5 de janeiro de 2017

4

Depois do café da manhã, o salão de refeições fica praticamente vazio. James tinha que se apresentar no Salão Seguro com as outras crianças — e os idosos — que ficarão aqui e todos os outros estão se aprontando para sair. Algumas famílias ainda estão fazendo as últimas despedidas. Juliette e eu estamos evitando o contato visual há alguns minutos. Ela está encarando suas mãos, estudando seus dedos como se estivesse verificando se ainda estão lá.
— Mas que droga. Quem morreu?
Deus do céu. Essa voz. Esse rosto.
Impossível.
— Puta que pariu. Puta merda.
Estou em pé.
— É bom vê-lo, Kent.
Kenji abre um largo sorriso e faz um aceno da cabeça para mim. Ele está horrível. Olhos cansados, rosto pálido, mãos tremendo um pouquinho conforme ele se segura à mesa. E, o que é pior, ele já está com seu traje; como se realmente pensasse que vai sair para o campo de batalha.
— Está pronto para dar umas porradas?
Ainda o estou encarando admirado, tentando achar uma forma de responder, quando Juliette dá um pulo e praticamente o ataca. É apenas um abraço, na verdade, mas que medo.
Um pouco cedo demais para isso, eu penso.
— Opa… Ei… Obrigado, é… Isso é… Hã…
Kenji limpa a garganta. Ele tenta ser gentil, mas está claro que está tentando se afastar de Juliette e, sim, ela repara. Seu rosto murcha e ela fica pálida, os olhos arregalados. Ela esconde as mãos atrás das costas, apesar de estar usando as luvas. Não há realmente uma ameaça óbvia para Kenji neste momento, mas eu entendo sua hesitação.
O cara quase morreu. Ele tentou separar uma briga ao mesmo tempo em que Juliette e, bam, ele caiu na hora. Foi superassustador; e, embora eu saiba que Juliette não teve a intenção de fazer isso, na verdade não há nenhuma outra explicação. Deve ter sido ela.
— É, hã, talvez você devesse não tocar em mim por um tempinho, sim?
Kenji está sorrindo — mais uma vez, um cara gentil —, mas ninguém está acreditando.
— Ainda não estou muito firme.
Juliette parece tão mortificada que meu coração se parte. Ela está se esforçando tanto para ficar bem — para deixar essa merda toda bem —, mas, às vezes, é como se o mundo simplesmente não permitisse. Os golpes continuam chegando, e ela continua se machucando.
Odeio isso.
Preciso dizer alguma coisa.
— Não foi ela — digo para Kenji,
Viro para ele um olhar cortante. Deixe-a em paz, digo sem soltar nenhum som.
— Você sabe que ela nem tocou em você.
— Eu não sei, na verdade — Kenji diz, ignorando meus toques mais sutis para mudar de assunto. — E não é como se eu a estivesse culpando... Só estou dizendo que talvez ela esteja projetando e não saiba, tudo bem? Porque, da última vez em que eu verifiquei, não achei que tivéssemos nenhuma outra explicação para o que aconteceu ontem à noite. Com toda a certeza não foi você — ele diz para mim —, e, que merda, até onde sabemos, o fato de o Warner poder tocar na Juliette pode ser apenas sorte. Não sabemos nada sobre ele ainda.
Uma pausa.
— Certo? A menos que o Warner tenha tirado algum tipo de coelho mágico da bunda enquanto eu estava ocupado morrendo ontem à noite.
Eu franzo as sobrancelhas. Desvio o olhar.
— Certo — Kenji diz. — Foi o que eu pensei. Então. Acho que é melhor, a menos que seja absolutamente necessário, eu me manter afastado.
Ele se vira para Juliette.
— Certo? Sem querer ofender, tudo bem? Digo, eu quase morri. Acho que você poderia pegar leve comigo.
— É, é claro — Juliette diz em voz baixa.
Ela tenta rir, mas sai completamente errado. Eu queria poder reagir por ela; eu queria poder envolvê-la em meus braços. Quero protegê-la… Quero poder cuidar dela, mas isso parece impossível agora.
— Então, de qualquer forma — Kenji diz. — Quando partimos?
Isso chama minha atenção.
— Você é louco — digo a ele. — Você não vai a lugar nenhum.
— Pro diabo que eu não vou.
— Mal consegue ficar em pé sozinho!
— Eu prefiro morrer lá fora a ficar sentado aqui como um idiota.
— Kenji… — Juliette tenta dizer.
— Eeeeei, então, fiquei sabendo pelas conversas nada discretas que o Warner se mandou daqui ontem à noite.
Kenji olha para nós.
— Como é isso?
— É — digo, meu humor ficando pior. — Quem sabe? Eu nunca achei boa ideia mantê-lo como refém aqui. Foi uma ideia ainda mais idiota confiar nele.
Kenji levanta uma sobrancelha.
— Então, em primeiro lugar você insulta minha ideia, e depois você insulta a ideia do Castle, hã?
— Foram decisões ruins — falo para ele, recusando-me a recuar. — Ideias ruins. Agora, temos que pagar por isso.
Foi ideia de Kenji manter Warner como refém, e foi ideia de Castle deixá-lo sair do quarto. E, agora, todos nós estamos sofrendo. Às vezes eu acho que todo este movimento é liderado por um bando de idiotas.
— Bem, como eu poderia saber que o Anderson estaria tão disposto a deixar seu filho apodrecer no inferno?
Eu me retraio involuntariamente.
A lembrança do meu pai e do que ele estaria disposto a fazer ao seu próprio filho é demais para mim nesta manhã. Eu engulo de volta a bile que sobe devagar pela minha garganta.
Kenji repara.
— Ah, ei… Desculpe, cara… Não quis dizer dessa maneira...
— Esqueça — digo a ele.
Estou contente por Kenji não ter morrido, mas, às vezes, tudo o que eu quero mesmo é dar uma porrada nele.
— Talvez você deva voltar para a ala médica. Vamos partir daqui a pouco.
— Não vou para nenhum lugar além de fora daqui.
— Kenji, por favor… — Juliette de novo.
— Não.
— Você não está sendo racional. Isto não é uma piada — ela diz para ele. — Pessoas vão morrer hoje.
Kenji ri para ela.
— Desculpe, você está tentando me ensinar as realidades da guerra?
Ele faz que não com a cabeça.
— Está se esquecendo de que eu era soldado do exército do Warner? Você faz alguma ideia de quantos absurdos nós já vimos?
Ele faz um gesto para mim.
— Sei exatamente o que esperar de hoje. O Warner era louco. Se o Anderson for até mesmo duas vezes pior que o filho, estamos mergulhando direto em um banho de sangue. Não posso deixá-los na mão assim.
Juliette está congelada, os lábios um pouquinho abertos, os olhos arregalados e horrorizados. Sua reação parece um pouco exagerada.
Definitivamente, há algo errado com ela hoje.
Sei que parte do que ela está sentindo tem a ver com Kenji, mas, de repente, não tenho certeza de que não há mais nada. Algo que ela não está me contando.
Não consigo decifrá-la com clareza.
Mas, também, sinto que não tenho sido capaz de decifrá-la com clareza há algum tempo.
— Ele era mesmo tão ruim assim...? — Juliette pergunta.
— Quem? — Kenji e eu perguntamos ao mesmo tempo.
— Warner — ela diz. — Ele era mesmo tão impiedoso assim?
Meu Deus, ela está tão obcecada por ele. Ela tem alguma fascinação doentia pela vida distorcida dele que eu não entendo, e isso me deixa louco. Já consigo sentir que estou ficando bravo, incomodado — com ciúmes até —, o que é ridículo. Warner nem é humano; eu não deveria ficar me comparando a ele. Além disso, ela não é nem um pouco o tipo dele. Ele provavelmente a devoraria viva.
Kenji, no entanto, não parece ter o meu problema. Ele está rindo tanto que está praticamente ofegante.
— Impiedoso? Juliette, o cara é doente. Ele é um animal. Acho que ele nem sabe o que é ser humano. Se existe um inferno por aí, acho que foi criado especialmente para ele.
Eu tenho um vislumbre do rosto de Juliette logo antes de ouvir barulhos de passos apressados pelo corredor. Todos nós olhamos uns para os outros, mas eu olho para Juliette por um segundo a mais, desejando poder ler a mente dela. Não faço ideia do que ela está pensando ou do porquê de ela ainda parecer tão horrorizada. Quero falar com ela em particular — descobrir o que está acontecendo —, mas, neste momento, Kenji acena com a cabeça para mim e sei que tenho que limpar minha mente.
É hora de ir.
Todos nós ficamos em pé.
— Ei… Então, o Castle sabe o que você está fazendo? — pergunto a Kenji. — Acho que ele não vai concordar que você saia hoje.
— Castle quer que eu seja feliz — Kenji fala. — E não vou ficar feliz se ficar aqui. Tenho trabalho a fazer. Pessoas a salvar. Moças a impressionar. Ele respeitaria isso.
— E quanto a todos os outros? — Juliette pergunta para ele. — Todos estavam tão preocupados com você... Você pelo menos já os viu? Para dizer que está bem?
— Não — Kenji diz. — Eles provavelmente mijariam nas calças se soubessem que vou subir. Achei que seria mais seguro manter em segredo. Não quero apavorar ninguém. E Sonya e Sara… Pobrezinhas… Estão completamente acabadas. É culpa minha elas estarem tão exaustas, e ainda estão falando em sair hoje. Querem lutar apesar do fato de que vão ter muito trabalho a fazer assim que acabarmos com o exército do Anderson. Nós estávamos tentando convencê-las a ficar aqui, mas elas sabem ser muito teimosas, maldição. Precisam economizar sua força — ele comenta —, e já desperdiçaram muito dela em mim.
— Não foi um desperdício… — ela diz.
— Eeenfim — Kenji fala. — Podemos, por favor, ir? Sei que vocês estão totalmente focados em caçar o Anderson — ele fala para mim —, mas, pessoalmente? Eu adoraria pegar o Warner. Atravessar uma bala por aquele pedaço de merda inútil e acabar com isso.
Estou prestes a rir — finalmente, alguém que concorda comigo — quando vejo Juliette dobrar o corpo ao meio. Ele se recompõe bastante rápido, mas está piscando depressa e com a respiração pesada, os olhos voltados para o teto.
— Ei... Você está bem?
Eu a puxo de lado e examino seu rosto. Às vezes ela me deixa completamente assustado. Eu me preocupo com ela quase tanto quanto me preocupo com James.
— Estou bem — ela diz vezes demais.
Fazendo que sim e que não com a cabeça de novo e de novo.
— Só não dormi o bastante a noite passada, mas vou ficar bem.
Eu hesito.
— Tem certeza?
— Absoluta — ela responde.
Depois, ela agarra minha blusa, os olhos enlouquecidos.
— Ei… Só tome cuidado lá fora, tudo bem?
Eu faço que sim com a cabeça, mais confuso a cada instante.
— É. Você também.
— Vamos vamos vamos! — Kenji nos interrompe. — Hoje é o dia da nossa morte, mocinhas.
Eu relaxo e dou um empurrãozinho nele. É bom tê-lo por perto para quebrar a monotonia deste lugar.
Kenji me dá um soco no braço:
— Então, agora você está batendo no menino aleijado, hein?
Eu rio e mostro o dedo para ele.
— Guarde sua angústia para o campo de batalha, irmão.
Ele ri.
— Você vai precisar.

10 comentários:

  1. Eu nunca tive tanta raiva de um personagem como estou do Adam. Ele não acredita nem um pouco que ela não é a culpada do que aconteceu e ainda tem coragem de ficar preocupado e com medo dela. Idiota!!! Eu quero muito que ela fique com o Warner. Ele merece ela mais do que ele.

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    1. Verdade...ele tinha que apoiar ela e nao ser esse babaca!!!
      Ass•analu

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    2. concordo, a minha raiva nem é por ele achar q foi ela q machucou Kenji, fico chateada d verdade,é prq mesmo ele achando isso, fica falando pra ela q não foi ela, ou seja fica mentindo... mentido sobre oq realmente pensa sobre ela.... SINICO

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  2. KKkkkkkk... "Warner nem é humano; eu não deveria ficar me comparando a ele. Além disso, ela não é nem um pouco o tipo dele. Ele provavelmente a devoraria viva" Aí Adam... Ele realmente quer devora-la gatinho, mas não desse jeito. kkkk...

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  3. Estou decepcionada com Adam, os pensamentos dele com relação a Juliette não são nem um pouco românticas iguais as de Aaron e as de Juliette em relação a ele, espero que eu esteja errada

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  4. Eu preferiria que a juliette narrase como o adam porque ela so narra pensamento e o aaron só narra sobre a juliette ai então quando narra o adam eu percebo que a juliette é um pouco fora de si

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    1. E você não tinha percebido isso no primeiro livro? Hauehaueh

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  5. Meu Deus, ela está tão obcecada por ele. Ela tem alguma fascinação doentia pela vida distorcida dele que eu não entendo..... AH Adam, vc não faz ideia kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  6. Gente só eu tô com muita pena do Adameu? ele todo preocupado com a Julieta e ela teve aquela noite com o warnner😍

    ~MIRELLE

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Boa leitura :)