6 de janeiro de 2017

49

É esta.
A casa azul como um ovo de tordo americano. Aquela onde eu acordei. Aquela onde Warner morava. Aquela onde a mãe dele é mantida. Estamos parados diante dela e ela está exatamente do mesmo jeito que estava das últimas duas vezes em que eu estive aqui. Bonita e assustadora. Mensageiros dos ventos chicoteando para a frente e para trás.
— Por que diabos o Warner estaria aqui? — Kenji pergunta. — O que é este lugar?
— Na verdade, eu não posso contar — digo a ele.
— Por que não?
— Porque não é um segredo meu; não posso contar.
Kenji fica em silêncio por um momento.
— Então, o que você quer que eu faça?
— Você pode esperar aqui? — peço a ele. — Eu vou conseguir continuar invisível se eu entrar? Ou vou sair do alcance?
Kenji suspira.
— Não sei. Você com certeza pode tentar. Eu nunca tentei fazer isso pelo lado de fora de uma casa antes.
Ele hesita.
— Mas, se você vai entrar sem mim, pode, por favor, ser rápida? Já estou com a bunda congelando.
— Sim. Eu prometo. Serei rápida. Só quero ter certeza de que ele está bem... Ou que ele está aqui. Porque, se ele não estiver lá dentro, pode estar esperando por nós lá onde nos deixou.
— E tudo isso terá sido uma grande perda de tempo.
— Desculpe — digo a ele. — Eu sinto muito mesmo. Mas eu simplesmente tenho que ter certeza.
— Vá — ele fala. — Vá e volte depressa.
— Certo — eu sussurro. — Obrigada.
Eu me separo dele e subo os degraus para a pequena varanda. Testo a maçaneta. Não está trancada. Eu a viro, empurro a porta para abrir. Entro.
Foi aqui que eu levei um tiro.
A mancha de sangue onde eu estava deitada no chão já foi limpa. Ou, talvez, o tapete tenha sido trocado. Não tenho certeza. De qualquer forma, as memórias ainda me cercam. Não posso voltar a esta casa sem sentir um mal-estar no estômago. Tudo está errado aqui. Tudo está muito errado. Muito estranho.
Algo aconteceu.
Eu posso sentir.
Sou cuidadosa para fechar a porta com delicadeza atrás de mim. Eu subo a escada em silêncio, lembrando-me de como as tábuas do chão chiaram quando fui capturada pela primeira vez e trazida para cá, e consigo desviar das partes mais barulhentas; o restante do barulho, felizmente, apenas parece poder ser causado pelo vento.
Quando estou no andar de cima, conto três portas. Três aposentos.
À esquerda: o antigo quarto de Warner. Aquele no qual eu acordei.
No meio: o banheiro. Aquele onde me deram banho.
Na ponta mais distante do corredor, bem à direita: o quarto da mãe dele. Aquele que estou procurando.
Meu coração está disparado no peito.
Eu mal consigo respirar conforme me aproximo na ponta dos pés. Não sei o que estou esperando encontrar. Não sei o que espero que seja o resultado disto. Eu nem faço ideia se Warner ainda está aqui.
E eu não faço ideia de como será ver a mãe dele.
Porém, alguma coisa está me puxando para a frente, instigando-me a abrir a porta e verificar. Eu preciso saber. Eu simplesmente preciso saber. Minha mente não descansará se eu não o fizer.
Assim, eu me aproximo devagar. Respiro profundamente várias vezes. Agarro a maçaneta e viro, muito devagar, sem nem perceber que perdi a invisibilidade até eu ver meus pés cruzando a soleira.
Entro em pânico no mesmo instante, meu cérebro calculando planos de contingência e, embora eu pense brevemente em me virar e sair correndo pela porta, meus olhos já varreram o quarto.
E eu sei que não posso recuar agora.

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Boa leitura :)