e da gente

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  11. Acho que se Adam e Ju chegarem aos finalmente ele pode queimar ela.
    Acho que o poder dele é do fogo, deve ser um Tocha Humana da vida
    Ele deve querer proteger ela, mas não consegue resistir. 😓
    Mas nada justifica ele mentir pra ela. Ela não é criança e afastar ela pra protege'la vai piorar as coisas pra ele.
    Obaaa eu prefiro o Warner mesmo😋😄

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  12. E Um tocha humana e ele falou que epe estava prestes a encediar o refeitorio so pode mais ele ta chato com essa coisa esta tudo bem prometo prefero Agora o meu warner ele pode ser meu mal mais e por qualsa do pai

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  13. Me da vontade d dar um soco na cara do Adam, ai q raiva, grrr
    Kelinha

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  14. FOGOOOOO
    Com certeza eu estou odiando o Adam, mds, q mal agradecido..
    TeenWarner

    -Evy

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Boa leitura :)