2 de janeiro de 2017

45

Eu entro.
A porta fecha fazendo barulho, mas o Warner que encontro dentro deste quarto não é um que eu consiga reconhecer. Ele está sentado no chão, com as costas contra a parede, as pernas esticadas à frente, os pés cruzados na altura dos tornozelos. Não está usando nada além de meias, uma camiseta branca simples e um par de calças pretas. Seu casaco, seus sapatos e sua camisa chique estão jogados no chão. Seu corpo é tonificado e musculoso e mal fica contido sob sua camiseta de baixo; os cabelos são uma bagunça loira, desgrenhados provavelmente pela primeira vez na vida.
No entanto, ele não está olhando para mim. Ele nem levanta o olhar quando dou um passo à frente. Não se retrai.
Esqueci, de novo, como se respira.
E, então...
— Você faz ideia — ele diz, com a voz muito baixa — de quantas vezes eu li isto?
Ele levanta a mão, mas não a cabeça, e segura um retângulo pequeno e desbotado entre dois dedos.
Estou me perguntando como é possível ser golpeada no estômago por tantos punhos ao mesmo tempo.
Meu caderno.
Ele está segurando meu caderno.
É claro que está.
Não acredito que eu tinha esquecido. Ele foi a última pessoa a tocar no meu caderno; a última pessoa a vê-lo. Pegou-o de mim quando o encontrou escondido no bolso do meu vestido, lá na base. Foi logo antes de eu escapar, logo antes de Adam e eu pularmos da janela e fugirmos. Logo antes de Warner perceber que podia tocar em mim.
E, agora, saber que ele leu meus pensamentos mais dolorosos, minhas confissões mais angustiadas... As palavras que escrevi no isolamento total e completo, certa de que morreria naquela cela, tão certa de que ninguém jamais leria o que escrevi... Saber que ele leu esses sussurros desesperados dos meus pensamentos privados.
Sinto-me completa e insuportavelmente nua.
Petrificada.
Muito vulnerável.
Ele abre o caderno ao acaso. Examina a página até parar. Enfim, ergue o olhar, os olhos com um tom de verde mais acentuado, brilhante e bonito do que jamais tiveram, e meu coração bate tão rápido que nem o sinto mais.
E ele começa a ler.
— Não... — eu ofego, mas é tarde demais.
— Fico sentada aqui todo dia — ele diz —, já estou sentada aqui há 175 dias. Em alguns dias, eu me levanto e me alongo e sinto estes ossos duros, estas articulações barulhentas, este espírito maltratado apertado dentro do meu ser. Mexo os ombros, pisco os olhos, conto os segundos que se arrastam pelas paredes, os minutos que se arrepiam sob a minha pele, a respiração que tenho de me lembrar de manter. Às vezes, permito que minha boca fique aberta, apenas um pouco; toco com a língua a parte de trás dos dentes e a junção dos lábios e passeio por este pequeno espaço, corro os dedos pelas rachaduras no concreto e pergunto-me, pergunto-me como seria falar em voz alta e ser ouvida. Seguro a respiração, escuto com atenção procurando qualquer coisa, qualquer som de vida e fico maravilhada com a beleza, a impossibilidade de possivelmente ouvir outra pessoa respirando ao meu lado.
Ele pressiona a parte de trás do seu punho contra a boca só por um instante, antes de continuar:
— Eu paro. Fico em pé, imóvel. Fecho os olhos e tento me lembrar de um mundo além destas paredes. Pergunto-me como seria saber que não estou sonhando, que esta existência isolada não está enjaulada dentro da minha própria mente.
E eu — ele diz, recitando as palavras de memória desta vez, com a cabeça apoiada na parede, os olhos fechados e apertados enquanto ele sussurra —, eu imagino, penso nisso o tempo todo. Como seria me matar. Porque eu nunca sei de verdade, ainda não sei ver a diferença, nunca tenho certeza se estou ou não viva. Assim, fico sentada aqui. Fico sentada aqui todo santo dia.
Estou plantada no chão, congelada dentro do meu próprio corpo, incapaz de andar para frente ou para trás por medo de acordar e perceber que isto está acontecendo mesmo. Sinto que posso morrer de constrangimento, dessa invasão de privacidade, e quero correr e correr e correr e correr e correr
— Corra, eu disse a mim mesma.
Warner pegou meu caderno de novo.
— Por favor — estou implorando a ele. — Por favor, p-pare...
Ele levanta o olhar, olha para mim como se pudesse me ver de verdade, ver dentro de mim, como se quisesse que eu visse dentro dele e, depois, baixa os olhos, limpa a garganta, recomeça, lê o meu diário.
— Corra, eu disse a mim mesma. Corra até seus pulmões falharem, até o vento chicotear e estalar nas suas roupas esfarrapadas, até você ser um borrão que se mistura ao cenário.
— Corra, Juliette, corra mais rápido, corra até seus ossos quebrarem e suas canelas se partirem e seus músculos atrofiarem e seu coração morrer porque sempre foi grande demais para o seu peito e bateu rápido demais por tempo demais e corra.
— Corra, corra, corra até não conseguir ouvir os passos deles atrás de você. Corra até eles largarem seus tacos e seus berros se dissolverem no ar. Corra com os olhos abertos e a boca fechada e barre o rio que avança atrás de seus olhos. Corra, Juliette.
— Corra até cair morta.
— Garanta que seu coração pare antes de eles a alcançarem. Antes de chegarem a tocar em você.
— Corra, eu disse.
Tenho de cerrar meus punhos até sentir a dor, apertar os dentes até sentir a tensão, qualquer coisa para afastar essas memórias. Não quero lembrar. Não quero mais pensar nessas coisas. Não quero pensar no que mais escrevi nessas páginas, no que mais Warner sabe sobre mim agora, o que ele deve pensar de mim. Posso apenas imaginar o quão patética e solitária e desesperada devo parecer para ele. Não sei por que me importo.
— Sabe? — ele diz, fechando a capa do diário apenas para apoiar a mão sobre ele. Protegendo-o. Olhando para ele. — Não consegui dormir por dias depois de ler essa passagem. Fiquei querendo saber que pessoas a estavam perseguindo pela rua, de quem você estava fugindo. Eu queria encontrá-las — ele continua, em um tom muito suave — e queria arrancar os braços e as pernas delas, um por um. Eu queria matá-las de maneiras que você ficaria horrorizada em ouvir.
Estou tremendo agora, sussurrando:
— Por favor, por favor, devolva-me isso.
Ele toca os lábios com as pontas dos dedos. Joga a cabeça para trás, apenas um pouco. Abre um sorriso estranho, infeliz. Diz:
— Você precisa saber que eu sinto muito. Por — ele engole em seco — tê-la beijado daquele jeito. Confesso que não fazia ideia de que você me daria um tiro por isso.
E eu percebo algo.
— Seu braço — eu suspiro, atônita.
Ele não está usando uma tipoia. Movimenta-se sem dificuldade. Não há ferimento nem inchaço nem cicatrizes à vista.
Seu sorriso não é feliz.
— Sim — ele fala. — Estava curado quando acordei e me encontrei neste quarto.
Sonya e Sara. Elas o ajudaram. Pergunto-me por que alguém daqui faria tal gentileza por ele. Forço-me a dar um passo para trás.
— Por favor — peço a ele. — Meu caderno, eu...
— Eu juro — ele começa — que nunca a teria beijado se não achasse que você queria o beijo.
Estou tão chocada, tão surpresa que, por um instante, esqueço meu caderno por completo. Encontro o olhar pesado dele. Consigo estabilizar minha voz.
— Eu disse que o odiava.
— Sim — ele concorda e balança a cabeça. — Bem, você ficaria surpresa com a quantidade de pessoas que me dizem isso.
— Acho que não ficaria.
Ele torce os lábios.
— Você tentou me matar.
— Isso o diverte.
— Ó, sim — responde, com o sorriso aumentando. — Acho fascinante.
Uma pausa.
— Gostaria de saber por quê?
Eu o encaro.
— Porque tudo o que você sempre disse para mim — ele explica — era que não queria machucar ninguém. Você não queria matar pessoas.
— Não quero.
— Exceto eu?
Estou sem letras. Esgotada de palavras. Alguém roubou meu vocabulário todo.
Varetas e pedras continuam quebrando meus ossos, mas essas palavras, essas palavras vão me matar.
— Aquela foi uma decisão tão fácil de tomar, para você — ele diz. — Tão simples. Você tinha uma arma. Queria fugir. Puxou o gatilho. Foi isso.
Sou uma hipócrita. Ele está certo.
Fico dizendo a mim mesma que não tenho interesse em matar pessoas, mas, de alguma forma, acho uma maneira de justificar isso, de racionalizar quando quero.
Warner. Castle. Anderson.
Eu quis matar cada um deles. E teria matado.
O que está acontecendo comigo?
Cometi um grande erro vindo aqui. Aceitando esta tarefa. Porque não posso ficar sozinha com Warner. Não assim. Ficar sozinha com ele está me doendo por dentro de um jeito que não quero entender.
Tenho de ir embora.
— Não vá — ele sussurra, com os olhos no meu caderno de novo. — Por favor — diz. — Fique comigo. Quero apenas vê-la. Você nem precisa falar nada.
Alguma parte louca e confusa do meu cérebro na verdade quer que eu me sente ao lado dele, quer que eu ouça o que ele tem a dizer antes de eu me lembrar de Adam e do que ele pensaria se soubesse, o que diria se estivesse aqui e pudesse ver que estou interessada em passar meu tempo com a mesma pessoa que atirou na perna dele, quebrou suas costelas e prendeu-o na esteia de um matadouro abandonado, deixando-o sangrar até a morte um minuto por vez.
Devo estar maluca.
Ainda assim, não me mexo.
Warner relaxa contra a parede.
— Quer que eu leia para você?
Estou balançando a cabeça de novo e de novo e de novo, sussurrando:
— Por que está fazendo isso comigo?
E ele parece prestes a responder antes de mudar de ideia. Desvia o olhar. Levanta os olhos para o teto e sorri, bem pouquinho.
— Sabe — ele diz —, eu já sabia, desde o dia em que a conheci. Havia algo em você que parecia diferente para mim. Algo em seus olhos que era muito terno. Natural. Como se você ainda não tivesse aprendido como esconder seu coração do mundo.
Ele balança a cabeça para cima e para baixo agora, concordando com si mesmo em alguma coisa que não imagino o que seja.
— Encontrar isto — ele fala, com a voz suave enquanto ele bate na capa do meu caderno — foi tão — suas sobrancelhas estão unidas, como se ele estivesse confuso, perturbado —, foi tão extraordinariamente doloroso.
Ele enfim me olha e parece uma pessoa inteiramente diferente. Como se estivesse lutando para engolir algo amargo, como se estivesse tentando resolver uma equação de dificuldade tremenda.
— Foi como encontrar uma amiga pela primeira vez.
Por que minhas mãos estão tremendo?
Ele respira fundo. Olha para baixo. Sussurra:
— Estou tão cansado, amor. Tão, tão cansado.
Por que meu coração não desacelera?
— Quanto tempo mais — ele pergunta, depois de um instante — eu tenho antes de me matarem?
— Matarem?
Ele me encara.
Estou tão assustada que começo a falar:
— Não vamos matá-lo — digo a ele. — Não temos nenhuma intenção de machucá-lo. Queremos apenas usá-lo para recuperar nossos homens. Você é nosso refém.
Os olhos de Warner se arregalam, seus ombros ficam duros.
— O quê?
— Não temos motivo para matá-lo — eu explico. — Precisamos apenas trocar a sua vida...
Warner solta uma risada alta que envolve seu corpo todo. Balança a cabeça. Sorri para mim daquela maneira que vi apenas uma vez, olhando para mim como se eu fosse a coisa mais doce que ele já decidiu comer.
Aquelas covinhas.
— Querida, doce e linda menina — ele diz. — Sua equipe superestimou demais o afeto de meu pai por mim. Sinto muito por ter de lhe dizer isso, mas manter-me aqui não lhes dará a vantagem que estão esperando. Duvido que meu pai sequer tenha notado que sumi. Assim, gostaria de pedir, por favor, que me matem ou me deixem ir. Mas imploro que não desperdicem meu tempo confinando-me aqui.
Procuro palavras e frases extras em meus bolsos, mas não encontro nenhuma, nem um advérbio, nem uma preposição, nem mesmo um particípio oscilante porque não há uma única resposta para um pedido tão bizarro.
Warner ainda está sorrindo para mim, com os ombros balançando em uma diversão silenciosa.
— Mas esse não é nem um argumento viável — digo a ele. — Ninguém gosta de virar refém...
Ele respira, tenso. Passa a mão pelos cabelos. Encolhe os ombros.
— Seus homens estão perdendo tempo — diz. — Raptar-me nunca lhes dará vantagem. Isso — acrescenta — eu posso garantir.

9 comentários:

  1. Tá bom, eu confesso, me amoleceu o coração por ele agora... 😞

    Carla

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  2. O mozão ta deixando a Juju balançada, garota fica logo com ele por favor ou eu posso ficar, será um prazer ficar com o Warner <3
    #TeamWarner

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  3. "Querida, doce e linda menina.."
    AI MEU CORAÇÃO. QUE TAPA NA CARA <3

    ~Giulliana~

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  4. Eu não sei pq, mas eu me emocionei agora. Me emocionei de vdd. Óh céus eu amo esse menino e vc tbm ama juju só não quer aceitar, assim como não queria aceitar o seu poder será isso uma coincidência? Acho que não

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    1. Concordo. Vai lá Juju, se senta do lado dele e observe mais de perto aquelas "covinhas".
      Tenho muita pena do Warner.
      #TeamWarner

      ~polly~

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  5. "(...) Ele está sentado no chão, com as costas contra a parede, as pernas esticadas à frente, os pés cruzados na altura dos tornozelos. Não está usando nada além de meias, uma camiseta branca simples e um par de calças pretas. "
    Juro que eu parei de ler depois do trecho "Não está usando nada além de meias" e fiquei imaginando a cena.
    kkkk

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  6. Tem uma coisa cara me incomodando a autora está saindo dos dramas rápido demais sei lá as coisas estão acontecendo muito paa entende não sei talvez seja impressão mais é q ela devia dar um tempo nos dramas não algo assim demorado mais pelo menos não sair tão rápido deles

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  7. potterhead-selecionada14 de setembro de 2017 13:45

    Aí aí Warner...
    Como pude te odiar no primeiro livro?como pude? 😣

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Boa leitura :)