6 de janeiro de 2017

47

Eu me sinto estranha, o dia todo.
Sinto-me distante, de alguma forma. Kenji está animadíssimo por sair da base, alegre por testar minha força em lugares novos, e todos os outros estão com inveja por nós podermos sair. Assim, eu deveria estar feliz. Eu deveria estar ansiosa.
Mas eu me sinto estranha.
Minha cabeça está estranha, e acho que é porque eu não consegui sacudir a história de Warner para fora de meus pensamentos. Não consigo parar de tentar imaginá-lo como ele era. Uma criança pequena e apavorada.
Ninguém sabe para onde ele está indo hoje. Ninguém sabe a profundidade disso. E ele não faz nada que revele como está se sentindo de verdade. Ele tem estado calmo como sempre, controlado e cuidadoso com suas palavras, suas ações.
Kenji e eu vamos nos encontrar com ele de novo em um instante.
Estamos passando pela porta da parede de armas e, enfim, eu posso ver, em primeira mão, como Warner os trouxe escondidos para dentro. Estamos atravessando uma área de treinamento de tiros. Há postos com armas e pequenos cubículos com alvos colocados a centenas de metros de distância, e, agora, o lugar todo está deserto. Esta deve ser outra das salas de treinamento de Warner.
Há uma porta no final do corredor, e Kenji a empurra para abrir. Ele não precisa mais me tocar, nem um pouco, para me manter invisível, e é tão mais conveniente desta forma. Podemos nos mexer com liberdade, desde que eu fique, no máximo, a 15 metros dele, o que nos dá a flexibilidade de que precisamos para podermos trabalhar do lado de fora hoje.
Agora, estamos do outro lado da porta.
Parados em uma enorme área de armazenamento.
O lugar tem pelo menos uns 150 metros de um lado a outro, e talvez tenha o dobro de altura. Eu nunca tinha visto mais caixas na vida toda. Não faço ideia do que há nelas e não tenho tempo para imaginar.
Kenji está me puxando pelo labirinto.
Nós desviamos de caixas de todos os tamanhos diferentes, com cuidado para não tropeçarmos em cabos elétricos e no maquinário usado para mover os itens mais pesados. Há fileiras e fileiras e mais fileiras divididas em ainda mais fileiras que abrigam tudo em seções muito organizadas. Noto que há etiquetas em todas as prateleiras e em todos os corredores, mas não consigo me aproximar o suficiente para lê-las.
Quando enfim chegamos ao final do salão de armazenamento, há duas portas enormes de 15 metros que levam à saída. Esta é claramente uma área de carregamento para caminhões e tanques. Kenji agarra meu braço e me mantém perto de si conforme passamos por vários guardas parados ao lado da entrada. Passamos depressa pelos caminhões estacionados ao redor de toda a área de carregamento, até finalmente chegarmos ao ponto onde devemos encontrar Warner.
Eu desejo que Kenji tivesse estado por perto para me deixar invisível da primeira vez em que tentei entrar e sair da base. Teria sido tão bom poder simplesmente sair andando como um ser humano, em vez de ser levada em um carrinho por corredores, sacudindo e balançando e me agarrando às pernas de uma mesinha com rodas.
Warner está inclinado contra um tanque.
As duas portas estão abertas e ele está olhando ao redor como se pudesse estar observando o trabalho que está sendo feito com as unidades de carregamento. Ele acena com a cabeça para vários soldados conforme eles passam.
Subimos para o lado do passageiro sem sermos notados.
E, quando estou prestes a sussurrar um aviso para Warner, ele dá a volta até o lado do passageiro, diz “cuidado com as pernas, amor” e fecha a porta.
E, depois, ele sobe pelo outro lado. Começa a dirigir.
Ainda estamos invisíveis.
— Como você sabia que estávamos aqui? — Kenji pergunta imediatamente. — Você pode, tipo, ver pessoas invisíveis também?
— Não — Warner diz para ele, os olhos focados à sua frente. — Posso sentir a presença de vocês. A dela, principalmente.
— É mesmo? — Kenji fala. — Que merda estranha. Qual é a sensação que eu passo? De manteiga de amendoim?
Warner não acha graça.
Kenji limpa a garganta.
— J, acho que você deveria trocar de lugar comigo.
— Por quê?
— Acho que seu namorado está tocando na minha perna.
— Você tem uma opinião muito elogiosa de si mesmo — Warner diz.
— Troque de lugar comigo, J. Ele está me dando arrepios e tal, como se talvez estivesse prestes a enfiar uma faca em mim.
— Está bem.
Eu suspiro. Tento passar por cima dele, mas é difícil, considerando que eu não consigo ver nem meu corpo nem o dele.
— Ai... Maldição... você quase chutou meu rosto...
— Desculpe! — digo, tentando passar desajeitadamente por cima dos joelhos dele.
— Só vá em frente — ele fala. — Meu Deus, quanto você pesa...
Ele se mexe, de repente, saindo de debaixo de mim, e me dá um pequeno empurrão para eu sair do lugar.
Eu caio de cara no colo de Warner.
Ouço o fôlego curto e cortante que Warner toma e me levanto sem jeito, corando muitíssimo, e, de repente, estou bastante aliviada por ninguém conseguir me ver agora.
Quero dar um soco no nariz de Kenji.
Ninguém conversa muito depois disso.
Conforme nos aproximamos da área sem regulamentação, o cenário começa a mudar. As estradas simples semipavimentadas dão lugar às ruas de nosso velho mundo. As casas estão pintadas com tons que prometeram ser coloridos tempos atrás e as ruas são contornadas por calçadas que podem ter levado crianças em segurança de casa para a escola. As casas estão desmoronando agora.
Tudo está quebrado, dilapidado. As janelas estão fechadas com tábuas. A grama está muito alta e com gelo por cima. O cheiro do inverno parece fresco no ar e lança uma melancolia sobre a cena de uma forma que diz que tudo isso poderá ser diferente em outra estação. Quem sabe.
Warner para o tanque.
Ele sai e anda até a nossa porta, apenas para o caso de alguém ainda estar aqui fora, e faz parecer que a está abrindo por um motivo específico. Para verificar o interior. Para examinar um problema.
Não importa.
Kenji dá um pulo para fora primeiro, e Warner parece conseguir saber que ele saiu.
Eu alcanço a mão de Warner porque sei que ele não pode me ver. Os dedos dele imediatamente se apertam em volta dos meus. Seus olhos estão focados no chão.
— Vai ficar tudo bem — digo a ele. — Certo?
— Sim. Tenho certeza de que você está certa.
Eu hesito.
— Você vai voltar logo?
— Sim — ele sussurra. — Vou voltar para pegá-la em exatamente duas horas. Vai ser tempo suficiente?
— Sim.
— Bom. Eu a encontro aqui de volta então. Neste lugar exato.
— Combinado.
Ele não diz nada por um segundo. Depois:
— Combinado.
Eu aperto a mão dele.
Ele sorri para o chão.
Eu me levanto e ele vai para o lado, dando-me espaço para passar. Toco nele quando passo, apenas brevemente. Apenas como um lembrete. De que estou aqui para ajudá-lo.
Ele se retrai, assustado, e dá um passo para trás.
E, depois, sobe no tanque e vai embora.

8 comentários:

  1. MDS SE AGARREM LOGO PF N TO AGUENTANDO MAIS MDSSSSSSSSSSSSSSSSSS

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  2. Façam um favor para a humanidade:se peguem!!!

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  3. "Eu caio de cara no colo de
    Warner."
    prefiro nem comentar essa parte e.e

    KRL SE COMAM LOGO, NINGUÉM AGUENTA MAIS ESSA ESPERA

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    1. Néeeee! Morri nessa parte! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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  4. Mano, vou ficar arrasada se eles não acabarem com essa merda de formalidade e não se pegarem. OS CAPITULOS TÃO ACABANDO CCT.

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  5. Se peguem logo pelo amor de Deus! Nós nunca lhes pedimos nada!
    "Eu caio de cara no colo de Warner." Kkkkkkkk #morri

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Boa leitura :)