26 de janeiro de 2017

Capítulo 4

Uma cadeia de montanhas estendia-se atrás da cidade de Hambley, há menos de meio quilômetro. A cidade em si fora construída em torno de um pequeno, mas bem protegido, porto. No quebra-mar do norte, Will podia ver uma grande estrutura de metal de cerca de seis metros de altura.
— Esse é o farol verdadeiro — Halt disse a ele, notando o olhar interessado — é aceso todas as noites e mostra aos navios que se aproximam onde o quebra-mar norte está e lhes dá um ponto de referência. Mas, como você pode ver, o alto promontório por trás o esconde da vista de qualquer embarcação que desce a costa até que o navio esteja a apenas meio quilômetro de distância.
Eles estavam deitados de barriga para baixo no topo de uma colinas com vista para a cidade. Os cavalos estavam no lado oposto, fora de vista. Os dois arqueiros, de bruços e ocultos por suas capas, estariam invisível para qualquer um dentro de um raio de 50 metros, quanto mais há meio quilômetro.
— Agora olhe mais para o norte — Halt pediu e Will obedientemente mudou sua atenção.
Além do promontório, uma faixa curva da praia varria o norte, terminando em outro promontório, um pouco menor.
— Meu palpite é que eles vão construir o farol falso ali. Você pode ver como a água é rasa por várias centenas de metros depois da praia. Qualquer navio que virar para lá, pensando que encontrou o porto, será encalhado na areia antes que perceba. Imagino que os sabotadores criarão fogueiras locais e lanternas baixas no chão atrás da praia para parecer com um vilarejo. O comandante do navio vai ver o que ele espera ver. Um farol e um vilarejo. Mas vai ser um quilômetro mais ao norte do que o verdadeiro. Esta cordilheira de montanhas em que estamos criará um fundo escuro. Alguém olhando do mar verá as luzes contra a escuridão. Eles não vão perceber os detalhes.
Ele esfregou o queixo, pensativo, retirando uma formiga que se aventurou a explorar sua barba.
— Esse banco raso de areia lhes convém admiravelmente. O navio vai ficar preso nele, e a menos que o clima fique realmente ruim, o navio não vai se desvencilhar. Isso significa que os moondarkers podem navegar durante a maré baixa e descarregar o navio à vontade. E significa que vão conseguir toda a carga sem perder alguma para o mar.
Will olhou de soslaio para o arqueiro de barba grisalha.
— Você parece saber muito sobre como eles operam Halt,
Halt assentiu sombriamente.
— Os moondarkers eram uma praga sobre esta nação durante a primeira guerra com Morgarath. As tropas do Rei estavam muito preocupadas com a rebelião para vigiar os outros assuntos. E você sabe o quão rapidamente os criminosos tiram proveito de uma situação como essa.
Will assentiu.
— Então, como você os eliminou?
— Oh, após a guerra, Crowley e montamos uma pequena campanha contra eles. Depois de um tempo, eles pareceram decidir que Araluen não era o melhor lugar para praticar o esse tipo de atividade. A maioria deles se mudou para Gálica, onde as condições eram mais propícias para o seu negócio.
— A maioria deles? — Will perguntou. — E os outros?
— Eles ficaram aqui — Halt disse severamente. — Você vai encontrar suas sepulturas de cima a baixo na costa oeste, se olhar com atenção.
— Você e Crowley formaram uma equipe e tanto durante a juventude, não foi? — Will perguntou.
Um fantasma de um sorriso tocou a boca de Halt.
— Nós tivemos nossos momentos.
Então ele começou a deslizar para trás do topo da serra, permanecendo abaixado até que pudesse se levantar sem entrar no campo de visão de qualquer observador abaixo deles. Will seguiu e olhou ansiosamente para seu antigo mentor em busca de instruções.
— Nós vamos para o norte em direção a essa praia — Halt explicou. — Vamos acampar no cume e manter vigia para qualquer atividade no promontório ou no chão baixo no interior da praia.
— Você tem certeza que é onde eles vão montar?
Halt encolheu os ombros.
— Nunca se pode ter certeza de nada. Mas é o lugar mais lógico. Qualquer lugar mais ao norte e estaria muito longe de Hambley si. Além disso, há curvas no litoral, a leste de lá, então toda a topografia é diferente. Este local é perto o suficiente do vilarejo verdadeiro para confundir qualquer capitão que não está atento o bastante. Vamos explorar através da floresta e ver se podemos encontrar seu acampamento. Se eles estão na área, não deve ser muito difícil encontrar.
— Você disse que poderia haver de quinze a vinte deles... — Will começou.
— É isso mesmo. E eles vão precisar de carroças e cavalos para levar a carga, de modo que o acampamento vai ser um grande problema.
— Podemos lidar com tantos deles? — perguntou timidamente.
Halt olhou fixamente para ele.
— Estes homens são assassinos de sangue frio. Mas não são guerreiros. Eles vão receber um aviso para se render, então nós começaremos a atirar. Crowley e eu lidamos com essa quantidade. Não deve ser problema.
— Isso foi com Crowley e você — disse Will.
Ele ficou surpreso com a resposta de Halt.
— Você é melhor do que Crowley.
Will ficaria ainda mais surpreso se Halt tivesse acrescentado o que estava em sua mente: Você é provavelmente melhor do que eu, também.
Eles foram para o norte e montaram um pequeno acampamento bem escondido em um agrupamento de árvores na encosta interior do cume. Abelard e Puxão tiveram as selas retiradas e saíram para pastar perto do acampamento. Se por acaso eles fossem descobertos, os casacos felpudos e falta de selas ou arreios provavelmente levariam seus descobridores a supor que eram pôneis selvagens. Havia certo número de nômades que percorriam as montanhas em pequenos grupos.
Não haveria fogueira e os dois arqueiros suspiraram enquanto se resignavam a uma dieta de ração dura e água fria durante a missão. Eles montaram um posto de observação no cume, cavando uma cova rasa, então a cobrindo com sujeira, galhos e folhas para que pudessem vigiar a praia e o promontório sem serem vistos. Não era diferente do tipo de esconderijo que os caçadores construíam, Will pensou. Então ele sorriu tristemente enquanto percebia que eles eram caçadores. Mas eles estavam caçando homens.
Havia ainda algumas horas de luz do dia quando eles terminaram. Halt apontou para o buraco.
— Fique de olho nas coisas. Eu estou indo explorar ao redor e ver se encontro qualquer sinal de um acampamento.
Will assentiu. Um acampamento iria confirmar que eles estavam no caminho certo. Afinal, eles ainda estavam trabalhando com base em informações recebidas de um informante anônimo. Poderia muito bem ser uma perseguição bastante longa. Mas uma das primeiras coisas que os arqueiros aprendiam era ver e ouvir pacientemente por horas ou dias a fio.
Will agachou-se para entrar no posto de observação com vista para a praia e se arrastou para dentro. Ele se acomodou, ficou confortável e recostou-se contra a parede de terra. Eles haviam feito uma fenda de observação que abrangia toda a largura do local, e quando sentou-se nas sombras profundas, ele teve uma visão ininterrupta do promontório e praia.
Ele colocou a mão na bolsa que tinha atirado sobre um ombro e pegou papel, pena e um tinteiro pequeno de viagem. O rascunho de seu discurso estava lá também, mas no momento ele iria se contentar em anotar frases impressionantes para incluir nele. Ele podia fazer isso e manter um olhar atento sobre a praia abaixo dele. Ler ou reescrever o discurso seria uma distração muito grande. Mas anotar frases avulsas só iria tomar um ou dois segundos de cada vez.
Uma delas veio à mente – uma descrição de Horace e Evanlyn – e ele rapidamente abriu o tinteiro, mergulhou sua pena e anotou.
Os muito bons companheiros amados de meus ternos anos de juventude, escreveu ele. E murmurou para si mesmo:
— Oh, isso é bom. Muito bom.
Ele examinou a praia e para o promontório de novo, mas nada se movia. Então anotou outra frase.
É com alegria e orgulho que eu tenho a ousadia de acrescentar a minha adulação irrestrita ao que já foi declarado antes que este conjunto eminente...
— Eu gostei disso. Muito — disse para si mesmo.
Ele suspirou feliz e recostou-se contra a parede de terra da cova, esperando por mais lampejos de inspiração.


Halt demorou menos de duas horas para encontrar o acampamento.
Não surpreendentemente, o cheiro de queima de madeira o alertou primeiramente para a presença de pessoas na floresta. Era fraco no início, mas quando ele seguiu em direção onde a leve brisa soprava, tornou-se mais forte. Então ele começou a notar outros sinais. Um cão latiu. Em seguida, ouviu o som de um machado repercutindo na madeira. Os sons e os cheiros o levaram de volta a linha do cume, para a floresta do lado do mar.
Eventualmente, ele encontrou-se olhando até uma clareira aberta nas árvores.
Havia meia dúzia de tendas armadas em um grupo alinhado e várias fogueiras estavam já acesas. De um lado, quatro carroças com rodas sólidas estavam estacionados. Além delas, ele podia discernir cavalos amarrados entre as árvores. As pessoas andavam pelo acampamento, conversando e chamando uma a outra. Não havia real tentativa de ocultação, já que não havia ninguém de quem se esconder, de acordo com as preocupações dos moondarkers.
Ele contou as pessoas que podia ver. Dezesseis deles e todos os homens, notou. E esse último fato foi mais uma confirmação de que este era um acampamento de moondarkers.
Ele observou por alguns minutos como vários deles começaram a preparar a refeição da noite. Seu estômago reclamou silenciosamente enquanto o delicioso aroma de carne assada sobre o fogo flutuavam em torno dele. Ele silenciosamente se retirou do seu ponto de observação.
— Nada para fazer aqui, a não ser ficar com fome — ele murmurou para si mesmo e voltou para o acampamento sem fumaça e sem carne assada escondido do outro lado da encosta. Ele pensou sobre qual seria o seu jantar: água fria, carne seca, frutas e pão duro.
O pensamento não o tornou mais compassivo com os moondarkers.

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