6 de janeiro de 2017

46

— Tenho que visitar a minha mãe hoje.
Essas são as sete palavras que iniciam nossa manhã.
Warner acabou de sair do escritório, o cabelo uma bagunça dourada em volta da cabeça, os olhos tão verdes e, ao mesmo tempo, tão transparentes que são impossíveis de se descrever de verdade.
Ele não se deu ao trabalho de abotoar a camisa amassada e sua calça social está sem cinto e baixa em sua cintura. Ele parece completamente desorientado. Acho que não dormiu a noite toda e quero desesperadamente saber o que está acontecendo na sua vida, mas sei que não devo perguntar. Ainda pior, sei que ele nem me contaria se eu perguntasse.
Não há mais nenhum nível de intimidade entre nós.
Tudo estava acontecendo muito depressa entre nós e, depois, parou completamente. Todos aqueles pensamentos e sentimentos e emoções congelados no mesmo lugar. E, agora, tenho muito medo de que, se eu der o passo errado, tudo se quebre.
Mas eu sinto falta dele.
Ele fica parado na minha frente todo dia e eu treino com ele e trabalho ao lado dele como uma colega e isso não é mais suficiente para mim. Eu sinto falta das nossas conversas fáceis, dos sorrisos abertos dele, da maneira como ele sempre costumava olhar nos meus olhos.
Eu sinto falta dele.
E preciso conversar com ele, mas não sei como. Ou quando. Ou o que dizer.
Covarde.
— Por que hoje...? — pergunto, hesitante. — Aconteceu alguma coisa?
Warner não fala nada por um longo tempo, apenas fica olhando para a parede.
— Hoje é aniversário dela.
— Ah — eu sussurro, meu coração se partindo.
— Você queria praticar lá fora — ele fala, ainda olhando direto para a frente. — Com o Kenji. Posso levá-la comigo quando eu sair, desde que ele prometa mantê-la invisível. Eu deixo os dois em algum lugar da área sem regulamentação e os pego quando estiver voltando. Tudo bem assim?
— Sim.
Ele não diz mais nada, e seus olhos estão loucos e sem foco. Ele está olhando para a parede como se pudesse ser uma janela.
— Aaron?
— Sim, amor.
— Você está com medo?
Ele puxa um fôlego tenso. Exala devagar.
— Nunca sei o que esperar quando a visito — ele responde em voz baixa. — Ela está diferente em cada vez. Às vezes está tão drogada que nem se mexe. Às vezes os olhos dela estão abertos e ela apenas encara o teto. Às vezes — ele conta — ela está completamente histérica.
Meu coração dá um nó.
— É bom você ainda visitá-la — digo a ele. — Você sabe disso, não é?
— É?
Ele solta uma risada estranha e nervosa.
— Às vezes eu não tenho certeza.
— Sim. É sim — eu falo, sendo sincera em cada centímetro daquelas palavras.
— Como você pode saber?
Ele olha para mim agora, olha para mim como se estivesse quase com medo de ouvir a resposta.
— Porque, se ela conseguir perceber, mesmo que por um segundo, que você está no quarto com ela, você lhe deu um presente extraordinário. Ela não se foi completamente — digo a ele. — Ela sabe. Mesmo que não seja o tempo todo e mesmo que ela não consiga demonstrar. Ela sabe que você foi até lá. E sei que deve ser muito importante para ela.
Ele toma outro fôlego trêmulo. Está encarando o teto agora.
— Isso é algo muito gentil de se dizer.
— Estou sendo sincera.
— Eu sei — ele diz. — Eu sei que está.
Olho para ele por mais um tempo, perguntando-me se existe um momento apropriado para fazer perguntas sobre sua mãe. E há algo que eu sempre quis perguntar. E, assim, eu pergunto.
— Ela deu esse anel para você, não foi?
Warner fica rígido. Acho que de onde estou consigo ouvir seu coração disparado.
— O quê?
Eu ando até ele e pego sua mão esquerda.
— Este — digo, apontando para o anel de jade que ele sempre usou no dedo mínimo esquerdo.
Warner nunca o tira. Nem para tomar banho. Nem para dormir. Nunca.
Ele faz que sim com a cabeça, bastante devagar.
— Mas... você não gosta de falar sobre isso — eu falo, lembrando-me da última vez em que perguntei sobre o anel dele.
Eu conto exatamente dez segundos antes de ele falar de novo.
— Nunca tive permissão — ele diz com a voz muito, muito baixa — para receber presentes. De ninguém. Meu pai odiava a ideia de presentes. Ele odiava festas de aniversário e feriados. Ele nunca deixou ninguém me dar nada, especialmente minha mãe. Ele dizia que aceitar presentes me deixaria fraco. Ele achava que me incentivariam a contar com a caridade dos outros. Mas nós estávamos nos escondendo um dia — ele conta. — Minha mãe e eu.
Seu olhar está direcionado para cima, distante, perdido em outro lugar. Ele pode nem estar falando comigo.
— Era meu aniversário de seis anos e ela estava tentando me esconder. Porque ela sabia o que ele queria fazer comigo.
Ele pisca. Sua voz é um sussurro, meio sem emoção.
— Lembro que as mãos dela estavam tremendo — Warner diz. — Eu me lembro porque fiquei olhando as mãos dela. Porque ela estava segurando as minhas contra o peito. E ela estava usando este anel.
Ele fica em silêncio, lembrando.
— Eu nunca tinha visto muitas joias na vida. Eu não sabia o que era, exatamente. Mas ela me viu olhar e quis me distrair — ele fala. — Ela queria me manter entretido.
Meu estômago está ameaçando ficar enjoado.
— Assim, ela me contou uma história. Uma história sobre um menino que nasceu com olhos muito verdes e o homem que ficou tão cativado pela cor deles que procurou pelo mundo uma pedra do exato mesmo tom.
A voz dele está sumindo agora, transformando-se em um sussurro tão baixo que eu mal consigo ouvi-lo.
— Ela disse que o menino era eu. Que aquele anel era feito com a mesmíssima pedra, e que o homem tinha dado o anel para ela, esperando que um dia ela pudesse dá-lo para mim. Era o presente dele, ela disse, pelo meu aniversário.
Warner para. Respira.
— E, depois, ela o tirou, deslizou-o pelo meu dedo indicador e disse “se você esconder seu coração, ele nunca vai poder tirá-lo de você”.
Ele olha na direção da parede.
— Foi o único presente — diz — que alguém já me deu.
Minhas lágrimas caem na direção contrária, queimando conforme chamuscam o caminho pela minha garganta abaixo.

5 comentários:

  1. Cara,o pai dele é muito crtino!!!

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  2. Chorando em 3...2...1...BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ vem cá mozão, deixa eu te consolar *^*

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  3. — Aaron?
    — Sim, amor.
    Amo quando ele chama ela de amor <3

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  4. Aiiinnn... Que emocionante!
    Tbm amo quando ele a chama de amor e quando ela o chama de Aaron♥...
    Minha Nossa Sra dos Shipps eles tem que ficar juntos!

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  5. Lembram do livro do Aeron? Qdo ele lê o caderno da Ju:
    "Uma vez ela colocou minha mão no fogo.
    Só para ver se iria queimar, ela disse. Só para verificar se era uma mão comum, ela dizia.
    Eu tinha 6 anos então.
    Me lembro disso, pois era meu aniversário"

    Joguei o caderno no chão.
    Me levanto num instante, tentando acalmar meu coração. Passo a mão pelos cabelos, meus dedos seguram as raízes. Essas palavras me tocam, me são tão familiares

    Que dó geeeeente

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Boa leitura :)