2 de janeiro de 2017

46

Hora do almoço.
Kenji e eu estamos sentados de um lado da mesa, Adam e James, do outro. Estamos aqui há meia hora já, discutindo sobre minha conversa com Warner.
Convenientemente, deixei de fora as partes sobre meu diário, embora esteja começando a me perguntar se deveria tê-las mencionado. Também estou começando a me perguntar se deveria simplesmente falar a verdade sobre Warner poder me tocar. Porém, todas as vezes que olho para Adam, não consigo me forçar a fazer isso. Nem sei por que Warner pode me tocar. Talvez ele seja a feliz casualidade que achei que Adam fosse. Talvez tudo isso seja um tipo de piada cósmica contada à minha custa.
Ainda não sei o que fazer.
Porém, de alguma forma, os detalhes da minha conversa com Warner parecem pessoais demais, constrangedores demais para compartilhar. Não quero que ninguém saiba, por exemplo, que Warner disse que me amava. Não quero que ninguém saiba que ele está com meu diário, ou que o leu. Adam é a única outra pessoa que sabe que ele existe e ele, pelo menos, foi gentil o bastante para respeitar minha privacidade. Foi ele que salvou meu diário do manicômio, que me devolveu o caderno para início de conversa. Mas disse que nunca leu o que escrevi. Disse que sabia que deviam ser pensamentos muito íntimos e não quis se intrometer.
Warner, por outro lado, revistou minha mente.
Sinto-me muito mais apreensiva na presença dele agora. A simples ideia de ficar perto dele me deixa ansiosa, nervosa, muito vulnerável. Odeio o fato de ele saber meus segredos. Meus pensamentos secretos.
Não devia ser ele, de jeito nenhum, quem sabe algo sobre mim.
Devia ser ele. Ele que está sentado em frente a mim. Ele com os olhos azul-escuros e os cabelos castanho-escuros e as mãos que tocaram meu coração, meu corpo. Eu o desejo. Sempre o desejarei.
E ele não parece bem agora.
A cabeça de Adam está baixa; as sobrancelhas, franzidas; as mãos, unidas sobre a mesa. Ele não tocou na comida e não disse uma palavra desde que resumi meu encontro com Warner. Kenji está tão quieto quanto ele. Todos estão com um comportamento mais solene desde a nossa recente batalha; perdemos muitos membros do Ponto Ômega.
Respiro fundo e tento de novo.
— Então, o que vocês acham? — pergunto a eles. — Sobre o que ele disse a respeito de Anderson?
Tenho cuidado para não usar mais a palavra pai, em especial na presença de James. Não sei o que Adam disse a James sobre o assunto, se é que disse alguma coisa, e não tenho que me intrometer.
Ainda pior, Adam não disse uma só palavra desde que voltamos, e já faz dois dias.
— Acham que Warner tem razão e Anderson não vai se importar com a condição dele como refém?
James se contorce no banco, com os olhos comprimidos enquanto mastiga a comida que tem na boca, olhando para nós como se quisesse memorizar tudo o que dizemos.
Adam esfrega a testa.
— Isso — ele enfim diz — pode, na verdade, ter algum mérito.
Kenji franze as sobrancelhas, cruza os braços, inclina-se para frente.
— Sim. É um pouco estranho. Não recebemos nenhum recado do lado deles, e já se passaram mais de 48 horas.
— O que Castle pensa? — pergunto.
Kenji encolhe os ombros.
— Ele está estressado. Ian e Emory estavam muito mal quando os encontramos. Acho que ainda não acordaram, embora Sonya e Sara estejam trabalhando sem parar para ajudá-los. Acho que ele está com medo de não recuperar Winston e Brendan.
— Talvez — Adam começa — o silêncio deles tenha a ver com o fato de você ter atirado nas duas pernas de Anderson. Talvez ele esteja apenas se recuperando.
Quase engasgo com a água que estava tentando tomar. Arrisco um olhar para Kenji, para ver se ele vai corrigir a suposição de Adam, mas ele nem vacila.
Assim, não falo nada.
Kenji está balançando a cabeça, concordando. Diz:
— Certo. É. Quase me esqueci disso.
Uma pausa.
— Faz sentido.
— Você atirou nas pernas dele? — James pergunta, com os olhos arregalados na direção de Kenji.
Kenji limpa a garganta, mas toma o cuidado de não olhar para mim.
Pergunto-me por que ele está me protegendo disso. Por que ele acha melhor não contar a verdade sobre o que aconteceu.
— Sim — ele responde e come um pouco do seu almoço.
Adam respira fundo. Sobe as mangas da camisa, examina uma série de círculos concêntricos marcados à tinta em seus antebraços, lembranças militares de sua antiga vida.
— Mas por quê? — James pergunta a Kenji.
— Por que o quê, menino?
— Por que você não o matou? Por que apenas atirar nas pernas? Você não disse que ele é o pior? O motivo de termos todos os problemas que temos agora?
Kenji fica quieto por um instante. Está segurando a colher, cutucando a comida. Por fim, larga o talher. Faz um gesto para James ir com ele até o outro lado da mesa. Eu deslizo para abrir espaço.
— Vem aqui — ele diz a James, apertando-o com força contra o lado direito do seu corpo.
James envolve a cintura de Kenji com os braços e Kenji baixa a mão até a cabeça de James, bagunçando seu cabelo.
Não fazia ideia de que eles eram tão amigos.
Sempre me esqueço de que os três dividem um quarto.
— Então, certo. Está pronto para uma pequena lição? — ele diz a James. James concorda, balançando a cabeça. — É assim: Castle sempre nos ensina que não podemos simplesmente cortar a cabeça, sabe?
Ele hesita, reorganiza os pensamentos.
— Por exemplo, se apenas matarmos o líder inimigo, e daí? O que aconteceria?
— Paz mundial — James responde.
— Errado. Seria um enorme caos.
Kenji balança a cabeça. Esfrega a ponta do nariz.
— E o caos é muito mais difícil de combater.
— Então, como a gente ganha?
— Certo — Kenji diz. — Bem, essa é a questão. Só podemos pegar o líder da oposição quando tivermos assumido o controle... Apenas quando há um novo líder pronto para assumir o lugar do antigo. As pessoas precisam de alguém em torno de quem se reunir, não é? E ainda não estamos prontos.
Ele encolhe os ombros.
— Era para ser uma luta contra Warner... Apagar o Warner não teria sido um problema. Mas apagar o Anderson seria como pedir a anarquia absoluta em todo o país. E anarquia significa a chance de outra pessoa, possivelmente alguém ainda pior, assumir o controle antes de nós.
James diz alguma coisa em resposta, mas não ouço.
Adam está me encarando.
Ele está me encarando e não está disfarçando. Não desvia o olhar. Não diz uma palavra. Seu olhar alterna dos meus olhos para a minha boca, focando meus lábios por um instante longo demais. Por fim, ele se vira, apenas por um breve segundo antes de seus olhos estarem fixos nos meus de novo. Mais profundos.
Mais famintos.
Meu coração está começando a doer.
Observo o movimento difícil na garganta dele. O subir e descer de seu peito. A linha tensa do seu maxilar e a maneira como está sentado perfeitamente imóvel. Ele não diz nada, nada mesmo.
Estou tão desesperada para tocá-lo.
— Espertinho.
Kenji está rindo, balançando a cabeça em resposta a algo que James acabou de dizer.
— Sabe que não foi isso que eu quis dizer. De qualquer maneira — ele suspira —, não estamos prontos para lidar com esse tipo de insanidade ainda. Derrubaremos o Anderson quando estivermos prontos para assumir o comando. É a única forma correta de fazer isso.
Adam levanta-se de repente. Empurra a tigela de comida intocada e limpa a garganta. Olha para Kenji.
— Então foi por isso que você não o matou quando ele estava bem na sua frente?
Kenji coça a parte de trás da cabeça, desconfortável.
— Olhe, cara, se eu fizesse ideia...
— Esqueça — Adam o interrompe. — Você me fez um favor.
— O que quer dizer? — Kenji questiona. — Ei, cara... Aonde você vai...
Mas Adam já está se afastando.

3 comentários:

  1. Aish o Kenji é demais, mano tem como não amar ele? Óbvio q não, ele é perfeito *-*

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  2. O Adam que marta o pai dele com as próprias mãos.

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  3. Já quero os irmãos lutando juntos contra esse pai dos infernos que eles têm.

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Boa leitura :)