6 de janeiro de 2017

44

— Dê um soco em mim.
Warner está em pé bem em frente a mim, a cabeça tombada para o lado. Todos estão nos observando.
Eu faço que não com a cabeça, depressa.
— Não tenha medo, amor — ele diz para mim. — Eu só quero que você tente.
Seus braços estão relaxados ao lado do corpo. Sua postura é muito casual. É sábado de manhã, o que significa que ele tem uma folga de sua rotina de exercícios diária. O que significa que ele decidiu trabalhar comigo em vez disso.
Eu faço que não com a cabeça de novo.
Ele ri.
— Seu treinamento com Kenji é bom — ele diz —, mas isto é tão importante quanto. Você precisa aprender a lutar. Você precisa ser capaz de se defender.
— Mas eu posso me defender — digo para ele. — Sou forte o suficiente.
— Força é excelente — ele fala —, mas não vale nada sem técnica. Se você pode ser dominada, então não é forte o bastante.
— Eu não acho que eu poderia ser dominada — declaro. — Não de verdade.
— Eu admiro sua confiança.
— Bem, é verdade.
— Quando você conheceu meu pai — ele começa —, não foi dominada de início?
Meu sangue fica frio.
— E, quando você partiu para lutar depois de eu deixar o Ponto Ômega — ele diz para mim — você não foi dominada de novo?
Eu cerro os punhos.
— E, mesmo depois de você ser capturada — ele continua, em voz baixa —, meu pai não foi capaz de dominá-la mais uma vez?
Eu baixo a cabeça.
— Quero que você seja capaz de se defender — Warner afirma, sua voz suave agora. — Quero que você aprenda como lutar. Kenji estava certo no outro dia, quando ele disse que você não pode simplesmente jogar sua energia por aí. Você precisa ser capaz de projetar com precisão. Seus movimentos sempre devem ser deliberados. Você precisa ser capaz de prever seu oponente de todas as formas possíveis, tanto mental quanto fisicamente. A força é apenas o primeiro passo.
Eu levanto o rosto, olho nos olhos dele.
— Agora, dê um soco em mim — ele diz.
— Eu não sei como — enfim admito, constrangida.
Warner está se esforçando para não sorrir.
— Você está procurando voluntários? — ouço Kenji perguntar.
Ele se aproxima.
— Porque eu ficaria feliz em dar uma surra em você se a Juliette não estiver interessada.
— Kenji — eu disparo, virando-me.
Aperto os olhos.
— O que foi?
— Vamos, amor — Warner diz para mim.
Ele não se incomoda com o comentário de Kenji, olhando para mim como se mais ninguém naquela sala existisse.
— Eu quero que você tente. Use sua força. Aproveite cada pouquinho de poder que tiver. E, depois, dê um soco em mim.
— Tenho medo de machucá-lo.
Warner ri de novo. Desvia o olhar. Morde o lábio enquanto contém outro sorriso.
— Você não vai me machucar — ele diz. — Confie em mim.
— Porque você vai absorver meu poder?
— Não — ele diz. — Porque você não vai se capaz de me machucar. Você não sabe como fazer isso.
Eu franzo as sobrancelhas, incomodada.
— Tudo bem.
Balanço meu punho na forma como suponho que um soco deve ser. Porém, meu movimento é flácido e vacilante e tão humilhantemente ruim que eu quase desisto na metade do caminho.
Warner pega meu braço. Olha nos meus olhos.
— Concentre-se — diz para mim. — Imagine que está apavorada. Você está acuada. Está lutando pela sua vida. Defenda-se — ele exige.
Puxo meu braço para trás com mais intensidade, pronta para tentar com mais empenho desta vez, quando Warner me interrompe. Ele agarra meu cotovelo. Sacode-o um pouco.
— Você não está jogando beisebol — diz. — Não precisa balançar o braço antes de um soco e não precisa levantar o cotovelo até a orelha. Não dê ao oponente um aviso prévio do que você está prestes a fazer — ele fala. — O impacto deve ser inesperado.
Eu tento de novo.
— Meu rosto está no meio, amor, bem aqui — ele diz, batendo um dedo contra o queixo. — Por que você está tentando acertar meu ombro?
Eu tento de novo.
— Melhor... Controle seu braço... Mantenha o punho esquerdo alto... Proteja seu rosto...
Eu dou um soco forte, um movimento injusto, um golpe inesperado mesmo sabendo que ele não está pronto.
Os reflexos dele são rápidos demais.
Seu punho se prende em volta do meu antebraço imediatamente. Ele puxa, com força, levando meu braço para a frente e para baixo até eu ficar sem equilíbrio e tombar em direção a ele. Nossos rostos estão a centímetros de distância.
Eu levanto o olhar, envergonhada.
— Isso foi fofo — ele fala, sem bom humor, conforme me solta. — Tente de novo.
Eu tento.
Ele bloqueia meu soco com a parte de trás da mão, atingindo o espaço bem do lado de dentro do meu pulso, jogando meu braço para o lado.
Eu tento de novo.
Ele usa a mesma mão para agarrar meu braço no meio do ar e me puxar para perto de novo.
Inclina-se para mim.
— Não permita que ninguém pegue seu braço assim — ele fala. — Porque, depois de fazerem isso, poderão controlá-la.
E, como se quisesse provar, ele usa a mão que aperta meu braço para me puxar e, depois, empurrar para trás com força.
Não tanta força.
Mas, ainda assim.
Estou começando a ficar irritada, e ele percebe.
Sorri.
— Você quer mesmo que eu o machuque? — pergunto a ele, meus olhos se apertando.
— Não acho que você consiga — ele responde.
— Eu acho que você é muito arrogante quanto a isso.
— Prove que estou errado, amor.
Ele levanta uma sobrancelha para mim.
— Por favor.
Eu dou um soco.
Ele bloqueia.
Golpeio de novo.
Ele bloqueia.
Os antebraços dele são feitos de aço.
— Eu pensei que se tratasse de dar socos — digo a ele, esfregando meus braços. — Por que você fica me atingindo nos antebraços?
— Seu punho não carrega sua força — ele diz. — É apenas uma ferramenta.
Eu dou outro soco, hesitando no último minuto, minha confiança me abandonando.
Ele pega meu braço. Larga-o.
— Se você vai hesitar — ele diz —, faça de propósito. Se vai machucar alguém, faça de propósito. Se vai perder uma briga — fala —, faça de propósito.
— Eu só... Não posso fazer isto agora — digo para ele. — Minhas mãos estão tremendo e meus braços estão começando a doer...
— Observe o que eu faço — ele fala. — Observe minha forma.
Seus pés estão plantados mais ou menos na distância dos ombros, as pernas levemente dobradas na altura dos joelhos. Seu punho esquerdo está levantado e recolhido, protegendo a lateral do rosto, e o punho direito está mais à frente, colocado mais alto e um pouco na diagonal em direção ao esquerdo.
Os dois cotovelos estão perto do corpo, pairando próximos do peito dele.
Ele dá um soco em mim, devagar, para que eu possa estudar o movimento.
Seu corpo está tenso; a mira, focada; cada movimento, controlado. O poder vem de algum lugar profundo dentro dele; é o tipo de força que é consequência de anos de treinamento cuidadoso. Seus músculos sabem como se mexer. Sabem como lutar. Seu poder não é um truque de coincidência sobrenatural.
Os nós de seus dedos roçam levemente a ponta do meu queixo.
Ele faz parecer tão fácil socar alguém. Eu não fazia ideia de que era tão difícil assim.
— Você quer trocar? — ele pergunta.
— O quê?
— Se eu tentar dar um soco em você — ele começa. — Você consegue se defender?
— Não.
— Tente — ele diz para mim. — Só tente me bloquear.
— Certo — digo, sem querer de verdade.
Sinto-me idiota e petulante.
Ele dá outro soco, devagar, para o meu bem.
Eu dou um tapa para tirar o braço dele do caminho.
Ele baixa a mão. Tenta não rir.
— Você é muito pior nisto do que eu achei que seria.
Eu faço uma careta.
— Use seus antebraços — ele indica. — Bloqueie meu soco. Jogue-o para fora do caminho e mexa seu corpo junto com ele. Lembre-se de movimentar a cabeça quando bloquear. Você quer se distanciar do perigo. Não fique parada aí dando tapas.
Eu faço que sim com a cabeça.
Ele começa a dar o soco.
Eu bloqueio um pouco rápido demais, meu antebraço atingindo o punho dele. Com força.
Eu me retraio.
— É bom prever — ele diz para mim, os olhos cortantes. — Mas não fique ansiosa.
Outro soco.
Eu agarro o antebraço dele. Olho para ele. Tento puxá-lo para baixo como ele fez com o meu, mas ele literalmente não se mexe. Nem um pouco. Nem mesmo uns centímetros. É como puxar um poste de metal enterrado em concreto.
— Isso foi... bom — ele fala, sorrindo. — Tente de novo. Concentre-se.
Ele está estudando meus olhos.
— Concentre-se, amor.
— Eu estou concentrada — insisto, irritada.
— Olhe para os seus pés — ele diz. — Você está colocando o peso na parte da frente deles e parece que está prestes a tombar. Plante-se no lugar. Mas esteja pronta para se mexer. Seu peso deve ser apoiado nos calcanhares — ele ensina, batendo na parte de trás do próprio pé.
— Tudo bem — eu disparo, nervosa agora. — Estou apoiada nos calcanhares. Não estou mais tombando.
Warner olha para mim. Encontra meus olhos e os prende.
— Nunca lute quando estiver brava — ele fala, em voz baixa. — A raiva vai deixá-la fraca e desengonçada. Vai desviar sua concentração. Seus instintos não vão funcionar.
Eu mordo o lado de dentro da bochecha. Frustrada e envergonhada.
— Tente de novo — ele diz, devagar. — Fique calma. Tenha fé em você mesma. Se não acreditar que consegue — fala —, não vai conseguir.
Eu faço que sim com a cabeça, um pouco menos chateada. Tento me concentrar.
Digo a ele que estou pronta.
Ele dá um soco.
Meu braço esquerdo se dobra no cotovelo em um ângulo perfeito de 90° que se choca com o antebraço dele com tanta força que interrompe seu movimento. Minha cabeça saiu do caminho, meus pés se viraram na direção do soco dele; ainda estou em pé e estável.
Warner está feliz.
Ele dá um soco com a outra mão.
Eu agarro o antebraço dele em pleno ar, meu punho fechado em volta do espaço acima do seu pulso, e aproveito a vantagem da surpresa dele para desequilibrá-lo, levando seu braço para baixo e puxando-o para a frente. Ele quase bate em mim. Seu rosto está bem em frente ao meu.
E estou tão surpresa que, por um momento, não sei o que fazer. Estou presa aos olhos dele.
— Empurre — ele sussurra.
Eu aumento meu aperto em volta do braço dele e, depois, jogo-o pela sala.
Ele voa para trás, conseguindo se equilibrar antes de cair no chão.
Estou congelada no mesmo lugar. Chocada.
Alguém assobia.
Eu me viro.
Kenji está batendo palmas.
— Muito bom, princesa! — Ele está tentando não rir. — Eu não sabia que você era capaz disso.
Dou um sorriso, meio envergonhada e meio absurdamente orgulhosa de mim mesma.
Cruzo meu olhar com o de Warner do outro lado da sala. Ele faz que sim com a cabeça, um sorriso muito largo no rosto.
— Bom — ele fala. — Muito bom. Você aprende rápido. Mas ainda temos muito trabalho a fazer.
Eu enfim desvio o olhar, tenho um vislumbre de Adam ao fazer isso.
Ele parece furioso.

5 comentários:

  1. Como ela pode se concentrar com um professor desses? *-* Juju taca o foda-se no babaca do Adam e se joga pros braços do Warner <3333333

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  2. É muita química Brasil. É muita química!

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  3. QUE ROMÂNTICO ESSE TREINAMENTO. E COM UM PROFESSOR DESSES, SEM CHANCE DE SE CONCENTRAR E QUERER MACHUCÁ-LO...
    #VAIJUJU ~POLLY~

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  4. Ah gente, esse Adam está ficando um saco!! Ok, ele se sentir traido por a juliette trocar ele pelo cara que ele mais odeia na vida depois do pai dele, e sabendo então que é meio irmão dele, ainda pior. Se não gosta vira a cara. Eu até gosto dele mas está sendo um pé no meu saco, gente! Seria muito mais gratificante se ele aperfeiçoasse os seus poderes para bloquear os poderes de Warner...
    Anna!!!

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  5. uuha, será que o Warner aceitaria ser meu personal trainer ??? to bastante interessada e n me importo nem um pouco com esses puxões pra pertinho dele.
    Arrasaaaa Juuuuu, dá uma de mulher maravilha do futuro que tu consegueee

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Boa leitura :)